quarta-feira, 9 de maio de 2012

Rio Itabapoana – de 28 de abril a 1º de maio de 2012


O coração, confinado à cela de suas obrigações para com uma sociedade, clama pela solidão que o libertará. Esse querer livrar-se das sufocantes amarras de uma existência que me parece artificial não é, em si, um grito de rebeldia, mas sim uma reviravolta natural, ou uma tentativa inconsequente – mas consciente – de retorno às primitivas origens de uma raça que, em tempos longínquos, era obrigada a respeitar primeiramente o meio em que vivia – o mundo, de onde retirava seu sustento – para depois pensar em uma possível organização arcaica com seus semelhantes – outros seres humanos, ainda não homos sapiens, mas bem mais respeitosos com o nosso globo terrestre do que os nossos contemporâneos ditos “evoluídos”. Vez ou outra lampejos canalizam meus pensamentos aos remotos antepassados, que da terra e da água extraíam apenas o necessário para a sobrevivência, e lamento que, hoje, tenhamos que ir além disso para suprir nossas necessidades progressistas, tecnológicas, culturais e egocêntricas. Lamento, ademais, que tenha que me isolar de tudo e de todos para lograr daquela paz que os centros urbanos, nos quais desperdiçamos nosso escasso tempo de vida, não nos oportuniza sentir.
A solidão da estrada
Destrinchar o curso do Rio Itabapoana não foi, nem de perto, o meu primeiro plano para os quatro dias de que dispunha para viajar. Outros locais eram preferíveis em detrimento a esse obscuro caminho pelo qual resolvi, de última hora, enveredar-me. A notícia de que dois de meus companheiros de aventura não poderiam comparecer a uma incursão nesta data me fez repensar, e muito, sobre o rumo que eu tomaria. Optei pelo que supostamente me traria mais recompensa visual e espiritual, já que estaria sozinho e, portanto, poderia planejar uma rota que atendesse unicamente aos meus próprios desejos, não necessitando me preocupar com os planos de outrem. Sintetizando: sempre fui aficionado pelos vales dos grandes rios brasileiros, e em uma de minhas cruzadas pelo Espírito Santo, no ano passado, conheci superficialmente o Rio Itabapoana. De lá para cá vinha nutrindo a vontade de desbravá-lo por completo, desde a sua cabeceira, na tríplice divisa entre os Estados de Minas Gerais, Rio de Janeiro e Espírito Santo, até sua foz, no Oceano Atlântico. Era chegada a hora, portanto, de sacrificar o meu comodismo em nome dessa sede louca por conhecimento que, de tempos em tempos, resolve me assolar.
Plantação de arroz em Lambari
Parti de Americana, pela via Anhangüera, exatamente as 7:30h de um 28 de abril atípico, pois pela primeira vez em algum tempo ninguém estaria me esperando em algum ponto do caminho para, juntos, seguirmos viagem. Uma manhã de outono refrescante: essa sim me acompanhava enquanto eu ansiosamente deixava a RMC, passando pelos perímetros urbanos de Sumaré e Campinas, onde acessei a Rodovia Dom Pedro. Visando deixar para trás incontinenti o segundo ambiente mais urbanizado do Estado de São Paulo, aumentei a velocidade da toada até o momento em que os contornos da serra começaram a ocupar o horizonte. Vencendo o afã pelos olhos, livrava-me da claustrofóbica sensação proporcionada pelo concreto cinzento e mergulhava, agora, de peito aberto no verde, no tapete atlântico que, infelizmente, em algumas propriedades foi dizimado para dar lugar às pastagens do gado paulista. Devaneando, abandonei a Dom Pedro e adentrei a caótica Fernão Dias, principal elo de ligação entre as capitais São Paulo e Belo Horizonte. Estava, agora, em Minas Gerais. A claustrofobia quis retornar, reavivada pelo excesso de caminhões que me encurralavam no sobe e desce frenético da Serra da Mantiqueira. Em pouco tempo, as extensas planícies às margens da estrada, as araucárias, as escuras montanhas rochosas e a Área de Proteção Ambiental Fernão Dias foram deixadas para trás. Embrenhava-me agora por uma vicinal que me levaria a Lambari. Próximo a uma plantação semialagada, que imagino ser de arroz, parei por um momento para analisar a rota que faria a partir deste amarelado cenário.

