Ser livre é a utopia dos que se dizem fortes, responsáveis, honrados. Um homem – no sentido humano e não no machista da palavra – não é mensurado pelo número de filhos que cria e educa ou pelo montante de capital que pode levar para dentro de um lar. Há, infelizmente, quem acredite que procriar, consumir, ostentar e esbanjar sejam obrigações de um cidadão. Na contramão de todo este “código de conduta” mesquinho vêm pessoas que simplesmente não se preocupam em chegar a uma certa idade sem ter sob suas asas descendentes, bens imobiliários suntuosos ou lojas como locais preferidos para deixar grande parte de seu dinheiro. Há seres que primam pela troca de experiências, pela vivência de situações diversas e pela aventura, aguardando que todo o resto advenha naturalmente com o passar dos anos. De qualquer forma, guerras entre cautos e incautos, prudentes e inconsequentes e pusilânimes e guerreiros vem determinando as personalidades de nossa sociedade desde o advento da raça humana neste globo absorto na Via láctea chamado Terra. Embora eu flutue ora por um flanco ora por outro, na maior parte do tempo tenho procurado estar em apenas um desses lados. Que ele seja o norte para a minha vida enquanto pelo solo deste planeta eu vagar.
Aos que me pedem diariamente para “sossegar”, que leiam com atenção. A todos os outros, que leiam com mais atenção ainda, pois é para vossas mercês que tenho prazer de escrever.
Companheiros de viagem
A chegada do Inverno, a mais fria e seca estação do ano, trouxe alento para as almas daqueles que sobre duas rodas desbravam o nosso país. A vontade de muitos foi debilitada pelas águas da chuva, fazendo-a escorrer pelos ombros, ganhar o solo e se infiltrar pela terra imediatamente sob a vegetação forrageira circundante. Logicamente não agi dessa forma. Não deixei de levar a cabo minhas andanças por causa das sempre esperadas intempéries. Contudo, devo admitir que tiro muito mais proveito agora, de julho a setembro, pois neste período o vento abdica do cargo de “pastorear as nuvens do céu”, como diriam Almir Sáter e Renato Teixeira, pois simplesmente as nuvens passam a inexistir, já que não chove regularmente. Levi Vieira, Luana Romero, Luiz Paulo Blanes e eu não carecíamos de uma desculpa para viajar, mas foi bom saber que tínhamos uma: nenhuma adversidade de clima. Foi com esta despreocupação em mente que planejamos uma curta rota, abrangendo desconhecidas partes da cidade de Piracicaba, da Cuesta Botucatu e do Rio Paranapanema. A ambição era grande, pois dispúnhamos de apenas um dia e pouco capital. A gripe, que acometera Levi, e a pior das patologias, a desilusão amorosa, que eivara Luiz Paulo, ameaçaram a realização da primeira incursão do inverno de 2012. Com muita galhardia, entretanto, vi meus companheiros derrocarem o mal-estar e permanecerem ao meu lado e ao de Luana para a realização da viagem.
Lagoa do Piva
Logo às 7 da manhã, de um dia em que julho estreava, parti, sozinho, de minha casa. Dirigi-me às imediações do pedágio da Anhanguera, em Nova Odessa, onde marcara de me encontrar com Rodrigo Costa Gil, companheiro de outras tantas aventuras. Contudo, para nosso mútuo infortúnio, Rodrigo não pôde estar no local no horário marcado. Restou-me lamentar e abandonar a Anhanguera, acessando a Praia Azul, de volta à Americana, bairro no qual residem Luiz Paulo, Luana e Levi. O trio, ansioso, já me aguardava. Sem delongas entrecortamos as ruas do bairro mais isolado do município com direção à rodovia SP304, que nos acompanharia até o município de Piracicaba. Logo no anel de acesso apeamos pela primeira vez para admirar a recém revitalizada Lagoa do Piva, localizada na divisão entre os municípios de Americana e Nova Odessa. O pequeno reservatório natural circular, que por muitos anos sofreu duras penas pelo despejo clandestino de esgoto de algumas indústrias das proximidades, hoje resplandece seu azul intenso à luz do sol. Lembrei-me de que fora recoberta, desde que eu era um menino, por aguapés tão incrustantes que a faziam parecer um tapete verde, redondo e uniforme. Pude fotografar, pela primeira vez, essa paisagem que, juntamente com um marco semelhante a um pião de cimento estilizado, dão as boas vindas a quem parte, via Luiz de Queiroz, rumo ao sul do Estado de São Paulo. A parada foi válida não somente para pormenorizarmos nossa rota, mas para guardarmos uma imagem garbosa na mente antes de errarmos pelos canaviais e perímetros urbanos de Americana e Santa Bárbara d'Oeste.
Princípio da SP304
Gansos do Horto de Tupi
Vinte quilômetros se passaram até a segunda apeada, e ela se deu no Horto Florestal de Tupi, localizado no Distrito de Tupi, em Piracicaba. Para isso tivemos que deixar, por ora, a SP304, adentrando uma estrada de terra que nos direcionou à entrada desta que é uma das raras áreas verdes preservadas do município. Fomos recepcionados por grandes bromélias e quatro gansos que, nas adjacências de um lago, aqueciam-se com os ainda fracos e esparsos raios de sol de uma gélida manhã. O lago infelizmente tomou o caminho inverso ao da Lagoa do Piva, pois em tempos mais remotos sua translucidez era uma forte característica. Hoje apresenta águas marrons e opacas. Os altivos eucaliptos e pinheiros impediam a entrada da luz na margem norte, abrigando mesas e bancos de concreto dispostos pelos 200 hectares de área do horto que, além de exuberante mata atlântica, tem toda uma infraestrutura propícia à educação ambiental voltada às crianças, como leves trilhas explicativas que levam a nascentes. Como estávamos ali apenas de passagem, a ideia de nos aprofundarmos mata adentro, pelas citadas trilhas, não nos apeteceu. Preferimos deixar o horto pela mesma estrada de terra que nos levara até ele, passando por algumas humildes casas que ainda subsistem no interior de seus domínios. Fomos sendo saudados por muitos ciclistas que também se aventuravam por essas bandas enquanto rapidamente retornávamos a SP304 e à sua floresta de cana. Contudo, cruzamos por baixo da mesma e atravessamos Tupi, nele acessando uma vicinal que nos desembocou na Rodovia do Açúcar. Em questão de minutos estávamos inseridos na caótica dinâmica do centro urbano de Piracicaba.
