segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Pico Paraná – de 17 a 21 de abril de 2014


Um saudoso cantador e poeta uma vez entoou: “mesmo se eu cantasse todas as canções do mundo, sou bicho do mato”. Em se tratando de um país tão extenso quanto o nosso, onde dimensões são continentais e deslocamentos entre uma origem e um destino podem perdurar por semanas, um viajante pode ter, sem pestanejar, a frase supracitada como um de seus dogmas, isso se usarmos um naco de paráfrase: “mesmo se eu conhecesse todos os lugares do Brasil, sou ainda um bicho do mato”. “Bicho do mato” entende-se aqui não como um sujeito intelectualmente ignorante ou desprovido de inteligência, mas sim uma pessoa que domina uma parte do mundo que não vai além de alguns metros das cercanias de sua comunidade, essa ínfima, por assim dizer. Então, podemos vagar por quilômetros e anos a fio por essa imensa nação e nunca chegarmos a realmente conhecê-la. O que todos os viajantes brasileiros tentam, com curtas e longas viagens pelo seu próprio país, seja de moto seja a pé, é abrandar essa ignorância, sendo presenteado com a noção de que culturas, cenários, flora e fauna são diferentes em cada confim desse grande território. O viajante brasileiro não é completo, mas busca sua completude, e sabe, acima de tudo, que as ruas circunvizinhas a sua residência não têm uma resposta convincente para a sua maior dúvida: qual é o sentido da vida?
Matriz de Quatro Barras
O ponto culminante da região sul do Brasil é o Pico Paraná. Esse dado, por si só, já é um grande fomentador de uma viagem. A dificuldade e a distância da caminhada até seu cume é um outro chamariz. Está situado no litoral do meu querido Estado do Paraná, distante do planalto interiorano que viu minha família materna se proliferar e debandar, nos anos de 1970, para o interior paulista, em busca de melhores condições econômicas. Nesse fim de semana prolongado, contudo, o êxodo se invertia, e Luana Romero e eu partíamos para o não muito distante “rio” (significado de Paraná na exinta língua geral) com o intuito de vencer um dos muitos desafios que essa terra alta e fértil oferece. Partimos de Americana, então, logo cedo, na manhã do dia 17, para termos tempo hábil de chegar às imediações de Curitiba. Embora sejam apenas 500km, em tempos de feriado prolongado as estradas que desembocam na capital congestionam e uma viagem de poucas horas pode virar uma odisseia. Felizmente não foi o caso e incontinenti passamos por Sorocaba, Votorantim e Juquiá. Nessa última adentramos a maior rodovia nacional, a BR-116, nesse trecho chamada de Régis Bittencourt. Entrecortamos o Parque Estadual de Jacupiranga, importante área preservada no chamado Vale do Ribeira, e adentramos o Estado do Paraná. Passando sobre a Represa de Capivari, paramos no pequeno município de Quatro Barras, grudado à grande Curitiba. Lá esperaríamos por Rodrigo Gil e outros amigos de Americana que, infelizmente, não chegariam no mesmo dia. Esses outros, por um problema ou dois, sequer chegariam.


Fim de tarde em Quatro Barras

Caminho do Itupava
Avisados de que estaríamos sozinhos no segundo dia, acabei convencendo Luana a postergar nossa subida ao Pico Paraná por 24 horas. Queria eu finalizar o Caminho do Itupava, trilha aberta por indígenas e mineradores, no século XVII, para facilitar o transporte de mantimentos e mercadorias entre a planície litorânea e o primeiro planalto. Logicamente a coroa portuguesa, nos anos em que dominou a mão de ferro esse país, apossou-se dessa cicatriz de quase 20km na mata atlântica preservada paranaense, chegando inclusive a regulamentar a passagem de tropas de bois com a cobrança de pedágios, naquela época chamados de registros, uma tradição que infelizmente se mantém até hoje na cultura rodoviária brasileira. Críticas à parte, deixamos o centro urbano de Quatro Barras e nos dirigimos a Borda do Campo, um de seus distritos. Lá se encontra um dos postos do IAP (Instituto Ambiental Paranaense), que coordena as perambulações pelo caminho colonial. Lá deixamos a moto e seguimos a pé serra abaixo, sentido contrário ao que Rodrigo Gil e eu palmilháramos dois anos antes (link). Naquela oportunidade percorrêramos a metade de baixo, e desta feita Luana e eu concluiríamos com a metade de cima. E como quem caminha pelas picadas entre a mata fechada sempre se depara com uma surpresa, a poucos metros do posto encontramos a primeira: uma cachoeira de 15 metros com a mais pura água gélida proveniente dos pontos culminantes da Serra da Baitaca (morada do diabo, em tupi). Caminhando mais um pouco, registramos espécimes de invertebrados, como o gafanhoto-soldado e a aranha-caranguejeira, e da avifauna, como o piolinho e o truculento, embora diminuto, pichororó. Vale frisar que estávamos a mais de 1000 metros de altitude.

