Existem duas facetas na personalidade de um aventureiro que são inevitavelmente antagônicas entre si. A primeira, o calado consentimento, é aquela que o permite fazer parte de um sistema que ele acredita ser totalmente contrário a sua ideologia. A segunda, o repentino e ocasional descaso para com todas as suas obrigações sociais, é aquela que o encoraja a abandonar tudo o que outras pessoas prezam como mais sagrado, incluindo trabalho, família e rotina. Alguns dizem que a primeira é a responsável pela nutrição e desenvolvimento da segunda. Eu e minha pífia opinião discordamos, visto que essa concepção dá uma conotação de mero “escape” à aventura, quando na verdade ela é justamente o oposto disso. Penso, talvez contrariamente à maioria, que a primeira advém da segunda, pois é o caminho encontrado pelo aventureiro para manter-se vivo, alerta, já que uma aventura, quando se prolonga por muitos sóis, tende a debilitar e a adoecer o corpo. É tudo uma questão de manter-se saudável, operante, desbravador. E é, acima de tudo, a criação de ideais tão fortes que em nenhum momento podem ser estremecidos por outrem. Uma rigidez de caráter que não só assusta os acomodados, mas que também desperta a admiração e o respeito calado das pessoas mais próximas.
Olhando para o futuro
Prometi a mim mesmo que não discorreria sobre a Reserva Guainumbi, localizada nos píncaros da Serra do Mar entre São Luiz do Paraitinga e Ubatuba, no litoral norte do Estado de São Paulo. Primeiro por não ter sido uma viagem feita sobre uma moto, e segundo por se tratar de uma experiência muito pessoal, de duas pessoas que pretendem, num futuro próximo, alavancar um projeto parecido. Como de praxe, quebrei minha promessa, mostrando minha total falta de apreço pelas minhas próprias prerrogativas. Em síntese, eu e Newton Norio Nabeta, um grande amigo dos joviais e saudosos tempos de universidade, conheceríamos uma reserva ambiental particular e todos os seus meandros, visando entender todos os pormenores, tanto burocráticos quanto práticos, para a criação de uma reserva particular nossa, voltada à preservação, reflorestamento, educação e perpetuação da vida selvagem em habitats naturais. Logicamente é um grande sonho, quando adormecemos, e um devaneio, quando as obrigações nos mantêm acordados, mas que nem por isso deixam de ser cativados, galgados. Por fim, meus escritos, por mais singelos que sejam, carregam consigo a capacidade de disseminar o nome dessa reserva que é um exemplo de ação efetiva em prol da conservação de nossas matas e fauna. Então, por quê não escrever sobre Guainumbi?
Companheiros de viagem
Newton, Thaís Diniz-Reis, Noriko Nabeta e eu partimos de Americana na manhã do dia 17 de agosto. O trio vinha de Ipeúna, pacata cidade aos pés da Serra de Itaqueri, e eu me juntava ao bando para seguirmos ao destino pretendido. Vencemos a Rodovia Anhanguera, que em obras nos retardou a progressão, e o sempre congestionado princípio da Dom Pedro, nas imediações de Campinas. Essa excessivamente pedagiada rodovia nos acompanhou pelos perímetros urbanos de Itatiba e Atibaia, de onde avistamos a Pedra Grande, aproveitando a boa visibilidade de um dia ensolarado e de baixa umidade. Sem muitas emoções, a não ser rápidas passagens sobre as pontes da Represa de Atibainha, uma das mais limpas do Estado de São Paulo, acessamos a Rodovia Carvalho Pinto, bem conhecida pelos turistas que rumam ao litoral norte por cruzar com a Rodovia dos Tamoios, que faz a ligação direta de São José dos Campos com Caraguatatuba. O quarteto, contudo, passara direto pelo cruzamento das rodovias, seguindo pela Carvalho Pinto até a Dutra, na altura do município de Taubaté. Na terra onde viveu o amado e odiado Mazzaropi, localizamos a Rodovia Oswaldo Cruz, que serpenteante nos conduziu Serra do Mar acima. Menos de 50km depois visualizamos, incrustada no Vale do Rio Paraitinga, a cidade histórica de São Luiz do Paraitinga, que tenta reconstruir suas tombadas construções coloniais após a grande enchente do Rio Paraitinga em 2010. A água, tanto a transbordante quanto a vertical, avariou suas coloridas edificações. Obras acontecem em todas as partes. O acesso principal ainda está intransitável. Entramos por um acesso secundário para, somente assim, podermos conhecer as ladeiras de “pé-de-moleque” e a organizada “irregularidade” das edificações coloniais.
