sábado, 19 de julho de 2014

Alegre – de 1º a 4 de maio de 2014


Quem nos dera gozássemos de mais tempo para desfrutar da vida! No nosso atual sistema, que preza pelo desenvolvimento econômico, a balança, que na verdade nunca chegou a estar em equilíbrio, sempre pende para o lado do trabalho, não permitindo que possamos usufruir das maravilhas que só o ócio prolongado oportuniza. Quando vemos no mapa os contornos do Espírito Santo, por exemplo, a priori nos parece um Estado ínfimo, como se fôssemos capazes de conhecê-lo em apenas alguns dias, como num feriado prolongado. Contudo, uma viagem não se principia no destino, e sim no ponto de partida. Destarte, deslocar-se pelas rodovias brasileiras, sempre problemáticas, não é das tarefas mais rápidas, o que acaba também atrasando planos e muitas vezes frustrando-os. Por fim, o tempo é escasso e o conhecimento é parcial. O grande dom do motociclista brasileiro proletário é priorizar o que quer ver quando não há a oportunidade de desfruir de uma visão mais abrangente de seus lugares pretendidos.
Leopoldina, Minas Gerais
O meu fascínio por grandes cachoeiras e paisagens naturais, que quase sempre trazem a tiracolo paisagens rurais, foram os grandes motivadores para que eu me dirigisse a Alegre, no Espírito Santo, juntamente com Luana Romero e Rodrigo Gil, ambos companheiros de aventura de outras datas. Lá esperávamos encontrar simplesmente a maior queda d’água do Estado. Desde minha última incursão solitária pelo rio Itabapoana (link) e pelo Parque Estadual da Pedra Azul (link) eu ensaiava um retorno a esse pedaço de Brasil relativamente pouco divulgado. Enfim, com tudo pronto e infelizmente com pouco tempo disponível, partimos no dia combinado visando chegar rapidamente ao destino, primeiramente pelas rodovias Anhanguera e Dom Pedro II, e ulteriormente pelas Carvalho Pinto e Dutra, essa última via de entrada no Estado do Rio de Janeiro. Os contratempos se principiaram aí: congestionamentos, acidentes e obras. São ingredientes que somente grandes e problemáticas rodovias adicionam a uma viagem. Enfim, com muito custo subimos, a partir de Piraí, sentido nordeste, acompanhando o curso do rio Paraíba do Sul até Além Paraíba onde, sob forte chuva, acessamos a BR-116 e o Estado de Minas Gerais. O sol se pusera há muito e decidimos, por bem, pernoitar em Leopoldina, município com cerca de 50 mil habitantes e de graça real (Leopoldina foi filha do imperador Dom Pedro II).
Natividade, RJ
No dia 2, logo pela manhã, e com o tempo mais estável, subimos pela Rio-Bahia (nome da 116 por essas bandas) até Muriaé. Pendemos para o leste e cruzamos a “fronteira” entre Minas Gerais e Rio de Janeiro novamente. Nossa viagem começou a partir desse momento, já que deixamos de rodar por rodovias federais, cheias de caminhões, e passamos a desfrutar da vista magnífica das estaduais que cortam, tortuosas, as serras do Brigadeiro e da Sapucaia. Para encerrar nossa passagem pelo Estado fluminense, cruzamos a carnavalesca Natividade (não confundir com a homônima tocantinense, com fotos nesse link) e pela histórica Varre-Sai, onde escravos eram acolhidos em uma propriedade quando em fuga da Insurreição (ou Levante) do Queimado, em Serra, para o Quilombo dos Palmares, isso nos idos de 1849. Quando nos demos por conta atravessávamos o rio Itabapoana e adentrávamos o Estado do Espírito Santo, chegando a Guaçuí e acessando a ES-482, que nos levou diretamente a Alegre, trespassando antes um de seus distritos, Celina, e descendo a Serra da Abundância. Nessa cidade de 30 mil habitantes arrumamos um canto para dormir, desatrelamos o excesso de bagagem e, sem perder sequer mais um minuto, saímos à caça da maior cachoeira do Estado, a da Fumaça, ainda um pouco distante dali, nos limites do território do município, na divisa com Ibitirama.


Serra da Sapucaia

Alegre

Cachoeira da Fumaça
Há uma estrada de paralelepípedos, muito bem calçada, que se ramifica a partir da ES-387, rodovia estadual que liga Celina a Ibitirama e Divino de São Lourenço. Volvemos então ao distrito alegrense, rumamos para o norte e 28km depois adentrávamos a chamada estrada Caminhos do Campo. Aí foram apenas mais 2km de calçamento até a entrada do Parque Municipal da Cachoeira da Fumaça. Apeamos das motos e seguimos a pé, por uma curta trilha em meio à mata atlântica em recuperação, e topamos com os dois tentáculos principais da queda d'água de 140 metros, como já dito só a maior do Estado do Espírito Santo. É uma obra natural do rio do Braço Norte Direito, que nasce na Serra do Caparaó, a segunda maior em média de altitude do Brasil. Seu curso é certamente glorioso, visto ser um dos formadores do rio Itapemirim, que desagua no Oceano Atlântico, em Marataízes. Contribui significativamente, portanto, para a agricultura e a economia de vários municípios, que em contrapartida destroem sua mata ciliar e o expõem ao assoreamento. Críticas à parte, observávamos uma parte rochosa de seu leito, percorrido por águas turbulentas formadoras de algumas pequenas praias de branca areia. Por ser um local protegido por lei, mas de livre e gratuito acesso, é frequentado por inúmeros moradores da região e também por visitantes de fora. Por esse motivo não foi possível observar a fauna circundante, especialmente pássaros, que tanto buscamos. Apesar de todos esses embrólios, é certamente meritória de uma visita, chamando a atenção principalmente pela forma de sua queda mais do que pela névoa (ou “fumaça”) que se forma com a força de suas águas.