Horto Florestal de Tupi, em Piracicaba
Águias-chilenas
Queria eu desfrutar das belezas do Rio Piracicaba, que nasce praticamente no quintal de minha casa, da confluência dos rios Jaguari e Atibaia, mas o movimento turístico na famosa Rua do Porto era intenso. O cheiro das majestosas águas, que já foram até mesmo tema de canções populares, neste dia não mereciam alusão cancioneira alguma. A poluição é evidente, e para completar o cenário desolador uma ponte está sendo edificada nas imediações do Véu da Noiva, uma cachoeira que é despejada diretamente no caudaloso e mais importante afluente do Tietê, com seus 250km de extensão. Optei por não parar, atendendo aos apelos de Luiz Paulo para que saíssemos imediatamente da zona urbanizada de Piracicaba. Prosseguindo na rota, então, subimos paralelamente a um córrego pútrido, que infelizmente deságua no Rio Piracicaba e contribui ainda mais para a sua morte, com direção à estrada para Anhumas, um distante distrito de Piracicaba. Muitas curvas, buracos e treminhões canavieiros desaceleraram nossa toada até o bairro de Pau Queimado, onde uma blitz policial acontecia. Daí para frente o bucolismo imperou. Imensas pastagens, açudes, gado e encostas de morros que guardam os últimos resquícios de mata da parte sul do território piracicabano. Em uma parada, ao lado dos mourões de tamanhos, formas e origens dessemelhantes, fotografava a beleza cênica do local enquanto era vigiado, de longe, por um casal de águias-chilenas com seus alvos peitos estufados feito pinguins. Isso nos inspirou a continuar em frente, passando pelos bairros Serrote e Jiboia, onde a cana-de-açúcar novamente tomou conta do cenário.
Paisagem da estrada para Anhumas
Gavião-caboclo às margens do Tietê
Alcançamos Anhumas. O asfalto, por ora, desapareceu. Entrecortamos o pequeno distrito de solo arenoso, deixando para trás seus inúmeros templos religiosos e as pequenas mercearias da rua principal. Aproximávamo-nos do vale do Rio Tietê, vencendo ligeiros desníveis pelos canaviais e propriedades rurais locais. Após aproximadamente 8km errando por estradas de terra, deparamo-nos com uma ponte de pouco mais de 100m de comprimento, de simples estrutura, feita a concreto pré-moldado e ferro tubular como corrimão. O interessante é que não havia movimento, o que nos possibilitou ancorar as motos sobre a ponte sem nos preocuparmos em atrapalhar os veículos que porventura passassem pelo ermo. Quanto ao rio, o grande Tietê, seguia caudaloso, largo e marrom para o oeste em busca do Rio Paraná, mostrando-nos neste pedaço apenas alguns poucos metros de seus 1010km de extensão. Luiz e eu recordamos de suas nascentes, em Salesópolis, onde pudemos beber de suas águas. Aqui, obviamente, não seria possível tal feito. Apesar de tudo, o que restou de mata ciliar era refletido pelo espelho d'água judiado do rio com muita propriedade, fazendo-me invejar as duas crianças que brincavam de futebol em uma propriedade parelha às barrancas do rio. A paz exalada pelo silêncio e pelas suaves corredeiras, quebrada apenas pelo cantar longínquo e esporádico de pequenos pássaros, veio muito bem a calhar após trespassarmos o ruidoso município de Piracicaba. Aliás, atravessando o Tietê a 450 metros de altitude, adentrávamos o território de Conchas, uma vez que o rio demarca naturalmente a divisa entre as duas cidades.
Ponte para Conchas
As judiadas águas do Rio Tietê, na divisa entre Piracicaba e Conchas
Búfalos
O rio ia ficando para trás à medida que nos distanciávamos de seu vale, agora nos domínios de Conchas. A terra continuava sendo nosso “pavimento” e a cana-de-açúcar uma ingrata companhia. Um gavião-caboclo alçou voo assim que armei minha câmera, não permitindo que eu obtivesse uma boa fotografia de toda sua truculência. Revoadas de chupins-do-brejo decolavam dos brejos que os caracterizam assim que sentiam a presença incômoda dos motores das três motocicletas que escolheram desbravar aqueles confins em um primeiro de julho agora bem encalorado pelo sol. Uma manada de búfalos, com alguns elementos albinos, refrescavam-se na água empossada à beira de uma cerca de arame farpado. Estes belos animais foram nossa última imagem interessante dos 18,5km em que a estrada de terra perdurou. Saíamos agora da zona rural e ganhávamos a zona urbana da cidade de Conchas, habitada por aproximadamente 16000 pessoas. Tenho parentes nela, mas neste dia eu não estava ali para visitá-los. Com muita rapidez fotografei a igreja matriz e a praça defronte a ela, na qual as bandeiras do Brasil, do Estado de São Paulo e do município de Conchas estavam hasteadas, tremulando letargicamente ao soprar do zéfiro. De alguma forma uma senhora que transitava pela praça se incomodou com a minha presença, olhando-me com um olhar misto de medo e desconfiança. Minha barba hirsuta e meus andrajos de motociclista às vezes causam espanto em pessoas de cidades pequenas e não turísticas. Como perambulo tirando fotos de tudo o que acho interessante, penso que elas acreditam que eu seja alguém que espiona a cidade a mando de autoridades do Estado ou órgão parecido. Retribuí o olhar à espantada senhora que, vendo que eu agudamente a encararia até o fim (não queria perder o “duelo”), desistiu da empreitada e continuou rumando para longe da praça, agora olhando para o chão.
Matriz de Conchas
Porangaba
Conchas já era passado. Dirigíamo-nos agora para a cidade sequente, pilotando por uma estrada de asfalto vicinal ao estilo campo minado. As propriedades rurais perpetuavam a saga da cana, das pastagens e do gado. A presença da Serra de Botucatu, a oeste, se tornou uma grata companhia, bem como a visualização esporádica do pica-pau-verde-barrado sobre os mourões. Exatamente ao meio-dia apeamos em frente à matriz de Porangaba, município que conta com pouco mais de 8000 habitantes. A praça ao estilo tradicional, com coreto e jardins muito bem aparados, curiosamente apresenta pentagramas musicais, com claves de sol, semínimas e colcheias servindo de grades limítrofes aos verdejantes canteiros. Posteriormente fizemos a descoberta, ao toparmos com a sede de uma escola de samba, de que a cidade tem uma forte tradição carnavalesca, derrubando por terra o nosso achismo da existência de algum renomado conservatório musical no município. Estávamos já próximos do nosso destino, a cidade de Torre de Pedra, e portanto gastamos um bom tempo em Porangaba, retirando camadas e mais camadas de roupas de frio, uma vez que o astro-rei, a pino, luzia forte sobre nossas cabeças. A Levi, debilitado pela gripe, prestamos uma atenção especial, assegurando-nos de que se alimentasse e se hidratasse antes de retomar a jornada. Luiz, como sempre, sorvia a fumaça dos “goianinhos” que trazia na jaqueta – alguns os conhecem simplesmente como “paiêros” – enquanto admirava a luta pela vida de uma flor-da-abissínia no telhado de uma antiga casa de uma avenida comercial de Porangaba.