Ao fundo, o Pico do Papagaio

Cachoeira do Rio Furnas
Com o caminho a seguir devidamente interiorizado, atravessei o pequeno município de Lambari e localizei um trevo do qual se ramificava a rodovia Vital Brazil, que supostamente me conduziria a Juiz de Fora. A ela me atrelei, sentindo randomicamente o efeito da troca da gélida sensação da manhã paulista pelo calor causticante do começo de tarde mineiro. Cruzei uma ponte sobre o Rio Verde e outra sobre o Rio Baependi, ambos afluentes do meu querido Rio Grande, o qual visitei, junto com Rodrigo Costa Gil, na viagem anterior, quando rumávamos a Três Marias. Numa blitz policial, cujo pano de fundo era a cidade de Caxambú e seu Cristo Redentor no alto do morro, conheci Túlio, um motociclista que pretendia chegar a São Thomé das Letras. Trocamos algumas informações e prosseguimos, sós, em direções opostas. O caminho adquiria mais garbo à medida que Caxambú se tornava cada vez menor quando olhada pelos espelhos retrovisores. Passei algumas vezes sobre o Rio Furnas, que vem serpenteando sobre a rodovia na tentativa de encontrar o Grande, e do acostamento da estrada pude visualizar algumas volumosas – e inacessíveis – cachoeiras. Lamentando a impossibilidade, continuei vagarosamente pelo curvilíneo desenho da Vital Brazil até o trevo de acesso a Aiuruoca, de onde era possível avistar o Pico do Papagaio, montanha rochosa de 2293 metros de altitude muito procurada por montanhistas de todo o Brasil. Enquanto o observava, um outro motociclista emparelhou-se a mim e se apresentou como Lázaro. Enquanto sorvia a fumaça do tabaco, tentava me convencer a conhecer Aiuruoca, sua cidade natal. Eu, contudo, estava decidido. Iria ao Itabapoana, e ainda estava bem longe de lá.
Pico do Pão de Angu
Já me aproximava da enorme Juiz de Fora, terra na qual me vi perdido em uma outra ocasião. Na parte da Mantiqueira que circunda a cidade de Lima Duarte, a chamada “Serrinha de Lima Duarte”, uma outra montanha rochosa me chamou a atenção. Tratava-se do Pico do Pão de Angu. Infelizmente não consegui precisar a que altitude estava, mas eu diria que é consideravelmente menor que a do Pico do Papagaio. Com o formato de barbatana de tubarão e com uma rala vegetação circundante, foi a penúltima grande paisagem da rodovia Vital Brazil. Como se já não bastassem as dúvidas com relação à altitude deste magnífico maciço, fui obrigado a ficar ainda mais cabisbaixo ao ver outra grande montanha de pedras, extensa e dividida em três partes, e não conseguir sequer uma singela informação sobre ela. Nem nome, nem altitude. Absolutamente nada. Por mais que eu interpelasse alguns transeuntes, aparentemente apenas eu enxergava aquela imponente obra da natureza. Ademais, exclusivamente eu parecia me importar em saber. Mascarei e estampada decepção e prossegui, chegando alguns quilômetros depois a Juiz de Fora. Para não me perder novamente, desci a BR040, contornando este grande município pelo lado oeste. Fiquei pouco tempo nesta rodovia federal, mas o suficiente para admirar, a partir de um de seus mirantes, a infinitude da Serra da Mantiqueira. As cristas das montanhas mais longínquas se confundiam com os céus e, ao mesmo tempo, respeitavam-se entre si, já que nenhuma se sobressaia enormemente em relação a outra, ficando todas praticamente no mesmo nível, na mesma altura, como pontas de bem aparadas madeixas.

Serra da Mantiqueira vista a partir da BR040, em Juiz de Fora

Muriaé
Deixei a BR040 e acessei, logo ao sul de Juiz de Fora, uma estrada que me levou a Matias Barbosa, município banhado pelo Rio Paraibuna e que, no Brasil Colônia, mais precisamente a partir de 1707, fazia parte do chamado Caminho Novo, rota por onde o ouro e o diamante de Ouro Preto eram transportados para o Rio de Janeiro. Em Matias Barbosa havia uma espécie de pedágio, chamado na época de “registro”. Cobrava-se dos viajantes, que se locomoviam a pé ou sobre mulas, uma quantia pela utilização da estrada, aberta com mando e subsídios da coroa portuguesa. Pensando numa futura incursão pelo que restou do Caminho Novo, debandei da pequena cidade e me embrenhei pela estrada que me levaria a BR116, nunca perdendo de vista os desenhos da Mantiqueira que aqui, não sei por que razão, se exibem triangulares. Em poucos minutos eu já era “desembocado” na rodovia pretendida, na altura do município de Leopoldina. Todos os perigos da Rio-Bahia, como aqui é chamada a maior rodovia do Brasil, felizmente não mostraram seus preocupantes indícios a mim enquanto subia, sentido norte, rumo à cidade de Muriaé, passando pela discreta Laranjal e pelo espalhafatoso Rio Pomba, importante afluente do Paraíba do Sul. Em Muriaé decidi pernoitar, visto que, quanto mais ao leste se vai, mais cedo o dia cede lugar à noite. Não eram ainda 17:30h e o sol já havia deixado de iluminar o município há algum tempo.
Serra do Brigadeiro
Muriáe, no alto de seus 215 metros de altitude, acorda cedo. Eram 5:30h da manhã e o astro-rei já luzia forte a leste. Eu rodara 780km até então, e ainda faltavam mais 150km para chegar ao meu primeiro objetivo: a tríplice divisa entre MG, RJ e ES, onde o Rio Itabapoana principia a sua descida em direção ao mar. Com pressa, então, abandonei a cidade, não sem antes fotografar o degradado Rio Muriaé, afluente do Paraíba do Sul. Uma feira pública em suas margens dava um ar de desorganização ao lugar, mas nem por isso deixei de chamar a atenção de alguns transeuntes que, ao me verem fotografando, indagaram se eu estava registrando as capivaras que usufruem – não sei como – do rio. Obtemperei que seria um privilégio, mas que não conseguira localizar capivara alguma. Deixei o município de cem mil habitantes e me embrenhei a leste, pela chamada Serra do Brigadeiro, em direção à divisa do Estado de Minas Gerais com o Rio de Janeiro. Eu estava inserido, agora, nos recônditos onde antigamente os Puris, indígenas de estatura baixa, extraíam o seu sustento, seja pela caça seja pela pesca. O modo de vida nômade e os métodos rústicos empregados em suas ações, bem como sua aparente amabilidade para com os colonizadores brancos, os tornavam alvos fáceis para os portugueses que, ao chegarem a estas terras, no começo do século XVI, tentavam ao mesmo tempo catequizá-los, escravizá-los ou simplesmente dizimá-los. O último viés parece ter sido o mas utilizado. Deixando de lado nossa nefasta história, serpenteei pelas montanhas singulares da Serra do Brigadeiro e, quando me dei conta, já estava no Estado do Rio de Janeiro.