Cachoeira

Caranguejeira

Gafanhoto-soldado

Calçamento colonial
Prosseguindo em direção ao litoral avistamos o morro Pão de Loh, ao sul. Bem que gostaríamos de acessar a trilha que leva aos seus píncaros, mas a mesma se encontrava interditada, talvez devido à vegetação que cedera com as chuvas dos dias anteriores e recobrira alguns trechos. Desse ponto em diante os declives e aclives se tornam mais desafiadores devido ao fato de nos aproximarmos de um ponto entre o aglomerado de montanhas do Marumbi e da Graciosa, ambas integrantes de uma ilustre cordilheira conhecida como Serra do Mar. O calçamento pé-de-moleque, feito de pedras irregulares extraídas das próprias cercanias, principalmente do leito de riachos, começa a ser uma grata companhia. Sem ele seria uma tarefa mais demorada caminhar Itupava abaixo, já que muitos pontos são pantanosos. A umidade, que torna a progressão escorregadia e ardilosa, por outro lado permite uma proliferação de plantas muito bem adaptadas à mata atlântica. É o caso de inúmeras espécies de bromélias, que tudo aproveitam como base para sua existência, inclusive o caule de grande árvores que despencam, muitas vezes atravancando a via. O sol, nas áreas mais fechadas, penetra timidamente em estreitos fachos. Com todo esse cenário nos derredoreando fomos nos aproximando da Casa do Ipiranga, moradia do engenheiro-chefe da linha férrea Curitiba-Paranaguá e que posteriormente, devido a sua privatização, foi abandonada, depredada por vândalos e totalmente desfigurada. É uma cena lamentável de se ver e um desrespeito a uma obra de 1885, já secular, portanto. Alguns caminhantes a utilizam como área de camping.

Bromélia

Casa do Ipiranga

Estrada de ferro Curitiba-Morretes

Roda d'água
Trilhos de ferro passam a poucos metros da escadaria de acesso à porta principal da Casa do Ipiranga. Embora o mato esteja alto, não é difícil visualizá-la. Hoje essa linha não vai até Paranaguá, como antigamente, mas apenas até Morretes. As passagens são compradas em Curitiba e o trem recebe a chancela de “turístico”, o que incrementa seu preço e diminui a acessibilidade de pessoas de baixa renda. É uma pena que tenham sucateado praticamente todas as ferrovias do Brasil e, algumas das poucas que restam, tenham esse fim elitista. Com todas essas instrospecções, mas sem me esquecer de aproveitar os últimos metros do Caminho do Itupava, descemos para o sul beiradeando os trilhos até uma outra escadaria que dá acesso ao rio Ipiranga, o qual já havíamos atravessado, sobre uma ponte de madeira, poucos metros antes da Casa do Ipiranga. Nessa parte de seu curso funcionou uma pequena usina hidrelétrica que tinha justamente a única função de prover energia à morada do engenheiro-chefe. Hoje se encontra desativada, mas algumas peças de sua estrutura ainda resistem ao tempo e à umidade, como uma roda d'água e uma estreita ponte de ferro sobre o rio. Duas portentosas cachoeiras despejam muita água e formam grandes poços com o cumprimento das altas altitudes da Serra do Mar. Após elas o rio segue manso em seu leito pedregoso, revelando ao fundo o topo de um dos montes da Serra da Graciosa. Essa foi nossa última visão do Caminho do Itupava, pois chegáramos à metade de seu percurso total. Voltamos, estafados, para a base do IASP, em Borda do Campo, totalizando aproximadamente 15km de caminhada com grandes desníveis. Como informação adicional, friso que o caminho completo tem 17km de extensão.

Cachoeira do rio Ipiranga

Rio Ipiranga com a Serra da Graciosa ao fundo

Estafante caminhada

Fazenda Pico Paraná
Ainda no dia 18 fomos contatados por Rodrigo Gil. Viria de Campinas e nos encontraria no começo da noite no portal de Quatro Barras. Aguardamos e o recepcionamos no local combinado. Os três, reunidos, chegaram ao consenso de que deveríam se aproximar o máximo possível, nesse fim de dia, da Fazenda Pico Paraná, de onde se inicia a trilha a pé rumo ao Pico Paraná, nosso escopo. Incontinenti tentamos a sorte em Campina Grande do Sul, mas por lá não encontramos local para pernoitar. Seguimos adiante pela BR-116, sentido São Paulo, e encontramos um pequeno povoado a poucos metros da estrada de terra que nos levaria à propriedade pretendida. Repousamos e, no dia 19, com a bruma da madrugada da Serra do Mar nos envolvendo, adentramos a via rural. Bordejamos o pequeno rio Tucum por aproximadamente 5km e cruzamos o portão da Fazenda Pico Paraná. Fomos atendidos pelo proprietário que prontamente nos deu valiosas informações sobre a faina que principiaríamos, agora a pé, sem a ajuda do motor de nossas motocicletas, que por uma quantia de R$10 cada seriam deixadas na propriedade. Pegamos somente o necessário (alimentos, barracas, sacos de dormir, câmeras e reservatórios de água), alocamos em nossas mochilas e partimos sobre nossos calcanhares. Estávamos a pouco mais de 900m de altitude, diga-se de passagem. Aguardava-nos adiante um desnível de quase 1000m distribuídos em aproximadamente 8km de caminhada.
Vista da Pedra do Grito
A trilha a partir da Fazenda ascende pela Serra do Mar sentido sudeste, primeiro entre um bosque semicerrado, mas já bem úmido, e que pouco depois vai se fechando em samambaias silvestres e rochas graníticas de médio porte, mas sempre transitável. O trecho até a Pedra do Grito, a primogênita de muitas paradas, foi íngreme e sinuoso, mas a vista de seu topo recompensou-nos: a porção oeste da Serra do Mar (chamada nessa porção de Serra dos Órgãos pelo IBGE) gradativamente se elevando (ou se rebaixando, dependendo do ponto de vista), contrastando a escuridão verde de sua mata atlântica praticamente intocada com o céu reluzente da manhã paranaense, além da presença marcante, a noroeste, da Represa de Capivari, inundada com as águas do rio Capivari desde 1971. O interessante desse reservatório é que suas águas não são aproveitadas ali, à beira da BR-116, mas sim pela Usina Hidrelétrica Governador Pedro Viriato Parigot no município de Antonina, mais precisamente no povoado de Cachoeira de Cima, próximo ao litoral. Isso só é possível porque existe um aqueduto subterrâneo de 15km que separam esses dois locais passando por debaixo da Serra do Ibitiraquire, onde se encontra o Pico Paraná. É a maior obra desse segmento do Brasil. Do outro lado do reservatório, a oeste, eleva-se a grande Serra de Paranapiacaba, cadeia de montes onde nasce um dos lugares mais interessantes do país e queridos por mim: o Vale do Ribeira. Com tanta água no horizonte contraditoriamente a de nossos cantis se esgotava à medida que nos aproximávamos da Pedra do Getúlio (ou Morro do Getúlio), segundo ponto de parada. Nele já passáramos da casa dos 1100 metros de altitude. Andáramos, até então, 2,5km. A sudeste avistávamos os cumes do Caratuva e do Itapiroca, ambos de altitude pouco inferior ao grande irmão Pico Paraná. Foi a partir daí que a vegetação se adensou e a progressão foi fortemente refreada pelos desníveis abruptos e pelas grandes árvores derruídas pelas chuvas que atravancavam a trilha.
Represa de Capivari vista da Pedra do Grito
Picos do Caratuva e Itapiroca