Flor-da-abissínia
A Torre de Pedra, bem ao fundo
Pouco mais de 20km nos separavam de nosso destino final. Ciceroneei meus companheiros pelo trevo da saída de Porangaba, avançando rapidamente pelo asfalto até a Rodovia Castello Branco, que recebe o nome do primeiro presidente colocado pelos militares no poder após do golpe de 64. Permanecemos nessa via rápida por apenas 5km, pois acessamos a partir dela uma rotatória que nos desembocou em uma estrada municipal. Vale ressaltar que da Castello já é possível avistar a Torre de Pedra, monumento natural de arenito-basáltico com 75 metros de altura e que, de tão imponente, serviu de inspiração para o nome do município. Na estrada municipal, sinuosa, colorida pelos ipês e pontilhada por esparsas propriedades e gado, a imagem da Torre de Pedra desapareceu. Tivemos que alcançar a área urbana, que aglutina pouco mais de 3000 habitantes, e localizar uma estrada de terra pedregosa que nos direcionou ao alto de um morro disposto perfeitamente em frente à pedra, a mais ou menos 500 metros de distância da mesma. Do mirante era possível avistar todo o relevo da zona rural de Torre de Pedra, a Torre de Pedra propriamente dita, os morros Agudo e Agudinho e todos os paredões e elevações que fazem parte da Cuesta Botucatu, inserida na Área de Proteção Ambiental Botucatu, que abrange uma área de 220 hectares. Almejávamos essa visão desde que planejáramos essa viagem, e ela, agora, com um céu azul ao fundo, se escancarava aos nossos estupefatos olhos. O odômetro marcava 180km. Por incrível que pareça, não é difícil encontrarmos paraísos como esse nas cercanias de nossas residências. Não é preciso viajar para muito longe para desfrutar da beleza cênica do “Brasil Poeira”.
Face norte da Torre de Pedra
Cuesta Botucatu, da qual a Torre de Pedra é integrante
Escalada frustrada
Não contentes em contemplar a pedra de longe, seguimos por terra até às proximidades de sua base. Um carro de família estacionado em uma puxada da estrada nos indicou o local onde nos apartaríamos, por ora, de nossas motos. Vencemos uma cerca de arames farpados através de um “entorta-burro” e principiamos, a pé, a subida de uma íngreme trilha. Por estar situada em uma propriedade particular, infelizmente grande parte dos arredores da base se resume a pastagens. As grandes árvores e a densa vegetação, que naturalmente deveriam estar ali, foram reduzidas em quantidade com o passar dos anos e com a manipulação do pasto. Luiz e Levi encontraram cogumelos gigantes, com mais de dois palmos de copa. Eu e meu falho conhecimento de plantas discernimos apenas algumas espécies de palmeiras e coqueiros. Sem muito afinco em buscar nomes na mente, alcançamos a base da pedra que, por incrível que pareça, é bem crivada pela vegetação comum ao cerrado: capim-rubro, capim-favorito, bromélia dyckia, samambaias selvagens, palmeiras-buriti. A vista, contudo, não é tão embasbacante, pois não dá pra se ter uma panorama completo de toda a sua imponência como quando a vimos de longe. Olhá-la de baixo para cima apenas despertou um interesse em escalá-la. Logicamente sem equipamento a ideia não vingou. Luiz ascendeu até certo ponto, mas foi obrigado a abdicar de tal intento cerca de dez metros depois. Faltavam ainda 65 e não haviam meios de se prorrogar a faina. Derrotado e com a sudorese o fazendo brilhar, regressou à base.
Cume somente às aves alcançável
Morros Agudo e Agudinho
A vista do topo da Torre de Pedra certamente deve ser inesquecível. Entretanto, é valido mencionar que a de sua base foi um prêmio simbólico para quem não teve o privilégio de estar em seu cume. Toda a cuesta arenito-basáltica e os bem preservados morros Agudo e Agudinho, o primeiro feito uma pirâmide verde e o segundo feito um lombo de nelore, emprestavam ao cenário aquele efeito brasileiro, no qual o verde contrasta com o azul, que tanto reverencio. O gostoso de viajar em grupo é que cada um tem suas particulares impressões sobre o mesmo pano-de-fundo. Luiz, por exemplo, prestou atenção não às cores em si, como no meu caso, mas às formas triangulares de todo o relevo nos entornos da Torre de Pedra. Levi apenas se queixava de não estar em condições plenas de desfrutar melhor da paisagem. Luana, a “coruja”, apenas observava, calada, como corriqueiro. Mesmo com as diferenças era certo de que carecíamos de um último olhar à torre. Tudo em volta da mesma já estava devidamente internalizado, bem como a face norte do monumento de pedras, visto do primeiro mirante da estrada e durante a ascensão até sua base. Pensamos em continuar descendo pela estrada e encará-la pelo lado sul. Foi o que levamos a cabo na sequência. Sempre atentos aos sons, já que nos disseram existir por ali uma cachoeira, seguimos terra abaixo, já sobre nossas motos, até os domínios de um sítio que, de porteiras fechadas, não nos possibilitou a passagem. A Torre de Pedra, pelo lado sul, contudo, se apresentava de uma maneira diferente, mais triangular do que quando vislumbrada pelo norte. Não encontramos cachoeira alguma ou qualquer outra imagem que fosse tão significativa para esta viagem quanto esse morro-testemunho, que viu toda a cuesta se rebaixar com o tempo enquanto ele, só, permanecia – e ainda permanece – em seu nível de origem.
Vista da base da Torre de Pedra
Face sul da Torre de Pedra
A translucidez de Jurumirim
O relógio de minha moto marcava 15h. O sol, ainda bem luzidio, nos proveria mais algumas horas de sua efêmera cumplicidade. Pelos meus mapas o Rio Paranapanema seguia seu curso, rumo ao Rio Paraná, próximo a onde estávamos. Bom, pelo que menos era o que eu achava. Não utilizei muitos argumentos para convencer os meus camaradas a estender por mais uns 50km a incursão que deveria terminar ali, aos pés da Torre de Pedra. Aventei simplesmente a verdade: o “Panema”, como é conhecido pelos mais antigos, é o mais limpo dentre todos os grandes rios do Estado de São Paulo. A votação foi unânime. Todos aceitaram o “bônus” da viagem. Como Virgílio, guiei meus companheiros de volta a Castello Branco, transpassando novamente os limites da Torre de Pedra e o centro urbano da cidade homônima. Numa lenta progressão, e com a Serra de Botucatu nos instigando, topamos com um pedágio na altura do município de Itatinga. Atravessamos gratuitamente o infeliz e contornamos uma rotatória que nos livrou de vez da magnânima rodovia. Estávamos agora dentro de Itatinga, e peço que não a confundam com o homônimo, famoso e polêmico bairro boêmio de Campinas. Com 16000 habitantes, ramifica-se de seu interior um “tentáculo” que nos direcionou à vicinal Doutor Ene Sab. Sinuosa em seus primeiros quilômetros, de onde se vê longinquamente o Paranapanema, e depois se estendendo por uma reta sem fim, em meio a pinheiros e eucaliptos que congelam a atmosfera por não deixarem a luz solar entrar, ela nos desembocou diretamente num imenso reservatório d'água. Era o “Panema”, mas represado e nomeado Represa de Jurumirim. No fim das contas, para o desespero de Levi, os 50km praticamente dobraram. Foram percorridos, na verdade, 90km desde Torre de Pedra.