São Luiz do Paraitinga
Tiê-de-topete
Deixando São Luiz do Paraitinga, retornamos a Oswaldo Cruz para continuar subindo a serra. Por entre barrancos e matas secundárias chegamos ao acesso do Parque Estadual da Serra do Mar, núcleo Santa Virgínia. Adentramos essa via, por terra, e fomos nos circundando pela mata atlântica fechada, pelos casebres administrativos e alojamentos do parque e por alguns sítios menores, além de sobrepassarmos os rios Ipiranga e Paraibuna. Depois de sete quilômetros e meio de terra e poeira nos deparamos com a porteira da Reserva Guainumbi, nosso único e desejado destino. O portão de madeira, semicerrado por um destravado cadeado, nos possibilitou a entrada sem nenhum impedimento. Num amplo espaço gramado, ao lado de uma estufa, estacionamos o carro, descendo ulteriormente uma trilha acimentada até uma singela casa esverdeada, sede da reserva, de onde já era possível avistar um grande morro coberto por densa mata primária e secundária, essa última fruto de um processo de replantio engendrado pelo idealizador da reserva. Nos arredores da casa, três fotógrafos, munidos de pesado equipamento, se divertiam fotografando as dezenas de beija-flores, como o beija-flor-rubi, o beija-flor-de-papo-branco e o cauda-branca-rajado, que sorviam a água com açúcar de outras dezenas daquelas garrafas plásticas com flores artificiais multicoloridas, e também o néctar natural de grevíleas e caliandras que floriam exuberantemente ao lado de troncos e galhos de madeira seca, onde eram ofertadas frutas, como mamão, banana e laranja, a outros pássaros maiores, como o sanhaço-cinzento, o sanhaço-de-encontro-amarelo, o tecelão, o sabiá-de-coleira, o sabiá-laranjeira, o tiê-do-mato-grosso, o tiê-de-topete, o periquito-rico e o chopim-preto. No chão, uma espécie de ração servia de bródio ao coleirinho e ao canário-da-terra. O senhor Joziel, caseiro e guia da reserva, recepcionou-nos ao mesmo tempo em que nos mostrava a fartura de seres alados. Segundo ele, já foram catalogadas 340 espécies de aves nos domínios de Guainumbi.
Sanhaço-de-encontro-amarelo
Tecelão
Caranguejeira
O sol do primeiro dia se punha, mas nem por isso deixamos de gozar das surpresas de uma trilha noturna. Com a bagagem devidamente acomodada no chalé em que pernoitaríamos nos próximos dias, partimos a pé pelas picadas em meio aos 70 hectares de mata atlântica da reserva. Sorrateiros, com lanternas em mãos e com perneiras nas canelas (uma defesa contra botes de cobras), atravessamos uma pequena ponte de madeira sobre um dos quatro lagos, o Lago 3, formados por águas represadas das diversas nascentes e riachos que entrecortam Guainumbi, escutando atentamente às lerdas corredeiras, ao coaxar dos sapos e ao farfalhar de asas que elevavam seus donos vegetação úmida adentro, assustados com o nosso palmilhar. Andamos por cerca de uma hora e meia e, infelizmente, não vimos animal algum, a não ser um letárgico opilião, aracnídeo comumente confundido com a aranha. Apesar de pertencerem a mesma classe, morfologicamente apresentam dessemelhanças. A aranha possui duas estruturas distintas em seu “torso”, como dois elos de uma mesma corrente, enquanto o opilião, apesar de também desfrutar das mesmas duas estruturas, não aparenta divisão entre elas, sendo seu “torso” semelhante ao de um carrapato. Por incrível que pareça, pouco antes de vestirmos as perneiras, subtraídas de um baú na sede, eu fotografara uma estabanada aranha que perambulava pelo piso frio. Acreditávamos se tratar da temida armadeira, mas no fim das contas a bichana não soergueu suas patas dianteiras quando tocada por um pedaço de papel, recebendo apenas o rótulo de “espécie desconhecida por nós”, possivelmente uma caranguejeira, como classificação. O certo é que esses dois aracnídeos foram, além das aves, o que de mais abismante observamos neste primeiro meio-dia dentro da Reserva Guainumbi.
Opilião
Roda d'água
O segundo dia amanheceu seco, como era de se esperar. Nenhuma nuvem pontilhava os céus azuis sobre Guainumbi. O anil só não era mais imponente que a extensa e curvilínea faixa verde, um cinturão de mata atlântica que continuava impressionando pela densidade. Realocamos as perneiras de couro, abastecemos as mochilas com víveres e água e partimos pela Trilha dos Tangarás, que possibilita caminhadas pelo extremo sul da reserva. Como o sol clareava em demasia mesmo as áreas mais cerradas, sabíamos que dificilmente toparíamos com algum mamífero. Lentamente, sempre comigo encabeçando a fila com minha câmera fotográfica em mãos, chegamos a uma casa de apoio, vazia, que em tempos mais remotos foi sede do Sítio Sapé, um dos que foram comprados pelo proprietário da reserva e anexado a outros para a consolidação da reserva. Uma pequena roda vermelha, que girava ao contato de uma água limpa e potável, e algumas esculturas de querubins em pedra nos convidaram a uma rápida parada, tempo suficiente apenas para completar os cantis e dispersar o ácido lático dos membros inferiores. De volta à trilha, atravessamos um regato conhecido como Poço dos Girinos, onde um sapo, moldado em pedra, cospe água incessantemente. Um pouco mais adiante, uma surpresa, que infelizmente não pude visualizar. Enquanto olhava atentamente para a copa das árvores à procura de pequenas aves, eis que Newton brame, a uns 20 metros atrás de mim, a palavras COBRA. Instintivamente olhei para baixo, não vendo absolutamente nada no chão recoberto por folhas úmidas em decomposição. Segundo ele, uma cobra verde de um metro de comprimento, supostamente uma cobra-cipó, quase foi esmagada pelas minhas botas, dando-me um drible e se embrenhando pela mata. Por sorte ela preferiu não me presentear com um bote. Mesmo não sendo peçonhenta, uma picada de um réptil como esse pode ser traumática e dolorosa. Nunca fez tanto sentido vestir uma perneira.
