Possibilidades de ação se esgotam? E quanto aos caminhos a se seguir? Muitos diriam que ao nosso redor os cenários são sempre os mesmos, assim como as pessoas e seus assaz previsíveis “modus operandi”. Há, logicamente, aqueles que intentam enxergar a sociedade de formas alternativas, mas estes amiúde se embasam na própria depressão, na rebeldia, no corporativismo e em visões deturpadas pelo uso de substâncias entorpecentes, rascunhando em suas mentes uma realidade que não é verdadeira, e sim uma ilusão que não pode ser materializada e desfrutada em sã consciência. Portanto, não pode ser vivida, e sim imaginada, uma quimera. Passada a euforia, os muros parecem fechar-se novamente, numa claustrofobia que seres humanos frágeis não conseguem contornar. Quando não se vê as saídas, como nesse caso, é porque, para começo de conversa, os conceitos que temos de mundo são equivocados. Sociedade não é mundo; sociedade é sociedade, é um naco do produto total, e julgá-la com o peso de um planeta inteiro me parece um pensamento errôneo. Uma sociedade tem seus defeitos, seja ela liberalista, socialista ou anarquista, e o único poder que detém é o de possibilitar o caos na mente de seus integrantes. Sabendo que enfrentaremos problemas dessa ordem em noventa por cento do lugares em que porventura estejamos, basta habituar-se com os contratempos e mergulhar mais profundamente nos espaços aos quais a sociedade parece não conseguir estender efetivamente seus tentáculos, abstendo-nos de seus antagonismos de tempos em tempos. Apartar-se da “guerra psicológica urbana” não é fugir. É questão de manter a sanidade. É questão de realmente querer intimizar-se com o mundo em sua mais crua e legítima essência, sem a demasiada interferência de grandes e corporativistas conglomerados de pessoas. A companhia de um ser humano não é tão necessário ou onipresente como se pensa. É, geralmente, superestimada.
Qual é a chave para a vida?
Lembro-me, certa vez, de uma atendente de um consultório odontológico que, ao pedir alguns dados a um novo paciente para o preenchimento de uma ficha, indagou: “o que você é”? “Sou um ser humano”, obtemperou o cidadão. Eu, normalmente indiferente a diálogos alheios e muito interessado em um livro de Julio Verne que folheava no momento, atentei meus ouvidos à querela. A moça, consternada, tirou os olhos do papel e reformulou a pergunta, fitando desafiadoramente os olhos do incauto: “o que você faz”? Sabendo ser uma falta de tato absurda, o infeliz respondeu com uma outra pergunta: “Quantas linhas você tem aí”? Visivelmente irritada, a mulher inspirou demoradamente, mas compreendeu o ponto de vista do ser que carregava, a tiracolo, um livro que posteriormente mudaria minha forma de enxergar a existência humana. “Moço, qual é a sua profissão”? Respondeu o satisfeito e didático jovem: “Sou professor, moça, apenas mais um professor”. Essa poderia ser somente mais uma estória das muitas que já testemunhei entre gente que fala a mesma língua e não se entende, mas hoje a utilizo como exemplo para ilustrar como nos reduzimos como seres dito pensantes. Podemos ser o que quisermos, mas nos atemos ao papel que a sociedade espera que desempenhemos: sermos unicamente mão-de-obra. O sujeito quis demonstrar que a profissão, sozinha, não o completa, não o explica pois, antes de ser professor, ele atua em outras áreas, que não necessariamente são seu ganha-pão. Pode ser um leitor, no cair da noite; um fotógrafo, quando decide ir ao campo; um ornitólogo, quando observa as aves; um pai, quando está com um filho; e um filho, quando está com a mãe. Enfim, podemos ser o que nossas aspirações nos suplicam e livrar-nos do estigma e do rótulo de engenheiro, professor, coletor, servente, etc. Acabei-me de recordar que, sempre que posso, sou um motociclista apaixonado pelo Brasil e desbravador principalmente de suas áreas verdes. Lembrei-me também que tenho uma viagem a relatar. Atenhamo-nos a ela, portanto.
A propósito, o homem carregava consigo os Manuscritos Econômico-Filosóficos, de Karl Marx.
Companheiros de aventura
Admito que já fui um grande admirador de bicicletas. Um dia, porém, roubaram uma de mim. Era vermelha e branca, com rodas de náilon de um vermelho no mesmo tom que o do quadro, embora mais esbranquiçado devido ao tempo, que tudo desbota. Tive outras depois, mas nenhuma foi capaz de reavivar aquela jovial e simples alegria de ir, pedalando, à padaria Bom-Gosto ou ao mercadinho Pavan, nos quais comprava pães para a minha mãe e o extinto chocolate Surpresa para mim, quando tinhas meus 10 anos e ainda morava em Santa Bárbara d'Oeste. Malgrado esse trauma, acompanho muito proximamente o aumento do número de ciclistas em minha região, um fenômeno que, inclusive, atingiu pessoas muito próximas a mim, como meu pai, ex-motociclista e atual ciclista. Devido a isso, sempre procuro me inteirar sobre as trilhas de mountain-bike na região de Americana, visto que essas comumente levam a lugares ainda desconhecidos, de difícil acesso e, portanto, apartados dos conglomerados urbanos citados no prólogo dessa postagem. Nem sempre consigo, de moto, trilhar os mesmos caminhos, mas na grande maioria da vezes acabo voltando para casa com imagens de locais que nem sonhava que existiam. Foi em uma dessas pesquisas de trilhas de bicicleta que coloquei meus olhos no site Aventura a Dois, obra dos aventureiros Renato e Marianna, que sobre duas rodas e sem a ajuda de qualquer motor trilharam a zona rural do chamado Circuito das Frutas, que compreende, dentre outros municípios, Valinhos, Jundiaí, Itupeva e Itatiba. O que me deixou um pouco receoso quanto a essa aventura foi a parte inicial do relato do casal, quando o mesmo prerrogou ser este um caminho praticável apenas a pé ou de bicicleta. Luana Romero, Luiz Paulo Bombarda Blanes e eu arrostaríamos, portanto, o incerto, pois nem sempre uma motocicleta é capaz de passar por trilhas ciclísticas, como já foi dito.