Maior cachoeira do Espírito Santo

Serra capixaba
Poderíamos apenasmente ter voltado a Alegre por igual caminho, mas segundo nossos mapas algumas estradas de terra nos levariam ao mesmo destino, atiçando nossa curiosidade. O calçamento da estrada Caminhos do Campo desaparece a partir do Parque Municipal da Cachoeira da Fumaça, e estreitos vieses de chão seguem, por alguns momentos, o curso do rio do Braço Norte Direito, revelando outras quedas menores, mas também portentosas. As serras capixabas, de traços suaves e píncaros arredondados, formam vales ora profundos ora rasos, guarnecendo propriedades rurais e simples casebres de pau a pique. No meio do nada, separada por muitos quilômetros de estradas precárias, encontramos o pequeno povoado de Sobreira, de gente simples, que se locomove sobre suas montarias, amarrando-as a tocos à porta dos estabelecimentos comerciais quando necessitam comprar algo. Trinta quilômetros depois sobrepassávamos a última ponte de madeira e derrocávamos o último trecho de terra e pedras e reencontrávamos o asfalto da ES-482, já bem próxima de Alegre. Por ironia, o tempo, que até então se mantivera estável, desabou em chuva, não freando as festividades de um carnaval de marchinhas que se iniciava, com o cair da noite, na praça central da cidade.

Cachoeira do rio do Braço Norte Direito

Casas no campo

Capela no Povoado de Sobreira

Zona rural sul de Alegre
No dia 3, pela manhã, deixamos o centro urbano de Alegre para localizarmos, em sua zona rural sudoeste, uma outra cachoeira, essa bem menos conhecida que a da Fumaça. Saímos pelo sul e trilhamos o campo capixaba por 10km, derrocando áreas empoçadas pela chuva do dia anterior. Uma porteira fechada, que protegia um sítio e seu cafezal, nos impedia a passagem, mas a proprietária, uma mulher simples do campo, nos permitiu a entrada, dando inclusive mais coordenadas para se chegar à queda d'água. Uma íngreme subida, pedregosa, de 300m de comprimento, foi nosso último obstáculo. Já avistávamos a Cachoeira do Roncador da beira dessa estrada de chão rudimentar, com os verdes pés de café em primeiro plano, mas isso não bastava. Ensejamos uma aproximação, a pé, atravessando um estreito riacho e uma charco. Dessa maneira nos emparelhamos ao imenso maciço rochoso, talvez granítico, de 45º de inclinação pelo qual escorrem 87 metros das águas do córrego Roncador. Devido às suas características não é uma cachoeira no sentido comum da palavra, mais se assemelhando a um tobogã de largas dimensões. Forma um pequeno poço, alcançável ao transpormos uma área de mata com alguns vegetais cortantes, repletos de espinhos e acúleos. Em síntese, eu diria que sua beleza cênica foi mais digna quando vislumbrada da estrada. De perto a visão é meramente parcial; de longe, total.



Cachoeira do Roncador

Patrimônio da Penha
Há outras pequenas cachoeiras em Alegre, mas os próprios moradores nos dissuadiram de visitá-las. Exortaram-nos, como alternativa, a nos dirigirmos ao Patrimônio da Penha, um distrito do município de Divino de São Lourenço nos pés da Serra do Caparaó, não muito distante dali. Dessa forma, regressamos a Celina, subimos novamente sentido Cachoeira da Fumaça e chegamos à pacata Divino de São Lourenço, via asfalto. A partir dela foram mais 10km de estradas de chão e 3km de asfalto. A vilinha, simples e com um ar místico (para aqueles que acreditam nisso, o que não é o meu caso), tem moldes singelos semelhantes aos de Trindade, no Rio de Janeiro, estruturada basicamente em uma única rua principal da qual outras, menores e mais estreitas, se ramificam. Uma dessas sobe a serra, pedregosa e agudamente íngreme, o que nos fez hesitar, por um breve momento, em subi-la sobre as motocicletas. Um lampejo de galhardia chamuscou, talvez inspirado pela guerrilha que aqui ocorreu entre 1966 e 1967 contra o regime militar, e aceleramos Caparaó acima. Apeamos na entrada da trilha para a Cachoeira do Arco-Íris, uma das diversas que se formam serra abaixo no curso do Córrego Forquilha. Curta, a picada entre a mata fechada nos levou primeiramente a duas pequenas quedas, e metros abaixo a uma maior, com talvez 15 metros de queda, de água límpida e gélida. Apesar do nome, arco-íris nenhum se formava ali. Contudo, é de admirável garbo, pois escorre caprichosamente pelo flanco direito de um largo paredão, como que se quisesse se ocultar da vista de quem a observa de um ângulo desfavorável.


