sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Cunha e Paraty – de 12 a 14 de outubro de 2012


Mais eficaz do que qualquer outra forma de expansão da mente é ele, o ato de viajar. Há quem prefira drogas, a literatura ou a televisão, apenas para citar alguns, mas todos estes falham no quesito abrangência de sentidos. Tóxicos alienam a mente. A literatura, apesar de muito importante para a aquisição de criatividade e conhecimento, peca por muitas vezes não situar o leitor em uma realidade que deveria ser vivida e desmistificada por ele, sendo, portanto, mais lúdica do que propriamente construtiva e emancipatória. A televisão e outros veículos de mídia, por sua vez, são vieses pelos quais um mundo fantasioso, idealizado por uma minoria, é inoculado nas classes inferiores, travestindo um papel prepóstero ao que realmente deveria servir, que é a informação, e não a sacramentação das diferenças entre seres que gozam de estruturas físicas e psicológicas semelhantes e que, por esses motivos, deveriam ser pesados na mesma balança pelas superestruturas de uma sociedade. O viajar consciente, contrário a todos os supracitados, eleva a visão, a audição, o olfato, o paladar e, caso o viajante não seja um completo misantropo, também a interação entre culturas diferentes, esta última imprescindível à socialização. O melhor de tudo é que gera uma rotina de mapeamento de diferentes realidades, derrubando por terra aquela noção “paulista” de que o mundo é apenas “São Paulo”, como se todos os outros Estados e municípios fossem parecidos ou inferiores ao magnânimo centro econômico-cerebral do Brasil.  
Companheiras de viagem
Queria eu voltar a Serra do Mar. É nela que se encontram os dez por cento restantes de toda a mata atlântica brasileira. É nela que os parques estaduais e nacionais, e algumas reservas particulares, ainda empunham a bandeira da preservação, num último grito desesperado pela manutenção de nossa riqueza natural tão explorada desde o advento dos portugueses a Terra de Vera Cruz. Por falar em nossos “colonizadores”, suscita-se em meu imo o devaneio de reaver parte da nossa nefasta História, que teve como palco, em sua fase aurífera no começo do século XVIII, o território dos municípios que visitaríamos: Cunha, em São Paulo, guarnecida pelas Serras do Quebra Cangalha, da Bocaina e do Mar; e Paraty, na planície litorânea do Rio de Janeiro. Ambos foram povoados originados a partir de andanças pelo Caminho Velho do Ouro, antiga trilha que os índios guaianases palmilhavam para vencer as imponentes serras da região. Os gajos oportunistas e sua sede pelo ouro recém-descoberto nas minas de Ouro Preto e redondezas escoavam o luzente metal por esta mesma trilha até o Porto de Paraty, onde ulteriormente era transportado de nau para São Sebastião do Rio de Janeiro, hoje apenas Rio de Janeiro, capital fluminense. O caminho inverso supria a necessidade por escravos, alimento e animais para tração. Faríamos a primeira – ou última – parte da rota, hoje conhecida como Estrada Real (Caminho Velho), de Taubaté a Paraty, vencendo a Serra do Mar. Comigo iria Luana e suas joviais coragem e resistência.
Represa de Atibainha
Partimos de Americana, do bairro Praia Azul, às oito e meia de uma manhã sisuda de outubro. O tímido azul entre nuvens contrariava as sempre fidedignas previsões do CPTEC, que no dia anterior indicava chuvas incessantes para todo o fim de semana. A verdade é que chovera a noite inteira, mas o astro-rei parecia não querer entregar-se sem luta, reivindicando seu posto matutino. Esperançosos com esse espírito, Luana, eu e minha moto adentramos a Rodovia Anhanguera em um de seus trechos mais perigosos, entre Americana e o acesso a Dom Pedro. Nesta última fomos avançando vagarosamente, assolados pelas terríveis rajadas de vento lateral comuns no território de Campinas. Atravessamos, infelizmente a um custo elevado, dois postos de pedágio e apeamos pela primeira vez após uma ponte sobre a Represa de Atibainha, último local em que ainda era possível notar o azul celeste. Daí pra frente um gotejar fino e intermitente foi nossa insistente companhia enquanto cruzávamos pontes e mais pontes sobre represas do rio Atibaia, a Pedra Grande (palco de saudosas aventuras com meus companheiros Luiz Paulo Blanes e Levi Vieira) e o derradeiro pedágio em Bom Jesus dos Perdões. Naturalmente optamos, para rumar ao norte, pela Carvalho Pinto, notadamente mais expressa e menos sujeita a engarrafamentos que a Dutra. Mais um par de pedágios e encontramos quem 55km antes evitáramos: a mesma Dutra. Nela permanecemos até o município de Guaratinguetá, imediatamente após Aparecida do Norte, à qual um grande número de romeiros caminhava em direção pelos perigosos acostamentos da 116, mesmo sob a garoa gelada.

Cunha
   
SP171
A tônica, deixada a Dutra, passou a ser os desenhos sinuosos necessários ao avanço por entre os montes e vales albergantes de rios, córregos e ribeirões que compõem a bacia do Rio Paraíba do Sul. Estávamos, agora, na SP-117, da qual mais de 70% de seu comprimento total são derivados do Antigo Caminho do Ouro, hoje conhecido como Estrada Real. Ele se interligava ao Caminho Geral do Sertão, proveniente do Planalto de Piratininga, hoje cidade de São Paulo, e partia para o sertão de Minas Gerais, de onde o ouro era extraído. Em pouco mais de meia hora vencemos os 60km que separam Guaratinguetá do portal de Cunha, saindo, ademais, de uma altitude de 500m para uma de 1100m. A chuva apertou e, escorregando no calçamento de paralelepípedos, apeamos de minha moto à caça de guarida para a noite. Com a jactância daquele clima nada poderíamos fazer na zona rural da cidade, onde estão os atrativos que nos propuséramos a conhecer. Restava-nos explorar, a pé, a zona urbana de pouco mais de 12 mil habitantes – outros 12 mil se encontram espalhados pelas fazendas adjacentes – e sua arquitetura colonial derivada dos tempos em que este era um ponto de parada de quem provinha do Porto de Paraty e se embrenhava pelas truculentas matas da Serra do Mar, numa época passada trilhadas apenas pelos nativos guaianases.