Zona rural de Valinhos
Figueiras
Partimos de Americana às 7:30h de um sábado sufocante desde os primeiros raios do sol nascente. No planejamento decidimos começar pela zona rural de Valinhos, visto ser essa a cidade mais próxima da Praia Azul, bairro do qual saímos diretamente para a Via Anhanguera, sentido Campinas. Nela permanecemos por cerca de 40km, deixando Campinas para trás e ulteriormente enviesando-nos pelo último retorno antes do pedágio de Valinhos. Passamos por algumas pequenas fábricas e, sentido sul, pilotamos mais alguns quilômetros, ainda por asfalto, até o início da área rural da cidade mencionada. Estávamos, agora oficialmente, nos domínios do Circuito das Frutas, e a dominância, aqui, é toda do figo. As figueiras, de caule curto, calibroso e retorcido, lado a lado, ocupam praticamente todos os pequenos montes que ladeiam a estrada, a essa altura já totalmente despavimentada. As mais novas, com o fruto ainda verde, apresentavam uma folhagem também esverdeada, enquanto as mais velhas, distantes, no alto dos morros, mostravam-se mais acinzentadas, principalmente em suas copas. Alguns casebres, moradias dos produtores, saltavam timidamente aos nossos olhos. Nada com muita pompa. Até mesmo a igrejinha local, imediatamente após uma singela ponte de madeira sobre um ribeirão de águas de potabilidade duvidosa, denotava ser esse um ermo simples, com os trejeitos que a vida no sítio exige. Logicamente essas terras devem pertencer a grandes fazendas. Muitas são arrendadas e comumente o retorno financeiro de todos os produtores e trabalhadores rurais não é condizente com o esforço que empregam na lavoura, mas mesmo assim perpetuam, há décadas, a tradição frutífera da região, contribuindo, em consequência, para o abastecimento em nível nacional (quiçá mundial) desse gênero alimentício tão importante para a manutenção da saúde humana.
Figos
Capela dos produtores rurais no sul de Valinhos
"É um ermo simples, com os trejeitos que a vida no sítio exige"
Aclive perigoso
Atravessamos, passados 500m da capela, um agrupamento de cinco moradias, um pequeno lamaçal e, para a nossa surpresa, fomos obrigados a estancar. Atônitos, testemunhávamos o desaparecimento da estrada de terra e o início de uma trilha íngreme, não mais espessa que alguns centímetros, uma cicatriz em meio à quiçaça que a natureza augurava reaver. Para piorar a situação, muitas pedras soltas, gigantescas, umas inteiriças e outras esfarelando-se, impossibilitavam uma subida rápida das motocicletas sem nos colocar em risco. Luiz e eu fizemos um breve reconhecimento, subindo um trecho de cem metros a pé para estudar o terreno e concluir se arriscaríamos uma ascensão ou se desistiríamos de vez da empreitada. É aí que a bicicleta tem suas vantagens. Certamente seria mais fácil empurrá-la morro acima. Não obstante, estávamos sobre motocicletas, e erguê-las sobre os ombros não era uma opção. Optamos por empurrá-las em dois, uma por vez, primeiro a minha depois a de Luiz. Todo o esforço empregado, somado ao forte calor, exauriu momentaneamente nossas energias, mas vencêramos o primeiro empecilho. Como se não bastasse a lassidão, no alto do morro o mato fechou-se quase que completamente numa braquiária difícil de derrocar até mesmo a pé. Com um pouco de paciência nossas motos foram abrindo caminho. Caso não estivéssemos trajados com mangas longas inevitavelmente escoriaríamos nossos braços e antebraços. Malgrado toda essa faina, ilesos encontramos uma outra estrada, de terra batida, e nela prosseguimos, sacolejando, sempre sentido sul.
No fim da subida, a trilha se fechou
Parte da estrada rural coberta pelo matagal
Abrindo caminho em meio à quiçaça
Goiabal
Topamos com uma vila, uma escola e um portão semiaberto. Consultamos os mapas e, aparentemente, teríamos que adentrar esse portão. Foi o que fizemos. Estávamos em propriedade particular, mas surpreendentemente ninguém nos repreendera. Encontramos o fim da estrada menos de 200 metros depois, quando nos vimos envolvidos por uma vasta plantação de goiabas. A segunda fruta do circuito mostrava suas caras. É, inquestionavelmente, a minha preferida, mas me abstive de furtá-las por tecnicamente já estarmos fazendo algo ilegal. Restou-nos regressar ao portão e localizar uma outra estrada, essa municipal, que continuou nos direcionando ao sul entre eucaliptos e represas de fazendas antigas cujas placas “Não Entre. Propriedade Particular” nos instavam a permanecer do lado de fora, na via pública. Na reta final, atravessando uma parcialmente erodida ponte sobre o judiado rio Capivari, avistamos a Rodovia dos Bandeirantes. É uma visão da principal via de ligação da Região Metropolitana de Campinas com a capital São Paulo com a qual não estamos habituados. Pra dizer a verdade, nem chegamos a ver seu asfalto dividido em três faixas, pois a cruzamos sob um pontilhão e acessamos uma outra estrada de terra, do outro lado, já em território de Itupeva. O supracitado rio Jundiaí divide naturalmente Valinhos e Itupeva, diga-se de passagem. Passado o primeiro quilômetro nessa nova via fomos surpreendidos pela figura de uma casarão colonial, à beira da estrada, muito bem preservado. Infelizmente ninguém passava por ali no momento e até hoje não sabemos qual fazenda o mantém, mas as fotos testemunham: está impecável. Muito bem cuidado, pintado em amarelo escuro e de rodapés e cercas próximas tomadas por trepadeiras de tons avermelhados. É como voltar centúrias no tempo.
Goiabas
Sob a Rodovia dos Bandeirantes, entre Itupeva e Valinhos
Casarão colonial na zona rural de Itupeva
Igreja na Fazenda Foga
Deixado o casarão colonial, tocamos em frente e apeamos na Fazenda Foga, um ícone da zona rural de Itupeva. Felizmente hoje ela é menos turística do que a alguns anos atrás, quando seu restaurante era ponto de encontro de famílias e trilheiros abastados nos fins de semana. Hoje o restaurante está inativo, mas o casarão que o abrigava, de mais de 270 anos, continua lá, mesmo que o inexorável tempo e a falta de zelo exponham o barro e suas fundações de madeira como grandes machucados em seu desenho original. A taipa de pilão requer um cuidado todo especial, e como o casarão não tem sido muito utilizado, acredito que o zelo necessário não vem sendo empregado. Malgrado esses problemas, é uma construção imponente, de porta e janelas de espessa madeira. Uma pesada e trabalhada chave de bronze cinde a entrada. Nos arredores há algumas casas do pessoal que mora e trabalha na fazenda, e infelizmente em muitas delas presenciamos algo terrível. Espécimes e mais espécimes de aves nativas engaioladas, confinadas apesar de todo o verde que as circundam. É como estar a dois dedos de distância da liberdade e, na iminência de alcançá-la, sentir-se repentinamente desmembrado e impossibilitado de dar o passo decisivo. Fora das gaiolas conseguimos fotografar apenas anus-brancos, presentes em praticamente todo o território brasileiro. Meu mal-estar foi tamanho que instei meus companheiros a debandar o mais rapidamente possível, registrando, a caminho da cerca de saída da Fazenda Foga, a igreja católica na qual seus moradores “exercem” sua fé.