Cachoeira do Arco-íris

Poço em Pedra Roxa
De fato subimos e descemos a serra visitando outras quedas e poços, mas nenhum realmente nos prendeu a atenção. É difícil maravilhar-se com pequenas cachoeiras após conhecer a maior do Estado. Não que não sejam interessantes. São, sim, mas também bastante movimentadas, pois estão no caminho para a comunidade alternativa Portal do Céu, no alto da serra, chamativa de muitos turistas que buscam esse tipo de local. Não fomos até lá e, portanto, não posso dar informações mais concretas a seu respeito, mas sabe-se que é uma vila com poucas pessoas que vivem aparentemente de uma maneira não-ortodoxa. Lá encontra-se inclusive praticantes da Doutrina do Santo Daime, cuja bebida litúrgica, a ayahuasca (ou chá de Santo Daime) é motivo de debate entre médicos e religiosos, visto ser alucinógena. O que testemunhamos e podemos afirmar é que muitos turistas desciam de lá com pinturas faciais coloridas e com roupas de inspiração hippie. De qualquer forma foi algo que não nos apeteceu, tanto que logo partimos dali em busca de uma outra cachoeira, a da Pedra Roxa, no distrito homônimo de Ibitirama. Foram 24km de asfalto e mais aguns de terra pelos contrafortes da Serra do Caparaó até a dita cachoeira, que na verdade não passava de um poço cristalino do rio do Braço Direito Norte, o mesmo que forma a Cachoeira da Fumaça. O ponto alto dessa esticada extra foi o registro do maracanã-verdadeiro, uma espécie de arara ainda relativamente pouco estudada.

Maracanã-verdadeira

Adeus, serras capixabas

Cachoeira do rio Furnas
Era chegada a hora de regressar. Para que a volta não fosse muito estafante, aproveitamos as últimas horas de sol para diminuir a distância entre os Estados do Espírito Santo e São Paulo. Conseguimos chegar a Muriaé, Minas Gerais, para pernoitar, e no dia 4, bem cedo, partimos rumo a Juiz de Fora, a partir da qual, pela BR-267, alcançamos Caxambu, passando, inclusive, por uma pequena cachoeira do rio Furnas, à beira da estrada mesmo, um pouco adiante do trevo de Aiuruoca. Algum tempo depois descíamos ao sul pela Fernão Dias. Adentrando a cidade de Pouso Alegre, entrecortamos todo o Circuito das Malhas do sul mineiro, passando por Borda da Mata, Ouro Fino e Jacutinga. Atravessando a ponte sobre o rio Eleutério voltamos a São Paulo. Logo estávamos em Campinas, grande centro urbano do Brasil, e em meio ao tráfego da Dom Pedro II nos despedíamos de Rodrigo, que mora nos arredores. Luana e eu ainda seguimos pela rodovia Anhanguera até nossos lares, em Americana. Foram, no total, 1800km rodados em quatro dias nos quais conhecemos, superficialmente é bem verdade, um pouco mais desse pequeno, negligenciado e lindo Estado do Espírito Santo. Que tenhamos mais oportunidades de a ele voltarmos nossos olhos.
Se algo nos é estranho, tratamos logo de conhecê-lo. Logicamente há os que se furtam a novos achados, fechando-se no casulo de suas ditas consciências já “formadas”. Isso é pura e simplesmente uma mutilação prosseguida da cauterização de uma habilidade inerente ao homem: a descoberta.


Mais fotos aqui.


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E abaixo, a reedição de um blues composto especialmente às pequenas cidades do interior do Espírito Santo.

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Delfim Moreira e Marmelópolis – 15 e 16 de fevereiro de 2014