Imagens do Rio Paranapanema e da Represa de Jurumirim
Embarcando na balsa
Quão límpidas são as águas do Paranapanema e de Jurumirim! Um espelho d'água, de um azul um tom mais escuro do que o do céu. Quando olhados no horizonte, ambos parecem uma coisa só, unindo-se numa simbiose celeste. O que quebrou a sensação pacífica que nos envolveu ao entrar em contato com o sibilar lento das águas provocado pela ação dos ventos foi a aproximação de uma balsa, a mesma que nos faria flutuar sobre uma ínfima parte dos 450km² totais da represa até a margem sul, no município de Paranapanema. Informamo-nos com o operador da balsa sobre o que nos esperava do outro lado, pois para mim eram terras desconhecidas. O delgado homem, abrigado sob um chapéu de palha de longas abas, inteirou-nos geograficamente e nos exortou a embarcar. O sol, arredio, tendenciava a debandar. Seria prudente, portanto, escolher um caminho que pudesse nos levar o mais depressa possível de volta para casa. Pelos cálculos do experiente senhor, de Paranapanema a Americana seriam 250km de rodovias. Se voltássemos pelo mesmo caminho pelo qual chegáramos até ali, seriam também 250km. Optamos, então, por um novo caminho. A vagarosa balsa, que já prestou serviços em Barra Bonita e que hoje quase não queima o óleo diesel de seu motor na monotonia deste recôndito, desfilou por Jurumirim e pelo “Panema”, onde meu saudoso avô materno costumava pescar em sua mocidade, sentado às barrancas do Estado do Paraná. Uma observação: o Rio Paranapanema tem um curso superior a 900km e, a partir do município de Itararé, em São Paulo, corre até o Rio Paraná dividindo naturalmente os Estados de São Paulo e Paraná. É o menos poluído de São Paulo por não conter em suas margens grandes centros urbanos.
O sol se põe em Paranapanema
Do outro lado, em Paranapanema, desembarcamos e nos despedimos de Marcos, meu xará, um motociclista de Avaré, cidade na qual está situada a Hidrelétrica de Jurumirim, alimentada pelas águas da represa que acabáramos de sobrepassar. O bravo homem, juntamente com sua esposa, estava prestes a concluir sua missão: contornar, de moto, todo o reservatório de Jurumirim. A noite, uma realidade, nos dissuadiu de procurar outros atrativos em Paranapanema. Certamente deve haver muito o que ver naquelas bandas. Lamentando o avanço do tempo, acessamos a traiçoeira Raposo Tavares, na qual permanecemos até Itapetininga. A SP127 nos carregou, na sequência, por Tatuí, Cerquilho e Tietê, onde os imensos canaviais ardiam sob o jugo do fogo. A estrada do CEASA, em Piracicaba, nos possibilitou a entrada na Rodovia do Açúcar, que por sua vez se finaliza na SP304, a mesma em que principiáramos a viagem às 8 da manhã. Nela percorremos os últimos 40km de uma incursão total de 580km. No fim das contas, serviu-me como uma grande preparação para a viagem que farei ao Pantanal, dentro em breve. Não poderei contar com a companhia de meus companheiros, é bem verdade. As estradas que nos aproximam são as mesmas que nos distanciam, e depois nos aproximam novamente, numa sucessão de vai-e-vens que se caracterizam, na verdade, como a dinâmica imutável da vida. Sentirei saudades de todos, de minha Luna, de meus familiares. Poderia ficar, mas escolhi partir. A liberdade é a realidade de “quem é como eu: mais um fugitivo da guerra”.
Se um dia me disserem que aqui é meu lugar, perguntarei o porquê. Se me responderem com convicção, articularei palavras e farei a mesma pergunta. Se novamente me responderem convictamente, refarei a mesma pergunta acrescendo outras, até que quem me respondeu esteja exaurido de me responder e se contradiga. Não aceito o aqui e o agora, a não ser que estejam apenas de passagem, pois a força que me movimenta é muito maior que o poder da estática. Ao meu amor, o Pantanal, que me aguarde. Farei parte de sua imensidão em breve.
E abaixo, um blues composto por Habia Pereira Melo, ou Miss Vel. Que o talento dessa menina sirva de inspiração para muitos, assim como formações rochosas imponentes como a Torre de Pedra e águas translúcidas como as do Paranapanema.
Qualquer lugar é melhor do que o solo que ora me serve de sustentação. Minha lei suprema de que a estática é a pior das atitudes humanas – ou a falta delas – em nenhuma outra época me foi mais condizente do que neste exato momento. O mundo parece querer revelar-se em seus mais íntimos detalhes, expondo-me pormenores que, em uma fase mais juvenil e abstrata de minha vida, eu simplesmente ignorava. Todos os sinais estavam lá, escancarados. Todos os cheiros, desde os adocicados aromas das campinas até as mefíticas carcaças em decomposição, alimento exclusivo dos carniceiros alados da nossa notável avifauna. Todos os sons, começando pelo zunir ininterrupto e eloquente das asas de grandes mosquitos hematófagos, passando pelos gritos destrambelhados das gralhas cancans e terminando com o tonitruante contato da água com o fundo de um vale. Toda as serras e seus desenhos que, em um primeiro momento, hipnotizam e desnorteiam os sentidos, e depois, num segundo e terceiro momentos, parecem inverter sua primeira impressão, passando então a nortear e a tentar emprestar um real sentido, um alento ao espírito de um viajante-errante como eu. Enfim, sem medo de redundar, todos os lugares são melhores do que aqui, e é isso que me mantém tocando em frente.
Apenas como reforço, ressalto que todas as fotos são clicáveis para uma mais ampla visualização.