Casarão da Fazenda Foga
Anus-brancos
Quase três séculos de História
Biguatinga-macho
De volta à estrada, e sempre sentido sul, passamos mais uma vez pelo casarão colonial e bordejamos uma plantação de milho, subindo um leve morro e culminando numa área residencial fechada. Beiradeando seus muros altos e posteriormente eucaliptos, chegamos a um pequeno vale onde se encontra o lago da Fazenda Santa Gertrudes. É um local bucólico protegido por firmes mourões de pedra, como nunca havia visto antes. Aliás, pedras são abundantes na região, e seguindo as indicações deixamos momentaneamente o território rural de Itupeva e fomos pendendo para o oeste, sentido Indaiatuba. Avistávamos, a sudeste, a Serra do Japi, e a leste, os edifícios de Indaiatuba. Porém, apesar de estarmos em território indaiatubense, não acessamos sua parte urbana, permanecendo na zona rural e entrecortando fazendas salpicadas de rochas arredondadas e de gado e equídeos, estes suplementados por pasto e água abundantes. Seguimos pela Fazenda Capim Fino e seus casarões abandonados e, paralelos à rodovia Santos Dummont, rumamos sentido sul em direção ao rio Jundiaí, almejando seguir seu curso até o povoado do Quilombo, de volta a Itupeva. Foi o que aconteceu poucos quilômetros depois, ao cairmos para o leste passada uma ponte sobre o rio, onde biguatingas e garças-brancas resistem bravamente à poluição. A partir daí tivemos o esforço de acompanhar a ampla estrada, sempre com o rio a nossa esquerda, um caminho antigamente feito pelos trilhos ferroviários da linha Ituana, isso lá pelos arredores de 1900.
Fazenda Santa Gertrudes
O gado e os equídeos convivem com enormes rochas
Rio Jundiaí
Povoado do Quilombo
A estrada que beiradeia o rio Jundiaí nos guiou até o povoado do Quilombo, um local pouco movimentado, afastado porém equidistante dos centros urbanos de Indaiatuba e Itupeva, apesar de pertencer ao último. Há uma antiga estação, construída em 1873 e pertencente a linha supracitada, bem como um armazém do começo do século que atualmente alberga uma igreja evangélica. Mais um caso de desrespeito com a nossa história, e digo isso não por se tratar de uma igreja, em si. Se fosse uma mercearia ou um açougue eu argumentaria da mesma forma. Digo porque esses espaços históricos deveriam ser preservados e utilizados para a promoção da cultura e conscientização de um povo para com as suas próprias origens. Em Santa Rosa de Viterbo, por exemplo, restaurou-se a antiga estação para servir aos propósitos de uma escola musical municipal. Essa sim é uma atitude louvável do poder público. Saindo do Quilombo, ainda no rastro do Jundiaí, visualizamos uma barragem e as ruínas de uma antiga hidrelétrica. Nossos olhos, acostumados a procurar coisas diminutas no meio do matagal, mal puderam identificar o pequeno degrau por onde a água poluída do Jundiaí salta para continuar a sua sina rumo ao Tietê. Uma coluna de pedras e uma mureta no lado norte do leito completavam o panorama. Certamente é, ou foi, uma construção do começo do século XX, portanto uma das mais antigas do Brasil, provavelmente abastecedora de alguma fazenda das cercanias. Não temos informações concretas a seu respeito. Tudo são suposições e, melancolicamente, arcamos com o negligenciamento de nossa História.
Armazém da antiga estação do Quilombo
Ruínas de uma hidrelétrica no rio Jundiaí
Estação de Montserrat
Enfim, após vários quilômetros de incertas estradas rurais, reencontramos o asfalto e um grande conglomerado urbano: Itupeva. Antes, contudo, uma breve parada em uma outra antiga estação da mesma supracitada Ituana: Montserrat. Está relativamente bem preservada, apesar de desativada desde a década de 1970. Trilhos não existem mais. Maiores informações sobre ela apenas no bem-vindo e utilíssimo site Estações Ferroviárias, idealizado por e para amantes das ferrovias brasileiras. Pesquisando-o descobri, inclusive, menções a duas barragens no rio Jundiaí que alimentavam a Fazenda Ermida, a mesma que, para escoar a produção de café, requisitou a construção da estação e de um ramal férreo no fim do século XIX. Seria uma delas a que fotografáramos momentos antes? A certeza é quase absoluta. Especulando, partimos de Montserrat com um sol causticante sobre nossas cabeças. De tão luzente deve ter ofuscado nosso senso de direção. Estávamos, agora, perdidos em Itupeva entre 45000 pessoas. Foi necessária mais de meia hora para que nos colocássemos de volta no caminho correto, que consistia no acesso de uma estrada de chão que passava, dentre outros atrativos, pelo apiário Santa Emília, cruzando posteriormente a SP300 e margeando os contrafortes da Serra do Japi, já em Jundiaí, onde os pneus de nossas motos se atritaram novamente com o asfalto. Sendo um sábado esperávamos menos movimento no grande centro urbano, mas enquanto passávamos sob a Bandeirantes e a Anhanguera, ganhando a Avenida dos Ferroviários e subindo para o norte, uma agoniante claustrofobia nos assolou. Hora de voltar para a terra e exercer nossa misantropia.
Serra do Japi, em Jundiaí
Capela de Nossa Senhora da Aparecida, Pico Alto, Itatiba
Construção de 1899
Saindo de Jundiaí tivemos que tomar uma chateante decisão: eliminar Jarinu do planejamento original. O tempo já estava avançado, e como em nossa rota não surgia nada de realmente emocionante optamos por subir até Itatiba pela SP360. De Itatiba rumamos ao norte via SP063, sentido Bragança Paulista. Cruzamos a rodovia Dom Pedro, por baixo, e no chamado Bairro da Moenda encontramos a estrada de terra que nos levaria ao alto da Serra dos Carneiros. Vale dizer que, mesmo estando no Circuito das Frutas, já não as víamos há muito tempo. Fomos surpreendidos, logo no primeiro quilômetro nessa nova via rural, pelo surgimento de uma capela azulada num bairro denominado Pico Alto. Tratava-se da Capela de Nossa Senhora da Aparecida, que em um triângulo branco sobre seu frontispício exibia o ano de sua construção: 1899. É uma construção centenária e que logicamente deve ter sofrido muitas reformas e mutações ao longo das décadas. A partir dela se iniciou a subida da Serra dos Carneiros, que nos levou a uma altitude ligeiramente superior aos 1000 metros, o suficiente para vermos, no horizonte, a leste, a cidade de Bragança Paulista, a Represa de Bragança e as montanhas que constituem o final definitivo da Serra da Mantiqueira. Acredito que tenha sido o ponto mais elevado da viagem e, sem sombra de dúvidas, o que mais me apeteceu. Tenho a certeza de que meus companheiros sentiram o mesmo. Descemos, bestificados com a visão, para Morungaba, onde se principiaria a derradeira fração de nossa rota pelo Circuito das Frutas.