Beija-flor-rubi, comum na Trilha dos Tangarás
Mata atlântica
Do meio da Trilha dos Tangarás em diante, nada de embasbacante no quesito fauna. Logicamente a flora continuava a mostrar sua força, relegando as plantas mais baixas ao apodrecimento e as mais altas à perpetuação da vida. É a seleção natural da mata atlântica, na qual a disputa pela luz solar indica os vegetais que sobreviverão e os que perecerão. As bromélias, que subsistem com uma menor quantidade de luz, são um caso à parte, e muitas espécies delas são notadas no solo ou nos caules de algumas árvores. No findar da caminhada, uma outra trilha, a da Casinha da Mata, se iniciava, ao sul. Contudo, uma outra partia para o norte, e essa não constava em nossos mapas. Por mera curiosidade, seguimos caminhando pelo “desconhecido”, sempre subindo, ganhando altitude. Após 500m de estafante ascensão, discernimos, a partir de uma clareira, os morros recobertos de mata do Parque Estadual da Serra do Mar, núcleo Santa Vigínia. Na verdade, o mais nobre intento da Reserva Guainumbi é ser uma área anexa ao Parque Estadual citado, aumentando, dessa forma, a extensão da área verde desse santuário ecológico, tão diversificado e ao mesmo tempo tão castigado pela caça predatória e pela extração ilegal de orquídeas e palmito. Por falar em diversidade, quando augurávamos retomar a caminhada, um barulho tímido no meio da mata nos fez voltar nossos olhos na esperança de ver alguma grande ave, talvez uma jacutinga. Por dez suspirantes segundos fixamos nossos olhares onde as folhas se debatiam ao contato de um animal de médio porte. Tratava-se de uma jaguatirica, felino com aproximadamente um metro de comprimento e com a pelagem muito semelhante a de uma onça. Por estar entre galhos e folhas, nem Thaís nem eu, os dois que portavam câmeras, conseguimos fotografar a garbosa bichana.
Aqui vimos a jaguatirica
Ecdise de um aracnídeo
O saldo, quando voltamos para o chalé, foram poucas fotos da fauna local, a lembrança inesquecível de uma jaguatirica no córtex cerebral e muitos micuins infestando nossos corpos. Há muitos porcos-do-mato na reserva, principalmente na trilha não mapeada pela qual ousamos nos embrenhar, e estes são disseminadores de parasitas como os pequenos carrapatos que agora pretendiam sugar o nosso sangue. O desconforto e a coceira, no entanto, não exauriram nosso ânimo, e no terceiro dia, um domingo atípico, repetimos a liturgia do dia anterior. Vestimos roupas longas, perneiras e reabastecemos as mochilas com víveres e água. Trilhamos, desta feita, um outro caminho, conhecido como Trilha das Pedras. Logo nos primeiros metros dessa via fotografei, grotescamente, um arapaçu, escalando velozmente uma delgada e alta palmeira. Um paredão rochoso, possivelmente granítico, veio na sequência. Parte da trilha segue paralelo a ele. Vimos um anuro negro escondido nos buracos úmidos de tatu e algumas ecdises, exoesqueletos de pequenos invertebrados como a aranha e a cigarra. Funcionalmente têm a mesma serventia de uma troca de pele nos ofídios. Abandonam a carapaça antiga quando encerram a formação de uma nova, podendo, então, crescer e adquirir uma “couraça” mais leve. Nossa atenção foi desviada pelo barulho de martelo em ferro. Uma tonitruante “batida” a cada 30 ou 40 segundos. Era a araponga marcando seu território. A estranha ave alva de face azul, ruidosa como ela só, foi localizada nas proximidades da Trilha da Casinha da Mata, onde se finda a Trilha das Pedras. Mesmo estando numa posição muito elevada, acocorada nos altos galhos da mata, consegui algumas fotos que, se não ficaram assim tão artísticas, servem bem como registros desse ser ameaçado – mais um – de extinção.
Araponga
Anuro
Gruta
Decididos a fazer contato novamente com a jaguatirica que víramos no dia anterior, abandonamos todas as trilhas mapeadas, subimos os barrancos, tornamo-nos íntimos, a contragosto, de mais uma leva de micuins e localizamos o ponto de encontro com o felino. O horário era, inclusive, o mesmo: treze horas. Dispendemos algum tempo ali, num dos pontos mais altos da reserva, e nessa ocasião não contamos com o auxílio da sorte. Recolocamo-nos em outros caminhos, morro abaixo, por uma trilha que, de tão ampla, parecia ser uma antiga estrada em desuso, visto que o mato tenciona a tomá-la por completo. Encontramos uma gruta, e após uma breve checagem em seu interior descobrimos estar vazia. Nenhuma vida, por mais ínfima que fosse, estava nela abrigada. Em seus entornos, contudo, e também em grande parte da estrada que se fecha, fezes e mais fezes de jaguatirica, formadas basicamente por ossos triturados e pelos de roedores, pontilhavam o solo. Pela quantidade de excremento, chegamos à conclusão de que comida não falta para a nossa querida jaguatirica em Guainumbi. Foi com esse pensamento que encerramos nossas caminhadas matutinas e vespertinas pela mata atlântica desses ermos da Serra do Mar paulista. Regressamos à base, ao nosso chalé, para um descanso que só não foi maior por causa da necessidade premente de nos livrarmos, à unha, dos micuins que, a essa altura, praticamente haviam modificado a mordidas a superfície dos nossos judiados corpos.