Igreja do Rosário, construída em 1793 para os escravos
   
Alusão ao Caminho do Ouro
O primeiro local que cativou nossa vista no pequeno centro histórico de Cunha, calçado por paralelepípedos como a grande maioria deles, foi um templo católico que, apesar de suas dimensões reduzidas, prendeu nossa atenção pelo fato de estar aparentemente descuidado quanto a sua pintura, mas transpirando passadismo ao evocar lembranças de figuras de carcomidos livros de História que eu costumava manusear em meus anos juvenis. A Igreja do Rosário, alva, com portas e janelas de madeira pintadas de um azul encorpado e beirais contornados de um amarelo quase bege demonstravam uma simplicidade que não era muito comum em 1793, época em que foi construída. Há uma explicação para isso: foi edificada exclusivamente para os escravos que trabalhavam nas fazendas locais. O café, após a diminuição considerável das reservas de ouro em Minas Gerais, passou a ser o produto brasileiro mais valioso, isso no fim do século XVIII e durante todo o século XIX. Por Cunha passavam as tropas que transportavam os louros da cafeicultura. Foi a época em que a cidade mais se desenvolveu, pois muitos por ali paravam para usufruir do clima ameno e do solo fértil de seus 1100m de altitude. Foi a época, doravante, que mais careceu de escravos, o que “explicava” a necessidade de uma igreja exclusiva aos mesmos, isso na “cabeça” dos colonos.  

Marco da Estrada Real a 1320m de altitude, na Serra do Mar, com a Cachoeira do Mato Limpo ao fundo

Cachoeira do Mato Limpo
Nada mais poderíamos fazer em uma sexta-feira chuvosa que já se despedia. Logicamente as partes históricas de Cunha apeteciam a Luana, mas não completamente a mim. Estava mais disposto a conhecer cachoeiras, vales e picos. Com esse intuito, no sábado, logo pela sereníssima e “serenosa” manhã, subimos a Serra do Mar pela continuação da SP171. A divisa com o Estado do Rio de Janeiro não estava longe, e dançando com a moto por entre as traiçoeiras curvas chegamos a ela. O altímetro marcava, nos píncaros da serra, 1523m de altitude. Devido ao tempo nublado a vista estava prejudicada, mas a sensação de cegueira somada à vertigem foi única. Estar no alto, olhar para baixo e não ver absolutamente nada tem um efeito semelhante ao da vaidade na personalidade de muitos seres humanos. Devaneios à parte, imediatamente após a placa demarcatória da divisa de Estados o asfalto se encerra, visto que se principia a descida em direção a Paraty por dentro dos domínios do Parque Nacional da Serra da Bocaina. Desceríamos para Paraty, mas não hoje. Voltamos sentido Cunha e apeamos em uma queda d'água por nome de Cachoeira do Mato Limpo, parelha à estrada. Com 15 metros em sua parte mais visível, é rota de vazão das águas que brotam no interior da Fazenda Mato Limpo e conta com um marco da Estrada Real, indicando que os que passavam pelo Caminho Velho também eram agraciados com a sua beleza. O manso ribeirão atravessa a rodovia por debaixo de uma singela ponte e continua vale abaixo, formando novas quedas, seguindo seu caminho até desembocar em definitivo no Rio do Taboão.

À direita, uma queda menor
   
Cachoeira do Paraibuna
Voltando para Cunha, sempre pela espinha dorsal SP171, passamos nossos olhos por um monumento, à beira da estrada, a Paulo Virgínio, agricultor cunhense que se negou a delatar a posição das tropas paulistas às tropas de Getúlio Vargas durante a Revolta Constitucionalista de 1932. Logicamente foi torturado, obrigado a cavar a própria cova e assassinado para preenchê-la. A essa altura eram tantas informações históricas relativas a Cunha que eu praticamente desistira de conhecer seus aspectos naturais. Quando já me dava por vencido, eis que visualizo uma placa com indicações para o Parque Estadual da Serra do Mar, Núcleo Cunha-Indaiá. Aquela coragem muitas vezes maléfica me incitou a adentrar a Estrada do Paraibuna, totalmente de terra, para tentar a sorte nos domínios de uma área protegida de mata atlântica. Seriam 20km de terreno judiado pela chuva, no qual lamaçais, especialmente nos últimos 5km anteriores à portaria do parque, acautelavam a progressão que, por sinal, já era bem lenta. A tensão foi quebrada apenas quando apeamos em mais uma queda d'água parelha à cerca de uma propriedade privada, mas totalmente acessível. Tratava-se da Cachoeira do Paraibuna, do próprio Rio Paraibuna, que com o Paraitinga dão origem a um dos mais importantes e extensos rios do Brasil: o Paraíba do Sul. Com pouco volume, 12 metros e um poço de águas amarronzadas, não é imponente, mas impressiona por sua largura, escorrendo suas águas, com a ajuda oportuna da gravidade, em forma de leque de ponta-cabeça. Aranhas multicoloridas tecem suas teias no gramado derredor ao poço. Por mais que eu tenha enviado mensagens eletrônicas para o pessoal do Butantã, ainda não me responderam qual é a espécie do aracnídeo.


Cachoeira do Paraibuna: mais imagens

Núcleo Cunha-Indaiá
 Sem atolar, por incrível que pareça, alcançamos a portaria do Núcleo Cunha-Indaiá do Parque Estadual da Serra do Mar. O sereno e o chuvisco deixaram de ser complacentes e o aguaceiro apertou. Conversamos com membros da equipe de manutenção do parque, visualizamos algumas fotos no Centro de Visitantes e partimos, a pé, pela única trilha disponível devido ao tempo: a Trilha do Rio Paraibuna. Esta margeia o mesmo rio na qual observáramos a cachoeira supracitada. A chance de vermos bichos era ínfima, devido ao clima tempestuoso, mas nem por isso deixamos de palmilhar seus 1700m de extensão. São vistas sucessivas quedas ao longo do rio, não maiores do que cinco metros cada, com destaque para a Cachoeira do Barracão, uma espécie de corredeira entre pedras arredondadas amontoadas. Bromélias, araucárias e palmiteiros-jussara se destacam em meio à densa mata ciliar. Pequenos anuros cruzavam a trilha visando alcançar o úmido interior da mata, e algum cuidado era necessário para não pisarmos neles. Girinos às centenas se espremiam em pequenas poças d'água formada sobre os sulcos das enormes rochas presentes no leito do rio. Enfim, um cenário típico da mata atlântica, que já chegou a ocupar 80% de todo o território paulista e hoje subsiste com meros 6%. Todo o esforço dispendido para sua preservação é, a meu ver, meritório de exortativos encômios.