Saída de Ipeúna
A ideia de uma incursão para a Serra da Canastra partiu de meu grande amigo Newton Norio Nabeta, camarada de longa data, daqueles que o tempo, a distância e os vieses que a vida de cada um segue não são capazes de apartar. Grande admirador da região, o mesmo me instou a visitá-la em sua companhia. Estariam juntamente conosco Thaís Diniz Reis e Dona Noriko, namorada e mãe de Newton, respectivamente. Eu, que em inúmeras ocasiões tive a oportunidade de circundar os limites do Parque Nacional, chegando inclusive a ver os desenhos de seus píncaros, finalmente teria companhia para desbravar o cerrado imponente deste pedaço de Minas Gerais. Tínhamos um objetivo específico em mente: visualizar, e se possível fotografar, a vida selvagem livre, abundante nos domínios da Canastra. O tempo sisudo que afligira os dias anteriores ameaçava a realização de tal tarefa, já que tendenciava a prolongar-se pelos dias da incursão, eivando-os com seu entristecedor tom acinzentado. Contudo, em nenhum momento deixamos de pensar na possibilidade de extrair algum proveito dos belos cenários, longos a perder de vista, por mais que as intempéries nos dissuadissem de grandes ambições visuais. Foi pensando assim que parti com minha moto, no dia 06 de junho, de Sumaré, com direção à pacata Ipeúna, nas redondezas de Rio Claro, onde me juntaria aos supracitados parceiros da faina que teria início no alvorecer do dia posterior.
Pica-pau-do-campo
Já era noite, o aguaceiro descia desenfreado dos céus e eu tinha pressa. Em pouco mais de trinta minutos venci os 90km de distância entre Sumaré e Ipeúna, utilizando, para tal, as vias Anhanguera e Washington Luiz. Nos 590 metros de altitude do município de apenas 7000 habitantes, aos pés da Serra de Itaqueri, hospedei-me na casa de Newton. Era evidente que ambos ansiávamos pelo dia seguinte. Planejáramos essa viagem com muita antecedência. Para mim a incursão seria diferente, primeiro por estar no alto de uma chapada que eu apenas havia visto no horizonte, como já frisado; e segundo por ter que viajar de carro, após a pertinácia de Newton em insistir para que eu fosse juntamente com os três, no mesmo veículo, para dividirmos as despesas. Vi muitas vantagens no desenrolar de todo o caminho palmilhado por quatro pessoas e quatro rodas. Um amigo de longa data a acompanhar-me; uma bióloga, Thaís, pronta a sanar algumas dúvidas sobre o cerrado da Canastra e sua ululante fauna; e Dona Noriko, profundamente interessada na flora repleta de cores na altitude da serra. Eu, com meu sempre notável e aflorado interesse pela avifauna, procuraria também aprender mais sobre os mamíferos que vagam livremente pelos campos limpos do Parque Nacional da Serra da Canastra, criado em 1972 com o objetivo de proteger as nascentes do São Francisco, o maior rio exclusivamente brasileiro.
Hidrelétrica de Furnas e o Rio Grande
Zona Rural de São Roque de Minas
O dia 07 nem recebia seus primeiros raios de sol quando desorganizadamente empilhamos nossa bagagem no veículo que nos levaria ao destino pretendido. Deixamos Ipeúna sob uma fina garoa, às 6 da manhã, cruzando o vale do Rio Passa Cinco em direção a Rodovia Anhanguera. Revoadas de garças-vaqueiras sobrevoavam o teto que, admito, não estou acostumado a ter por estar sempre sobre uma motocicleta. Na altura de Araras pendemos para Pirassununga, abandonando a Anhanguera e transpassando o Rio Mogi em Cachoeira de Emas. Poucos minutos depois contornávamos Santa Cruz das Palmeiras e Mococa, adentrando o Estado de Minas Gerais por Arceburgo. Com os cafezais preenchendo a paisagem, passamos por Guaxupé e Muzambinho, vencendo a sinuosidade da rodovia até Monte Belo, e posteriormente subindo e descendo pela serra até Alterosa, já na região do Lago de Furnas. Em seguida viriam Areado e Carmo do Rio Claro, esta última com sua imponente Serra da Tormenta. Sempre com a imensidão do Mar de Minas à direita, acessamos a MG050 e adentramos um desvio que nos direcionou a Hidrelétrica de Furnas. Sobre a barragem tive a oportunidade de observar os imensos cânions formados pelo alagamento da represa e também irrequietos pica-paus-do-campo. De um mirante obtivemos uma ampla panorâmica da hidrelétrica, construída em 1963, e das corredeiras do Rio Grande, que formam pequenas ilhotas imediatamente após a passagem da água pelas oito elongadas e delgadas turbinas. Prosseguindo, contornamos o norte do Lago de Furnas, por Capitólio, e chegamos a Piumhi, trespassando-a. Paralelamente ao Rio São Francisco, mas em sentido contrário ao de sua corrente, topamos com São Roque de Minas, cidade com aproximadamente 7000 habitantes e que, por estar situada aos pés da Serra da Canastra, seria nosso “quartel general” durante os dias em que desbravaríamos este ermo mineiro.
Portaria do PN da Serra da Canastra
Rodáramos pouco mais de 500km até então. As badaladas do sino da matriz de São Roque de Minas delatavam o advento das 16h. Tínhamos, portanto, perdido o tempo limite para a entrada nos domínios do Parque Nacional da Serra da Canastra. Mesmo correndo o risco de sermos barrados pelos brigadistas da portaria, principiamos a subida da serra por uma enlameada e sinuosa estrada de terra, cortando fazendas locais, sobrepassando os mataburros e esquivando do letárgico gado mineiro. O tempo nublado impedia a vista total dos cumes das montanhas mas não a dos pássaros, que se exibiam escancaradamente para nossas lentes. Fotografei espécimes de joão-de-barro, sabiá-do-campo, bico-de-pimenta, pássaro-preto e noivinha-branca. Como esperado, encontramos as porteiras do parque fechadas. Por detrás de um muro de pedras o guarda do parque nos informou que poderíamos seguir apenas até a nascente do Rio São Francisco, não muito distante dali, e regressar, já que estouráramos o prazo. Com a promessa de retornarmos antes das 18h, aceleramos o carro para o interior da Canastra. Inseridos num espaço protegido por leis federais com uma área superior a 14000 hectares, demos início ao safári (como o chamou Newton) pelo cerrado, já que este é um dos únicos Parques Nacionais em que existem estradas transitáveis entrecortando-o. Pudemos, portanto, pilotar vagarosamente pelas terras machucadas pelo excesso de chuvas, observando, da janela, a paisagem acinzentada pela tenacidade da neblina. Os grandes morros de pedras de calcário, ora cobertos por baixas árvores retorcidas ora pelo capim-rubro e pelo capim-estrela seco, adornavam, quase sufocados pela umidade das brumas, o horizonte que, neste fim de dia, não nos daria o ensejo de topar com bicho algum.