Sapo-cururu
Macuquinho
À noite, quando o sol há muito se esquivara da faina de iluminar o ocidente, insuflamo-nos com o desejo de uma última caminhada noturna pela estrada de acesso à reserva. Segundo Joziel, esperanças existiam quanto à visualização de corujas e curiangos. Andamos por cerca de quatro quilômetros até uma ponte sobre o Rio Paraibuna, nos limites do Parque Estadual da Serra do Mar, núcleo Santa Virgínia, e as esperanças se desvaneceram. A caminhada por um espaço aberto nos gratificou com alguns sapos-cururus, que atravessavam de um lado para o outro da estrada à caça de riachos, uma aranha, que carregava seus incontáveis filhotes sobre o torso, e um macuquinho, ave que num primeiro momento parecia presa em uma rachadura de um alto mourão, mas que na verdade estava ali, encaixado, para cantar e se proteger, tanto de predadores quanto do frio. A propósito, o frio foi o grande vilão de todos esses dias em que estivemos em Guainumbi. Muitos animais preferiram permanecer entocados. No fim de tudo, não houve motivo para reclamações. Quem tem o privilégio de ver, a poucos metros de distância, uma jaguatirica em um país onde a mata atlântica sucumbe a cada dia perante o desmatamento? Logicamente tudo pode ser visto num renomado zoológico, mas deparar-se com um felino desses, com absolutamente nada entre seus olhos e os amedrontadores olhos da “fera”, é uma sensação que meu pífio vocabulário não se atreve a exprimir.
Estufa
Adeus, Serra do Mar
No dia 20 de agosto, uma segunda-feira causticante, deixamos Guainumbi. Nos últimos momentos ainda conhecemos uma estufa, de onde saem as plantas que reflorestam, dia após dia, a mata atlântica da reserva. As mudas também são vendidas para outros interessados em replantio e recuperação de áreas desmatadas. É, acredito, um nobre papel e um grande exemplo a ser seguido por todos aqueles que têm condições financeiras plenas de adquirir grandes extensões de terra em locais onde a flora e a fauna carecem de uma sobrevida. Newton e eu estamos nutrindo esse sonho de alguns tempos para cá, e o desânimo ao nos conscientizarmos dos valores necessários para abrir e manter uma reserva particular se instaurou após conversas por e-mail com pessoas que já as possuem. É um “mimo” que pode não passar de utopia para meros assalariados como nós. No entanto, como dizia o ideário popular, a esperança é a última – ou a única – que morre. Com jargões na cabeça e 400km de regresso, descemos a serpenteante Oswaldo Cruz até Ubatuba, avistando o mar e os morros da Serra do Mar do litoral norte paulista. Na BR101, passamos por Caraguatatuba e acessamos a Rodovia dos Tamoios, que nos acompanhou até a Carvalho Pinto. Voltando à realidade, adentramos a caótica e fétida capital paulista, São Paulo, apenas por tempo suficiente para desembarcarmos Noriko. Para ela, era o fim da linha. Newton, Thaís e eu ainda enfrentamos a Bandeirantes até Campinas, e depois a Anhanguera até minha casa, em Americana. Já era noite. Newton e Thaíz sumiam para Ipeúna. Eu ficava com meus pensamentos. Pensava numa tal de Mantiqueira. Estarei aí em breve, minha serra querida.
Adeus àquele pusilânime ser que minha adolescência nutria. Àquele que acreditava que a felicidade dependia do bem-querer de outrem. Hoje tenho uma nova manta, tão indiferente no trato com seres humanos e tão ligada ao abstrato, ao natural, ao mato, aos animais “irracionais”. Completo-me em minha incompletude em viver uma realidade urbana voraz e mercenária. A liberdade tem seu preço, e brevemente pagarei o meu. Enquanto ela não cobrar essa dívida, vagarei, gratuitamente, pelo asfalto, pela terra, na mata atlântica, no cerrado ou na caatinga. Sobre uma moto? A pé? De carona? Vagarei.
Os caminhos que trilho há muito foram trilhados pelos pés de outrem. Não sou nativo de todas as terras, mas o solo diversificado do meu país me aceita de prontidão ao meu iminente contato, seja onde for. Esse sentimento de receptividade, para quem se priva do benéfico hábito de viajar, amiúde não é perceptível, eu sei. Muitas vezes a progressão é retardada pelas pedras graníticas do caminho, pela força da ação contrária do vento ou pelas lesões musculares causadas pelas incongruências do terreno. Para quem explora com o intuito de usufruir mais substancialmente do mundo que palmilhamos, contudo, os percalços acabam se tornando objetos de boquiaberta apreciação ao invés de apenas desaceleradores ou destruidores do processo de conhecimento. Sentir-se humano é mais do galgar a perfeição profissional, a plenitude sentimental ou obter a aprovação máxima de outros seres humanos no campo ideológico. Ser humano é, primordialmente, reduzir-se à essência de nossos antepassados da cadeia evolutiva. É (re) interagir com um mundo que, em tempos remotos, nos tinha apenas como mais um elemento constituinte da cadeia alimentar, em pé de igualdade com outros seres vivos que, por questões darwinistas, não chegaram a alcançar o mesmo desenvolvimento cerebral que o nosso. É reaver nossa intimidade com algo que acreditamos ser inferior, mas que na verdade deveria ser simbiótico com o nosso modo de vida.