Cachoeira do Barracão

Rio Paraibuna
   
Igreja de Nossa Senhora da Conceição
Duas horas no interior do Parque Estadual da Serra do Mar foram suficientes para que meu medo de enfrentar a Estrada do Paraibuna, no caminho de volta para Cunha, adquirisse proporções abissais. Quando viéramos, o barro se mostrou um impetuoso empecilho. Agora, caíra ainda mais água e o potencial “escorregativo” de seu solo certamente se maximizara. Contrariando as expectativas, tudo transcorreu da maneira mais suave possível. Atravessamos a Vila de Paraibuna, com sua capela singela e um campo de futebol de pequenas dimensões, e calhamos novamente na SP171. Descemos para Cunha, observando-a enquanto perdíamos altitude nas serpenteantes curvas da serra. Na zona urbana não mais chovia, e desta feita pudemos fotografar a Igreja Matriz, inegavelmente maior do que a do Rosário. Leva o nome de Nossa Senhora da Conceição e foi construída em 1731. Por ser de cunho barroco não é tão deslumbrante quanto as suntuosas igrejas de São João del Rei, mas mesmo assim nos remete ao passado, numa época em que tudo era mais difícil mas que, nem por isso, deixava de ser idealizado e concretizado. O interior da edificação, praticamente todo talhado em madeira e pintado a cores vivas, é um bom exemplo do esforço que era empregado na construção de templos religiosos no século XVIII. De tão carismática, a igreja e a Praça Cônego Siqueira, que a circunda, são os pontos de maior trânsito de pessoas de Cunha. Como era de se esperar, o Caminho do Ouro passava por aqui. Há até uma alusão a ele no calçamento moderno de uma das vielas comerciais que se ligam à praça.  
Interior da Igreja Matriz

Zona rural de Cunha
Sob chuva dormimos, e abrigados por um céu azul despertamos. Era o dia D, um domingo em que o clima parecia querer ceder aos nossos objetivos. Incontinenti nos despedimos da zona urbana de Cunha e acessamos a zona rural por um trecho bem preservado da Estrada Real, chamado localmente de Estrada do Monjolo. Os marcos em marrom, que se estendem na vertical a pouco mais de um metro, facilitam bastante a progressão pela estrada de terra. Por entre vales, pontes de madeira e fazendas vencemos cerca de 9km até a porteira semiaberta do sítio em cujo território se encontra a Cachoeira do Desterro. Caminhamos até ela por uma trilha que, numa primeira parte, atravessava um pasto. À direita, o Rio Jacuí, segundo a carta topográfica do IBGE, formava uma ilhota ao bifurcar-se à procura de um caminho por entre o vale. Metros abaixo, a cabeceira da cachoeira, de sólidas pedras acinzentadas, delineavam o formato das duas quedas d'água de Desterro. Prosseguindo pela trilha, agora através de uma mata mais densa, obtivemos uma vista frontal de ambas as quedas, com 15 metros, sendo a da esquerda mais poderosa e a da direita mais parcimoniosa. As róseas caliandras, aos montes, enfeitavam ainda mais o cenário, que me lembrou as quedas do Córrego do Rebojo, em Tambaú. No mapa, ainda havia mais uma alguns quilômetros à frente. Aproveitarmo-nos íamos do promissor tempo.  
Cachoeira do Desterro
Caliandras

Cachoeira do Pimenta
Meu mapa estava certo. Detrás do arame farpado e dos mourões da cerca, 4km adiante da Cachoeira do Desterro, visualizamos as várias quedas que formam a Cachoeira do Pimenta, também no curso do Rio Jacuí. São mais de 70 metros de desnível, desde a primeira queda, no topo, até o poço que se forma após a última. Por não ser em queda livre, como a do Desterro, não é tão exuberante, mas carrega um peso histórico considerável por alimentar uma antiga usina hidrelétrica que supria a demanda de energia da cidade de Cunha. Poderíamos caminhar pela trilha lateral às quedas, fotografando-as uma por uma, inclusive um museu que há por lá, mas em cachoeiras como essa, que caem diagonalmente e não em 90º, a beleza se distingue no conjunto cênico, e não em cada pedaço registrado separadamente. Preferimos, portanto, prosseguir, e toda esse azáfama era fruto de uma ideia um tanto quanto inconsequente que nos assolara no sábado: descer pelo trecho calamitoso e famigerado da Estrada Real, inserido no Parque Nacional da Serra da Bocaina, para Paraty. Terminamos o trajeto, portanto, pela Estrada do Monjolo mesmo, e nossa coragem em realizar tal empreitada começou a ser testada. A chuva, sem sobreaviso, reaparecera, fina e constante. Com o barro dificultando calhamos na SP171, a 1300m de altitude. No asfalto, passamos pela estrada de acesso a Pedra da Macela, mas não a adentramos pois, subir a 1800m de altitude com os céus fechados, não nos oportunizaria ver a Baía de Paraty em toda seu esplendor. Um dia voltaremos para visitá-la, certamente.

Cachoeira do Pimenta: primeiras quedas
   
Adeus, Cunha
Mil e quinhentos metros de altitude. Divisa São Paulo/Rio de Janeiro. Desse lado, a segurança do asfalto. Do outro, o barro e os buracos da Estrada Real. Estanquei a moto, hesitando por um minuto ou dois, e indaguei Luana sobre sua disposição em sofrer. Afinal, desceríamos 9km por uma estrada incerta, desconhecida, popularmente conhecida por destruir o assoalho de carros de passeio comuns. Com o aval dela, e munido daquele brio que infelizmente não me abandona, acelerei minha moto e principiamos cautelosamente a descida. Eram muitas pedras soltas, vincos, canaletas formadas pelo escoamento natural da água da chuva, crateras com mais de dois metros de diâmetro e, o que o mais temia, barro. Muito barro. Em alguns trechos achei por bem passar sozinho com a moto. Luana descia a pé os poucos metros em que o solo pegajoso pedia leveza para sua transposição. A estrada, uma cicatriz de quatro metros de largura aberta na imensidão da mata atlântica da Serra do Mar, mas por incrível que pareça neste ermo pertencente ao Parque Nacional da Serra da Bocaina, em conjunto com a chuva, tanto nos amedrontaram que fotografar foi impossível. A tensão e a concentração se voltaram ambas exclusivamente para a íngreme e sinuosa descida. Um fusca branco subiu, em sentido inverso ao nosso, sofregamente subia, bailando ao sabor dos buracos e da lama. No fim das contas, encontramos asfalto 9km depois. Foram necessários 90 minutos para derrocá-los.