Montanhas graníticas da Serra da Canastra
Nascente do Rio São Francisco
Sabíamos que, neste primeiro contato com o alto da Canastra, dos 700m de altitude da portaria em diante, por causa peremptoriamente do tempo instável, não veríamos mamífero algum. Tal fato, contudo, não impediu que fotografássemos pequenos pássaros, como uma saíra-amarela fêmea, uma noivinha-branca e dois carcarás, pássaro notadamente com o maior número de indivíduos no parque. No que se refere à flora, destacavam-se as sempre-vivas, algumas se verticalizando a mais de um metro e meio do solo. Mesmo secas, queimadas e amareladas pelo outono perpetuam sua altivez e exuberância. Cupinzeiros imensos, muitos com igualmente imensos buracos, possivelmente abertos por tamanduás, servem de pouso para as grandes aves de rapina, o que foi observado nos dias posteriores. Neste primeiro, contudo, continuávamos subindo pela única estrada, sentido leste-oeste, e nada de grandes emoções no tocante à fauna. Aos 1300 metros de altitude, uma estátua de um São Francisco com o braço esquerdo levantado, mas curiosamente com uma mão faltante e um crânio humano aos pés, nos indicava que, ali por perto, nascia o Rio São Francisco. Apesar de todas as controvérsias – alguns estudiosos dizem que ele nasce subterraneamente, fora dos limites do Parque Nacional – não deixamos de admirar o começo (ou talvez não) do curso de quase 3000km deste que é o maior rio inteiramente nacional. Vencendo 5 Estados (Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, Sergipe e Alagoas), deságua esplendorosamente no Oceano Atlântico, percorrendo cerrado e sertão. Pude, juntamente com meus companheiros de viagem, beber de suas águas, liturgia semelhante ao que fizera em Salesópolis, nas nascentes do Rio Tietê.
Sempre-viva
Monumento a São Francisco nas proximidades da nascente do Velho Chico
Curral de Pedras
A “poça d'água” envolta por calcário, cuja rota de acesso é pavimentada por pedras de quartzo e ornamentada por cipó-são-joão, de onde o Velho Chico origina suas andanças, seria nosso ponto máximo de entrada no parque no dia 07, como aventáramos ao vigia da portaria. Entretanto, optamos por quebrar a promessa e vagar um pouco mais pelo alto da Canastra. Quando o sol já ameaçava debandar por detrás dos morros e da rala vegetação de um campo limpo, o altímetro marcou 1500 metros de altitude. Este ponto, o culminante, me deu a sensação de literalmente estar sobre as nuvens, visto que era possível ver algumas delas abaixo da linha da serra, no vale compreendido entre a Canastra e a Babilônia. A iluminação natural, formada por uma ação conjunta entre raios de sol esparsos, nuvens e ventos gélidos, desenhava vírgulas alaranjadas nos céus dos arredores do Curral de Pedras, local onde uma antiga fazenda, anterior à desocupação para a criação do Parque Nacional, mantinha seu gado preso. As muretas eram feitas com as próprias pedras de calcário, abundantes na Canastra. Uma encosta de um pequeno morro serviu, inclusive como barreira natural para que a desagregação da manada fosse evitada. Uma observação: pedras eram historicamente utilizadas para demarcar o necessário. Muitas muretas podem ser observadas em vários pontos do parque. Mesmo sendo um aspecto interessante, há de se ressaltar que esses amontoados de pedra servem de abrigo principalmente para cascavéis e vespeiros. Ficamos, portanto, muito receosos com os mesmos, e como já era passada a hora de deixar o parque, voltamos para o leste, com a noite nos envolvendo e com os noturnos bacuraus, empoleirados na terra da estrada, servindo de “obstáculos” ao caminho do carro.
Céu do fim de tarde da Canastra
Ema
No dia 09, após pernoite em São Roque de Minas, volvemos ao Parque Nacional. O tempo se mostrava mais aberto, apesar de ainda cinza. No caminho para a portaria, sabiás-poca, sanhaços-do-coqueiro, anus-pretos, carcarás, periquitos-reis, suiriris e sabiás-do-campo. Da portaria em diante, após o pagamento de uma simbólica taxa, reiniciamos a exploração visual dos campos limpos e sujos da Canastra. Pegadas e fezes de lobo eram perceptíveis nas paradas à beira da estrada. Ver os bichanos, contudo, foi um prazer do qual não pudemos desfrutar nesta viagem, nem mesmo seguindo os passos do guia Zé Maria, experiente e aclamado por muitos como o “grande atraidor de bichos”. Em sua camionete, pouco à frente de nosso carro, ele vagarosamente ganhava terreno, sempre atento aos dois lados da via. Vimos, como não era de se espantar, apenas pássaros, como a maria-preta-de-topete, o galito, a noivinha-branca, o carcará, o perdiz, o tico-tico-do-campo, o tico-tico, o sanhaço-cinzento e o carrapateiro. A maior ave do cerrado, a ema, foi fotografada quando letargicamente passava por baixo de uma das raras árvores retorcidas de um campo limpo. Em uma bifurcação pendemos para o sul, visando acessar a parte alta, a cabeceira da Casca d'Anta, cachoeira de 186 metros de queda livre e mais famosa atração do parque. Em pouco tempo as corredeiras do São Francisco, num ponto cerca de 15km distante de sua nascente, translucidamente seguiam para uma pequena queda, em forma de degraus de uma escadaria. A Casca d'Anta, alguns metros à frente, despenca do alto da serra em direção ao vale entre a Canastra e a Babilônia. O engraçado é que, do ponto onde estávamos, só ouvíamos. Não conseguíamos ver, apesar da magnitude da cachoeira. O vale, contudo, era uma visão não menos pacificadora.