Companheiros de estrada
Minas Gerais suplicava pela nossa visita. O Estado mais próximo de onde resido, e muito aclamado pelo relevo predominantemente acidentado, carecia de uma curta incursão levada a cabo pelo séquito de motociclistas cujo único paradigma é deixar a zona de conforto, explorar e conhecer, mesmo num domingo. Rodrigo Costa Gil e eu, pesquisando atrativos mineiros que somassem pouco gasto de capital a doses cavalares de aventura e belezas cênicas, concluímos que o Pico da Forquilha, desconhecida paragem da zona rural de nossa bem conhecida Jacutinga, seria o ermo que atenderia a ambos os prerrequisitos. Luana Romero, que sempre me vê partir solitário para longas viagens, poderia também me acompanhar nesta empreitada. Tudo estava, então, devidamente esquematizado. Nenhuma bagagem, dinheiro escasso e o ensejo perfeito para desambientar um dia de seu senso comum, daquele pseudo lazer letárgico, que desumaniza o indivíduo, relegando-o a um sofá defronte a uma televisão que não vomita nada além de aldrabices inutilizáveis para a vida. Logicamente não há problema algum em ver o tempo passar sem exercer ação. Muitos anseiam apenas por isso, como se fosse uma recompensa pelo árduo trabalho do decorrer da semana. Para mim, entretanto, soa como um desperdício de um tempo de vida que nem é assim tão longo. Simplesmente não sou capaz de me curvar às modernas drogas eletroeletrônicas que intentam nos enclausurar em nossos próprios domicílios. Prefiro abrir a porta, estudar caminhos e dar uma sentido mais natural e menos artificial à tão angustiante existência capitalista a que estamos fadados.
A lua do amanhecer de 05 de agosto de 2012
Gralha-cancan
Dez doze avos de uma resplandecente lua permeavam o céu das 5 da manhã de um congelante 05 de agosto. Momento de registrar a primeira foto do dia e encher os garrafões de água. Afinal, planejávamos não somente pilotar nossas motos, mas também caminhar pela crista da Serra da Forquilha. Minha sonolência digladiava com a promessa de um dia repleto de visões estonteantes. No dualismo dessa briga interna deixei minha residência, acessando a Anhanguera em direção ao Bairro Praia Azul, em Americana. Nele Luana Romero, também sonolenta e camuflada sob camadas e mais camadas de roupa, devido ao frio, me aguardava. Unidos, volvemos a Anhanguera e apeamos no controverso portal de entrada de Americana, onde por dez minutos aguardamos a chegada de Rodrigo, que vinha de Campinas. Neste ínterim observamos o constante duelo entre gralhas cancans e bem-te-vis, as primeiras saqueando os ninhos das segundas à procura de alimento. Com a trupe formada, continuamos pela Anhanguera, sobrepassando o Rio Piracicaba e nos enviesando pela rodovia que nos direcionaria a Cosmópolis. Os canaviais eram uma ingrata companhia, principalmente para um senhor socialmente vestido que ligava nervosamente para alguém nas proximidade de seu carro vermelho, que jazia capotado entre os pés de cana-de-açúcar. Em pouco tempo, mesmo com o atraso proporcionado pelos treminhões, alcançamos o trevo de acesso a SP332, e entramos em direção a Paulínia. Com a pequena Represa de Pirapitingui ao nosso lado direito, aceleramos pelo asfalto até nos depararmos com uma entrada para uma estrada de terra paralela ao Rio Jaguari.
Cristo da Fazenda Quilombo, em Cosmópolis
Fazenda Quilombo
Estrada do Cristo: este é o nome pelo qual essa estrada é popularmente conhecida. Numa toada agora mais vagarosa, já que o solo arenoso dos canaviais de cosmopolense não nos permite grandes ganhos de velocidade, fomos avançando pelas poucas residências locais, sempre sentido norte, com os carrapateiros e os girassóis despontando timidamente aqui e acolá. O excesso de pedras nas proximidades da Fazenda Quilombo insistia em querer nos levar ao chão, mas superamos este engodo e chegamos ao pé do Morro do Cristo, estátua religiosa construída pelos próprios donos da fazenda em que foi erguido. Em muitas ocasiões passei por esse ermo e sempre encontrei os portões que permitem o acesso ao monumento fechados. Desta feita, contudo, tivemos sorte, pois os mesmos, abertos, nos aguardavam. Ascendemos por um carcomido asfalto até as escadarias do Javé petrificado. Com cinco ou seis metros de altura, não chega a ser imponente como o de Poços de Caldas ou o do Corcovado, mas acredito que não era a intenção dos fazendeiros bater algum recorde mundial em altura de Cristo. É um simbólico agradecimento ao ente que, assim creem, lhe oportunizou a dádiva da terra. A fazenda, vista do morro, é realmente linda. Um homem pescava no lago, que por sua vez refletia os altos coqueiros da estrada de entrada dos barracões, onde certamente um grande maquinário é guardado; gansos grasnavam nos paralelamente a um filete de água canalizada de um riacho próximo; o gado branco pastava calmamente, confundindo-se às vezes com a cerca igualmente branca que rodeia todo o perímetro da sede. As carijós corujas-buraqueiras sobre os mourões espreitavam com seus arregalados olhos amarelos. Estávamos próximos demais de seus buracos. Era hora de zarpar dali.