Subindo a Serra do Sapucaia

Santa Clara, distrito de Varre-Sai
Em terras fluminenses, prestamente adentrei uma vicinal que, de tão ladeada por vegetação, mal permitia a entrada da luz do sol. Essa via, obscura, linda e gelada, me levou diretamente a Raposo, pacata cidade envolta por um pedaço da Mantiqueira chamado de Serra da Sapucaia. Por estar em estradas menos movimentadas, a partir deste momento comecei a notar mais a avifauna exuberante da mata atlântica, e logo ao principiar a subida para Natividade tive a oportunidade de observar alguns gaviões, falcões, tucanos e sabiás. Já em Natividade, acessei uma rodovia que me desembocou em Varre-Sai, onde fui instado pelos organizadores de uma corrida de rua a circundar toda a cidade para continuar no caminho correto, uma vez que em grande parte das ruas o trânsito de veículos motorizados estava impedido. Fui sacolejando entre os paralelepípedos que pavimentam as ruas desta aprazível cidade de nome cômico e localizei, a cerca de 5km do centro, uma estrada de chão que apontava para Santa Clara, distrito de Varre-Sai e de onde supostamente eu partiria para a conclusão do meu primeiro objetivo. Por 18km, num sobe e desce lento por entre os sítios locais, alcancei o pacato distrito, não sem antes fotografar um carcará que, repousando sobre uma amoreira, parecia me indicar com o bico forqueado que eu estava no caminho correto. Passando por um templo católico em construção na parte alta do vilarejo, embrenhei-me pelo emaranhado de estradas de terra que me aproximariam do meu destino.
Cachoeira ao lado de um cafezal
Cortando sítios, fazendas e obtendo informações com os sitiantes locais, fui abrindo porteiras e desviando do gado fluminense. Uma parte da estrada, de tanto estrume que continha, quase me fez perder o equilíbrio e ir ao chão. Poucos metros à frente, o susto se dissipou com os ruídos de água caindo. Era uma bela cachoeira, escorregando pelas lisas pedras à beira de um cafezal. Minhas coordenadas mostravam que, a minha esquerda, após os montes, era território mineiro; e a minha frente, a menos de 500 metros, passava o Rio Itabapoana, meu objetivo, mas num ponto que não correspondia a sua cabeceira. Avancei com cautela e alcancei o rio. Este foi o meu primeiro contato com as águas do Itabapoana. Marrom, ainda estreito, praticamente desprovido de mata ciliar. Um cavalo pastava pacificamente no lado carioca. No outro lado do rio, território capixaba, e uma ponte de madeira me levou até ele. Para que o leitor se sinta mais a par da importância do rio, saiba que o Itabapoana faz a divisa natural entre o Rio de Janeiro e o Espírito Santo pelos 144km de seu curso. É, portanto, um importante recurso natural para ambos os Estados. Não me contentei, todavia, em apenas localizá-lo. Fui margeando-o no sentido oposto a sua corrente para conhecer o princípio de seu majestoso caminho rumo ao mar. Foi quando me deparei com uma fazenda cuja construção remonta ao período escravagista do Brasil: a Fazenda 3 Estados. Minha aventura começaria, definitivamente, a partir daqui.