Rio São Francisco na parte alta da Casca d'Anta
Primeira queda do São Francisco
Ao fundo, a Cachoeira Rasga-Tanga
Da parte alta da Casca d'Anta readentramos a via principal da Canastra, acessando, agora, uma estrada à direita, sentido norte, rumo a Cachoeira Rasga-Tanga. À medida que vamos para esta direção a flora vai se tornando mais colorida e exuberante. O caminho foi se tornando difícil, pedregoso, esburacado, enlameado. A altitude diminuía a cada metro, já que geograficamente estávamos saindo dos píncaros da serra. Todavia, ao fim da estrada, a visão da Rasga-Tanga, ao longe, em demasia nos recompensou. O pequeno vale, formado pelas águas de um manso riacho e com as águas que passam pela cachoeira, de tão limpo e translúcido nos oportunizou a visão de pequenos peixes que se aglomeravam em um “degrau” formado naturalmente em seu leito, rodeado por grandes rochas úmidas. Por falar em rochas, grandes pedras de calcário, com um vistoso líquen alaranjado, estão espalhados pelos campos sujos do cerrado dos arredores do vale, pontilhando o solo em meio a um jardim natural que, apesar de recentemente queimado, reitera o seu garbo ao reflorescer em meio às cinzas. Foi neste estupendo cenário que encerramos nosso segundo dia dentro do Parque Nacional da Serra da Canastra. As nuvens carrancudas e o vento forte, que já nos acompanhavam há algum tempo, resolveram despejar sobre nossos corpos todo o poder que lhes competia. Eram mais de 18h. Não havia mais nada a fazer, pois até mesmo a luz do dia se esvanecia. De volta a São Roque de Minas, acompanhados pela lama e pelo aguaceiro desenfreado de uma portentosa tempestade.
Águas translúcidas nos limites do parque
Gavião-carijó
No dia 09 nos dirigimos à parte sul da Serra da Canastra, onde o formato de chapada, ou canastra (baú) fica mais evidente. Mesmo com as nuvens e a neblina da manhã envolvendo o topo, cujo desnível com o vale em que estávamos, nas cercanias de Vargem Bonita, é de 300 metros, obtivemos boas panorâmicas dos mirantes improvisados nas clareiras ao longo da estrada de terra. A avifauna mais uma vez nos presenteava com seriemas, gaviões-carijós, tucanos, anus-pretos, anus-brancos, sanhaços-de-fogo e saís-azuis. Até mesmo uma família de perus perambulava despreocupadamente sobre as gramíneas que serviam de acostamento à via. Se soubessem que predadores por ali espreitam talvez não estivessem tão serelepes. Vinte quilômetros depois de Vargem Bonita nos deparamos com uma outra portaria do Parque Nacional. Esta com certeza é a mais visitada de todas, pois simplesmente dá acesso ao maior atrativo da Canastra: a parte baixa da Cachoeira Casca d'Anta. Pagamos uma irrisória quantia e seguimos pela bem demarcada trilha, juntamente com inúmeros turistas, admirando a queda de 186 metros de vários ângulos enquanto nos aproximávamos. A mata fechada, que mesmo os botânicos não sabem definir se Amazônica ou Cerrado, de repente, praticamente aos pés do poço formado pela queda, se abria e dava lugar às quaresmeiras-roxas que, juntamente com os imensos paredões da chapada, o véu de água e o tonitruante barulho do contato com as pedras dão uma identidade toda especial a este local que, apesar de muito popularizado, não deixa de ser um dos mais lindos do mundo. Fiquei particularmente boquiaberto pelo formato da chapada, que olhando de baixo para cima parece mais arredondado do que quando visto de longe, quando o formado de “baú”, portanto quadrado, é mais evidente.
Imagens da face sul da Canastra, onde o formato de baú, ou chapada, fica mais evidente
Casca d'Anta
A Casca d'Anta, a maior queda do curso do Rio São Francisco e também uma das maiores do Brasil, demonstra sua impetuosidade quando ousamos fotografá-la de perto. É praticamente impossível obter uma boa foto sem correr o risco de molhar a lente da câmera. Os ínfimos minutos em que fiquei defronte a esta maravilha do cerrado da Canastra foram suficientes para me encharcar da cabeça aos pés. As gotículas formadas pelo véu de água são esborrifadas para todos os lados, potencializados pela ação dos ventos laterais. Eu, acostumado a sentir o peso de chuvas abissais, não cheguei a me incomodar. Alguns turistas, contudo, volviam suas costas à cachoeira e buscavam os mirantes mais distantes e secos para contemplá-la. Logicamente não se pode ver o poço a partir desses mirantes, mas para os menos suscetíveis à congelante água não deixam de ser boas opções. Como não estávamos ali para desfrutar de um banho, contentamo-nos em apenas usufruir da beleza cênica do local, prendendo nossa atenção nos mínimos detalhes. Um senhor nos chamou a atenção para uma pequena santa que, segundo ele, estava localizada no canto direito da queda d'água, sobre uma ponta de pedra parecida com a barbatana de um tubarão. Num primeiro momento acreditei que a rocha tivesse o formato de uma santa, esculpida pela água, pelo vento e pelo tempo. Aproximando a pedra na câmera comprovei que, na verdade, tratava-se de uma imagem de santa católica mesmo, aparentemente entalhada em bronze. Por mais que eu tenha questionado as pessoas presentes, ninguém soube me responder o motivo pelo qual aquela santa “úmida” ali foi instalada.
Vista de um dos mirantes
João-bobo
Nada mais havia para desbravar naqueles confins do parque. A probabilidade de encontrar mamíferos neste dia parecia maior, visto que o calor castigava e o sol luzia forte. Deixamos a porção sul da Canastra e passamos novamente por Vargem Bonita e São Roque de Minas, subindo a serra a partir desta última. Uma vez mais estávamos na mesma portaria que nos recepcionara nos dois dias anteriores. Pelo caminho, notamos a presença de um pássaro muito peculiar, empoleirado na galhada de uma árvore desfolhada pelo outono: o joão-bobo, uma mistura de martim-pescador com qualquer outro pássaro de olhos muito grandes. Foi a primeira ocasião em que pude ver e fotografar este ser tão caricato e pusilânime. De tão “bobo” ele sequer parecia me notar, pois fiquei a poucos centímetros do espécime sem que o mesmo esboçasse qualquer reação. Da portaria em diante, sempre mais do mesmo. Muitos campos limpos a perder de vista, visibilidade perfeita, montanhas de calcário e muitas aves, mas ainda nenhum mamífero. Pilotamos praticamente por todo o leste da Canastra e nada. O nosso ponto final deste 09 de junho, o nosso penúltimo dia no parque, foi um local conhecido como Garagem de Pedras, de onde pudemos avistar um pôr-do-sol meritório de nobres encômios. O espaço, construído com um princípio semelhante ao do Curral de Pedras, feito com rochas de calcário empilhadas, sem argamassa, era o abrigo de carros de um fazendeiro que possuía terras no topo da Canastra antes da desocupação para a delimitação do Parque Nacional, e também no Vale dos Cândidos, que pode ser visto a partir dele, com a não menos imponente Serra da Babilônia ao fundo. Por falar na Babilônia, vale ressaltar que, no projeto original, ela faria parte do Parque Nacional. Contudo, o debuxo foi declinado devido ao alto custo das desapropriações. Há quem diga que está em estudo uma possível ampliação para o englobamento desta serra, mas a recente descoberta de diamantes na Babilônia pode por toda essa revisão a perder.