No alto da Serra dos Carneiros
Vista de Bragança Paulista e da Serra da Mantiqueira
Estrada para Girolândia
Até gostaríamos de explorar mais pormenorizadamente a zona rural de Morungaba, mas em um certo ponto do caminho, após subir e descer por pedregosas estradas, deparamo-nos com uma mata fechada que impediu o avanço de nossas motocicletas. De bicicleta não teríamos problemas. Demos meia volta e, com muito custo, localizamos a SP360 e a Estação de Tratamento de Água de Morungaba, de onde partia a estrada de terra para a Fazenda Girolândia. Foi, sem sombra de dúvidas, a estrada mais difícil dentre todas. Pilotar em meio aos eucaliptos requer um cirúrgico cuidado. Muito barro, áreas em processo erosivo, crateras com bordas tão lisas e atrativas – literalmente para a depressão – quanto um aforisma de Nietzsche. Adicione-se a esse ambiente a chuva que já caía ao sul e ameaçava maximizar seu raio de ação, desabando sobre nós que, a 10km/h, penávamos para vencer os poucos metros que nos restavam até o próximo escopo. Afortunadamente chegamos sãos e salvos – e secos – à sede da Fazenda Girolândia, repousando à beira de seu lago de grandes dimensões, deixando os frangos d'água e os gansos ressabiados com a nossa presença. O carrapateiro, um falconídeo comum nas zonas rurais de São Paulo e Minas Gerais, observava nosso descanso de longe, acocorado sobre os postes de madeira e cercas brancas que ladeiam a represa. É um local no qual nos demoramos muito, primeiro devido ao garbo, e segundo por propiciar uma paz imensurável. O zéfiro morno provocava pequenas ondas na água e chacoalhava a vegetação rasteira na margem em que estávamos, e os eucaliptos, na margem oposta, reverberando os sons que, na cidade, passam despercebidos em meio ao caos e à premência do cumprimento de nossas obrigações. E, incrivelmente, não víamos sequer uma pessoa há mais de uma hora.
Fazenda Girolândia
Vista total do lago
Carrapateiro
Rio Atibaia
Da Fazenda Girolândia em diante podemos classificar como “o regresso”. Cruzamos mais uma vez com a rodovia Dom Pedro, por baixo, e adentramos mais uma vez o território de Itatiba ao atravessarmos uma ponte sobre o rio Atibaia, de águas amarronzadas e caudalosas devido à forte chuva que caíra momentos antes. O asfalto nos acompanhou até o centro da cidade, obrigando-nos a vencer uma área de alagamento de cerca de 100 metros que fez o que a chuva até então não conseguira, atingir-nos e encharcar-nos. Fomos nos secando ao vento, naturalmente, enquanto acelerávamos pelas imediações da Fazenda Vista Linda e por imensas plantações de caqui. Enfim reencontrávamos uma fruta no dito Circuito das Frutas. Alcançamos a Estrada Velha Valinhos-Itatiba e, em seguida, localizamos a última estrada de terra da incursão, que por entre haras e plantações de uva nos despejou diretamente na SP063. Nela pilotamos sentido Louveira, a qual alcançamos 10km depois. Chegava ao fim, juntamente com nossas energias, uma cruzada por incontáveis cenários urbanos e rurais do interior paulista, pontilhados por frutas de todos os tipos e sabores, todas adocicadas pela cooperação de forças entre a terra, o sol, a água e o homem. No retorno em definitivo, partindo da Igreja de São Judas, em Louveira, até a Praia Azul, em Americana, amargamos, agora sem escapatória, uma chuva torrencial que, feito o caqui colhido no pé e provado inadvertidamente, despertou a priori um sentimento de repulsa, mas a posteriori a sensação de que, mesmo que façamos tudo o que bem entendemos, ainda estamos subordinados a poderes maiores que os nossos e independentes de nossas vontades, como as intempéries. Por fim, foram 316km de aventura por uma região que, apesar de deter uma aura turística, não é de fácil trânsito. Suas estradas não são, nem de perto, receptivas. Mas, como de todos os lugares em que estive, alguma lembrança boa levei, e desse não internalizei uma imagem ou um causo em si, mas a sensação de estar sozinho, isolado da sociedade, mesmo que por alguns instantes. Mesmo que muito perto de minha casa.
Caquis
Plantação de caqui em Itatiba
Igreja de São Judas, em Louveira
Enquanto uns tentam explicar a alma, o espírito, o paraíso, o inferno etc, outros ousam compreender aquela que deveria ser o escopo da metafísica: a vida. É dita consciente, mas a nossa plena incapacidade em dar-lhe um sentido nos devolvem ao estado inconsciente, no sentido de não sermos assim tão pensantes a ponto de explicar o porque perambulamos nesse globo gigantesco. Em suma, acredito que nossas vidas são finitas e que nunca houve um sentido, um porquê de estarmos aqui. Dividimos com outras espécies o mesmo planeta e todas elas compatilham o mesmo propósito: subsistir da forma que as convêm. Talvez, ao questionarmos “por que estamos aqui?” estejamos fazendo a pergunta errada. O mais correto seria “o que fazer para tornar o aqui menos agoniante?”. De qualquer forma, ambos são questionamentos que, de tão complexos, podem soar retóricos. Viver é uma arte para poucos, e geralmente para aqueles poucos que não têm a didática para disseminar seus métodos.
Reitero que boa parte de nossa rota foi extraída dos mapas de Renato e Marianna, idealizadores do site Aventura a Dois. Agradecemos enormemente ao casal aventureiro.
E abaixo, um blues com ares de roça composto especialmente para as zonas rurais de Valinhos, Itupeva, Jundiaí, Itatiba e Morungaba. Em singelos acordes Luiz Paulo Blanes e eu expressamos musicalmente nossa gratidão por estarmos envoltos por terras detentoras de inúmeras belezas e surpresas.
Quanto mais perambulo por este país, mais me certifico de que unir o que é histórico e o que é natural numa mesma rota é mais incomplexo do que parece. Enquanto os meios de veiculação de imagens, vídeos e informações turísticas, em sua completude quase sempre comandados à mão-de-ferro por grandes corporações televisivas e comercializadoras de pacotes preconcebidos, tentam “vender a ideia” de que regiões ou cidades que comutem essas duas características são raras e distantes (exemplos: Paraty e Salvador), outros, como eu, procuram informações a respeito de ermos praticamente desconhecidos e olvidados pelo turismo de consumo atual, aquele que transforma lugares e seus atrativos em simples produtos a serem comprados em suaves prestações pelos que, por não augurarem desperdiçar muito tempo em pesquisas ou por ignóbil comodidade, preferem adquirir o que já está pronto. Não é questão de eu achar que minha maneira de viajar é melhor que a de quem consome. É, admito, apenas uma tentativa infrutífera de incutir um pouquinho de criticidade no já bem alienado “pensar” de grande parte dos “viajantes” brasileiros.
Companheiros de aventura
Uma viagem se principia muito antes de dar partida a um motor e se enviesar pelas estradas que levam ao destino pretendido. Ela começa semanas, meses, anos antes, e fagulham de uma simples ideia que, fomentada, vai ganhando força, delineando-se de acordo com nossas possibilidades e expectativas. Essa, que agora me atrevo a relatar, vem sendo nutrida desde a leitura do estupendo Sertão da Farinha Podre, de José Ferreira de Freitas, isso lá pelos idos de 2010. O livro, que relata a história do Triângulo Mineiro desde sua ocupação exclusiva por índios, onças e sucuris “engolidoras de gente” até os dias mais atuais, passando pelas fases bandeirantista e aurífera, em várias de suas páginas menciona o povoado de Desemboque, do qual muito ouro foi extraído e contrabandeado no século XVIII. Era de difícil acesso por estar envolto por uma cadeia intrincada de serras no vale do rio das Velhas, nos contrafortes do Chapadão da Zagaia e do grupo de montanhas que formam atualmente o Parque Nacional da Serra da Canastra. Além das informações históricas contidas na publicação, pouco se encontra de realmente substancial sobre o vilarejo, que hoje pertence ao município de Sacramento (MG), muito embora diste 70km do mesmo. Se não fosse pelas poucas fotos de alguns viajantes eu talvez nem desconfiasse que tal lugar ainda existisse. Por fim, no Carnaval de 2013, em que uma viagem ao Paraná fora programada e, na iminência da partida, cancelada, voltei minhas forças para o norte, arrebanhando para acompanhar-me Luana Romero e Luiz Paulo Bombarda Blanes. De quebra, passaríamos pela minha “menina dos olhos” no sul mineiro, o rio Grande, numa parte de seu curso ainda desconhecida por mim.