Rio Itabapoana. Do lado de cá, o Rio de Janeiro. Do outro, o Espírito Santo

Confluência dos rios São João e Preto,
ou "nascente" do Itabapoana
O casarão da Fazenda 3 estados, que já abrigava parte de seus trabalhadores para o almoço, chamou-me a atenção pela simplicidade e pelo zelo do Senhor Ítalo, proprietário há mais de 60 anos. Tive o prazer de conhecê-lo e, ao informá-lo sobre meus planos, obtive a permissão para palmilhar uma curta trilha que me levaria diretamente à confluência dos rios São João e Preto, estes que, ao se unirem, formam o Itabapoana. Caminhei por alguns minutos, passando por uma pequena represa, alguns abacaxizeiros, um barranco e a casa do Senhor Ítalo, apartada do casarão principal da fazenda. Da parte posterior do casebre azul e branco já era possível avistar o casamento entre os rios e a concepção do Itabapoana. As águas negras do Rio Preto e as águas marrons do Rio São João se chocavam, e cada um lutava para manter sua cor até que, depois de alguns metros, já no curso do Itabapoana, se transformavam em um só, com a mesma cor marrom. Ambos os rios nascem na Serra do Caparaó, palco de guerrilhas na ditadura militar e segunda maior serra do Brasil em média de altitude, perdendo apenas para a Serra do Imeri, na divisa do Brasil com a Venezuela. O local em que eu estava, a cabeceira do Itabapoana, faz a divisão natural de território entre os Estados de Minas Gerais, Rio de Janeiro e Espírito Santo. O Rio Preto, que vem do norte, divide Minas e Espírito Santo. O Itabapoana, que vai para o leste, divide Rio e Espírito Santo. As montanhas ao sul do São João dividem Minas e Rio. Esta é a tríplice divisa, o que, inclusive, inspirou o nome da fazenda: 3 Estados.
Primeiras corredeiras
Desci à zona da confluência para medir com o altímetro a altitude da “nascente” do Itabapoana: 650 metros acima do nível do mar. Eu teria que vencer, juntamente com as águas do “pedra empinada da aldeia do barulho das águas” (significado indígena de Itabapoana), um desnível de de mais de seis centenas de metros até sua foz, no Oceano Atlântico. Como já dito anteriormente, seriam 144km de estradas incertas, ora por asfalto ora por terra. Apressando-me, fotografei as corredeiras do Rio Preto, pouco antes de juntar-se irreversivelmente ao São João, e regressei ao casarão sede da fazenda. O Senhor Ítalo me aguardava para o almoço. Quanta generosidade deste homem! Servir a um estranho! Conversei com sua família e empregados durante um bom tempo enquanto degustava a taioba, que me foi apresentada por Alice, a cozinheira. Nunca em minha vida tive o prazer de comer tal vegetal, e devo dizer que é assaz saboroso. Lamentei o fato de minha timidez me impossibilitar de pedir que o Senhor Ítalo me desse as honras de poder tirar uma foto com ele. Sou tão acostumado a lidar com o mundo que desacostumei-me no trato cordial com as pessoas. Como se não bastasse o zelo para comigo, o nobre homem ainda me exortou a conhecer as primeiras corredeiras do Itabapoana. Descendo por uma pequena trilha, após a primeira ponte do curso do rio, pude fotografar o começo do desnível do curso divisor de dois Estados. É realmente uma pena que em alguns pontos a mata ciliar tenha sido transformada em pastagens. Segundo a esposa do Senhor Ítalo, que por indiscrição esqueci de perguntar o nome, os proprietários de sítios às margens do Itabapoana vem adquirindo consciência da importância do rio. Porém, o trabalho de recuperação é longo. Tomara que dentro de alguns anos a mata atlântica volte a florescer nos entornos deste importante manto d'água.

Fazenda 3 Estados

PCH de Rosal
Despedi-me do Senhor Ítalo, de sua família e de seus empregados e dei início à segunda parte de minha aventura: margear o rio. Na segunda ponte, a mesma que me permitira o primeiro contato, atravessei para o lado do Rio de Janeiro e adentrei uma estrada que corria paralela ao curso. Fui passando por porteiras semiabertas, acenando para alguns poucos sitiantes que trabalhavam nos cafezais locais, cumprimentando pescadores e assustando os canários-da-terra, que zarpavam dos mourões em direção ao meio das plantações. O rio, sinuoso, me permitiu que o acompanhasse, sempre por terra, até um momento em que não mais foi possível margeá-lo. Faltou uma estrada. Tive que rumar um pouco ao sul, onde passei por alguns de seus afluentes, corredeiras e cachoeiras, para depois pender novamente para o leste e reencontrá-lo no povoado de Prata, após um breve trecho de asfalto. Aqui se encontra a primeira ponte de concreto, o que dá início ao curso mais urbanizado do rio. Deixei as poucas casas deste ermo e segui paralelamente, por estrada de terra mais uma vez, até a primeira parte represada do Itabapoana: o Lago de Rosal, concebido com o intuito de mover as turbinas da PCH de Rosal, gerando energia para os municípios adjacentes. Um pouco à frente localizei a barragem, com uma queda de aproximadamente 35 metros. Do lado direito a queda forma uma espécie de leque d'água e, por mais que eu tenha tentado descobrir o motivo disso, nunca poderia. Não havia sequer uma alma próxima a e esta Pequena Central Hidrelétrica. Eu estava, agora, a 575 metros de altitude. O rio vencera, até então, com a sempre grata ajuda da gravidade, um desnível de quase 100 metros desde a sua cabeceira.
Cachoeira-corredeira de Rosal
Adiante, sempre com o rio a minha esquerda, passei por uma enorme cachoeira-corredeira (que em épocas anteriores à construção da barragem da PCH de Rosal deveria gozar de uma maior vazão d'água) e pela ladrilhada avenida principal da pequena Rosal. A Igreja Matriz e seu florido jardim me chamaram a atenção, mas tinha que continuar na lida. Por asfalto, subi e desci as encostas do vale, obtendo uma acalentadora visão das partes mais altas da serra. Seguindo umas placas indicativas localizei uma ponte de madeira que me serviu de mirante para a segunda barragem do Itabapoana: a da PCH de Calheiros. Muito pouca água passava por essa pequena barragem. O rio, após ela, se estreitou de uma tal maneira que parecia sumir entre as pedras de seu leito. Registrando o ocorrido, retomei minha direção leste. Transpassei a cidade de Calheiros e encontrei a Casa de Força da PCH de Calheiros, onde uma súbita chuva me obrigou a parar. Sob a vegetação do acostamento oposto à Casa de Força, aguardei por breves cinco minutos até que o chuvisqueiro cessasse seu gotejar para então fazer a medição: estava a 360 metros de altitude. O preocupante é que em menos de 70km eu já encontrara duas hidrelétricas. Apesar de serem de pequeno porte, com reservatórios que não passam de 3km², são capazes de causar certos impactos ambientais. Contudo, vale frisar que os municípios aos quais é distribuída a energia dessas PCHs dependem única e exclusivamente da força deste rio, visto que são áreas pouco urbanizadas e não-industrializadas. A energia das grandes UHEs, hidrelétricas de grande porte, não chega a estes recônditos. Mais uma vez o antagonismo ferrenho entre progresso e preservação ambiental encontra argumentos contrários e favoráveis. Mais uma vez algo tem que ceder, mesmo que esse algo seja sempre a própria natureza.