O sul de Minas Gerais, desde seu extremo leste, nos píncaros da Mantiqueira, até seu extremo oeste, nos metros finais do grande rio Grande, guarda surpresas e revela paraísos que vêm, ao longo dos tempos, atraindo viajantes de todas as sortes. Essa imensa faixa de relevo acidentado, uma testemunha ocular da transição entre mata atlântica e cerrado, tem demonstrado, além desse poder de atração, uma capacidade de redescoberta muito peculiar, obrigando-me a revisitar locais que destrinchara em outras oportunidades e aos quais cria, ingenuamente, que não careceria retornar em hipótese alguma. Foi por esse motivo que aceitei o convite de Luciano Cogliati, um motociclista recentemente conhecido na cruzada do fim de 2013 pelo Jalapão (link). Ambos rumaríamos, então, com nossas digníssimas mulheres, Cíntia e Luana Romero, para Delfim Moreira, uma cidade cujos entornos Levi Vieira e eu já conhecêramos anos atrás (link), de passagem para a Serra dos Órgãos, no Rio de Janeiro. Luciano garantira que desfrutaríamos de cenários novos e cachoeiras nunca dantes registradas, e essas promessas me motivaram a regressar ao alto da Serra da Mantiqueira, no sudeste mineiro. Que a chuva nos desse uma trégua para que toda essa exuberância pudesse ser devidamente documentada.
Delfim Moreira
 Partimos de Americana, Luana e eu, às 5 da manhã, visto que marcáramos de nos encontrar com Luciano na Marginal Tietê, em São Paulo, às 7. Pela Anhanguera e posteriormente pela expressa Bandeirantes aceleramos até o local combinado. Saímos da capital exatamente às 7:30, deixando a conturbada marginal e ganhando a Ayrton Senna, que depois de certo ponto se transforma na Carvalho Pinto, rodovia bem conhecida pelos frequentadores do litoral norte paulista. Por volta das 9 nos embrenhávamos no intenso fluxo da Dutra, que nos conduzindo pelos perímetros de Taubaté e Aparecida possibilitaram acessarmos uma estrada de mão dupla que, sentido oeste, nos levou até o município de Piquete, ainda pertencente ao Estado de São Paulo, aos pés da Serra da Mantiqueira. Aí foi pura ascendência, saindo dos confortáveis 650 metros de altitude para os brumosos 1200 de Delfim Moreira, primeira cidade após a divisa de Estados. Desfrutávamos já do ar úmido que emana da mata atlântica de Minas Gerais, e como bons aventureiros, pouco antes do centro urbano da cidade pretendida guinamos para uma estrada de terra bem batida, ladeada por eucaliptos e outras árvores de grande porte. Uma espécie de portal, abandonado, com tijolinhos à vista, apresentava-nos a uma trilha sem indicação alguma, mas sabíamos que ali, naquele ponto, deveríamos abandonar as motos e partir a pé, vale abaixo, rumo às aguas do ribeirão do Taboão. Sobre pés fomos, então, cruzando com as ruínas de uma antiga hidrelétrica e calhando nas enormes rochas do leito do curso d'água supracitado. Sobre elas vê-se, caindo com grande força, as já conhecidas quedas da cahoeira do Itagybá, que se contarmos em sua totalidade somam 40 metros. Aproximar-se, devido às chuvas que caíram nos dias subsequentes, seria impossível, e tivemos que nos contentar em contemplar o belo cenário de longe.


Cachoeira do Itagybá

Estação de Delfim Moreira
Voltando ao ponto em que se iniciara a trilha, reavemos nossas motos e seguimos pela estrada de chão, que em um determinado ponto passou a ser calçada e, por fim, asfaltada. A esta altura já estávamos envolvidos pelas simples construções do centro urbano de Delfim Moreira, algumas de feições coloniais do alvorecer do século XX. Apeamos novamente apenas aos portões da antiga estação ferroviária, inaugurada em 1927 e zelada com muito esmero. Pessoas nem mercadorias obviamente embarcam mais aqui, como na primeira parte do século passado, mas o prédio ainda é utilizado como espaço cultural e museu, muito embora, pela segunda vez, o tenhamos encontrado fechado. E mais no centro da cidade, palmilhamos as ruas que envolvem a praça central, essa típica, com direito à igreja, coreto e canteiros floridos, bem cuidados, diga-se de passagem, à exemplo da estação. Foi neste local, no coração do município de 8 mil habitantes, que somou-se a nós Daniel Bento e Ariadne, ambos vindos de São José dos Campos e conhecidos de Luciano. Partimos então, agora em três motos, para a mais turística de todas as cachoeiras da cidade, mas que nem por isso poderia ser negligenciada: a Ninho da Águia. Acessá-la foi fácil, visto que se encontra às margens da rodovia MG-350, a mesma pela qual subíramos a serra desde Piquete. Mediante uma paga de R$5 por cabeça trilhamos pela bem sinalizada propriedade que protege não só uma, como imáginávamos, mas várias quedas d'água do barrento rio Santo Antônio. Apesar de não tão altas como a do Itagybá, merecem destaque pelo conjunto da obra e pela tonitruância de suas águas, potencializadas, logicamente, pelas chuvas dos últimos dias.



Quedas da cachoeira Ninho da Águia

Túnel do Barreirinho
Do asfalto da MG-350 saímos à caça de uma outra cachoeira, a do Túnel, de acesso um pouco mais complicado que a turística Ninho da Águia. Na primeira entrada norte, por estrada de terra, passamos peo bairro rural Água Limpa, e depois pilotamos por mais 4km, ganhando um pouco de altitude, até o bairro Barreirinho. A partir desse último foi necessário mais 1km para avistarmos uma clareira de terra defronte a uma pastagem íngreme, onde obrigatoriamente deixamos nossas motos. A trilha de 200m a partir daí foi toda palmilhada em declive para se chegar ao Túnel do Barreirinho, uma construção da década de 1920 idealizada com dois propósitos: canalizar as águas de uma cachoeira e possibilitar que uma antiga linha férrea a sobrepassasse. Para ver essa cachoeira foi necessário tirar os calçados e caminhar pelos seus 50m de extensão. Do outro lado, a serena queda de águas gélidas se revelou. É um local que, se levássemos em conta somente a cachoeira ou somente o túnel, não pareceria interessante. Contudo, o conjunto, a união da natureza com uma obra humana praticamente centenária contribuem para a construção de uma identidade carismática de mais esse atrativo de Delfim Moreira. Enfim, fomos embora com essa última boa impressão da zona rural da cidade. Tentamos ainda conhecer a cachoeira do Areião, mas a propriedade estava fechada. Contentamo-nos com uma foto longíngua de uma de suas quedas.