Estrada Franca-Ibiraci
A partida de Americana se deu às 7:30h de um domingo em que antevíamos um tráfego intenso na Anhanguera, que liga a capital São Paulo e o interior paulista ao Triângulo Mineiro, região essa que José Ferreira de Freitas classificou como a Mesopotâmia Triangulina, um “bico” formado pelos cursos dos rios Grande e Paranaíba, que ao confluírem formam o gigantesco Paraná. O desenho retilíneo da rodovia evoca o enfado, e o cultivo em larga escala da cana-de-açúcar em seus acostamentos contribui para a longevidade desse estado de espírito. Sem muitas emoções avançamos por Cravinhos e pela metrópole Ribeirão Preto, acessando a partir dessa última a rodovia Cândido Portinari. Passamos pelos rios Pardo e Sapucaí e pelos perímetros urbanos de Brodowski (cidade natal do artista plástico que nomeia a rodovia) e Franca, a partir da qual o cenário drasticamente se transforma. Os altos edifícios da “capital calçadista” se minimizam no retrovisor à medida que trilhamos a vicinal Franca-Ibiraci, na crista da Serra de Franca. O modo de vida simples do interior paulista e do sul de Minas Gerais começa a ficar evidente. Sobre o lombo de cavalos sitiantes perambulam, com um pano de fundo formado pelas Furnas dos Taveiras e serras dos Borges e dos Garcias. Enquanto cruzamos a divisa de Estados, testemunhamos a consolidação das plantações de café. Estamos, portanto, já em Minas Gerais, mais precisamente no conglomerado urbano de Ibiraci (mãe da árvore, em tupi), que com seus 12000 habitantes não parecia estar disposta a celebrar o Carnaval. O mesmo se passava conosco e, registrando a imponente Igreja de Nossa Senhora das Dores, ou Matriz de Ibiraci, aceleramos em direção ao vale do rio Grande, distante ainda 30km dali.
Furnas dos Taveiras e serras dos Borges e dos Garcias
Matriz de Ibiraci
Capela da Piçarra
Casa de Visitas na Vila de Furnas
Deixar Ibiraci e direcionar o foco para a região da Usina Marechal Mascarenhas de Moraes, onde pretendíamos pernoitar, é praticamente adentrar um novo mundo, no qual altas montanhas escondem vales magníficos e vistas que alcançam quilômetros de distância, mesmo com o tempo deveras nublado. O cerrado demonstra sua força, principalmente no trecho da esburacada vicinal que une o Povoado da Laje ao rio Grande. No vale entre as serras da Chapada e da Tocaia, numa região conhecida como Piçarra, encontra-se uma capela azul-turquesa e um simples cruzeiro de madeira rubra, no alto de um pequeno morro encarapitado em meio a um descampado plano. É a Capela de Nossa Senhora de Lourdes, ou simplesmente Capela da Piçarra, de 1931. Procuramos guarida no arredores da pequena edificação católica, mas a falta de opções e o grande contingente de pessoas que rondavam por ali nos incitaram a prosseguir em direção ao vale do rio Grande. Questionando os cidadãos locais, sempre dispostos a colaborar com toda a benevolência característica do sul mineiro, passamos a primeira guarita da usina e encontramos abrigo na Vila de Furnas, ou Vila da Usina Mascarenhas, um local histórico inaugurado por Juscelino Kubitschek e antigamente frequentado por políticos do alto escalão, como o governador mineiro e vice-presidente militar Aureliano Chaves e o próprio Kubitschek, idealizador de Brasília. Como citado no prólogo, a junção do histórico com o natural mais uma vez se mostrou evidente, pois pássaros, como o xexéu, a maria-faceira, o bem-te-vi-pequeno, o tucano e o carrapateiro, e aracnídeos como a temida aranha-armadeira, dividiam o mesmo espaço com as construções históricas da década de 1950, uma época que, apesar de recente, provocou grandes transformações no Brasil e clama seu devido lugar à História nacional. Afinal, pretendia-se crescer 50 anos em 5, e embora tal meta não tenha sido alcançada, muito de bom e de ruim se fez com vistas a tal.
Carrapateiro
Aranha-armadeira
Tucano
Rio Grande
Devidamente alojados e destituídos do excesso de bagagem, coletamos algumas informações da região com Marcos Williams, gerente das instalações da vila, que gentilmente nos indicou os pontos mais interessantes nos arredores da usina. Já eram 15h e não pretendíamos ir a Desemboque nesse mesmo dia, visto que as estradas que nos levariam a ele são precárias e demandariam muito tempo e esforço, obrigando-nos a postergar a faina para o dia seguinte. Some-se a isso o céu que, de nublado, passara a austeramente negro, desabando sobre nós a princípio uma refrescante garoa, e ulteriormente um acachapante aguaceiro. Restou-nos fotografar a grandiloquente Usina Hidrelétrica de Marechal Mascarenhas, antiga Usina de Peixoto, a partir de um mirante da Serra da Chapada. Logo atrás, um pouco mais elevado que a barragem, um paredão da Serra do Funil. O rio Grande, de um azul transparente, corria em seu curso natural após a usina entre as serras de Peixoto, ao norte, e a da Chapada, ao sul, esta começando metros depois da barragem e se estendendo rio abaixo, sentido oeste. Foi na da Chapada que nos embrenhamos, pois era a única estrada existente. Acabamos calhando numa ponte antiga e de simples engenharia sobre o rio Grande, da qual se obtém uma vista estupenda do mesmo. De tão transparente é possível ver rochas enormes submersas a três ou quatro metros abaixo de sua superfície. Guarnecido pela sempre presente Serra da Chapada, ao sul, e pela Serra de São Jerônimo, ao norte, foi a primeira das inúmeras visões inesquecíveis que essa viagem me proporcionou. Eu, um grande admirador do rio Grande e que ainda não tive a oportunidade de conhecê-lo por completo, a exemplo do que fiz recentemente com o Itabapoana (linkaqui), nutri ainda mais o meu desejo de um dia levar a cabo essa empreitada. Assim vivem os viandantes, irrefreáveis devaneadores, caçando aventuras dentro de outras aventuras.