Paraty

Centro Histórico
A continuação do caminho, a RJ165, também é parte integrante da Estrada Real, mas por ser asfaltado, e também por estarmos ensopados, não mereceu olhares pormenorizados. Passamos pela multidão que se aglomerava na entrada para a trilha da Cachoeira da Penha e atravessamos uma ponte sobre o Rio Perequê-Açú, cuja 165 segue paralela a partir de então. Em pouco tempo contornamos a rotatória da BR101 e apeamos nas proximidades do Centro Histórico de Paraty. Vestimos roupas secas e, a pé, palmilhamos boa parte das três dezenas de quarteirões que abrigam uma importante parte de nossa História. Nestas paragens doadas por Maria Jácome de Melo, em 1646, começou a ser edificada uma vila pela qual, no começo do século XVIII, mais precisamente a partir de 1703, o ouro era transportado de barco para São Sebastião do Rio de Janeiro, e de lá levado para Portugal. Foi, por este motivo, planejada para melhor se adequar a este propósito. Suas ruas de pé-de-moleque são banhadas pela maré alta que, na época em questão, levava para o mar todas as impurezas de suas vielas, basicamente de fezes de animais de tração, diminuindo o risco de transmissão de doenças. Sua arquitetura colonial muito bem preservada, onde casas geminadas coexistem com igrejas que muitos dizem inacabadas, contrasta com a modernidade dos aparelhos eletrônicos carregados por turistas estrangeiros e brasileiros. São sobrados e mais sobrados alinhados quase que perfeitamente, diferindo apenas no que se refere à altura, essa variando bastante de uma casebre para outro.

Calçamento pé-de-moleque
   
Igreja de Santa Rita
A Igreja da Santa Rita, defronte a Baía de Paraty, remonta ao ano de 1722, e em suas proximidades um sujeito caracterizado de escravo, de corrente nas mãos, eloquentemente brada palavras sobre a História da cidade. Não dá para dizer que tudo é verdade, mas o espetáculo é interessante. O engraçado é ele se queixando de que os turistas preferem fotografá-lo a guardar suas informações. Numa rápida inspeção localizamos alguns canhões de ferro, apontados para o mar, relembrando que Portugal acreditava na localização estratégica de Paraty na defesa das terras brasileiras. Não era raro o ataque de piratas aos barcos que transportavam o ouro daqui para o Rio. Foi isso que inviabilizou o Caminho Velho, obrigando um Caminho Novo, que partia direto do Rio de Janeiro para o sertão de Minas Gerais, a ser aberto pela coroa portuguesa, a partir de 1710, fadando Paraty ao declínio. Não obstante, sua aura jaz intacta, até hoje, e nos contornos do Atlântico chegamos ao extremo norte do Centro Histórico, mais precisamente à foz do Rio Perequê-Açú. Pelo caminho, as importante igrejas de Nossa Senhora das Dores, construída em 1800 com um galo férreo no topo de sua única torre, e a de Nossa Senhora dos Remédios, ou Matriz, de 1873. Barcos coloridos e de nomes cômicos, ancorados, pareciam nos encarar enquanto atravessávamos a ponte em direção ao Forte Defensor Perpétuo, afastando-nos do Centro Histórico.

Baía de Paraty
Igreja de Nossa Senhora das Dores, construída em 1800
   
Forte Defensor Perpétuo
Alguns minutos de caminhada, uma leve subida pelo asfalto, ainda a pé, e adentramos uma trilha que culminou no forte. Não passa de um simples casarão, datado de 1703, rodeado por enormes canhões que garantiam a segurança de Paraty por estarem localizados em um ponto estratégico. A vista da Baía de Paraty é ampla, e mesmo o céu sisudo não foi capaz de esmaecer seu brilho. Luana soltou seu capacete após um escorregão nas pedras do costão rochoso que dá acesso às águas do mar e, por pouco, não o perdeu para o Atlântico. Agradecendo um tufo de gramíneas que o segurou, subimos de volta para o forte para fotografá-lo e, mais do que isso, aproveitar nossos últimos instantes na cidade histórica. Já eram passadas 15h de domingo e a chuva, nossa fiel companheira durante os três dias em que nos aventuramos por Cunha e Paraty, regava com vigor nossas cabeças. Satisfeito estive eu lá no alto da Serra, em Cunha, e na Estrada Real, na Bocaina, e pulsante estava agora Luana e seu particular interesse na História vista, contada e lida de nosso país. Aprendemos em demasia, baseados em provas visuais, quando viajamos com a mente aberta não somente para o atual, mas também para o antigo. Poderíamos ver Paraty como todo a veem: casas velhas com restaurantes requintados, comida cara e turistas estrangeiros. Optamos por uma abordagem discrepante do senso comum. Nas palavras de Luana Romero, “uma história, uma vida que, por mim, nunca foi vivida, mas que me contenta por preservar suas simples casas descascadas e janelas coloridas e me fazer imaginar”.

Adeus, Paraty

Seremos História?
Exatamente às 16h de domingo deixamos Paraty. Reavemos nossa motocicleta, aceleramos para longe do Centro Histórico e ganhamos a BR101, na qual permanecemos até o município de Ubatuba, tendo relances do mar azulado à esquerda quando a mata atlântica nos permitia vê-lo. Acessamos a Oswaldo Cruz, visando escapar do tráfego de Caraguatatuba e da Tamoios, mas infelizmente não demos sorte. Vagarosamente subimos a Serra do Mar pelas curvas “cotovelo” dessa perigosa rodovia. O céu estrelado após a São Luiz do Paraitinga me fez esboçar um sorriso irônico dentro do capacete. É bem verdade que ele tentou de todas as formas agourar essa viagem que, há tempos, eu tentava levar a cabo, mas em nenhum momento fui compelido a desistir por causa das intempéries. Taubaté sumia nos retrovisores, deslizávamos sobre a Dom Pedro e, após 910km rodados em asfalto, lama e pedras, apeávamos na Praia Azul, onde eu me despedia de uma de minhas companheiras de aventura. A outra, minha inseparável moto, comigo ainda enfrentaria os últimos quilômetros da Anhanguera, que leva o nome de um bandeirante, atiçando dessa feita uma gargalhada estridente. A História e meus caminhos estão interligados. Mesmo não querendo, um dia serei parte dela. 
Deixei-te porque, para controlar-te, necessário era que te abandonastes. Na hipocrisia de tudo, o nada me surgiu, tão translúcido quanto a certeza da morte. Ei-lo, meus mais torpes devaneios, escritos na sufocância da evidente depressão, pois fizeste-me tão perdido e só que desbravar o mundo tornou-se minha única passagem para fora de seu abraço. Escutar-te-ei não mais, infrutífera pusilanimidade. Aviltarei a letargia e, em meio ao negro de que meus olhos se inundam quando me privas da luz, evocarei mapas mentais tão minuciosos que te fariam pensar ser, na verdade, uma projeção de uma dimensão onde nada dominas. Onde não tens sentido algum. Onde viver seja a única possível verdade.