Cachoeira do Túnel
 
Cachoeira do Areião
Cachoeira do Cubatão
Amanhecia o dia 26. Chovera a noite toda e nossos planos para subir a nordeste, rumo a Marmelópolis, se esvaiam, levados pelas águas da Mantiqueira. Por sorte nos informaram que boa parte da estrada que liga as duas cidades estava asfaltada, o que nos garantiria uma toada mais rápida e um tempo maior para desbravarmos essa parte da serra que, para mim, era nova, ao contrário de Delfim Moreira. Não obstante, enganamo-nos ao pensar que a empreitada seria tranquila. Ao deixarmos a estrada principal, por exemplo, encaramos aproximadamente 10km de barro através da zona rural até a cachoeira do Cubatão, e ainda uma trilha a pé, com direito a travessia de rio, de pouco mais de 200m, dentro de uma propriedade particular. O proprietário não nos cobrou taxa alguma pela entrada. A queda de 50m parecia toda atarantada devido às chuvas. Rochas arredondadas, empilhadas na continuação das águas do rio Cubatão, pareciam ter sido despejadas ali recentemente, como que trazidas por uma tromba d'água. Porém, sabíamos que não acontecera dessa forma. Trata-se de uma peculiaridade dessa cachoeira. De volta ao banco das motos, derrocamos ainda mais 8km até o centro urbano de Marmelópolis, com 4 mil habitantes, e saímos rapidamente por uma outra estrada de chão, ao norte. Poucos quilômetros depois estávamos na propriedade que alberga a cachoeira dos Padres, que são, na realidade, três quedas distintas, medindo entre 10 e 20 metros, e mais algumas corredeiras. A facilidade da trilha veio bem a calhar depois do perrengue pelas estradas barrentas desde Delfim Moreira, e é nela que se avista comumente a borboleta coruja (foto que abre essa presente postagem), encontrada apenas em território sulamericano.



Quedas da cachoeira dos Padres

Cachoeira do Paredão
Luciano detinha as coordenadas para uma outra cachoeira, mas essa, digo, era daquelas que, de tão camufladas nas matas da Mantiqueira, tornou-se um deleite para raros. Para começar, partindo da cachoeira dos Padres segue-se por uma estrada bem batida, sem engodos, mas que em uma guinada, nos metros finais, em algum lugar entre o território de Marmelópolis e Passa Quatro, transformou-se em uma ladeira barrenta, a priori, e a posteriori em um sinuosa aclive a um sítio aparentemente abandonado à própria sorte. Foi na porteira desse último que largamos nossas motos e nossas mulheres, que não quiseram nos acompanhar em uma caminhada pelo meio da quiçaça. Aí foram três perdidos procurando uma trilha em uma clareira com o mato pelos cotovelos. Por sorte a localizamos, deixamos a clareira e nos embrenhamos por uma mata bem fechada, e alguns minutos depois encarávamos não uma cachoeira propriamente dita, mas um paredão quase vertical com 100 metros de altura, pelo qual descia, sereno, um feixe d'água de mais de 5 metros de largura. Não sei se há algum nome para esse atrativo, mas o designamos cachoeira do Paredão. Se essa não for sua verdadeira graça, que um dia possam nos corrigir e perdoar pela blasfêmia.
O tempo se esvaia rapidamente velozmente. A chuva, nossa (in)grata companheira nesses dois dias, ameaçava desabar sobre os píncaros da Mantiqueira. Tínhamos, contudo, um grande desafio antes de regressar: chegar a Piquete por uma estrada de terra íngreme, sinuosa e escorregadia. Por fim a tememos bobamente, pois foram meros 7km a partir da cachoeira do Paredão e relativamente fáceis de se trilhar. Após esses quilômetros a descida se intensificou, mas aí já havia calçamento. Passamos pela Vila dos Marins e fomos perdendo altitude à medida que nos aproximávamos de Piquete e, consequentemente, do Estado de São Paulo. Já nos contrafortes da serra, ainda observamos de longe a impressionante cachoeira do ribeirão Mendanha (foto que encerra a presente postagem), escorregando por 150 metros e tendo como “vigilante”, ao fundo, o imponente Pico dos Marins, o maior inteiramente dentro do Estado de São Paulo com 2420 metros de altitude. A cachoeira, por si só, é de vistosa beleza, visto “escorregar” Mantiqueira abaixo por 150 metros. Em Piquete, uma despedida dos companheiros de aventura e um aceno final para a “gota de chuva” (amana tykyra, em tupi). Seguimos pela Dutra e pela Carvalho Pinto, vendo a moto de Daniel Bento sumir para São José dos Campos. No acesso à Dom Pedro foi a minha vez e a de Luana, que rumamos para o inteior paulista enquanto Luciano seguia para a capital. Foram 700km rodados em dois dias, mais algumas cachoeiras no porta-fólio e a certeza de que a Mantiqueira sempre nos reservará surpresas caso tenhamos a gana de redesafiá-la, dia após dia.


Mais fotos no seguinte slideshow ou aqui.