Usina Hidrelétrica de Marechal Mascarenhas com o paredão da Serra do Funil logo atrás
Serras do Peixoto, à esquerda da barragem, e da Tocaia, à direita
Ponte sobre o rio Grande e montanha da Serra da Chapada
Cachoeira do clube
No lado norte do rio Grande se principia o Triângulo Mineiro propriamente dito, o adunco “nariz” de terra que, no período bandeirantista, pertenceu a Goiás. Recomendo novamente aqui a leitura, aos mais interessados pela história da Mesopotâmia Triangulina, do livro Sertão da Farinha Podre (outro nome dado ao triângulo), de José Ferreira de Freitas. Conta-nos ele que, no ano de 1915, o doutor Joaquim Inácio da Silveira, Ouvidor Geral de Paracatu, outro influente julgado da época, raptou a jovial Ana Jacinta em uma visita a Araxá. Os pais de Dona Beja, como era conhecida a moça, denunciaram o enfatuado homem ao Governador de Goiás. O Ouvidor Geral, utilizando-se de sua influência com a Coroa Portuguesa, engrossa o coro de vozes que já clamava há tempos pelo desanexamento do Triângulo de Goiás e passagem para a posse de Minas. Em 1816, o Triângulo é proclamado mineiro, e Joaquim Inácio da Silveira se safa, pois cometera um delito em um território em que as leis goianas já não o atingiriam. Cômico, com certeza, mas o certo é que não estávamos ali por causa de Dona Beja, mas sim em busca de algo testemunhável, que pudéssemos registrar em fotos. Seguindo as coordenadas de Marcos, meu xará da Vila de Mascarenhas, bordejamos o norte do rio por uma estrada estreita, desviando de pedras e cachoeiras temporárias que escorriam pelos imensos paredões da Serra de São Jerônimo. Cruzamos por vários ranchos de pescadores e nos deparamos com os portões de um clube que, cobrando-nos R$5,00 cada, nos permitiu o acesso a uma trilha de quartzito que nos apresentou à primeira cachoeira da incursão. Não era sabido o seu nome, a propósito, por mais que interpelássemos os funcionários do clube. Não gozava sequer de forma, por sinal, visto que as chuvas do dia e as dos dias anteriores descarregaram um turbilhão de água serra abaixo, transformando a queda em um irrefreado rio caudaloso vertical, na falta de palavras mais esclarecedoras para o fenômeno. Lamentando, demos meia volta e retornamos à entrada do clube, que oferecia uma bela vista dos paredões de arenito da Serra da Chapada, do outro lado do rio, e das pequenas cachoeiras que escorrem por ela em direção ao Grande, que nesse ponto já apresentava indícios do represamento pela Usina de Estreito, alguns quilômetros rio abaixo. Infelizmente é assim: onze hidrelétricas, se não construírem outras enquanto escrevo, num curso de 1300km. Pode-se dizer, sem medo de errar, que quase pouco sobrou do verdadeiro leito do rio. Foi esse o último pensamento do primeiro dia de viagem, enquanto regressávamos à vila, sob forte chuva, para pernoitarmos.
Princípio do Reservatório de Estreito
Serra da Chapada
Cachoeira temporária formada pela chuva
Xexéu
No dia 11, logo pela manhã, despertados pela algazarra dos soturnos xexéus e das espalhafatosas maritacas, saímos rapidamente da vila no encalço do distrito de Desemboque. Refizemos o mesmo caminho do dia anterior, passando pelo mirante da usina e pela ponte, mas agora subindo uma estrada mista de terra e pedra para o norte. A situação calamitosa da via provocou alguns sustos, mas os pontos de observação oportunizados pelas curvas perigosas e escorregadias fizeram os entraves valerem a pena. A altitude subia drasticamente e a visão do vale do rio Grande e das serras que o ladeiam, lá embaixo, foi inegavelmente a segunda a me marcar. O cheiro do cerrado e o capim-estrela nos envolviam, e sobrepassando pontes de madeira calhamos no alto da Serra das Sete Voltas, visualizando o Lago de Peixoto bem ao longe, ao sul. Desviando um pouco da rota, descemos para um vale à procura da Cachoeira Nascentes das Gerais, tida como a maior da região. A descida, em si, pagou mais uma vez o sacrifício. Ao norte via-se o Chapadão da Zagaia, uma mesa de pedras que escondia nosso real objetivo, já que Desemboque fica ao norte do mesmo. Na Fazenda do Danilo, após alguns minutos, deixamos as motos à sombra de goiabeiras e trilhamos, a pé, o caminho por entre o cerrado e capões de mata até a supracitada cachoeira, que com 83 metros de queda esbanjava força e imponência. Era impossível chegar a menos de 3 metros do local do choque da água com o poço. Por incrível que pareça, tal contato produzia ondas parecidas com as dos mares menos agitados. Nem mesmo Luiz Paulo, exímio nadador e bravio “domador” de quedas d'água se atreveu a uma aproximação mais íntima. Era o segundo dia de viagem e a segunda cachoeira nos derrotava. Porém, não há como nos quedarmos cabisbaixos quando emparedados pela maravilhosa Serra das Sete Voltas, ouvindo atentamente aos relatos de Danilo, proprietário da fazenda que detém a cachoeira em seu território, sobre suçuaranas, lobos-guará e tamanduás que perambulam por ali nos fins de tarde. “Os bichanos vêm atrás das minhas galinhas”, disse ele se referindo aos predadores, “mas não me aborreço. Cheguei e essas bandas depois deles”.
Vista do alto da Serra de São Jerônimo
Chapadão da Zagaia
Cachoeira Nascentes das Gerais
Pica-pau-branco
Estava eu ardendo em febre quando abandonamos o vale e recuperamos a rota no alto da Serra das Sete Voltas. A chuva do dia anterior, que nos deixara encharcados, fazia sua vítima. Deixei de sentir calafrios no alto do Chapadão da Zagaia, pouco após cruzarmos pelo povoado de Sete Voltas, mais um dos distritos de Sacramento esquecidos à própria sorte nas intrincadas serras circundantes da Canastra. Uma estrada lisa, barrenta, em meio a uma plantação de soja, fez com que Luiz experimentasse o gosto da terra mineira. Felizmente não se machucou e nem avariou sua moto. O ponto positivo foi a presença, na mesma região, do tucano-de-bico-verde, espécie cada vez mais rara devido a destruição do seu habitat natural, do pica-pau-branco e da ave símbolo de nossas aventuras, o caracará, ou carcará. Em certo ponto do caminho as estradas sumiram, muito embora meu mapa apontasse para a existência de uma. Interpelamos um cidadão, solitário em seu rústico casebre no meio do nada, e o mesmo nos informou que teríamos que atravessar uma plantação de soja, depois uma quiçaça alta e finalmente encontraríamos a estrada. Quando nos demos conta estávamos envolvidos por todos os lados pela braquiária do Chapadão da Zagaia, sem condições de continuar sem colocar em risco principalmente Luana, que vinha engarupada em minha moto. Um outro motociclista, todo enlameado, vinha em sentido contrário e nos exortou a regressar ao povoado de Sete Voltas e tentar um outro caminho que, embora mais longo, seria mais rápido e certamente menos tenebroso. Olhei para Luiz e senti que o mesmo gostaria de prosseguir, custasse o que custasse. Eu também, mas tinha que pensar em Luana. Por fim, acabamos usando o bom senso e volvendo a Sete Voltas. De lá para Desemboque foi um “tirinho” por estradas de terra hediondas, mas possíveis de se trafegar. Numa última reta, descendo o Chapadão da Zagaia pelo norte, tratores impediram nossa progressão e fomos obrigados a entrar em uma plaga revolvida, recém preparada para o plantio da soja. Quase Luana e eu, a exemplo de Luiz, conhecemos o gosto da terra mineira.