Represa do Rio Itabapoana que alimenta a PCH de Calheiros

Barragem em Barra do Pirapetinga
Via asfalto eu perpetuava minha marcha rumo ao mar. Percebi, após deixar para trás a cidade de Barra do Pirapetinga, que a pavimentação me levaria para longe do rio. Fui obrigado, mais uma vez, a enveredar-me por uma estrada de chão. Dois quilômetros nela foram suficientes para que avistasse uma terceira barragem. Porém, eu estava na crista do vale, local tão elevado que me possibilitou apenas fotografá-la de longe. O rio fazia grandes curvas neste ponto, e as pedras aumentaram sua concentração no leito quase seco por causa da pouca vazão da barragem. O aspecto confortante é que a mata ciliar, protegida pela impetuosidade do vale, se mostrava mais exuberante, bem preservada. Alguns metros adiante a estrada foi se afunilando. Parecia que nenhum veículo passava ali há tempos. Não havia marcas de pneu ou pegadas humanas no chão. Para piorar a situação, a estrada, que já se estreitara e muito, decidiu desaparecer em meio a uma vegetação que se adensava. Eu não conseguiria manobrar a minha moto e voltar, dada a pouca largura da via. Ao meu lado direito, a encosta de uma montanha. Ao meu lado esquerdo, o precipício do vale. Tudo o que pude fazer foi vencer lentamente a vegetação, acelerando com cuidado na tentativa de “vazar” o mato. Ia ganhando terreno, cortando superficialmente as mãos e o pescoço com as folhas da envolvente vegetação, até que me deparei com um desbarrancado. Sobrara apenas meio metro de “estrada” para eu tentar atravessar. Digo tentar porque esse ínfimo pedaço poderia desbarrancar também caso eu dispusesse o meu peso e o de minha moto sobre ele. Fechei os olhos, acelerei e, felizmente, o derrotei. Ileso, abri caminho por entre os arbustos restantes. Uma pedregosa estrada era vista adiante. Errei pela mesma e dei de cara com a Casa de Força da PCH de Pirapetinga, proprietária da terceira barragem.
Esgoto despejado no rio
Com uma ilhota equidistante das margens capixaba e fluminense, o rio, caudaloso, descia. Estava a 110 metros de altitude. Com a noite se aproximando, acelerei o máximo que pude, por asfalto, até Bom Jesus de Itabapoana e sua altitude de 90 metros, onde o rio recebe dejetos dos 35000 munícipes. Some-se a isso o esgoto de mais 10000 do lado do Espírito Santo, diretamente da cidade de Bom Jesus do Norte. É a área mais urbanizada do curso do rio, e talvez por isso a mais malcheirosa. Não há mata ciliar, nem sequer margens. As casas são edificadas praticamente sobre o rio, encurralando-o com concreto. A beleza da Praça Governador Portela, onde descansei, poderia me animar, mas o garbo artificial de uma obra humana não anula a degradação a que o homem expõe o ambiente em que vive. Por mais que a cidade trate parte de seu esgoto, muito ainda é despejado nas majestosas águas do Itabapoana, e isso é lastimável. Ignorando a minha revolta, parti incontinenti dali, passando para o lado do Espírito Santo, onde segundo meus mapas eu supostamente permaneceria descendo paralelo ao rio, o que não aconteceria no Estado do Rio. Neste intento conheci Marco, um ex-motociclista que fora obrigado a vender a moto para investir no restaurante localizado imediatamente após a ponte entre Bom Jesus de Itababapoana e Bom Jesus do Norte. Declarando admiração pela vida que levo, frisou que, um dia, voltaria a aventurar-se. Despedimo-nos e, com as coordenadas do próprio Marco, dei um último estirão em direção à foz. O mar estava próximo. Bem próximo.