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E abaixo, a reedição de um blues feito em 2012 para Delfim Moreira e a Serra dos Órgãos.

terça-feira, 29 de abril de 2014

Altinópolis – 18 e 19 de janeiro de 2014


Certa vez fui interpelado por um aluno quando já encerrara minhas atividades docentes e cruzava o enegrecido pátio da escola a passos largos, augurando montar em minha moto e dar prosseguimento ao estafante dia. O menino de 7 anos, munido de sua inocência sem máculas (isenta de futilidade e ignorância por se tratar de uma criança), questionou-me abruptamente: Professor, o senhor trabalha? Aquela pergunta me atingiu na mandíbula, tonteando-me a ponto de me hirtar-me por alguns segundos, tendo minha expressão (ou a falta dela) acompanhada pelos atentos olhos do infante, que aguardava uma resposta. Após um breve momento de introspecção, obtemperei que sim, que dar aulas é um trabalho tão nobre quanto o de seu pai, possivelmente um operário, como 98% das pessoas daquela comunidade. A curiosidade do menino foi satisfeita, aparentemente, mas devo admitir que não a minha. Tal questão retumbou em minha cabeça pelo resto do dia, obrigando-me a reflexões semelhantes às daqueles tempos de universidade em que os pensamentos rebeldes do marxismo ocupavam minha cabeça. Ocorreu-me que dei uma resposta socialmente aceita e sensata para o pequeno, mas que em nenhum ângulo realmente demonstrava a maneira como vejo a questão do trabalho e da vida, propriamente. Logicamente eu não teria condições de explicar, numa linguagem juvenil, que todos somos engrenagens no motor de um sistema que, ironicamente, parece não funcionar em nosso prol. Mesmo com adultos é uma tarefa quase impossível, especialmente se estão subsistindo por inércia, olvidando-se da História da humanidade. Ocorreu-me que sou um hipócrita, pois não falo e não faço o que penso, mas o que convém dizer sem causar alarde. Em outras palavras, dissemino o conformismo (como se ele já não estivesse assentado em nosso ideário há muito tempo!). Por fim, conclui que, apesar de “dançar conforme a música” no dia a dia, quando viajo sou inteiramente eu, sem máculas, sem hipocrisia, sem medo de encarar e questionar como o menino que me "destroçou" naquele dia. Viajar ainda é um dos últimos exercícios de liberdade, e é por isso que já desisti de muitas coisas, mas continuo viajando.
Rumo ao noroeste paulista
A ideia de conhecer Altinópolis, no noroeste paulista, é originária da viagem ao Jalapão, que pode ser conferida neste link. Thiago Lucas Santos, Luana e eu cogitamos passar por lá, na regresso, mas optamos por postergar a visita para a desbravarmos com mais calma em uma outra ocasião. Pois bem, esse dia chegara, e sem Thiago Lucas, mas com a companhia de Rodrigo Gil, Luana e eu partimos, na manhã do dia 18 de janeiro, pela fatídica rodovia Anhanguera, sentido interior. Foram 160 enfadonhos quilômetros até os entornos do munícipio de Cravinhos, onde guinamos para o leste pela SP-271, uma estrada de mão dupla, sinuosa, pouco movimentada e que dá acesso a antigas fazendas de feições coloniais. Infelizmente, ao tentar aproximarmo-nos dessas para algumas fotos, deparamo-nos apenas com porteiras trancadas. Rapidamente, então, passamos pela movimentada Serrana, cruzamos o rio Pardo e, após 220km rodados desde Americana, calhamos em Altinópolis, cidade conhecida por suas grutas e cachoeiras e que, apesar do nome, não se encontra a uma altitude muito elevada. São meros 900m, segundo meu altímetro. A designação correta não tem a ver com sua altura em relação ao nível do mar, mas sim com o nome do presidente do Estado de São Paulo à época de sua elevação a município, em 1918, o doutor Altino Arantes. No centro urbano há cerca de 15 mil habitantes e, apesar da típica e convidativa praça central com a igrejinha católica, onde tudo parece acontecer, procurávamos algo mais e, portanto, um amontoado de domicílios, comércios e gente simpática se preparando para uma festa não nos segurou por muito tempo. Corremos para o mato.
Gruta do Itambé
Optamos por nos dirigir primeiramente ao atrativo mais próximo do centro urbano: a Gruta do Itambé. De fato, regressamos 8km pelo caminho que nos levara até ali e adentramos uma estrada de chão batido ao sul, bem sinalizada. Permanecemos nela por meros 2km, visualizando o Morro do Seladinho, ao leste, e topamos com o portal de entrada do Parque da Gruta de Itambé, de chancela municipal. Nele fomos obrigados a deixar nossas motos, assinar uns papéis e caminhar mata dentro por uma área muito bem preservada. A vegetação de porte médio, que na verdade se trata da mata ciliar do córrego Água da Prata ou do Itambé, proporciona uma caminhada repleta de surpresas meritórias de menção, como as imensas teias de aracnídeos, que usam galhos de diversas árvores para as ancorarem, dando a impressão de estarem flutuando sobre nossas cabeças; a aparição tímida da ariramba-de-cauda-ruiva, uma ave relativamente pouco vista, assemelhando-se a uma andorinha, mas de porte maior e com cores bem mais vivas; e o cruzamento pela trilha de grandes teiús, primitivos lagartos que elevam seu sangue frio nas clareiras da mata, sobre o chão aquecido da trilha. Apesar de tudo, chegar à gruta foi a maior das gratificações, o que conseguimos após 300m de caminhada. É uma imensa estrutura de arenito, com 28m de altura e uma galeria que se estende por 350m a partir de sua entrada. Um regato de uma mina que nasce ali dentro a entrecorta calmamente, ora iluminado pelos raios solares que conseguem adentrar os primeiros metros ora totalmente obscurecido pela negritude das áreas mais profundas. Seria um cenário perfeito se não fosse pela sempre esmagadora de prazeres mão humana, pois cerca de 20 metros gruta adentro foi edificada uma capelinha em louvor ao Pai João. Não estou aqui reclamando do homem homenageado em si, mas da poluição visual causada por tal obra. Como purista, acredito que a identidade visual original de toda e qualquer obra da natureza tenha que ser compulsoriamente mantida, com o mínimo possível de interferência humana.