Vista da Pedra do Getúlio

Nuvens na Serra do Ibitiraquire
Andar por altitudes maiores teve vantagens e desvantagens: pontos de coleta de água a cada 500m foi uma vantagem. Desciam de riachos nascidos nos píncaros da Serra do Ibitiraquire. Tudo tem um preço, obviamente. A trilha ficou mais escorregadia; as raízes das árvores, sobressaltadas, proporcionavam tropeços esporádicos, principalmente quando caminhávamos ininterruptas centenas de metros e os retos femorais já não flexionavam nossos quadris com a mesma eficiência. Há duas outras trilhas, bem sinalizadas, que se ramificam dessa principal em que estávamos, uma subindo para o Caratuva e outra para o Itapiroca. Caso tivéssemos alguma aresta no dia seguinte, tentaríamos a sorte em ambos. Seguimos, portanto, e vagarosamente chegamos a uma clareira onde os que não encaram a caminhada de 8km no mesmo dia acampam. É o chamado Acampamento 1. Apesar de estarmos em um ambiente aberto, a neblina tudo envolvia, impedindo que a visão desfrutasse do mirante natural. Achamos prudente descansar um pouco e, felizmente, as nuvens, por apenas um minuto, se esvaneceram, e pudemos vislumbrar e registrar pela primeira vez o Pico Paraná, um monte de granito e gnaisse de áspera textura, cinzento e avermelhado ao mesmo tempo, particionado em pelo menos 4 cumes de topos arredondados, como o fole aberto de uma sanfona. O terceiro, sentido norte-sul, é o culminante, o mais alto da região sul do Brasil.


Pico Paraná

Escalada
Do Acampamento 1 em diante pode-se dividir a trilha em duas partes: a primeira uma brusca descida; a segunda uma ascendência brutal com direito a trechos de curta escalada. Felizmente há, encravados nas áreas mais verticais, vários degraus férreos. Subir por eles é um verdadeiro exercício de coragem. Olhar para baixo ou para cima é desencorajador. Acompanhar o trabalho das próprias mãos mais ainda, já que é corriqueiro que próximo a elas estejam de passagem grandes e malcheirosas lacraias. Um escorpião-negro também foi flagrado, e por sorte o vimos a tempo de não esmagá-lo e, em contrapartida, sermos aferroados, o que poderia siginificar o encerramento prematuro de nossa aventura. Depois de todos esses obstáculos alcançamos o chamado Acampamento 2, nas proximidades da Casa de Pedra, um antigo abrigo de escaladores, hoje em ruínas. Ali, com o relógio passando das 14h, montamos nossas barracas e nos livramos do excesso de peso. Faríamos o “ataque”, chegando ao cume do Pico Paraná e retornando para pernoitar no acampamento. A essa altura, porém, sabíamos que não desfrutaríamos da vista privilegiada do ponto culminante do Paraná e da região sul do Brasil, já que a névoa novamente se adensara e a visibilidade não passava dos cem metros. Mas, como estávamos ali, juntamos o resto de nossas energias para vencer mais 100 metros de desnível distribuídos pelos 800 metros restantes. No meio do caminho, talvez por acharem infrutífera a subida, Rodrigo e Luana desistiram da empreitada. Fui sozinho, portanto, até os 1870m de altitude do Pico Paraná. Os registros oficiais, que se valem de instrumentos de medição mais precisos, apontam 1877m. Obviamente eu nada via a minha frente senão uma grande e acinzentada massa de vapores. Se não pude me maravilhar com vista alguma, pelo menos um objetivo pessoal fora alcançado. E como que a coroar toda essa minha galhardia, eis que a citada massa de vapores se desfez em chuva. Fui pego enquanto voltava ao Acampamento 2 e me reunia, no meio do caminho, a Rodrigo e Luana. A noite também caiu, para piorar a situação, e com uma lanterna à manivela de Rodrigo conseguimos, completamente encharcados, chegar a nossas barracas. A chuva continuaria até a manhã do dia seguinte.