Bom Jesus do Itabapoana

Serra do Garrafão
Eu via a Serra do Garrafão, ao longe. O Itabapoana, agora, corria a minha direita. Em Apiacá, registrei que estava a 60 metros acima do nível do mar e mais largo do que eu me habituara. De uma ponte com as proteções laterais avariadas eu visualizava, vívida, a serra do mar, mas estava tão desorientado que não fui capaz de discernir quais picos eram. Meus mapas também não elucidavam coisa alguma. Com muitas dúvidas prossegui, alcançando Ponte do Itabapoana e seus 50 metros de altitude. Nesse município pude fotografar a única ponte férrea que cruza o rio. Fotografei também o prédio da estação, inaugurado em 1879 e tirada de funcionamento talvez na década de 40. Digo talvez porque muitos documentos da fase áurea das ferrovias do Brasil foram perdidos, e não há, portanto, como ter certeza de datas. Distanciando-me de Ponte do Itabapoana, rumei ao leste para a BR101. Os meus olhos estupefatos foram agraciados, neste ínterim, pela vista magnífica da Pedra do Garrafão, contrastante com a última área represada do curso do Itabapoana, que praticamente chega ao acostamento da rodovia asfaltada. Essa represa alimenta a PCH Pedra do Garrafão, mas infelizmente do ponto em que eu estava não era possível registrar em fotos a barragem. O cenário, indescritível, foi a mais bela vista de todo o Itabapoana. Ver a Serra do Garrafão por entre o capim-do-texas-rubro, que se prolifera abundantemente pelas margens da represa, tornou essa minha insana cruzada em algo deveras recompensador. Em um daqueles raros momentos de vaidade, senti-me feliz, totalmente interligado com aquela paisagem deslumbrante. Contudo, todo e qualquer sentimento de felicidade e vaidade é efêmero, e eu ainda seria castigado por isso.
Ponte férrea em Ponte do Itabapoana
Fui desembocado na BR101. Meus mapas e a observação atenta da geografia local me instaram a voltar para o Estado do Rio de Janeiro, visto que não existiam mais estradas que margeavam o Itabapoana. Eu teria que buscar um caminho alternativo, sem a referência do vale do rio que, a esta altura, já não existia mais, pois estava em uma planície próxima ao mar. Cheguei à conclusão de que a Estrada do Morro do Côco, próxima ao Morro do Baú e a Pedra Lisa, que de longe tive o privilégio de fotografar, seria a melhor escolha. Rapidamente me dirigi a ela, adentrando-a sem problemas. Trechos de asfalto poroso, intercalados com a sempre presente estrada de chão, me levaram por entre pequenos vilarejos, como o de João Pessoa. Eram quase 17 horas e, apesar de tudo, o sol ameaçava se por, instando-me a me apressar. Mesmo no azáfama de concluir minha missão de chegar à foz do Itabapoana, tirei algum tempo para registrar a despedida de nosso astro-rei de mais um dia. Ele, que me acompanhara por todo desde a manhã, mesmo que em muitas ocasiões tenha sido sobrepujado pelas densas e inofensivas nuvens, melancolicamente escondia seu brilho. Não poderia ignorá-lo. Naqueles raros momentos – como os de vaidade e felicidade – em que o aventureiro é insuflado pela lucidez, diminuí o ritmo. Seria impossível ver a foz do Itabapoana sem a luz do sol. Contentei-me em desbravar o distrito de Barra de Itabapoana, pertencente à cidade de São Francisco do Itabapoana, e aguardar o nascer de um novo dia para completar minha cruzada.

Morro do Baú e Pedra Lisa

Lago próximo à foz
Alvorecia o dia 30 de abril e com ele meu ensejo de eloquentemente finalizar o que há dois dias principiara. Aos 0 metros de altitude, no nível do mar, acelerei minha moto até a avenida de Barra de Itabapoana que margeia as últimas curvas do rio. Muitos barcos de pesca estão aportados aqui, já que os mesmos, tendo este ponto estratégico como local de partida, gozam da liberdade de pescar tanto no rio quanto no mar, sem precisar, para tal, se movimentarem por grandes distâncias. O lixo, infelizmente, se acumulava sob os coqueiros, próximo à água, extraindo do cenário parte de sua airosia. As garças são as aves mais notadas. Pousadas sobre os perigosos decks improvisados, que possibilitam o acesso da margem ao interior dos barcos maiores, elas observam os últimos metros de “vida” do rio. Do outro lado, em território capixaba, um denso manguezal impede a vista da Praia da Neves. Não havia problema algum. Tentaria visitá-la assim que concluísse meu derradeiro objetivo. Ao lado da rósea Igreja Matriz tive meu último vislumbre exclusivo. Pretendia vê-lo, agora, sendo despejado no mar, e no afã de que isso ocorresse, acelerei desmedidamente pelo solo irregular, uma mistura de areia, terra e paralelepípedos. Ao apear de minha moto na areia da praia, um azulado lago, formado pelas águas do Itabapoana que desviam para uma depressão da orla arenosa, conquistou minha admiração. Enquanto o fotografava, aproximou-se de mim o Senhor Raimundo, que também chegara aqui sobre duas rodas. Meu desejo de ver o mar aumentava à medida que conversávamos sobre nossas viagens e aspirações futuras. Da beira do lago era impossível vê-lo. Dunas altas me privavam de suas ondas. Por uma ininterrupta hora dialoguei com o carismático homem de Cachoeiro do Itapemirim, ao som do chacoalhar das águas do Atlântico. Ao nos apartarmos, apertei o passo em direção à praia.
Praia de Barra do Itabapoana
Cambaleante, errei pelas dunas, tentando me desviar da vegetação rasteira, predominantemente salsa-da-praia com suas flores arroxeadas, que as manteavam. Do alto dos montes de alva areia tive meu primeiro vislumbre do mar. A orla, a minha direita, se estendia a perder de vista, fazendo uma curva para sudeste. À direita, distante uns 200 metros, o objeto de meus devaneios: a foz do Itabapoana. Caminhei, com jaqueta e tudo, sob o sol causticante do extremo nordeste do Rio de Janeiro, nem me dando conta de que muitos detritos da civilização salpicavam a areia. Quando me aproximava do momento da simbiose entre o doce e o salinizado, eis que dois carcarás, como que por obra do destino, pousam sobre a areia que, na maré cheia, é acariciada pelo mar e, na maré baixa, serve de encosto e leito aos últimos centímetros do Itabapoana. Logicamente o casal de falconídeos, símbolo de minha luta pessoal pela descoberta de um Brasil que muitos – e que eu próprio – não conhecia, debandaram tão logo notaram minha aproximação. No ponto de contato entre as águas marrons do “meu rio” e do Oceano Atlântico, sentei-me para sentir o emocionado prazer de ter concluído uma missão. Eu margeara este importante rio da Região Sudeste por aproximadamente 150km, vencendo, neste ínterim, um desnível de 650 metros, desde a tríplice divisa até este pequeno canal de talvez 30 metros de largura. Sobre a areia, em meio à sujeira que o rio carrega para o mar e que o mar devolve para a areia, eu via, do outro lado da foz, a Ponta das Neves, o extremo sudeste do Espírito Santo. Havia perambulado pelos dois Estados e, agora, tornaria a espalda a eles. O prazer de vê-los ambos na finalização de minha cruzada, na companhia dos serelepes maçaricos-pintados que chafurdavam a orla (nunca se está realmente sozinho), foi algo inenarrável. Bem mais do que as pegadas marcadas por minhas pesadas botas na areia, deixaria ali uma parte de mim, um laivo de meu incansável espírito. Abandonaria aquela contumácia, aquela obstinação naquele ermo para dar lugar a novos desejos, a novas aspirações, à concepção de novas aventuras. Não estava no lugar mais belo do mundo. Contudo, naquele instante, todo o peso secular do Itabapoana pareceu se desvelar aos meus sentidos. Eu, daquele minuto em diante, tornava-me íntimo de suas águas, passando a também fazer parte de sua história.