Mais fotos aqui.

E abaixo, um lamento bandoleiro para as cidades de Cunha e Paraty.



domingo, 23 de setembro de 2012

Barra do Una – de 07 a 09 de setembro de 2012


“Incontáveis caminhos. Nobres destinos. Uma alma que se crê livre. A possibilidade de se locomover velozmente. A decisão, em contrapartida, de retardar os passos para uma detalhada apreciação. Anos e anos de luta – mais pessoal do que social – contra um sistema vigente. Querer soltar as amarras. Afrouxar a submissão presente na perpetuação das “castas”. Emancipar-se. Proclamar independência. Ser trazido de volta à realidade. Trabalhar mercenariamente. Desenvolver-se. Estudar. Ganha a vida. Adoecer. Deprimir-se. Ser diagnosticado com problemas mentais, talvez esquizofrenia. Tratar-se com fármacos. Não. Abandonar os fármacos. Automedicar-se com as pequenas doses de incontáveis caminhos. Nobres destinos. Crer que a alma pode ser livre. Locomover-se. Decidir andar lentamente por ser dono dos próprios passos. Meu nome é Amarildo Sabino. Faço o que quero. Durmo onde quero. Vou para onde quero. Quiçá me concedas o prazer de tirar uma foto contigo até o fim desta conversa que, sinto, até agora tem sido, na verdade, um monólogo que aguarda nada senão ecos de uma breve resposta”. 
Rumo a Juréia
 Essas são as palavras balbuciadas por um intrépido ciclista catarinense. Enquanto repousava minha nuca num dos diversos caules trazidos à orla pelas águas do Atlântico, na praia de Barra do Una, eis que aproximou-se o ser humano que me revelou tais palavras. Realmente há uma esquizofrenia por detrás daquele olhar, mas suas aventuras são verdadeiras e sua filosofia muito rica. Saiu de Florianópolis, há um mês atrás, e se encaminha para Fortaleza, no Ceará, sobre uma bicicleta que muitos diriam não ser adequada para tamanha empreitada. O estranho papo com o estranho homem me estimulou a prosseguir nessa cruzada pelos recônditos brasileiros que ainda guardam aquela beleza alheia ao senso comum. Reafirmou, ademais, minha contumácia em não me render às mazelas do convívio social, muitas vezes baseado em falsos conluios e conchavos onde não há um mínimo de harmonia entre os indivíduos. Enfim, relembrou-me minhas querelas internas de quinta-feira à noite, quando, de supetão, resolvi mudar os planos e não rumar para São Francisco Xavier, no extremo norte de São Paulo, e sim me dirigir a Barra do Una, comunidade caiçara no extremo sul da cidade de Peruíbe, quase em território iguapense. Algo me dizia que a mata atlântica da Juréia me seria mais benéfica do que a mata atlântica da Serra da Mantiqueira. Arrebanhei, então, meu antigo companheiro de jornadas Rodrigo Costa Gil, além de Luana Romero que, duas horas antes da partida, conseguira um “salvo conduto” para se juntar a nós. 
Peruíbe e o Morro do Guaraú
 Luana e eu partimos de Americana ao meio-dia de um 7 de setembro de tráfego conturbado nas imediações do controverso portal em forma de arco. O desfile, popular comemoração de nossa independência, não conseguiu atrasar-nos em demasia, e em pouco mais de meia hora nos agrupávamos a Rodrigo nos acostamentos da caótica Rodovia Dom Pedro, em Campinas. Duas motos e três almas seguiam agora para a Anhanguera e, adiante, para a Bandeirantes, na qual permanecemos até o acesso ao Rodoanel, próximo à capital paulista. Pelo caminho, locais cenicamente interessantes, como a Serra do Japi e o Pico do Jaraguá, ponto culminante da cidade de São Paulo. Do Rodoanel Mário Covas adentramos a Régis Bittencourt, de longe a mais movimentada das que saem da metrópole, ligando-a à região sul do país. O clima era ameno, com algumas nuvens timidamente encobrindo nacos do azul dos céus, e tudo transcorreu tranquilamente pelos territórios de Embu das Artes, Itapecerica da Serra e Juquitiba. Após esta última, contudo, começamos a subir a Serra do Cafezal, que mesclava a beleza de sua relativamente bem preservada mata atlântica com a feiura e a fumaça do excesso de caminhões e veículos que, lado a lado, formavam corredores praticamente impenetráveis por nossas carregadas motocicletas, o que nos retardou por cerca de 90 minutos. No fim do trecho serrano, o fluxo foi aberto. Aproveitando o ensejo, rapidamente localizamos a rodovia Padre Manoel da Nóbrega, na altura de Pedro Barros, e por ela descemos a serra com destino a Peruíbe, passando por Pedro de Campos e Itariri, e contemplando os mares de bananeiras, com sacos azuis enrolados nas fartas pencas do fruto, e plantações de coqueiros. Chegamos a Peruíbe por volta das 16:40h, apenas em tempo de comprarmos víveres para a aventura que teria início a partir daquele momento.

Últimos metros do Rio Preto a caminho do mar
  
Ilhas de Peruíbe e Guaraú
 Rondamos a orla de areia rala, batida e negra e contornamos o Mercado Municipal, com o Atlântico a nossa esquerda, sempre com o Morro do Guaraú sombreando a cidade de 60000 habitantes. Atravessamos uma ponte sobre o Rio Preto, de onde avistamos sua foz e os barcos pesqueiros multicoloridos, as biguatingas e as garças-brancas que se empoleiravam nas armações que serviam de ancoradouro às pequenas embarcações. Do outro lado se principiava a subida da Serra do Guaraú pelo morro homônimo. Uma aguda ascensão, logicamente recompensada pela vista das ilhas de Peruíbe e de Guaraú, a partir de uma mureta acimentada dos acostamentos do sinuoso asfalto. As ilhotas arredondadas me fizeram pensar na Ilha de Queimada Grande, que em algum lugar a leste, 35km horizonte adentro, abriga o maior serpentário natural do mundo, com uma população de cerca de 5 indivíduos por metro quadrado. É o lar da jararaca-ilhoa, arborícola e letal, que evoluiu para caçar aves e não pequenos roedores, como a jararaca comum, visto que não há mamíferos como estes na pequena ilha que, durante a última era glacial, com a consequente elevação do nível dos oceanos, foi apartada do restante do continente. Não temos permissão para desembarcar na ilha. É uma dádiva exclusiva dos pesquisadores do Instituto Butantã e, infelizmente, também dos traficantes de animais exóticos que extraem espécimes para comercialização no mercado negro europeu. Estávamos, portanto, apenas de passagem quando esse devaneio me ocorreu.