Mina no interior da gruta

Ariramba-de-cauda-ruiva

Aracnídeo "flutuante"

Libélula-azul
Da entrada da Gruta do Itambé se ramifica uma outra trilha, bordejante ao córrego Seco, correndo livre pela mata mais densa. E o campo de pouso e decolagem de dezenas de libélulas-azuis. Pequenas quedas d'água pontilham o caminho, um pouco mais complicado que o trecho Portal do Parque – Gruta do Itambé, não chega a ser desafiador, mas é preciso estar atento às raízes sobressalentes, possuidoras da capacidade de derrubar os caminhantes mais displicentes. No fim da trilha, praticamente todo em declive, topa-se com a Cachoeira do Itambé, um imenso paredão de arenito com a mesma coloração da gruta homônima. Dele despenca, de 60 metros de altura, as águas do antigo córrego Água da Prata ou Taimbé, hoje conhecido apenas como Itambé (pico ou monte agudo, em tupi guarani). Na verdade, apenas um filete vertia do alto, e isso se deve a dois fatores: primeiro, o janeiro de 2014 foi totalmente atípico, visto que quase não choveu; e segundo, por haver na parte alta do córrego muitos sítios e, consequentemente, plantações, o que vem assoreando seu leito e diminuindo o fluxo d'água. O poço arredondado, por exemplo, tem mais de 30m de diâmetro, mas é evidente na vegetação adjacente que o nível da água está bem abaixo do normal. Não que isso tenha nos impedido de encarar um banho gelado e nos deliciarmos com a massagem natural proporcionada pela delgada cascata. Como primeira cachoeira da incursão, eu diria que nos demos bem. A segunda prometia mais, e rapidamente, antes que o sol se pusesse para as bandas do oeste, nos dirigimos a ela.


Cachoeira do Itambé

PCH do Esmeril
Localizar a cachoeira do Esmeril não foi uma tarefa fácil. Não detínhamos nenhuma informação mais precisa além da que se situava nas proximidades da vicinal que liga Altinópolis a Patrocínio Paulista, cidade próxima à divisa com o Estado de Minas Gerais. Acontece que essa vicinal é bem extensa. Trinta e seis quilômetros após sairmos do centro de Altinópolis obtivemos uma pista, uma pequena placa empoeirada com os dizeres PCH do Esmeril apontando para uma estrada rural. Aí foram mais 7 ou 8km para o sul até finalmente cruzarmos uma ponte de madeira sobre o rio do Esmeril, um importante afluente do rio Sapucaí. Depois dessa ponte topamos com um canal que desvia parte das águas do Esmeril para alimentar as turbinas da PCH dispostas no fundo do vale. Como o desnível entre o canal e a casa de máquinas é de mais de 100m, dois tubos férreos de grande diâmetro descem entre eles, direcionando a água e potencializando sua torrente para a geração de energia. É pelas laterais acimentadas desses tubos que descemos até a casa de máquinas, que por si só já é uma histórica atração, visto ter sido construída nos idos de 1912, já secular, portanto. De uma de suas passarelas, sobre o rio, vê-se ao fundo os 80m de queda da cachoeira tão almejada. Aí foi só abrir os portões laterais da PCH e embrenhar-nos pela mata ciliar para uma aproximação. Sobre as rochas do leito do Esmeril a vista é espetacular. É uma mesa granítica de onde a água cai com vigor, concentrada num único potente feixo. Posteriormente a esse feixo há um paredão de musgo, negativo, sombrio, esverdeado. Atrevo-me a dizer que é uma das cachoeiras mais espetaculares a que já tive o prazer de direcionar meus olhos. E frias também, diga-se de passagem.