Ruínas da Casa de Pedra

Vista do Acampamento 2

Últimos metros

Adeus, Pico Paraná
Não me deixei abater pelo cenário nebuloso que encontrei ao deixar a barraca ao amanhecer. Tudo permanecia cinza, mas felizmente não chovia. Embora a intenção fosse registrar a Baía de Antonina e boa parte do litoral norte do Paraná do ponto mais privilegiado do Estado, a impossibilidade me lembrou que os desígnios da natureza são alheios às nossas vontades. Foi uma grande honra estar ali por alguns momentos. Sem a luz direta do sol e sem esperanças de que o tempo se abrisse, levantamos acampamento, juntamos nossas tralhas e nos recolocamos no caminho de volta à fazenda Pico Paraná. Enfrentamos todos os perigos novamente, avançando mais vagarosamente do que na ida, visto que Luana, em um dos abissais barrancos em meio à mata atlântica, torcera o joelho e reclamava de lancinante dor. O ponto alto do regresso, além da sempre deslumbrante – e parcial – vista da Serra de Ibitiraquire (Serra Verde, em tupi), foi o reencontro com Erlon Junior, motociclista de São Paulo e companheiro de Pantanal Sul (link da viagem) que também caminhava por aquelas bandas. Após 7 horas de caminhada reavíamos nossas motos na fazenda e, sobre elas, praticamente exauridos de nossas forças, retornamos a BR-116, onde pernoitamos à beira da estrada. Certamente esse é um local ao qual regressarei em breve, já que existem, além do Pico Paraná, outros cumes acessíveis por trilhas na mesma serra. As possibilidades ali são muitas.
Parque Estadual Carlos Botelho
No dia 21, com os níveis de glicogênio muscular praticamente repostos, caímos no fluxo ininterrupto da BR-116, sentido São Paulo, já no trajeto de volta para casa. Em Registro, Estado de São Paulo, subimos para noroeste pela SP-139, passando por Sete Barras e chegando à portaria sul do Parque Carlos Botelho, uma área pertencente ao Parque Estadual Intervales. Ascenderíamos até São Miguel Arcanjo por uma estrada de chão de 30km, cortando um local conhecido como Serra da Macaca. Infelizmente nossa passagem foi barrada pelo guarda do parque pois, segundo ele, toda a estrada está sendo calçada. Com mais um revés no histórico dessa viagem, voltamos a Sete Barras e subimos a Juquiá pela SP-165. Aí foi só vencer a Serra de Paranapiacaba pelo caminho inverso ao do primeiro dia. Apeamos pela última vez em Votorantim, onde nos despedimos de Rodrigo, que seguiu para Campinas. Luana e eu chegaríamos a Americana no começo da noite, finalizando uma aventura que dessa vez não foi um desafio ao nosso lado motocilista, mas sim ao lado andejo, como diz minha velha avó. Foram percorridos, no total, 1100km sobre duas rodas e 30km a pé.
Por água, por ar e por terra a vida se perpetua. Não a nossa vida, finita e errante, mas a do mundo, infinita e carregada de sentidos. Trilhando novos caminhos auguramos nos assemelhar a este mundo, tornando-nos tão históricos quanto o planeta que habitamos. Mera utopia, mas ainda um viés digno a se seguir. Quem não faz história, refém se faz das circunstâncias, e no limiar da vida acaba se culpando por não ter pelo menos tentando entender os rumos tomados por este nosso imenso globo que, um dia, nos aceitou como inquilinos, mesmo tendo plena consciência de todos os nossos problemas em viver em paz.


Mais fotos aqui.


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Estou com um dedo quebrado e impossibilitado de tocar violão por um tempo. Abaixo, portanto, reedito um blues composto em 2012 para a primeira parte do Caminho do Itupava.

sábado, 19 de julho de 2014

Alegre – de 1º a 4 de maio de 2014


Quem nos dera gozássemos de mais tempo para desfrutar da vida! No nosso atual sistema, que preza pelo desenvolvimento econômico, a balança, que na verdade nunca chegou a estar em equilíbrio, sempre pende para o lado do trabalho, não permitindo que possamos usufruir das maravilhas que só o ócio prolongado oportuniza. Quando vemos no mapa os contornos do Espírito Santo, por exemplo, a priori nos parece um Estado ínfimo, como se fôssemos capazes de conhecê-lo em apenas alguns dias, como num feriado prolongado. Contudo, uma viagem não se principia no destino, e sim no ponto de partida. Destarte, deslocar-se pelas rodovias brasileiras, sempre problemáticas, não é das tarefas mais rápidas, o que acaba também atrasando planos e muitas vezes frustrando-os. Por fim, o tempo é escasso e o conhecimento é parcial. O grande dom do motociclista brasileiro proletário é priorizar o que quer ver quando não há a oportunidade de desfruir de uma visão mais abrangente de seus lugares pretendidos.
Leopoldina, Minas Gerais
O meu fascínio por grandes cachoeiras e paisagens naturais, que quase sempre trazem a tiracolo paisagens rurais, foram os grandes motivadores para que eu me dirigisse a Alegre, no Espírito Santo, juntamente com Luana Romero e Rodrigo Gil, ambos companheiros de aventura de outras datas. Lá esperávamos encontrar simplesmente a maior queda d’água do Estado. Desde minha última incursão solitária pelo rio Itabapoana (link) e pelo Parque Estadual da Pedra Azul (link) eu ensaiava um retorno a esse pedaço de Brasil relativamente pouco divulgado. Enfim, com tudo pronto e infelizmente com pouco tempo disponível, partimos no dia combinado visando chegar rapidamente ao destino, primeiramente pelas rodovias Anhanguera e Dom Pedro II, e ulteriormente pelas Carvalho Pinto e Dutra, essa última via de entrada no Estado do Rio de Janeiro. Os contratempos se principiaram aí: congestionamentos, acidentes e obras. São ingredientes que somente grandes e problemáticas rodovias adicionam a uma viagem. Enfim, com muito custo subimos, a partir de Piraí, sentido nordeste, acompanhando o curso do rio Paraíba do Sul até Além Paraíba onde, sob forte chuva, acessamos a BR-116 e o Estado de Minas Gerais. O sol se pusera há muito e decidimos, por bem, pernoitar em Leopoldina, município com cerca de 50 mil habitantes e de graça real (Leopoldina foi filha do imperador Dom Pedro II).
Natividade, RJ
No dia 2, logo pela manhã, e com o tempo mais estável, subimos pela Rio-Bahia (nome da 116 por essas bandas) até Muriaé. Pendemos para o leste e cruzamos a “fronteira” entre Minas Gerais e Rio de Janeiro novamente. Nossa viagem começou a partir desse momento, já que deixamos de rodar por rodovias federais, cheias de caminhões, e passamos a desfrutar da vista magnífica das estaduais que cortam, tortuosas, as serras do Brigadeiro e da Sapucaia. Para encerrar nossa passagem pelo Estado fluminense, cruzamos a carnavalesca Natividade (não confundir com a homônima tocantinense, com fotos nesse link) e pela histórica Varre-Sai, onde escravos eram acolhidos em uma propriedade quando em fuga da Insurreição (ou Levante) do Queimado, em Serra, para o Quilombo dos Palmares, isso nos idos de 1849. Quando nos demos por conta atravessávamos o rio Itabapoana e adentrávamos o Estado do Espírito Santo, chegando a Guaçuí e acessando a ES-482, que nos levou diretamente a Alegre, trespassando antes um de seus distritos, Celina, e descendo a Serra da Abundância. Nessa cidade de 30 mil habitantes arrumamos um canto para dormir, desatrelamos o excesso de bagagem e, sem perder sequer mais um minuto, saímos à caça da maior cachoeira do Estado, a da Fumaça, ainda um pouco distante dali, nos limites do território do município, na divisa com Ibitirama.


