terça-feira, 5 de julho de 2011

Pico do Jaraguá – 02 de julho de 2011


Quando eu era menino, a baixa estatura limitava o meu campo de visão. Embora eu dispusesse de estruturas oculares que me permitiam enxergar perfeitamente, a falta de discernimento, o pouco ou inexistente conhecimento e o egoísmo peculiar de uma criança não eram favoráveis ao entendimento da complexidade das informações visuais que se mostravam à minha retina. Na adolescência, a rebeldia ostracista comum a um indivíduo de esquerda eivava meus olhos com um cinza desfocado, mórbido, e eu preferia me fechar a ver cores, além de olhar tudo do plano, não escalando uma árvore ou descendo uma ravina para sentir as diferentes perspectivas propiciadas pela simples mudança de inclinação da cabeça. Hoje, mais vivido e menos enclausurado, procuro olhar uma mesma paisagem de variados ângulos e alturas. Seja do nível do solo seja do alto de uma montanha, que eu me encarregue de ser antagônico à cegueira à qual minha juventude esteve confinada.
O "rebanho"
Em um sábado predominantemente nublado, eu, Levi, “Poste”, Camilla e Adriele partimos de Americana com a intenção de visitar um local desconhecido pela grande maioria dos paulistas e paulistanos: o Pico do Jaraguá. De todos os envolvidos nesse passeio, somente “Poste” viajara comigo em uma outra oportunidade. Os outros, mesmo que demonstrassem vontade, nunca tiveram a oportunidade de desfrutar do prazer de um passeio de moto. O fato de eu ter conseguido arrebanhá-los para esta pequena aventura foi, em si, uma grande conquista.
Estrada Turística do Jaraguá
Enfrentamos a temida Anhanguera, sentido São Paulo, ignorando aquela voz renitente que praticamente nos “joga” para a Bandeirantes quando viajamos para a capital. Devo dizer que a Anhanguera é bela, principalmente depois de Jordanésia, e mesmo que a velocidade máxima permitida nela seja menor, compensa conhecê-la. Sair do lugar comum é desejável. Perdemos a conversão para a Vila Jaraguá e adentramos a metrópole, mas retornamos rapidamente e localizamos a entrada correta. Seguindo as placas marrons em meio a um movimentado bairro alcançamos o portal da Estrada Turística do Jaraguá. Precisávamos ainda subir, e as nuvens carregadas insistiam em querer desanimar-nos.
Primeiro mirante
Subimos. A Estrada Turística do Jaraguá, com pouco mais de 5km de extensão, é uma via asfaltada que “corta” a mata atlântica em direção ao Pico. É ladeada por densa vegetação e diversas clareiras que fazem a vez de mirantes. Destes é possível ver mesclas de luz e sombras sobre a cidade, nuvens que flutuam sobre pontos isolados, o Rodoanel Mário Covas e algumas montanhas que compõem a Serra da Cantareira, cordilheira na qual está inserido o Pico do Jaraguá. A subida não é íngreme a ponto de desafiar o motor das motocicletas. Aproveitamos a vista de um dos referidos mirantes para fotografar a paisagem e, para a nossa surpresa, as nuvens começavam a ceder lugar ao azul do céu e aos primeiros raios solares do dia.
Torre de TV
Terminada a subida, estacionamos as motocicletas e chegamos ao ponto mais alto da cidade de São Paulo caminhando. Do alto de 1135 metros, ao pé de uma torre de televisão, uma sensação estranha se apossou de mim: toda a feiura do centro capitalista do Brasil repentinamente se transformou em uma vista ímpar. Estarrecido, sem saber direito como apreciar aquele mar de prédios e casas, tudo o que pude fazer foi fotografar loucamente enquanto dava ao meu cérebro tempo suficiente para processar as informações visuais que me entorpeceram num primeiro relance.
Tico-ticos e São Paulo
Vi a parte oeste da Grande São Paulo. Tico-ticos pairavam nos fios que se ramificavam das antenas e ofereciam um ótimo primeiro-plano às fotografias. Por falar em antenas, aqui existem várias delas. A maior, de televisão, conta com um bondinho para o transporte do pessoal e de equipamentos de manutenção, paralelo a uma escadaria para turistas que dá acesso ao ponto culminante do Pico. Mas não é somente por instalações humanas que é conhecido o local. A mata atlântica que o rodeia é relativamente bem preservada. O governo de São Paulo o transformou em Parque Estadual no ano de 1961, depois de a prefeitura tê-lo classificado como ponto turístico 15 anos antes. Em 1994 a UNESCO o tombou como patrimônio da humanidade, Zona Núcleo do Cinturão Verde da Cidade de São Paulo e Reserva da Biosfera, como pode ser lido em diversas placas espalhadas pelo terraço no topo, que conta com restaurante, brinquedos para crianças e até mesmo um pequeno teatro de arena.
Tico-tico
Por mais que o passeio seja prazeroso, a hora de voltar é sempre inevitável (um dia eu juro que não volto). Adotando o meu velho dogma de que a estrada que me leva não é a estrada que me conduz de volta, optei por utilizar o “assassino de bichos”, mais conhecido como Rodoanel Mário Covas. Meus bravos companheiros aspiraram o último vapor de paciência para comigo enquanto eu fotografava o Pico do Jaraguá do pedágio da Bandeirantes. Chegamos em Americana perto das 19h, após 260km rodados, com a consciência de que não poderíamos ter tirado melhor proveito de um sábado propenso a precipitações chuvosas. Conformar-se é um caminho a seguir. Contudo, o outro, a contumácia da ação, pode ser mais proveitoso.
Mais torres
Quando dei início à minha coleta de dados para a confecção desta postagem, deparei-me com informações de que uma tribo indígena, denominada Jaraguá-Itu, habita os territórios em volta do Pico. Segundo essas fontes, a situação dessa aldeia é de extrema miséria. Não pude ver de perto a maneira como vivem, nem tampouco tenho maiores detalhes históricos sobre o começo da ocupação destas terras, mas é sabido que a região foi explorada vorazmente pelo bandeirante português Afonso Sardinha desde 1580, ano em que descobriu ouro no local. Para explorar este solo ele teve que, primeiro, exterminar alguns nativos. Enfim, mais um episódio lamentável da nossa nefasta história.
A fase infantil é a melhor da vida? Alguns diriam que sim. Eu, na atual conjuntura, gosto de acreditar que não. Como citado no alvorecer desta postagem, a juvenilidade limita a visão. Certamente as decepções, os problemas e as intemperanças da fase adulta exercem uma pressão que não é favorável à manutenção da sanidade. Não obstante, quando aprendemos a ser indiferentes em relação a esses pormenores, concomitantemente ampliamos nossa visão periférica e sensibilizamos nossas percepções. O mundo está lá fora. Basta ser homem – não no sentido sexista, mas humano – para vê-lo.


Mais fotos aqui.

E abaixo um blues “violão velho e desafinado” inspirado pela vista do Pico do Jaraguá. “When the change came, I saw myself as you knew me. (…) Now I won't be back 'til later on, if I do come back at all”.

2 comentários:

  1. Salve, Markus! e Salve ao Pico do Jaraguá, um santuário ecológico encostado à capital paulista! Excelente post, e excelente a ideia de sempre compor uma canção referente a cada passeio!
    abraços! o/

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  2. Obrigado pelo comparecimento ao blog, meu caro. Li sobre suas viagens também e posso dizer que temos praticamente o mesmo estilo de aventura. A diferença é como chegamos a elas: eu sobre duas rodas e você de outras maneiras.
    Abraço.

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