No alto da Serra das Sete Voltas
Povoado Sete Voltas
Tucano-de-bico-verde
Desemboque
Tudo é plácido quando se entra em Desemboque. Parece que até mesmo as aves velam a sua calmaria, deixando de produzir os sons que lhes são característicos. Duas ruas de paralelepípedos, algumas casas coloniais aparentemente abandonadas, um par de igrejinhas que resistem ao tempo e poucos e vagarosos transeuntes são os elementos de um cenário que, na centúria XVIII, certamente foi mais ululante. Não era para menos: havia muito ouro naquela época. De tão próspero, o Desemboque chegou a ser sede de governo e subordinar todas as outras vilas da região da Mesopotâmia Triangulina aos seus desígnios. Suas origens são incertas, mas há quem diga que tudo começou com as bandeiras comandadas pelo paulista Bartolomeu Bueno do Prado, caçador de índios e negros, que de tão sádico e carniceiro carregava consigo uma fieira com as orelhas decepadas dos corpos que ceifava a vida. Expulsaram os índios caiapós, nativos da região, encontraram ouro e deram início ao povoado. O certo é que era um local de difícil acesso (e ainda é), visto ser a primeira vila propriamente dita do Triângulo Mineiro (na época goiano), e muito do ouro foi roubado e contrabandeado. A Coroa Portuguesa exigia um quinto (“o” quinto) de tudo o que era extraído, mas a fiscalização, quando demonstrou que se tornaria mais eficaz, encontrou apenas os últimos resquícios da pedra preciosa, responsável pela ascensão e pela ruína de todo e qualquer ponto onde fora descoberto até então. Desemboque, subitamente, desfigurou-se. Os moradores, nômades do ouro, debandaram à procura de novos veios. Deixou de ser centro de poder, pois ali já não havia produção intelectual e concentração de riquezas.
Remanescente da arquitetura colonial
"Seo" Lázaro conosco
Igreja do Rosário, de meados do século XVIII, construída para os escravos
Detalhe da Ig. do Rosário
Logo ao apearmos das motos fomos recepcionados pelo senhor Lázaro, único habitante local que se encorajou a conversar com três pessoas em estado lastimável, cobertos de barro, puaca e carrapichos de diversos formatos. O simples homem, trajando roupas surradas e um chapéu de palha, contou-nos um pouco da dinâmica sonolenta de Desemboque, vilarejo de onde partiu para o estrelato nacional o ator Lima Duarte. Explicou-nos um pouco sobre as duas igrejinhas que ainda resistem ao tempo, uma construída para os brancos, em 1743, e a outra, na parte mais alta da vila, para os negros, que não podiam frequentar a dos brancos, datada de 1750, aproximadamente. Ambas são simples capelas de barro, sendo a primeira chamada de Nossa Senhora do Desterro do Desemboque e a segunda de Nossa Senhora do Rosário. “Seo” Lázaro nos exortou a adentrar a dos brancos e conhecer o seu interior já muitas vezes saqueado. Assim o fizemos, despedindo-nos do homem que, como todos os outros de Desemboque, sobrevive pela agricultura de subsistência. Vencendo o pequeno portão férreo e enferrujado, desviamos dos túmulos desorganizados dispostos pelo espaço defronte ao átrio da igreja de Nossa Senhora do Desterro do Desemboque e entramos pela porta lateral do templo, registrando seu simples altar datado de 1762. É todo entalhado em madeira com detalhes dourados, numa rusticidade que Luana e eu não testemunhamos em Ouro Preto e Mariana, onde as igrejas se rebuscaram em demasia devido à ambição e à competição entre as famílias ou grupos que as erigiam. Enfim, foi a última visão de um local histórico no qual se gasta apenas uma hora para conhecê-lo por completo. Logicamente a região, por estar nos pés de serras, esconde cachoeiras e vales magníficos, mas infelizmente não teríamos tempo de procurá-los nessa oportunidade. Destarte, é sempre bom deixar um motivo para voltar.
Igreja de Nossa Senhora do Desterro do Desemboque, de 1743
Cemitério defronte à igreja
Altar entalhado em madeira
Adeus, Desemboque
Saindo do vale do Araguari, antigo rio das Velhas, subimos novamente ao alto do Chapadão da Zagaia e rumamos sentido oeste, vencendo mata-burros, buracos, lama e revoadas de canários-da-terra. Carrapateiros, curicacas, carcarás e seriemas eram vistos esporadicamente. Após 50km de estradas de chão alcançamos o asfalto das imediações da cidade de Sacramento, ao qual pertence o Desemboque. Já sentindo a umidade do rio Grande, descemos ao vale de mais uma de suas represas, a de Jaguara, antiga conhecida da viagem que Rodrigo Gil e eu fizemos em 2012, quando passamos por ela a caminho de Três Marias (linkaqui). Passando a ponte, voltamos para São Paulo, pois de Ibiraci em diante o rio demarca a divisa entre os Estados. Em Rifaina, acessamos uma outra estrada de chão que, circundando a Serra da Chave, nos conduziu até o asfalto que, se o seguíssemos em direção ao norte, daria acesso a Usina de Estreito. Como rumamos sentido sul e posteriormente ao leste, acabamos circundando Claraval e chegando ao Povoado da Laje, citado no primeiro dia de viagem. Daí pra frente foi necessário apenas refazer o percurso, descendo ao vale da Capela da Piçarra e embicando para o vale do Reservatório de Peixoto, alcançando, exauridos e maltrapilhos, no principiar da noite, a Vila de Furnas, onde mais uma vez pernoitaríamos. Lembrei-me das palavras de Marcos Williams. “Políticos e pessoas convidadas famosas faziam festas aqui e, no outro dia, todas as roupas eram queimadas para não serem reutilizadas ou roubadas e comercializadas pelos empregados ou por quem quer que seja”. Não nos aguardavam com festa. Na verdade, não nos aguardavam. Ainda bem. Nosso Carnaval não anseia festividades, mas sim novos ermos para continuar o processo de (re)descobrimento do Brasil. Restou-nos, então, descansar, para no dia posterior, já a caminho de casa, conhecer novas paisagens.