Serra da Sapucaia

Alegre

Cachoeira da Fumaça
Há uma estrada de paralelepípedos, muito bem calçada, que se ramifica a partir da ES-387, rodovia estadual que liga Celina a Ibitirama e Divino de São Lourenço. Volvemos então ao distrito alegrense, rumamos para o norte e 28km depois adentrávamos a chamada estrada Caminhos do Campo. Aí foram apenas mais 2km de calçamento até a entrada do Parque Municipal da Cachoeira da Fumaça. Apeamos das motos e seguimos a pé, por uma curta trilha em meio à mata atlântica em recuperação, e topamos com os dois tentáculos principais da queda d'água de 140 metros, como já dito só a maior do Estado do Espírito Santo. É uma obra natural do rio do Braço Norte Direito, que nasce na Serra do Caparaó, a segunda maior em média de altitude do Brasil. Seu curso é certamente glorioso, visto ser um dos formadores do rio Itapemirim, que desagua no Oceano Atlântico, em Marataízes. Contribui significativamente, portanto, para a agricultura e a economia de vários municípios, que em contrapartida destroem sua mata ciliar e o expõem ao assoreamento. Críticas à parte, observávamos uma parte rochosa de seu leito, percorrido por águas turbulentas formadoras de algumas pequenas praias de branca areia. Por ser um local protegido por lei, mas de livre e gratuito acesso, é frequentado por inúmeros moradores da região e também por visitantes de fora. Por esse motivo não foi possível observar a fauna circundante, especialmente pássaros, que tanto buscamos. Apesar de todos esses embrólios, é certamente meritória de uma visita, chamando a atenção principalmente pela forma de sua queda mais do que pela névoa (ou “fumaça”) que se forma com a força de suas águas.



Maior cachoeira do Espírito Santo

Serra capixaba
Poderíamos apenasmente ter voltado a Alegre por igual caminho, mas segundo nossos mapas algumas estradas de terra nos levariam ao mesmo destino, atiçando nossa curiosidade. O calçamento da estrada Caminhos do Campo desaparece a partir do Parque Municipal da Cachoeira da Fumaça, e estreitos vieses de chão seguem, por alguns momentos, o curso do rio do Braço Norte Direito, revelando outras quedas menores, mas também portentosas. As serras capixabas, de traços suaves e píncaros arredondados, formam vales ora profundos ora rasos, guarnecendo propriedades rurais e simples casebres de pau a pique. No meio do nada, separada por muitos quilômetros de estradas precárias, encontramos o pequeno povoado de Sobreira, de gente simples, que se locomove sobre suas montarias, amarrando-as a tocos à porta dos estabelecimentos comerciais quando necessitam comprar algo. Trinta quilômetros depois sobrepassávamos a última ponte de madeira e derrocávamos o último trecho de terra e pedras e reencontrávamos o asfalto da ES-482, já bem próxima de Alegre. Por ironia, o tempo, que até então se mantivera estável, desabou em chuva, não freando as festividades de um carnaval de marchinhas que se iniciava, com o cair da noite, na praça central da cidade.

Cachoeira do rio do Braço Norte Direito

Casas no campo

Capela no Povoado de Sobreira

Zona rural sul de Alegre
No dia 3, pela manhã, deixamos o centro urbano de Alegre para localizarmos, em sua zona rural sudoeste, uma outra cachoeira, essa bem menos conhecida que a da Fumaça. Saímos pelo sul e trilhamos o campo capixaba por 10km, derrocando áreas empoçadas pela chuva do dia anterior. Uma porteira fechada, que protegia um sítio e seu cafezal, nos impedia a passagem, mas a proprietária, uma mulher simples do campo, nos permitiu a entrada, dando inclusive mais coordenadas para se chegar à queda d'água. Uma íngreme subida, pedregosa, de 300m de comprimento, foi nosso último obstáculo. Já avistávamos a Cachoeira do Roncador da beira dessa estrada de chão rudimentar, com os verdes pés de café em primeiro plano, mas isso não bastava. Ensejamos uma aproximação, a pé, atravessando um estreito riacho e uma charco. Dessa maneira nos emparelhamos ao imenso maciço rochoso, talvez granítico, de 45º de inclinação pelo qual escorrem 87 metros das águas do córrego Roncador. Devido às suas características não é uma cachoeira no sentido comum da palavra, mais se assemelhando a um tobogã de largas dimensões. Forma um pequeno poço, alcançável ao transpormos uma área de mata com alguns vegetais cortantes, repletos de espinhos e acúleos. Em síntese, eu diria que sua beleza cênica foi mais digna quando vislumbrada da estrada. De perto a visão é meramente parcial; de longe, total.