Portal da Estação Ecológica Juréia-Itatins
  
Estrada do Una
 Descendo o Morro do Guaraú, alcançamos um bairro homônimo. Daí para frente não há mais asfalto. Os pneus de nossas motos se atritavam agora com a terra irregular da Estrada do Una, levantando a poeira que enrubescia nossos andrajos e ressequia nossas fossas nasais. A estiagem castiga, mesmo que o caminho seja envolto pela umidade da mata atlântica. Por falar nesse tipo de vegetação, fomos barrados para uma pequena entrevista no portal de madeira roliça da Estação Ecológica Juréia-Itatins após dois quilômetros de pilotagem cautelosa por essa via. O guarda, todo em preto, quis saber o nosso destino. Afinal, adentraríamos uma das áreas mais resguardadas do litoral brasileiro, com 80 hectares de área e 216km de perímetro. Com uma permissão verbal concedida, seguimos pela terra ora esburacada ora rachada pela ressequidão provocada pela seca. Mesmo com a falta de chuva enfrentamos dois lamaçais, locais onde as altas árvores impossibilitavam a chegada da luz solar à estrada, dificultando a evaporação do excesso de água que se infiltra, formando o tão temido e escorregadio barro. Passamos sem problemas por ambos. Em uma bifurcação, pendemos para a esquerda. À direita calharíamos na Cachoeira do Paraíso, que pretendíamos visitar no domingo. Por entre casas singelas, bicas d'água e pequenas cantinas fomos perdendo altitude e, poucos metros antes de chegarmos definitivamente à vila caiçara de Barra do Una, avistamos a bela Praia de Caramborê, confinada pelos morros e costões rochosos e banhada pelas agitadas águas do Atlântico. Já eram 18h. Percorrêramos 16km de terra e 320km totais desde a partida de Americana.

Praia de Caramborê vista da Estrada do Una
  
Rua da orla
A noite caia, e o pouco de luminosidade que nos restava não nos permitiu muita coisa. Caminhamos pelas duas ruas interseccionadas – forma de T – que compõem a vila de Barra do Una, contando nos dedos o número de casas. Chegamos a um consenso de que pouco mais de vinte moradias estão ali edificadas. Talvez cem moradores. Há igrejas, escola e posto de saúde, todos com tamanho bem reduzido. Movimento de pessoas praticamente nulo. Dois orelhões sem sinal de vida aumentavam a sensação de isolamento com o restante do mundo. Nos imensos e compridos lotes, nos quais se vê as simples casas bem ao fundo, os campings, única opção de pernoite, haviam poucas barracas montadas. Foi num desses que repousamos. Mais tarde, pouco antes das 21h, munidos de lanternas atravessamos a restinga e pisamos pela primeira vez nas areias da Praia de Barra do Una, topando vez ou outra com os siris que se soterravam na areia assustados com a nossa aproximação. Absolutamente mais ninguém. O vento soprava forte, as águas geladas e irrequietas molhavam nossos pés descalços e oportunistas borrachudos intentavam mudar nossa geografia corporal com suas picadas deformadoras. Teríamos problemas com esse minúsculos vorazes no próximo dia. Logicamente não impediriam que levássemos a cabo uma grande travessia de reconhecimento pelas três praias que compõem a orla de Barra do Una. 


O amanhecer da Praia de Barra do Una

Andorinha-grande-doméstica
 O dia 08, um sábado, amanheceu com nuvens ralas, quase uma bruma, ocupando a primeira faixa do horizonte, logo acima do mar. O sol, ainda uma tímida esfera alaranjada, dava indícios de que luziria, soberano, sobre os morros mais próximos a orla, aquecendo o corpo das andorinhas-grandes-domésticas e das corruíras que cantarolavam serelepes, saltitantes em meio à restinga. A areia compacta, dura, num degradê de preto e branco não tornava a caminhada difícil como em outras praias que eu visitara. Isso nos incentivou a caminhar rumo ao sul, por cerca de 300 metros, acompanhados pelo enérgico cão de um caiçara, que apelidamos de “Pirata” devido a uma característica mancha de pelo preto ao redor de um de seus olhos. Uma aguda curva à direita nos apresentou ao Rio Una do Prelado, ou simplesmente Una, que nasce nas serras da Juréia e finaliza seu percurso ali, no Atlântico, sendo responsável por dar o nome Barra do Una ao local. A disposição de suas águas é incomum. O curso vem como um só, se bifurca cem metros antes do contato e se reencontra novamente na iminência do contato do doce com o salgado, formando uma ilhota de areia que, quando assolada pela maré alta, deve ser tomada pelo oceano. Foi ali que “Pirata” se exercitou ao perseguir gaivotões e quero-queros, não poupando esforços na corrida e na natação. O que mais me impressionava, contudo, era o desenho da serra, semelhante aos desenhos de montanhas feitos por crianças, disposto de uma forma que parecia guarnecer a Praia de Barra do Una.

Rio Una

"Pirata"
  
Praia de Barra do Una
 Do Rio Una partimos, sempre caminhando, sentido norte. Aquela areia mais fofa, comum à maioria das praias, só era presente nas proximidades da restinga, afastada trinta metros do mar. Algumas pessoas desafiavam o causticante sol que, a esta altura, já castigava impiedosamente a epiderme. Vale dizer que muitos vêm a Barra do Una apenas para passar algumas horas, geralmente provenientes de Peruíbe, e regressam para seus locais de origem no fim da tarde. Por não ser uma praia badalada, que tenha quiosques, cadeiras espalhadas por todos os lados e vendedores ambulantes, acredito que seja deixada de lado por aqueles que buscam a agitação das praias mais urbanizadas. Some-se a isso o fato de não existirem hotéis e restaurantes de renome. Resumindo, é uma praia não para poucos, mas para aquela classe de poucos que busca a beleza cênica litorânea sem um excesso de seres humanos “poluindo” o visual e consequentemente as fotografias. Com esse raro privilégio, palmilhamos os 2km da Praia de Barra do Una até um costão rochoso. Era o limite norte. Conhecemos, portanto, toda sua extensão, da foz do Rio Una às pedras com mais de 4 metros de diâmetro que eram violentamente assoladas pelas investidas do Oceano Atlântico. Alguns pescadores se arriscavam sobre elas, vez ou outra sendo agraciados com banhos “surpresa”. Mantiveram bravamente o equilíbrio, diga-se de passagem. 