Garagem de Pedras e o pôr-do-sol da Canastra
Veado-campeiro
São Roque de Minas. Dia 10. Hora de irmos para casa. Supostamente faríamos o caminho inverso do dia 07. Newton, talvez insuflado pelo espírito de aventura que vez ou outra eiva o pensamento de todos os amantes da natureza brasileira, aventou cruzarmos todo o Parque Nacional, de leste a oeste, entrando em São Roque de Minas e saindo no Triângulo Mineiro, mais precisamente no município de Sacramento. Unanimemente aquiescemos. Seria nossa última oportunidade de ver um mamífero. Empilhamos a bagagem, despedimo-nos de São Roque de Minas, que nos acolhera por três noites, e subimos pela última vez a serra pela porção leste. Passamos pela portaria. Daí para Sacramento seriam 150km de incertas e esfrangalhadas estradas de terra. Os periquitos-reis, sanhaços-de-fogo e canários-da-terra continuavam lá, mas não mais os cobiçávamos. As esperanças eram escassas, mas Thaís, com um pedido de PARE e com um olhar penetrante para o capim-rubro alto de um campo limpo, disse ter avistado um veado-campeiro. Com os pés sobre o assoalho do carro, estiquei-me verticalmente para fora, com a porta aberta, e consegui boas tomadas do cervídeo, que tão logo notou nossa presença debandou, saltitando morro abaixo. Há quem discuta o mérito, mas para quem buscava incessantemente este longínquo contato visual aquele momento significou dever cumprido. Aos alcoólatras o álcool apetece, bem como aos consumistas o shopping. A nós, os desbravadores do cerrado, essa visão foi o ápice. O cervídeo marrom, com as áreas em volta da boca, olhos e e ânus brancas e com uma pequena galhada na cabeça, utilizada em confrontos hierárquicos, foi a visão que mais recompensou a faina. Eu poderia ter ido embora somente com essa imagem na cabeça e ficaria feliz por um bom tempo.
Cachoeira da Gurita e seu poço
Mais veados-campeiros
Seguindo pela estrada, pendemos um pouco para o norte para uma parada em São João da Canastra. A Cachoeira da Gurita, neste distrito de São Roque de Minas, despenca com pouca força do paredão rochoso compreendido nos limites do Parque Nacional. O poço verde formado por essa queda d'água é mais agradável aos olhos do que toda a figura da cachoeira em si. O pica-pau-verde-barrado é presença notável nos arredores, e com alguma sorte consegui fotografar um. Deixando o pequeno povoado, retornamos ao interior da Serra da Canastra e, enquanto subíamos, percebi que um urubu, possivelmente o de cabeça-vermelha, sobrevoava, em círculos, uma área próxima a que estávamos. Este indivíduo pousou por detrás de uns arbustos queimados e eu, visando uma boa tomada, apeei do carro e pulei para dentro do cerrado, que estava um pouco acima do nível da estrada. Minha surpresa, ao volver meus olhos para o norte, foi grande. Não vi urubu algum. Entretanto, a vista foi bem mais recompensadora. Não apenas um, mas agora dois veados-campeiros, tranquilamente comiam os brotos recém-nascidos do cerrado enegrecido pelas queimadas controladas. Alardeei a notícia e todos desceram do carro para observar os dois espécimes que, por incrível que pareça, não pareciam muito preocupados com a nossa presença. A dúvida quanto ao gênero de ambos perdurou até o término da viagem. Seriam mãe e filho? Macho e fêmea? Duas Fêmeas? De quebra, localizei, um pouco acima, o urubu, e este era realmente o de cabeça-vermelha. Poderia ser o urubu-rei, uma das aves mais belas do Brasil, mas não havia porque reclamar.
Urubu-de-cabeça-vermelha
Curicacas
Lentamente avançávamos rumo ao oeste da Serra da Canastra, e nada de interessante surgia pelo caminho, pelo menos no que se refere à fauna. O cerrado continuava ali, preservado, ora limpo ora recoberto por suas típicas árvores retorcidas. O sabiá-do-banhado e o carrapateiro apareceram como que para mostrar que não estávamos sozinhos dentro do parque. Após quase duas centenas de quilômetros sacolejando por irregulares estradas de terra chegamos ao extremo oeste, mais precisamente à portaria de Sacramento. O vigia desta nos informou que ainda teríamos que percorrer mais 70km até encontrarmos asfalto. Fora dos limites dos Parque Nacional a paisagem mudou completamente. Extensas plantações de milho e sorgo, eucaliptos, pinheiros. Em uma plaga ociosa fotografamos curicacas que, em um bando de 8 indivíduos, rasantes e ruidosas rasgarem os céus a poucos metros de nosso carro. Sem maiores surpresas alcançamos a rodovia que nos levaria ao vale do Rio Grande, nela permanecendo, sentido sul, até a ponte sobre a Represa de Jaguara, que demarca a divisão entre os Estados de Minas Gerais e São Paulo. Do outro lado da ponte, já em nosso Estado natal, adentramos a primeira cidade: Rifaina. Eu e Rodrigo Costa Gil estivemos aqui há dois meses atrás, de passagem para Três Marias, viagem na qual conhecemos o Rio São Francisco e sua primeira represa: Três Marias. Mas esta era diferente. Intimei-me com a nascente do Velho Chico e sua maior queda, com os píncaros da Serra da Canastra, com a fauna e a flora de um paraíso protegido do centro-sul mineiro. Enquanto trilhávamos a Rodovia Cândido Portinari e a Anhanguera, em direção a Ipeúna, eu e meus devaneios já cogitávamos um retorno, mas desta vez sobre duas rodas. A Serra da Babilônia, infelizmente negligenciada pelos projetos do Parque Nacional, será meu escopo. É preciso ver o Vale dos Cândidos de um outro ângulo. De Ipeúna para minha casa, delineava um “plano de ataque”. Que esse dia chegue, veloz feito as serpentes que rastejam pelo calcário da Canastra.
Um último adeus a Serra da Canastra
Rifaina
“Observei um tristonho homem perambulando com suas lágrimas, assim como costumávamos fazer. Por isso tivemos (e temos) que passar para não refletir todo o ódio que presenciamos. (...) Não há escapatórias: a mágoa um dia te encontrará. Dúvidas pairarão sobre nossas cabeças, mas brevemente encontraremos a paz. Só estejamos preparados para ela. (…) Eu partirei, mas não permita que meus amigos se olvidem de mim. Você sabe o que digo. E, no tempo certo, eu regressarei para te dizer o porquê disso tudo. O porquê de chorarmos”. (Newton Nabeta, Ílton Aguari e Marcos Vinícius Gazola. Trecho de Reflections, do Overlost, composta em 2006)