Cachoeira do Roncador

Patrimônio da Penha
Há outras pequenas cachoeiras em Alegre, mas os próprios moradores nos dissuadiram de visitá-las. Exortaram-nos, como alternativa, a nos dirigirmos ao Patrimônio da Penha, um distrito do município de Divino de São Lourenço nos pés da Serra do Caparaó, não muito distante dali. Dessa forma, regressamos a Celina, subimos novamente sentido Cachoeira da Fumaça e chegamos à pacata Divino de São Lourenço, via asfalto. A partir dela foram mais 10km de estradas de chão e 3km de asfalto. A vilinha, simples e com um ar místico (para aqueles que acreditam nisso, o que não é o meu caso), tem moldes singelos semelhantes aos de Trindade, no Rio de Janeiro, estruturada basicamente em uma única rua principal da qual outras, menores e mais estreitas, se ramificam. Uma dessas sobe a serra, pedregosa e agudamente íngreme, o que nos fez hesitar, por um breve momento, em subi-la sobre as motocicletas. Um lampejo de galhardia chamuscou, talvez inspirado pela guerrilha que aqui ocorreu entre 1966 e 1967 contra o regime militar, e aceleramos Caparaó acima. Apeamos na entrada da trilha para a Cachoeira do Arco-Íris, uma das diversas que se formam serra abaixo no curso do Córrego Forquilha. Curta, a picada entre a mata fechada nos levou primeiramente a duas pequenas quedas, e metros abaixo a uma maior, com talvez 15 metros de queda, de água límpida e gélida. Apesar do nome, arco-íris nenhum se formava ali. Contudo, é de admirável garbo, pois escorre caprichosamente pelo flanco direito de um largo paredão, como que se quisesse se ocultar da vista de quem a observa de um ângulo desfavorável.


Cachoeira do Arco-íris

Poço em Pedra Roxa
De fato subimos e descemos a serra visitando outras quedas e poços, mas nenhum realmente nos prendeu a atenção. É difícil maravilhar-se com pequenas cachoeiras após conhecer a maior do Estado. Não que não sejam interessantes. São, sim, mas também bastante movimentadas, pois estão no caminho para a comunidade alternativa Portal do Céu, no alto da serra, chamativa de muitos turistas que buscam esse tipo de local. Não fomos até lá e, portanto, não posso dar informações mais concretas a seu respeito, mas sabe-se que é uma vila com poucas pessoas que vivem aparentemente de uma maneira não-ortodoxa. Lá encontra-se inclusive praticantes da Doutrina do Santo Daime, cuja bebida litúrgica, a ayahuasca (ou chá de Santo Daime) é motivo de debate entre médicos e religiosos, visto ser alucinógena. O que testemunhamos e podemos afirmar é que muitos turistas desciam de lá com pinturas faciais coloridas e com roupas de inspiração hippie. De qualquer forma foi algo que não nos apeteceu, tanto que logo partimos dali em busca de uma outra cachoeira, a da Pedra Roxa, no distrito homônimo de Ibitirama. Foram 24km de asfalto e mais aguns de terra pelos contrafortes da Serra do Caparaó até a dita cachoeira, que na verdade não passava de um poço cristalino do rio do Braço Direito Norte, o mesmo que forma a Cachoeira da Fumaça. O ponto alto dessa esticada extra foi o registro do maracanã-verdadeiro, uma espécie de arara ainda relativamente pouco estudada.

Maracanã-verdadeira

Adeus, serras capixabas

Cachoeira do rio Furnas
Era chegada a hora de regressar. Para que a volta não fosse muito estafante, aproveitamos as últimas horas de sol para diminuir a distância entre os Estados do Espírito Santo e São Paulo. Conseguimos chegar a Muriaé, Minas Gerais, para pernoitar, e no dia 4, bem cedo, partimos rumo a Juiz de Fora, a partir da qual, pela BR-267, alcançamos Caxambu, passando, inclusive, por uma pequena cachoeira do rio Furnas, à beira da estrada mesmo, um pouco adiante do trevo de Aiuruoca. Algum tempo depois descíamos ao sul pela Fernão Dias. Adentrando a cidade de Pouso Alegre, entrecortamos todo o Circuito das Malhas do sul mineiro, passando por Borda da Mata, Ouro Fino e Jacutinga. Atravessando a ponte sobre o rio Eleutério voltamos a São Paulo. Logo estávamos em Campinas, grande centro urbano do Brasil, e em meio ao tráfego da Dom Pedro II nos despedíamos de Rodrigo, que mora nos arredores. Luana e eu ainda seguimos pela rodovia Anhanguera até nossos lares, em Americana. Foram, no total, 1800km rodados em quatro dias nos quais conhecemos, superficialmente é bem verdade, um pouco mais desse pequeno, negligenciado e lindo Estado do Espírito Santo. Que tenhamos mais oportunidades de a ele voltarmos nossos olhos.
Se algo nos é estranho, tratamos logo de conhecê-lo. Logicamente há os que se furtam a novos achados, fechando-se no casulo de suas ditas consciências já “formadas”. Isso é pura e simplesmente uma mutilação prosseguida da cauterização de uma habilidade inerente ao homem: a descoberta.


Mais fotos aqui.


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E abaixo, a reedição de um blues composto especialmente às pequenas cidades do interior do Espírito Santo.