Cachoeira do Esmeril

Matriz de Altinópolis
De volta ao centro urbano de Altinópolis, com a noite já começando a nos envolver, encontramos um local para pernoitar e demos uma volta pela Praça da Matriz, onde uma festa típica de mais de quatro décadas de história acontecia. Era a Folia de Reis, ou Festa de Santos Reis, de cunho religioso, voltado para os Três Reis Magos (Melchior, Baltasar e Gaspar) com mesclas de folclore. Há uma presença marcante da viola caipira nessa que é a primeira festividade do gênero no Estado de São Paulo. É mais comum em Minas Gerais que, de fato, não está a uma distância absurda de Altinópolis, compartilhando com a cidade inclusive a vocação para o cultivo do café. Abriu-se algum espaço para novos talentos musicais da cidade, e também para canções que enaltecem a família Frighetto, cujo falecido Tonico Frighetto foi o fundador da festa na década de 1970. Além de todo esse bombardeio cultural, é uma ótima oportunidade para interagir com os munícipes e com moradores de cidades circunvizinhas que vêm prestigiar o evento. Foi dessa maneira que obtivemos informações sobre outras cachoeiras que pretendíamos conhecer no dia seguinte, como a dos Macacos e a de Fortaleza. Um casal de Ribeirão Preto nos informou, infelizmente, que tais cachoeiras só poderiam ser visitadas mediante a contratação de um guia, um gasto a mais que não estava contabilizado em nosso orçamento.



Festa de Santos Reis

Serra da Vazante
Amanheceu o dia 19 de janeiro e com ele nosso ímpeto em desbravar o que fosse possível, visto que necessitávamos voltar para Americana no período da tarde. Sem delongas saímos pela cidade entrevistando moradores, comerciantes e frentistas de posto na esperança de encontrar algum guia que nos levasse às supracitadas cachoeiras. Chegamos até a Fazenda Vale das Grutas, onde acontece o famoso Forró da Lua Cheia, na esperança de que nos dessem uma luz, mas inúmeras ligações dos recepcionistas tiveram apenas o silêncio como resposta. Sem guias, que devem trabalhar somente em feriados, não nos deixariam adentrar as propriedades onde se encontram as cachoeiras. Restou-nos, ainda antes do meio dia, dar as costas a Altinópolis e principiar o regresso, primeiramente pela rodovia Altino Arantes, sentido oeste, e depois pela SP-338, sentido sul. Dessa última, olhando-se para o leste, discerne-se a Serra da Vazante. Nossa atenção, contudo, canalizou-se para o oeste, onde uma estrada de chão se entranhava pelas fazendas e sítios. Aí foram 24km de terra, pedra e areia, passando por eucaliptais, milharais, porteiras fechadas e um pequeno lago ladeado por goiabeiras nas quais o coleirinho, empoleirado, cantarola maviosamente. Por fim saímos na SP-333, na qual seguimos para o oeste, passando pelo perímetro de Santa Cruz da Esperança e chegando ao município de Serra Azul, que conta com 12 mil habitantes. Tem uma estação ferroviária antiga, construída em 1905. Os trilhos já se foram há muito tempo, mas seus contornos mantêm o passadismo de uma época em que pessoas e sacas de café embarcavam aqui rumo a São Paulo e Minas Gerais.

Pelas estradas rurais entre Altinópolis e Serra Azul

Lago entre eucaliptais

Estação Ferroviária de Serra Azul, de 1905

Pipira-da-taoca
Não havia mais nada que pudéssemos fazer na região de Altinópolis. Da centenária estação de Serra Azul partimos rumo a Anhanguera, que enfadonhamente nos carregaria de volta para casa. Como ainda tínhamos um tempo antes do pôr do sol, resolvemos parar rapidamente às margens da rodovia no famoso Parque Estadual de Vassununga, onde o Patriarca da Floresta, um enorme jequitibá-rosa, sobrevive ao passar das centúrias (confira mais informações sobre Vassununga neste link). Na única trilha observamos a presença da pipira-da-taoca, uma ave relativamente rara de ser vista, além de inúmeros espécimes de lepdópteros, muitos camuflados nas cores da floresta semidecidual. Caminhar pela trilha curta, mas repleta de estimulos sensoriais, foi a nossa derradeira “missão” nesse 19 de janeiro de um ano ainda neonato, mas que promete extensas aventuras pelo nordeste e pelo norte do Brasil. Em uma época conturbada, em que um campeonato mundial de futebol e em seguida as eleições presidenciais darão um novo rumo ao nosso modo de vida, o motociclista desbravador tem que estar consciente das mudanças pois sabe que, quando viaja, pode ser a última vez que tenha visto cada local em sua forma atual. Quando voltar, tudo pode estar mudado. Tudo pode estar perdido. Ou tudo pode ter melhorado. É uma concisa conclusão tecida nos meros 550km dessa aventura.
Existe uma linha na vida de cada um dividindo a vontade de permanecer e a gana de partir. O que a difere de um indivíduo para outro é a tenuidade, a polegada dessa linha. Enquanto em uns o comodismo, as obrigações profissionais e familiares e a pusilanimidade vão a tornando mais sólida, em outros esses mesmos itens são utilizados como fresas para desbastá-la. É aquele velho papo de quem vê o copo meio cheio ou meio vazio, e embora possa parecer uma questão muito filosófica, é, na verdade, uma conclusão bem simples, mas que, se não explica totalmente a conduta do ser humano, em sua singeleza demonstra o quanto pesamos o que nos é imposto na vida em sociedade.


Mais fotos no seguinte slideshow ou aqui.


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E abaixo, um blues composto especialmente para Altinópolis.