Foz do Itabapoana no Oceano Atlântico

Praia das Neves
Pensava eu que, deixando a foz, me apartaria do Itabapoana. Ledo engano. Com coordenadas de alguns moradores locais, deixei Barra de Itabapoana e localizei a última ponte a cruzar do Rio para o Espírito Santo. Por ter desviado pela Estrada do Morro do Côco, tal ponte me passara despercebida. Para tapar esse hiato, errei por uma rósea estrada de terra. Em questão de minutos eu estava sobre a ponte, novamente na divisa de Estados. Enquanto fotografava o rio a uma altitude de 12 metros, observei a passagem de um motociclista que vinha do lado capixaba. Ao me ver ao lado de minha moto e fotografando, apeou próximo a mim. Trocamos muitas informações e ele me elencou as maravilhas do litoral do Espírito Santo. Carlos, natural de Minas Gerais, conhece muito bem toda a costa capixaba, como boa parte dos habitantes do leste mineiro. Como Minas não é banhada pelo mar, os mineiros acabam "migrando" para a orla do Espírito Santo, que é a mais próxima. Visitei grande parte dos lugares que mencionou, mas deixei que falasse por curiosidade de saber se haveria algo novo, que eu ainda não visitara. No fim da conversa, tinha uma boa ideia de lugares desconhecidos para uma futura viagem. Ao nos despedirmos, vaguei pelo extremo sudeste capixaba, passando pela deserta Praia da Neves, de onde também se vê a foz do Itabapoana a partir da Ponta das Neves. Perambulei descompromissadamente pela restinga até o princípio do manguezal, que me impedia de prosseguir, mesmo a pé. No regresso ao Estado do Rio de Janeiro, encontrei, abandonada pelo tempo, uma capela forrada de marimbondos e vespas. Sem mais o que fazer, e já me preparando psicologicamente para o regresso, voltei para Barra de Itabapoana e para o Estado do Rio de Janeiro. A rota eu já traçara na noite anterior.
Turbinas eólicas na Praia de Gargaú
Parti de Barra de Itabapoana exatamente ao meio dia. Fui seguindo a costa do Atlântico rumo ao sul, passando pelas praias de Porto de Manguinhos, área de desova de tartarugas fiscalizada pelo TAMAR, e Maxindiba, ambas pertencentes ao município de São Francisco do Itabapoana. De Maxindiba tive uma visão inesperada: as turbinas eólicas da Praia de Gargaú, que transformam as correntes marítimas em energia elétrica. Atravessei o centro da movimentada São Francisco de Itabapoana, que apesar do nome está bem afastada do rio do qual toma seu último nome emprestado, enviesando-me logo depois por Imbuíra e Travessão. Na grande Campos dos Goytacazes, importante polo petrolífero do Brasil, comecei a margear o Rio Paraíba do Sul contra a sua corrente. Ele seguia rumo ao mar. Eu subiria à região serrana do Rio de Janeiro. Sem demora deixei São Fidélis para trás, atracando em Itaocara para fotografar a Serra da Bolívia. Adotando um ritmo condizente com o trecho sinuoso em que estava, errei por Boa Sorte e Euclidelândia, descendo ulteriormente para Carmo, na divisa com o Estado de Minas Gerais. O tempo ameno me incitou a continuar subindo em direção a Serra dos Órgãos. Contudo, enquanto ascendia em direção a Teresópolis, a bruma foi me envolvendo e a temperatura decaindo. Ainda tinha esperanças de ver o Dedo de Deus, já que em minha última visita, com o meu intrépido camarada Levi Vieira, a fatídica neblina me privara deste onipotente cenário. Ao entrar na avenida principal de Teresópolis, a chuva desabou sobre 880 metros de altitude. Na serra que circunda a cidade há construções a mais de 1000 metros. É um local que sofre demais com o aguaceiro dos céus. Deslizamentos de encostas, infelizmente, foram responsáveis por muitas mortes em 2011. Como se não bastasse todo o sofrimento do povo desta cidade que aprendi a admirar, há ainda uma politicagem, desprovida de sequer um naco de misericórdia, que faz com que o dinheiro necessário para reparar os danos e guarnecer este belo pedaço do Rio de Janeiro seja desviado para sabe-se lá onde.