Carcará
Serra da Chave, em Rifaina
Adeus, Vila de Furnas
No dia 12 de fevereiro, despertados pelos barulhentos xexéus, despedimo-nos de Marcos Williams e da Vila de Furnas para darmos início ao difícil ato de regressar. Aproveitamos ainda uma última dica do benevolente homem, um ser humano raro nos dias atuais. Voltamos para a ponte sobre o rio Grande, mas não a atravessamos. Bordejamos, desta feita, o rio pelo lado sul, por uma estrada que dá acesso aos ranchos instalados nos contrafortes da Serra da Chapada. No terceiro mata-burro, encostamos as motos e seguimos, a pé, por uma trilha entre a mata atlântica fechada, beiradeando um dos inúmeros cursos d'água que descem dos pontos culminantes da serra. Em pouco tempo topamos com a gélida Cachoeira dos Ranchos, que com mais de 40 metros de queda escorria por um paredão de pedras enegrecidas e quase intocadas pela luz solar. Foi uma despedida à altura da magnífica região de Marechal Mascarenhas, que guarda em seus domínios mais de 150 cachoeiras, serras intrincadas, pessoas acolhedoras e paisagens que mesclam o que é ainda natural e o que já foi modificado pelo homem, mas que de uma maneira ou de outra mantém os genes garbosos das épocas da Mesopotâmia Triangulina. Certamente Luiz Paulo, Luana e eu retornaremos algum dia para explorar o que o curto tempo dessa viagem nos furtou de conhecer. Voltando para nossas motos, como que dizendo adeus, um pássaro cada vez mais raro na vida selvagem livre, o sabiá, entre as folhas e a escuridão da mata atlântica se deixou fotografar. Devido às condições de pouca luz, a imagem ficou horrenda, mas serviu como um registro de que a vida, apesar de todos os empecilhos, ainda se esconde para, quem sabe um dia, reivindicar seu lugar no mundo.
Cachoeira dos Ranchos
Detalhe da queda de 40 metros
Sabiá-barranco
Vista da Serra da Tocaia
Partindo em definitivo de Marechal Mascarenhas, enveredamo-nos por uma estrada de terra nas proximidades da Capela da Piçarra, subindo a Serra da Tocaia e obtendo belas vistas da Represa de Peixoto. Quando nos demos conta já estávamos em território pertencente ao município de Cássia, contemplando um imenso paredão de arenito do qual descia, longínqua, uma volumosa cachoeira. Conversamos com um senhor, do qual esqueci-me de perguntar a graça, e pedimos informações para chegar à queda d'água, mas o mesmo nos dissuadiu argumentando que não existiam trilhas e que o gado das pastagens adjacentes era potencialmente perigoso. Segundo meus mapas estávamos no sopé da Serra do Itambé. Para não sairmos de “mãos vazias”, o homem nos indicou uma outra cachoeira, longe ainda uns 5km dali, que poderíamos acessar sem problemas. Seguimos, então, pela estrada e, numa venda, enquanto Luiz se deliciava com os “paiêros” artesanais da região, obtive coordenadas para a Cachoeira do Itambé, presente na mesma serra. Fomos até a mesma e, com muitas dificuldades, chegamos a um mirante defronte a queda de 30 metros de altura. O engraçado é que o mesmo homem que nos informara sobre a cachoeira pouco tempo depois veio dar uma olhada para se certificar de que a acháramos, em mais uma mostra de que o povo do sul mineiro carrega um espírito de benevolência cada vez mais raro nos conturbados ambientes urbanos das grandes cidades de São Paulo, como a em que vivo. Foi um local em que nos demoramos em demasia, como que a retardar o regresso definitivo. Afinal, dali para frente seguiríamos pelo asfalto e por áreas mais urbanizadas. O bucolismo se despediu com a visão das águas atingindo com força as rochas triangulares dos contrafortes da Serra do Itambé. Adeus, vale do rio Grande.
Serra do Itambé
Cachoeira do Itambé vista da estrada
Cachoeira do Itambé
O regresso
Por volta das 16h passamos pelo centro de Cássia, pelos perímetros urbanos de Pratápolis e São Sebastião do Paraíso, onde apeamos para descansar pela última vez em solo mineiro, às 17:30h. Na sequência vieram Arceburgo, o rio Canoas e Mococa, já no Estado de São Paulo. Daí pra frente foi só seguir o traçado retilíneo da SP340 até a cidade de Mogi Mirim, onde pendemos sentido Engenheiro Coelho e Limeira. Na Anhanguera, com a noite nos envolvendo, pilotamos até a Praia Azul, em Americana, findando a viagem de Carnaval com o odômetro parcial de minha moto marcando 1000km rodados. Não foi uma incursão longa, mas os perigos das estradas de chão das confusas serras do sul mineiro nos estafaram feito uma viagem de 3000km. Logicamente toda a beleza do que foi contemplado sobrepujará, em minhas memórias, o sacrifício empregado no decorrer da aventura. Voltarei àqueles ermos, certamente, para melhor desbravar tudo o que têm a oferecer. E para aqueles que odeiam as comemorações boêmias que permeiam o nosso feriado de Carnaval, que se dirijam para aquelas bandas, onde festanças praticamente inexistem e a paz é deveras constante. Quem não vê emoção em festividades pode simplesmente estar procurando-a em um local indevido. A alegria, quase sempre, não se encontra na ébria e momentânea felicidade de uma festa, mas sim no ato estático de parar e observar, do alto de uma serra, um mundo aparentemente pacífico, e que só entrará em guerra a partir do momento que para ele regressarmos, pois somos, em suma, os criadores e perpetuadores do caos. Nós, os seres erroneamente chamados humanos, lembrando a fala de um outro querido autor. Mas essa já é outra estória.
“O silêncio era absoluto, apenas entrecortado pela onomatopeia que caracteriza as matas e cerrados virgens: de fato, o que se podia ouvir eram o assobio do vento, as “vozes” dos animais, representadas por pios, cânticos, trinados ou chilreios dos pássaros, o barulho das fontes, o “urro” das cachoeiras, o uivo de lobos, o miado característico das onças, o tique-taque dos dentes das queixadas... o tombo da caça presa pelas garras da onça faminta... Às vezes, aqui e ali, o silêncio sepulcral era interrompido pelo ranger de árvores gigantes, envelhecidas pelo tempo e bravamente retorcidas pelo redemoinho que sacode ou pelo tufão que ruge... ou pelo pio triste das perdizes que povoam as campinas... pelos guinchos afinados dos micos, até o “ronco” ou “mugido” dos macacos maiores, anunciadores da chuva que vem ou do frio que se vai... ou pelo estalido seco ou abafado do trovão que prenunciava as chuvas ou pelo farfalhar das folhas levemente agitadas pela brisa ou balouçadas loucamente pelo vento que ruge e avassala”. O Triângulo Mineiro, hoje diferente do que era, ainda continua belo, José Ferreira de Freitas, mas em alguns pontos ainda praticamente inacessível. E, como os bandeirantes, nós e outros, “afrontando perigos, contornando cachoeiras, deslizando as canoas sobre toras roliças de madeiras nos varadouros, enfrentando as onças traiçoeiras, as serpes venenosas, os marimbondos e abelhas escondidos, e as gigantes cobras sucuris engolidoras de gente”, continuaremos desbravando-o.
Sigo compondo meus curtos blues, como o que segue abaixo em referência ao rio Grande e ao Desemboque. É uma tentativa vã de recuperar a paz e a satisfação que eu sentia em viver quando a responsabilidade era quase nula, em meus tempos de menino, quando somente a sombra de uma árvore piracicabana, um violão e uma lasca de uma ideia eram o suficiente para eu ocupar satisfatoriamente o meu tempo.