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Delfim Moreira e Marmelópolis – 15 e 16 de fevereiro de 2014


O sul de Minas Gerais, desde seu extremo leste, nos píncaros da Mantiqueira, até seu extremo oeste, nos metros finais do grande rio Grande, guarda surpresas e revela paraísos que vêm, ao longo dos tempos, atraindo viajantes de todas as sortes. Essa imensa faixa de relevo acidentado, uma testemunha ocular da transição entre mata atlântica e cerrado, tem demonstrado, além desse poder de atração, uma capacidade de redescoberta muito peculiar, obrigando-me a revisitar locais que destrinchara em outras oportunidades e aos quais cria, ingenuamente, que não careceria retornar em hipótese alguma. Foi por esse motivo que aceitei o convite de Luciano Cogliati, um motociclista recentemente conhecido na cruzada do fim de 2013 pelo Jalapão (link). Ambos rumaríamos, então, com nossas digníssimas mulheres, Cíntia e Luana Romero, para Delfim Moreira, uma cidade cujos entornos Levi Vieira e eu já conhecêramos anos atrás (link), de passagem para a Serra dos Órgãos, no Rio de Janeiro. Luciano garantira que desfrutaríamos de cenários novos e cachoeiras nunca dantes registradas, e essas promessas me motivaram a regressar ao alto da Serra da Mantiqueira, no sudeste mineiro. Que a chuva nos desse uma trégua para que toda essa exuberância pudesse ser devidamente documentada.
Delfim Moreira
 Partimos de Americana, Luana e eu, às 5 da manhã, visto que marcáramos de nos encontrar com Luciano na Marginal Tietê, em São Paulo, às 7. Pela Anhanguera e posteriormente pela expressa Bandeirantes aceleramos até o local combinado. Saímos da capital exatamente às 7:30, deixando a conturbada marginal e ganhando a Ayrton Senna, que depois de certo ponto se transforma na Carvalho Pinto, rodovia bem conhecida pelos frequentadores do litoral norte paulista. Por volta das 9 nos embrenhávamos no intenso fluxo da Dutra, que nos conduzindo pelos perímetros de Taubaté e Aparecida possibilitaram acessarmos uma estrada de mão dupla que, sentido oeste, nos levou até o município de Piquete, ainda pertencente ao Estado de São Paulo, aos pés da Serra da Mantiqueira. Aí foi pura ascendência, saindo dos confortáveis 650 metros de altitude para os brumosos 1200 de Delfim Moreira, primeira cidade após a divisa de Estados. Desfrutávamos já do ar úmido que emana da mata atlântica de Minas Gerais, e como bons aventureiros, pouco antes do centro urbano da cidade pretendida guinamos para uma estrada de terra bem batida, ladeada por eucaliptos e outras árvores de grande porte. Uma espécie de portal, abandonado, com tijolinhos à vista, apresentava-nos a uma trilha sem indicação alguma, mas sabíamos que ali, naquele ponto, deveríamos abandonar as motos e partir a pé, vale abaixo, rumo às aguas do ribeirão do Taboão. Sobre pés fomos, então, cruzando com as ruínas de uma antiga hidrelétrica e calhando nas enormes rochas do leito do curso d'água supracitado. Sobre elas vê-se, caindo com grande força, as já conhecidas quedas da cahoeira do Itagybá, que se contarmos em sua totalidade somam 40 metros. Aproximar-se, devido às chuvas que caíram nos dias subsequentes, seria impossível, e tivemos que nos contentar em contemplar o belo cenário de longe.


Cachoeira do Itagybá

Estação de Delfim Moreira
Voltando ao ponto em que se iniciara a trilha, reavemos nossas motos e seguimos pela estrada de chão, que em um determinado ponto passou a ser calçada e, por fim, asfaltada. A esta altura já estávamos envolvidos pelas simples construções do centro urbano de Delfim Moreira, algumas de feições coloniais do alvorecer do século XX. Apeamos novamente apenas aos portões da antiga estação ferroviária, inaugurada em 1927 e zelada com muito esmero. Pessoas nem mercadorias obviamente embarcam mais aqui, como na primeira parte do século passado, mas o prédio ainda é utilizado como espaço cultural e museu, muito embora, pela segunda vez, o tenhamos encontrado fechado. E mais no centro da cidade, palmilhamos as ruas que envolvem a praça central, essa típica, com direito à igreja, coreto e canteiros floridos, bem cuidados, diga-se de passagem, à exemplo da estação. Foi neste local, no coração do município de 8 mil habitantes, que somou-se a nós Daniel Bento e Ariadne, ambos vindos de São José dos Campos e conhecidos de Luciano. Partimos então, agora em três motos, para a mais turística de todas as cachoeiras da cidade, mas que nem por isso poderia ser negligenciada: a Ninho da Águia. Acessá-la foi fácil, visto que se encontra às margens da rodovia MG-350, a mesma pela qual subíramos a serra desde Piquete. Mediante uma paga de R$5 por cabeça trilhamos pela bem sinalizada propriedade que protege não só uma, como imáginávamos, mas várias quedas d'água do barrento rio Santo Antônio. Apesar de não tão altas como a do Itagybá, merecem destaque pelo conjunto da obra e pela tonitruância de suas águas, potencializadas, logicamente, pelas chuvas dos últimos dias.



Quedas da cachoeira Ninho da Águia

Túnel do Barreirinho
Do asfalto da MG-350 saímos à caça de uma outra cachoeira, a do Túnel, de acesso um pouco mais complicado que a turística Ninho da Águia. Na primeira entrada norte, por estrada de terra, passamos peo bairro rural Água Limpa, e depois pilotamos por mais 4km, ganhando um pouco de altitude, até o bairro Barreirinho. A partir desse último foi necessário mais 1km para avistarmos uma clareira de terra defronte a uma pastagem íngreme, onde obrigatoriamente deixamos nossas motos. A trilha de 200m a partir daí foi toda palmilhada em declive para se chegar ao Túnel do Barreirinho, uma construção da década de 1920 idealizada com dois propósitos: canalizar as águas de uma cachoeira e possibilitar que uma antiga linha férrea a sobrepassasse. Para ver essa cachoeira foi necessário tirar os calçados e caminhar pelos seus 50m de extensão. Do outro lado, a serena queda de águas gélidas se revelou. É um local que, se levássemos em conta somente a cachoeira ou somente o túnel, não pareceria interessante. Contudo, o conjunto, a união da natureza com uma obra humana praticamente centenária contribuem para a construção de uma identidade carismática de mais esse atrativo de Delfim Moreira. Enfim, fomos embora com essa última boa impressão da zona rural da cidade. Tentamos ainda conhecer a cachoeira do Areião, mas a propriedade estava fechada. Contentamo-nos com uma foto longíngua de uma de suas quedas.