Vista do alto do costão rochoso

Costão entre as praias de Barra do Una e Caramborê

Praia de Caramborê
 Do costão rochoso obtivemos um amplo visual da Praia de Barra do Una. Seguindo por uma trilha estreita num corredor de mata atlântica calhamos numa segunda parte de imponentes rochas, agora esquadradas, de onde é possível visualizar a praia que vem na sequência: Caramborê. É preciso ter algum cuidado com os cactos murumbeba e seus afiados espinhos, desviar de bananeiras e esgueirar-se pelos espaços entre as enormes e muitas vezes escorregadias pedras. Molhamos os pés no mar nos últimos metros do trajeto, visto que o caminho sobre o costão poderia ser mais perigoso. Nossos primeiros passos em Caramborê, vencidos todos os acidentes geográficos, foram suficientes para constatar que é uma praia assaz mais movimentada do que a de Barra do Una. Sua extensão de apenas 550 metros, bem como uma estrutura mais organizada para campistas, são as responsáveis por isso. No mais, a paisagem é a mesma. Nada de quiosques nem vendedores ambulantes com seus simples produtos vendidos a extorsivos preços. Somente pessoas, a areia, o mar e mais um costão rochoso no extremo norte da ilha. Aliás, esgueiramo-nos por entre o mar e esse costão e encontramos um refúgio natural de pescadores caiçaras. Três deles “molhavam” suas iscas nas salgadas águas do Atlântico. O mais velho se gabava de ter fisgado um dos grandes mas, na iminência de tirar o enorme peixe de seu lar, teve que se contentar unicamente com a disputa, pois o bichano mostrou seu poder rompendo a linha e se desvencilhando da morte. Olhando ao sul, a vista obrigou a boca, que sorria com as desculpas e xingamentos do pescador, a se airar com a seriedade que a vista estonteante dos morros que fortificam a Praia de Caramborê clamavam. Víamos três deles totalmente cobertos pela mata atlântica. 


Praia de Caramborê: vista sul

Praia Desertinha
Pelo costão norte de Caramborê não havia como prosseguir. Regressamos à areia e seguimos o curso de um pequeno riacho que vinha por detrás do costão, entrecortando restinga e mata atlântica. Uma boia sinalizadora, abandonada em seu curso, marcava o início de uma trilha que nos levou mato adentro, primeiramente numa grande ascendente e ulteriormente numa abissal descaída. As árvores eram tão altas que impediam a entrada da luz solar. Umectamos as narinas, que até então penavam com a sequidão instaurada pela estiagem, com a inspiração do gélido oxigênio produzido pelos densos vegetais da Juréia. A caminhada foi curta, e em seu término calhamos na chamada Praia Deserta, ou Desertinha. Indiscutivelmente é a menor de todas as três com não mais que 200 metros de extensão. A paisagem mais uma vez resgatou a feição das anteriores. Contudo, por ser de dimensões reduzidas, a sensação de calor e claustrofobia nela foi marcante, tanto a ponto de ensaiarmos pela primeira vez um banho nas águas azuladas e amarronzadas desta ínfima cria do Atlântico. Luana, cansada pela truncada caminhada de aproximadamente 4km, repousou na areia batida da Desertinha enquanto Rodrigo e eu, ávidos por mais caminhada, escalamos o pequeno costão norte, dispostos a fotografar mais belezas cênicas. Não obstante, constatamos que a caminhada poderia ser longa, muito longa. Não víamos praias. Apenas a costa rochosa a perder de vista. Fazendo o uso da razão, voltamos para a praia, tomando cabeçadas e mais cabeçadas de rígidos e esverdeados gafanhotos que saltavam de uma rocha para outra. 

Daqui a Peruíbe somente um extenso costão sem praias

Indivíduo se afogando
 O nosso palmilhar desbravatório pelas praias de Barra do Una chegara ao fim. Já eram quase 14h. Voltamos pela trilha, volvendo nossas espaldas a Desertinha. Cruzamos, agora do norte ao sul, as praias de Caramborê e Barra do Una. No costão desta última, um ensaio de uma tragédia: um homem desesperadamente gritava por ajuda, preso no bailar das águas nas proximidades de grandes rochas da orla. Não há salva-vidas por não ser uma praia popular. Um homem de meia-idade, nadador exímio e complacente com a situação do infortunado homem que se afogava, saltou das pedras e nadou em sua direção. As ondas, contudo, expulsaram a vítima de vez ao arremessá-lo contra uma rocha. O jovem sentou a alguns metros do mar para recuperar o ritmo de sua respiração. Deve ter engolido muita água. Deve ter avariado boa parte de sua “carcaça”. O mar é impiedoso com os que ousam passar de seus limites. No fim, ele estava vivo, mas a memória desse dia certamente se manterá lúcida por todos os dias de sua vida, traumatizando-o para sempre. Talvez seja melhor assim. Algumas paisagens são passíveis apenas de observação, e não de enfrentamento. Lembrei-me de quando Rodrigo, Luiz Paulo Blanes e eu perecemos na tentativa de vencer a Trilha do Telégrafo, no Ariri. Simplesmente não era para estarmos ali, e pagamos por essa ousadia com escoriações, avarias em nossas motocicletas e, principalmente, cicatrizes em nosso brio. 

O resgate

Curvas do Rio Una
 Restava-nos ainda algumas horas de claridade. Caminhando pela estrada de acesso a Barra do Una, a mesma pela qual aportáramos ali no dia anterior, ganhamos um pouco de altitude e, de uma clareira à beira da via, contemplamos as imensas curvas do Rio Una, abrigando em suas margens manguezais e densa mata atlântica. Como dito anteriormente, o curso do rio se divide em dois para, posteriormente, próximo à foz, se reagrupar. Essa divisão forma uma ilha fluvial chamada Ilha do Ameixal. É classificada como uma ARIE (Área de Relevante Interesse Ecológico), por ser de dimensões reduzidas mas detentora de importantes recursos naturais. Essa classificação preserva o local da ocupação humana e da mudança drástica promovida por ela. Para quem não enxerga a beleza de uma massa verde de mata entrecortada por um diminuto curso de rio é um ermo nem um pouco atrativo e fotograficamente não meritório de grandes vivas. Ver o belo é questão de treino, como diria um professor, companheiro de profissão. Foi com essa noção que descemos de volta para a vila e acompanhamos o pôr-do-sol na foz do Rio Una. O astro-rei se absteve dessa parte do litoral sul de São Paulo ao esconder-se por detrás dos morros do oeste da Juréia. Alguns canoistas ainda se aproveitavam da luz alaranjada do fim do dia para as últimas remadas desse esplêndido 08 de setembro, onde uma nativo mateiro, como eu, se encantou, pela primeira vez em muitos anos, com a primazia do litoral brasileiro.