Coruja-buraqueira
Praça dos Pioneiros, em Holambra
Deixando as cercanias da Fazenda Quilombo, território de Cosmópolis, acessamos o primeiro pedaço de asfalto que vimos: a Estrada do Fundão. Recebe esse nome por terminar realmente nos fundos da cidade de Holambra. Há estufas durante toda sua extensão, onde são cultivadas as plantas e flores tão cultuadas pelos turistas que visitam essa cidade de tradições holandesas. Por um breve momento também nos encantamos com sua beleza produzida a partir das joias da flora, mas com um empurrão da força criativa da mão humana. Rodrigo precisou ajeitar algumas coisas em sua motocicleta e, enquanto eu Luana esperávamos, passeamos pela Praça do Pioneiros, onde uma carroça e outras peças esculpidas em madeira rústica enfeitavam os canteiros bem aparados desse município de apenas 3000 habitantes que, por ter incontáveis áreas verdes, deve ser um ótimo local para que jardineiros sejam incitados a externar todas as suas habilidades. Além disso, a praça nos ofereceu um mapa detalhado de outros atrativos próximos, e julgamos que o mais interessante dentre todos eles seria um moinho de vento construído recentemente, no ano de 2008. Algumas quadra depois a enorme sombra provocada pelos seus 38 metros de altura nos abrigava. Tem a mesma estatura do Cristo Redentor carioca, no Corcovado. É, portanto, onipresente no cenário. É uma cópia, tanto estética quanto funcional, idêntica aos moinhos holandeses, com pás que, movidas pelo vento, mói grãos. Uma escultura colorida de um holandês entalhando o próprio calçado, de mais de 3 metros de altura, completa o cenário alusivo aos Países Baixos. Enquanto nos distanciávamos dali, contornando um grande lago e trespassando o enorme portal da cidade, imaginava se moradores, a maioria descendentes dos primeiros holandeses que “colonizaram” Holambra, realmente tinham esse pedaço de Brasil como extensão de sua terra natal.
Moinho holandês
PCH Mogi Guaçu
De Holambra partimos para Mogi Mirim pela SP340, a via mais rápida possível para esse destino. Nada de interessante até atravessarmos a ponte sobre o Rio Mogi Guaçu e adentrarmos a cidade de Mogi Guaçu, homônima ao rio, que naturalmente faz a divisão de território entre as duas cidades. Apesar de em alguns pontos não podermos ver as barrentas águas do judiado rio, fomos na maior parte do caminho margeando-o, até que em um determinado momento o asfalto nos apartou de vez de seu leito. Isso geralmente acontece quando se atinge as proximidades de uma usina hidrelétrica, que por ter uma área represada de rio acaba afastando as vias marginais. Não desistimos, e acessamos uma estradinha municipal que passa por um horrendo cenário: o aterro municipal. À frente, a mata ciliar, com árvores de sete metros de altura, nos acompanhou até os portões de entrada da PCH Mogi Guaçu. Em suma, nossas previsões estavam certas. Logicamente não pudemos obter uma vista significativa da pequena barragem ou de seu reservatório, mas por ser uma PCH (Pequena Central Hidrelétrica) supõe-se que não tenha uma represa superior a 3km² de área. Por uma leve trilha descemos até a margem direita, após a barragem e portanto não modificado pela necessidade humana por energia elétrica. Vimos algumas biguatingas nadando ao redor das grandes pedras arredondas encravadas no curso do malcheiroso rio, que desemboca no Rio Pardo após percorrer 470km desde Bom Repouso, na Serra da Mantiqueira de Minas Gerais, até Morro Agudo, em São Paulo. Subindo sobre um cano de metal, que possivelmente serve como escoadouro da PCH, vislumbramos um canal de pedras que teoricamente faz a vez de vertedouro, quando a represa se enche em demasia. A grande surpresa da área, porém, foram os saguis-de-tufos-pretos, ou micos-estrela, que pulavam de fios elétricos para galhos, e vice-versa, na mesma mata ciliar citada anteriormente. Eram do tamanho de gatos domésticos, com caudas assaz longas. Luana viu apenas um e pediu para que eu parasse a moto para fotografá-lo. Para a nossa surpresa, vários encarapitaram em meio a vegetação, e mesmo assustados nos permitiram observá-los por longos minutos.
Rio Mogi Guaçu
Sagui-de-tufos-pretos, ou mico-estrela
Divisa SP/MG (asfalto/terra)
Da PCH Mogi Guaçu retomamos o caminho rumo ao Pico da Forquilha. Por um momento pensamos em subir o curso do rio por estradas de terra, mas essa abordagem atrasaria – e muito – o desfecho de nossa aventura. Agindo racionalmente, por assim dizer, seguimos pela Adhemar de Barros até o município de Espírito Santo do Pinhal. Localizamos, dentro dele, uma estrada asfaltada que supostamente nos acompanharia até Jacutinga. Por ela progredimos, num sobe e desce de morros que variavam de 700 a 900 metros de altitude. Ao nos aproximarmos da divisa de Estados, as várzeas do Rio Mogi Guaçu, reencontrado, me lembraram as áreas alagadas do Rio Ivinhema, no Mato Grosso do Sul: uma vegetação verde-limão salpicada por arredondadas poças d'água. A vida levada à maneira rural começava a espocar. Propriedades se mostravam bem mais distanciadas umas das outras. As capelas à beira da estrada, que alguns chamam de grutas, com certa frequência eram notadas. Na divisa de São Paulo com Minas Gerais, o fato mais curioso: uma placa enferrujada pelo tempo e pelo descaso nos exemplificou o que realmente é a política estatal. Da placa para leste, no Estado de Minas Gerais, a estrada continuava, mas agora não mais pavimentada por asfalto. A terra seria nosso chão pelo Estado dos antigos nababos, para o meu deleite, ao qual os pneus de nossas motos se atritaram até os paralelepípedos de Jacutinga, passando pelas belas cercas vivas nas margens do Mogi Guaçu e pelo distrito São Luiz.