Cachoeira do Túnel
 
Cachoeira do Areião
Cachoeira do Cubatão
Amanhecia o dia 26. Chovera a noite toda e nossos planos para subir a nordeste, rumo a Marmelópolis, se esvaiam, levados pelas águas da Mantiqueira. Por sorte nos informaram que boa parte da estrada que liga as duas cidades estava asfaltada, o que nos garantiria uma toada mais rápida e um tempo maior para desbravarmos essa parte da serra que, para mim, era nova, ao contrário de Delfim Moreira. Não obstante, enganamo-nos ao pensar que a empreitada seria tranquila. Ao deixarmos a estrada principal, por exemplo, encaramos aproximadamente 10km de barro através da zona rural até a cachoeira do Cubatão, e ainda uma trilha a pé, com direito a travessia de rio, de pouco mais de 200m, dentro de uma propriedade particular. O proprietário não nos cobrou taxa alguma pela entrada. A queda de 50m parecia toda atarantada devido às chuvas. Rochas arredondadas, empilhadas na continuação das águas do rio Cubatão, pareciam ter sido despejadas ali recentemente, como que trazidas por uma tromba d'água. Porém, sabíamos que não acontecera dessa forma. Trata-se de uma peculiaridade dessa cachoeira. De volta ao banco das motos, derrocamos ainda mais 8km até o centro urbano de Marmelópolis, com 4 mil habitantes, e saímos rapidamente por uma outra estrada de chão, ao norte. Poucos quilômetros depois estávamos na propriedade que alberga a cachoeira dos Padres, que são, na realidade, três quedas distintas, medindo entre 10 e 20 metros, e mais algumas corredeiras. A facilidade da trilha veio bem a calhar depois do perrengue pelas estradas barrentas desde Delfim Moreira, e é nela que se avista comumente a borboleta coruja (foto que abre essa presente postagem), encontrada apenas em território sulamericano.



Quedas da cachoeira dos Padres

Cachoeira do Paredão
Luciano detinha as coordenadas para uma outra cachoeira, mas essa, digo, era daquelas que, de tão camufladas nas matas da Mantiqueira, tornou-se um deleite para raros. Para começar, partindo da cachoeira dos Padres segue-se por uma estrada bem batida, sem engodos, mas que em uma guinada, nos metros finais, em algum lugar entre o território de Marmelópolis e Passa Quatro, transformou-se em uma ladeira barrenta, a priori, e a posteriori em um sinuosa aclive a um sítio aparentemente abandonado à própria sorte. Foi na porteira desse último que largamos nossas motos e nossas mulheres, que não quiseram nos acompanhar em uma caminhada pelo meio da quiçaça. Aí foram três perdidos procurando uma trilha em uma clareira com o mato pelos cotovelos. Por sorte a localizamos, deixamos a clareira e nos embrenhamos por uma mata bem fechada, e alguns minutos depois encarávamos não uma cachoeira propriamente dita, mas um paredão quase vertical com 100 metros de altura, pelo qual descia, sereno, um feixe d'água de mais de 5 metros de largura. Não sei se há algum nome para esse atrativo, mas o designamos cachoeira do Paredão. Se essa não for sua verdadeira graça, que um dia possam nos corrigir e perdoar pela blasfêmia.
O tempo se esvaia rapidamente velozmente. A chuva, nossa (in)grata companheira nesses dois dias, ameaçava desabar sobre os píncaros da Mantiqueira. Tínhamos, contudo, um grande desafio antes de regressar: chegar a Piquete por uma estrada de terra íngreme, sinuosa e escorregadia. Por fim a tememos bobamente, pois foram meros 7km a partir da cachoeira do Paredão e relativamente fáceis de se trilhar. Após esses quilômetros a descida se intensificou, mas aí já havia calçamento. Passamos pela Vila dos Marins e fomos perdendo altitude à medida que nos aproximávamos de Piquete e, consequentemente, do Estado de São Paulo. Já nos contrafortes da serra, ainda observamos de longe a impressionante cachoeira do ribeirão Mendanha (foto que encerra a presente postagem), escorregando por 150 metros e tendo como “vigilante”, ao fundo, o imponente Pico dos Marins, o maior inteiramente dentro do Estado de São Paulo com 2420 metros de altitude. A cachoeira, por si só, é de vistosa beleza, visto “escorregar” Mantiqueira abaixo por 150 metros. Em Piquete, uma despedida dos companheiros de aventura e um aceno final para a “gota de chuva” (amana tykyra, em tupi). Seguimos pela Dutra e pela Carvalho Pinto, vendo a moto de Daniel Bento sumir para São José dos Campos. No acesso à Dom Pedro foi a minha vez e a de Luana, que rumamos para o inteior paulista enquanto Luciano seguia para a capital. Foram 700km rodados em dois dias, mais algumas cachoeiras no porta-fólio e a certeza de que a Mantiqueira sempre nos reservará surpresas caso tenhamos a gana de redesafiá-la, dia após dia.


Mais fotos no seguinte slideshow ou aqui.


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E abaixo, a reedição de um blues feito em 2012 para Delfim Moreira e a Serra dos Órgãos.