Pôr-do-sol na foz do Rio Una

Canoístas
  
Parque Estadual do Itinguçu
 Dormimos desconfortavelmente em nossas barracas e despertamos cedo. O regresso principiar-se-ia. Despedimo-nos dos moradores locais e de Amarildo Sabino, o ciclista diagnosticado com esquizofrenia que conhecêramos no dia anterior, e partimos pela única estrada possível, a mesma que nos levara sacolejando até ali. A viagem não estava, contudo, terminada. Doze quilômetros depois localizamos uma bifurcação na estrada e seguimos pela esquerda por mais 4km até o Parque Estadual de Itinguçu. Estacionamos as motos, assistimos a um vídeo na casa-sede do parque e adentramos uma larga e bem sinalizada trilha autoguiada. A mesma se divide em três, após 500 metros de caminhada. A central e a da esquerda calham nos poços do Ribeirão Itinguçu, ladeados por pedras de todos os tamanhos e formatos e preenchidos pela água transparente que desce da serra. A mata atlântica refletida na água a empresta um aspecto esverdeado, dependendo do ângulo de incidência da luz solar. O ponto alto de nossa estadia de apenas uma hora nos domínios do Parque Estadual de Itinguçu, cuja visitação é limitada a 305 pessoas por dia, foi a Cachoeira do Paraíso, acessada pela trilha da direita. Com 17 metros não chega a ser imponente. Não é uma queda livre, vertical. Desce escorregando pelo canto esquerdo de um paredão rochoso. Em épocas de chuva deve tomar conta de todo ele, pois o volume d'água aumenta consideravelmente. Muitas pessoas desciam pelo tobogã natural e eram beijadas pela morte ao se chocarem com as pedras. O parque proibiu, então, tal tipo de diversão. Todos os visitantes, hoje, ficam relegados ao poço natural que se forma com a translúcida água do Ribeirão Itinguçu que desce pela cachoeira. 

Cachoeira do Paraíso

Piscina natural do Ribeirão Itinguçu

Corredeiras do Rio Perequê
Deixamos Itinguçu, retomamos a Estrada do Una, repassamos, agora em sentido contrário ao de dois dias atrás, o portal da Estação Ecológica de Juréia-Itatins e apeamos nas corredeiras do Rio Perequê, de características semelhantes ao Ribeirão Itinguçu no quesito rochas em seu leito, mas consideravelmente mais caudaloso. Muita gente se banhava em suas águas e se alimentava nos restaurantes de seus arredores. Visando nos livrarmos do furdúncio, fomos margeando o rio por uma trilha, serra acima. O leito pedregoso, belo e sereno, afrontado por pouco volume d'água, não nos apresentou nada de novo, exceto pelos martins-pescadores e pela presença marcante do surucuá-de-barriga-amarela, ave exclusiva da mata atlântica bem fechada. Realmente não pesquisei a fundo a situação de alguns barracos erguidos à beira do rio, mas me parecem ser fruto de invasão. Dois dos maiores problemas do Brasil emergem quando se visualiza um cenário desse: de um lado, a necessidade da preservação; do outro, a necessidade da moradia para todos. Chegamos a ver o curso do rio trancado por uma pequena ponte de concreto, facilitando o acesso dos transeuntes de um barraco ao outro, mas impedindo o avanço natural da água. Os órgãos que regem a Juréia, que primam pela sua alta capacidade de mantê-la como um recôndito praticamente inviolável, deveriam olhar com mais carinho para as margens do importante Rio Perequê.

Surucuá-de-barriga-amarela
  
O regresso
 De volta à companhia de nossas motocicletas, seguimos para a parte urbanizada de Peruíbe, dando um adeus definitivo a Estrada do Una. Subimos o Morro do Guaraú, agora pelo asfalto, descendo-o ulteriormente, tendo a vista das ilhas de Guaraú e Peruíbe à direita. No alto da serra, um susto: um ciclista descia velozmente, a nossa frente, e num súbito desequilíbrio foi lançado ao canteiro lateral gramado. Paramos para prestar socorro. O infortunado homem agradeceu a ajuda, mexeu cada segmento do corpo para constatar se havia alguma fratura e, sem encontrar alguma, agradeceu a nossa ajuda e cortesmente nos dispensou. Chegamos à zona urbana de Peruíbe e, margeando o Atlântico, fomos nos despedindo de sua areia batida. O cenário já era bem mais “poluído” do que o de Barra do Una. Muitos quiosques, pessoas, caixas de isopor e aquele cheiro de camarão característico das praias movimentadas. Acessamos, na saída da cidade, a BR101, uma continuação da Padre Manoel da Nóbrega. Numa toada lenta e sonolenta, permeada por momentos de engarrafamento total, atravessamos os perímetros urbanos de Itanhaém, Mongaguá e Praia Grande, alcançando a cidade que já foi considerada a mais poluída do mundo: Cubatão. Daí em diante foi só subir a Serra do Mar pela Rodovia dos Imigrantes, vencer o caótico tráfego de fim de feriado prolongado e localizar o Rodoanel. Sobre a imensidão das represas de Billings e Guarapiranga, uma última vista do nosso poderio hídrico muitas vezes ingratamente judiado. Na Bandeirantes, Rodrigo se despediu de Luana e eu, sumindo entre os arranha-céus de Campinas. Em Americana, eu e minha Luna recordávamos de todas as marcantes estórias que, durante os 650km de viagem, nos serão motivo de riso por muitos sóis. As águas intempestivas do Atlântico nos deram um novo ânimo. Cunha e Paraty nos aguardam. “Meu nome é Amarildo Sabino. Vou para onde quero”. 
 “Tudo o que você vê pela televisão eu vi de perto, com esse olhos que os médicos disseram deturpar tudo ao meu redor. Fui de Florianópolis a Montevidéu, no Uruguai, pedalando. Meu nome é Amarildo Sabino. Vi a pobreza, vi a riqueza. O belo se materializava, e o horrendo o desvanecia. Meu nome é Amarildo Sabino. Tenho 47 anos e sou descendente de alemães. Minha cabeça dói. Preciso ir embora. A foto que te pedi fica para uma outra oportunidade. Preciso me despedir. Meu nome é Amarildo Sabino e aquelas pessoas ali já não confiam umas nas outras. Querem espaço, mas o espaço que reclamam nem é de propriedade delas. É do mundo. Meu nome é Amarildo Sabino. Faço o que quero, e agora preciso ir. Nos vemos por aí, talvez em Fortaleza, que é para onde vou. Amarildo Sabino. Amarildo. Sabino”.


Mais fotos aqui. 

E abaixo, um blues para a Barra do Una.