Pico da Forquilha visto da zona rural de Jacutinga
Cafezal no primeiro plano
Jacutinga, o município que abriga o Pico da Forquilha, nada podia nos oferecer em sua zona urbanizada. Com 60000 habitantes, a aclamada – mais uma – capital nacional da malha encontrava-se em um domingo pouco movimentado. Para nós esse foi um ponto positivo, pois sem delongas atravessamos toda sua extensão, de oeste a leste, e nos embrenhamos pela zona rural, sentido Monte Sião, outra vez via estradas de terra. Meu mapa apontava 7km até a base do pico. Por incrível que pareça, seu cume em formato de forquilha, ou Y, já era facilmente avistável das ladeiras íngremes e pedregosas que nossas motos urraram para derrotar. Diga-se de passagem, mesmo do centro da cidade, a partir da supracitada estrada de paralelepípedos, vislumbramos seus píncaros, dada a imponência de sua altitude e área total. As antigas fazendas e sítios locais completavam um cenário voltado inteiramente para a cafeicultura. Casarões antigos e terreiros, onde os grãos de café são postos para secar, chamavam a atenção de Luana que, por ter vivido e permanecido praticamente toda a sua vida no Estado de São Paulo, não estava habituada à típica dinâmica agrícola mineira. O que me trouxe alegria aos olhos foi a vista, de pouco mais de 900m de altitude, do Pico da Forquilha à direita, com um cafezal, cipós-são-joão e mourões em primeiro plano, e um vale imenso à esquerda, onde os extensos vãos entre os montes deste pedaço da Serra da Mantiqueira mostravam seu garbo. Há quem chame este ermo de Serra da Forquilha, dando uma espécie de subclassificação à Mantiqueira, que abrange, além do Estado mineiro, São Paulo e Rio de Janeiro, e é tida, por alguns, como generalista demais. Que os geólogos batam cabeça. Entre nós, o que se aflorava era o desejo de uma visão ainda mais “de cima para baixo”. Queríamos o topo.
Vista das proximidades da base do Pico da Forquilha
Princípio da trilha a pé
Ao fim da estrada pela qual perambulávamos, deparamo-nos com uma porteira fechada. Luana apeou da garupa da moto, abrindo-a em seguida. Eu e Rodrigo apeamos poucos metros depois, onde a estrada aparentemente deixava de existir. Dali para frente seguiríamos a pé. O altímetro marcava aproximadamente 1000 metros. Ao lado de um cercado para o gado aparentemente abandonado, uma trilha parecia encaminhar-nos para o pico. Por um momento pensei ser uma trilha de bois, mas mesmo na incerteza fomos ascendendo em direção ao nosso objetivo. O pasto, seco e ralo, com uma cerca à direita e além do qual um cafezal se estendia, foi nosso solo por 200 metros, momento em que nos esgueiramos por um “entorta-burro”. Dele em diante, a mata se fechou, o caminho vertiginosamente se verticalizou e o sofrimento se principiou. Não chegava a ser um esforço sobrenatural vencer os degraus de terra cujos únicos corrimões eram as raízes da vegetação. Paradas esporádicas, tanto para a observação de bicos-de-pimenta quanto para descanso, foram necessárias. Na primeira clareira que se abriu, a 1150 metros de altitude, o cerrado se apresentou, possibilitando-nos uma vista da cidade de Monte Sião, das propriedades rurais pelas quais passáramos há pouco e do emaranhado de estradas de terra que cortam os cafezais da zona rural de Jacutinga. Urubus-de-cabeça-vermelha, tão raros nos centros urbanos, sobrevoavam majestosamente a uma altitude ainda maior, aproveitando as correntes de ar que os fazem bater poucas vezes suas enormes asas em forma de bumerangue. Sempre me questionam: por que vês graça em urubus? Pelo voo, pela capacidade de sobreviver alimentando-se do que já não tem mais vida e, principalmente, por não produzirem som algum. É uma ave que aceita, calada, seu papel na natureza, ao contrário daquele grande mamífero que se diz superior.
Vistas da primeira clareira
O cume
Da primeira clareira em diante, a trilha se suaviza. Isso porque nos aproximamos do topo esquerdo do “Y”, ou da forquilha, ou do estilingue. Como era esperado, após o primeiro topo, uma leve depressão e uma visível trilha pelo côncavo do pico. A passagem de tão estreita parecia nos convidar a uma rápida descida pelas encostas pedregosas, verdadeiros abismos cobertas de mata. A sensação de estar acima das nuvens, que a essa altura povoavam os céus, se maximizava à medida que transpassávamos a crista do desfiladeiro para ascender em direção ao cume mor, ao topo direito do “Y”, ou da forquilha, ou do estilingue. A nossa direita, a cidade de Jacutinga, como uma maquete, escondida no meio da serra. Corri para o ponto máximo, para a parte mais elevada de nossa aventura, seguido por Luana e Rodrigo. Estafado, ao lado de um mourão estrategicamente enterrado por alguma alma no centro do pico, aproveitei-me de uma vista de 360º da região: cafezais, outros montes da Serra da Mantiqueira, edificações em ruínas de sítios vizinhos, Jacutinga e uma parte do relevo de Itapira, no Estado de São Paulo. Consultei meu altímetro e o mesmo me relatou 1232m. Não é, nem de perto, uma altitude andina ou meritória de grandes encômios. Muitos outros picos da Mantiqueira ostentam números assaz mais temíveis. Porém, para quem subsiste em uma cidade edificada sobre a metade disso, é o zênite. E, na verdade, o que conta não é o quão alto em direção aos céus se pode chegar, mas o que se pode ver quando não há nada mais acima de nossas cabeças. Naquele momento, acima delas, apenas nuvens e raios solares difusos, que ofuscavam a observação do caramujeiro que rondava por ali. Abaixo, um vasto planalto para ser apreciado, sentados às pedras à beira do precipício. O vento morno soprando, o ruído de uma motosserra lá embaixo, distante, e o crepitar de nossas pisadas nos farelos de arenito solto pelas trilhas quando ensaiávamos mudar de lado para gozar da vista de um outro ângulo.
Vistas do alto dos 1232m de altitude do Pico da Forquilha
Águas de um riacho cristalino
A meia hora de apreciação terminara. As nuvens, que a alguns momentos atrás ainda dava brechas a focos de azul do céu, terminaram de tomá-lo por completo. Nosso bródio, mesmo que composto somente por água, supriu-nos com a energia necessária para descermos pela mesma trilha, de 1200 metros e com um desnível de 200, pela qual ascendêramos. Logicamente o perrengue foi minimizado pela ajuda sempre grata da gravidade. Em menos de 20 minutos nos reuníamos às nossas motos, abríamos a porteira e nos apartávamos das sombras do Pico da Forquilha. Pelo menos era o que pensávamos. Optamos por seguir pelo sentido leste, rumo a Monte Sião, e as estradas, de terra, que nos levaram a essa cidade, foram as mais desgastantes de todos os meus anos motociclísticos. As ladeiras pedregosas demandavam uma concentração toda especial. Meus braços, que acumulavam ácido lático por terem que suportar o meu peso e o de Luana, relaxavam apenas nos momentos em que o terreno se aplanava. Todo o esforço físico dispendido certamente foi compensado pela cenário sempre bucólico e belo das zonas rurais de Minas Gerais. O gado, inclusive alguns espécimes de Caracu, com seus enormes e pontiagudos chifres, pastava calmamente, procurando pelos brotos mais verdes de grama que, nesta época do ano, resistem à falta de chuva. Nos quilômetros finais adentramos um pedaço de mata fechada, atravessamos uma rústica ponte de madeira e paramos para observar a água que descia, transparente, do alto da serra, passando por ali em direção a algum vale ou planície. É possível que haja alguma cachoeira na sequência do riacho. Era audível. Infelizmente não encontramos trilha alguma em meio à mata para acessá-la.
Gado Caracu
Vista do Morro dos Macacos
Deixando o riacho, cometi a burrice de consultar o meu mapa. Nele sempre há algo mais a ser visitado. Numa encruzilhado, já próxima a Monte Sião, pendemos para o norte, abrimos duas porteiras e subimos serpenteando um morro, nomeado no mapa como Morro dos Macacos. De tão íngreme e dificultosa, achei que a progressão nos levaria a um lugar mais alto do que o Pico da Forquilha. Chegando em seu topo, contudo, meu altímetro marcou meros 1100 metros de altitude. A vista da cidade de Monte Sião não deixava dúvidas de que estávamos em um local privilegiado. Deve ser o ponto culminante do município, uma vez que antenas de rádio e TV nele estão instaladas, sobre uma casa simples de alvenaria e com grades guarnecendo janelas e portas. Foi o último atrativo da região visitado por nosso intrépido espírito, nesse dia. Na descida para Monte Sião, cinquenta metros antes da segunda porteira, a nossa direita, envolvido por uma aura mistificada pela nebulosidade do tempo, o Pico da Forquilha nos presentou com uma derradeira pose, imponente como da primeira vez que o vimos, sobressaindo-se em meio a um paredão de montanhas. Com a noite caindo, fui ciceroneando meus companheiros pelos quilômetros de volta para casa com a imagem deste pedaço de Minas Gerais na cabeça.
Um último olhar a Serra da Forquilha
Serra Negra
Deixamos o Estado dos nababos por Monte Sião. De volta a São Paulo, passamos por Águas de Lindóia, Lindóia e Serra Negra, sempre sob os braços de Cristos Redentores edificados em todas elas. Um congestionamento medonho neste último município retardou nossa tentativa de rápido regresso. Não havia mais o que ver com a escuridão da noite já nos envolvendo. Por Amparo, Pedreira e Jaguariúna, nada que já não tenha sido explorado. Reencontramos a Adhemar de Barros e seguimos por ela até a Dom Pedro, em Campinas, onde Rodrigo se apartou de nós. Eu e Luana ainda enfrentaríamos um bom trecho da Dom Pedro e outro da caótica Anhanguera. Na Praia Azul, já em Americana, Luana apeou pela última vez. Eu ainda enfrentei mais 12km de asfalto, tarefa pouco dificultosa para quem pilotara 365km no total. Com a certeza de que não havia nada melhor a se fazer num domingo, dormi com a lembrança da vista do Pico da Forquilha, e acordei na manhã seguinte com a dor tardia provocada pela trepidação das estradas pedregosas entre Jacutinga e Monte Sião. É o preço que a estrada cobra quando colocamos nossa liberdade à prova sobre sua solidez. É o preço que eu procuro pagar, dia após dia.
Aquele ódio adolescente para com o mundo, que nos são uma característica marcante, mais cedo ou mais tarde – ou mais cedo e mais tarde – ficam no passado. Com as experiências aprendemos que, no fim de tudo, não abominamos o mundo em si, mas sim a humanidade. E, bem dizer, são duas coisas completamente distintas. Parafraseando paganisticamente uma máxima pseudocristã ortodoxa, o mundo sobreviverá sem o ser humano. E o ser humano sem o mundo? Acho que em uma outra ocasião fiz essa mesma pergunta. Acho que terei que viajar de novo para compor uma nova conclusão. Guainumbi, amanhã estarei aí.