Rio Paraíba do Sul e Serra da Bolívia, em Itaocara

Teresópolis
No dia primeiro de maio as intempéries amanheceram comigo. Chovia muito, os termômetros marcavam 11º C e a bruma insistia em mistificar a visão. Fui obrigado a descer a perigosa e escorregadia Serra dos Órgãos em direção à cidade do Rio de Janeiro. Na Avenida Brasil, em território carioca, acessei a Rodovia Dutra, assolada por um aguaceiro que foi meu fiel companheiro até Resende, na divisa com o Estado de São Paulo. Meu Estado me recepcionou com um sol que luzia forte, apesar do frio. Fui sendo assaltado pelos abusivos pedágios até o município de São José dos Campos, onde adentrei uma outra meliante: a Rodovia Dom Pedro. Aquela sensação que tive no primeiro dia de viagem, de deixar a RMC em direção ao verde da serra, agora se invertia. Passei pela Represa de Atibainha e pela cidade de Atibaia. Em poucos quilômetros estava em Campinas, novamente sentindo a claustrofobia proporcionada pelo excesso de cinza. As saudades de casa eram extensas como o Itabapoana. Nos últimos metros de minha aventura, quando o odômetro de minha fiel e única companheira de viagem marcava 2100km, pensei em tudo o que havia deixado para trás por causa desta singela e recompensadora cruzada: a segurança de um lar, o carinho de uma namorada e a alegria de estar com os meus grandes amigos e familiares. No fim, realmente não deixei tudo isto para trás, pois regressei mais “eu” do que era antes. Voltei melhor para estas pessoas. Apenas aquela parte de mim, que fui espalhando como cinzas sobre as águas do Itabapoana, preferi não trazer comigo. Esta, assim espero, reaverei algum dia, quando uma nova aventura por aqueles confins for engendrada.
Desta forma serei enquanto permitir-me o mundo. Com o aval das águas, da fauna e da flora vagarei, tomara que eternamente, pelos ermos deste Brasil que, mesmo judiado, esconde em seu interior as mais ricas belezas deste imenso globo terrestre. Ainda há muito o que conhecer, logicamente, mas a coragem dentro de mim é produzida ininterruptamente para vencer esse imenso desafio de transformar a vida em algo útil, em conhecimento, em interação com o meio ambiente. Não almejo que todos se inspirem ou que sejam como eu. Auguro apenas que, ao escancarar o Brasil, as pessoas desfaçam aquele senso comum de que o mundo se baseia unicamente nas relações interpessoais com as pessoas da própria cidade em que vivem, sempre nos mesmos cenários. Há diferentes formas de vida e de interação lá fora, e nem precisamos ir para outros planetas para comprovar tal teoria.


Mais fotos aqui.

E abaixo, um lamento cheio de erros composto especialmente para o Rio Itabapoana.

sábado, 14 de abril de 2012

Três Marias – de 05 a 08 de abril de 2012


Como se fosse um rio, a vida segue seu curso. Ao som de acordes dissonantes a existência humana se arraiga cada vez mais profundamente no fértil solo da Terra. Temos comprovado vangloriosamente, vez sobre vez, nosso domínio sobre a natureza, mesmo que em muitas oportunidades as respostas nos venham à altura: catástrofes ambientais, como grandes tsunamis e portentosos terremotos, não são assim tão raras e, pelo menos enquanto são veiculadas por algum meio de comunicação, as tememos. Elas – e somente elas – deveriam ser a prova cabal de que o mundo é um organismo que independe da nossa existência. Se as águas dos revoltos mares precisarem abrir caminho através do continente, não pedirão permissão ao “grande” ser humano. Na verdade, nós, como todas as outras espécies de seres vivos, somos dependentes diretos do que foi naturalmente edificado pela história natural, ou a história do Planeta Terra. Desde os primórdios alicerçamos nossas povoados às margens dos rios que nos proviam maior abundância de água e peixes. Hoje parece que perdemos o respeito por eles, pois simplesmente temos tudo às mãos, bastando que se compre no local mais conveniente. Portanto, por mais que manipulemos a natureza com o único intuito de evoluir – entenda-se “evoluir” como consumir, ostentar – ainda pagaremos um preço maior por toda essa degradação. Como se fosse um rio, a vida seguirá seu curso, é bem verdade. Resta saber até quando este rio permanecerá, sereno, em seu leito.
Dois aventureiros e um destino
Minas Gerais novamente: eis o destino da mais recente incursão. Os escusos motivos que nos levaram a escolher a cidade de Três Marias como escopo poderiam ser muitos, mas Rodrigo Costa Gil e eu os sintetizamos em apenas dois: o primeiro, conhecer o Rio São Francisco, ou “Velho Chico”, simplesmente o maior rio inteiramente em território nacional (o Amazonas nasce no Peru e, portanto, não é estritamente brasileiro); o segundo, desbravar a região noroeste do Estado mineiro, esta até então desconhecida por nossos intrépidos espíritos. Olhando de soslaio esta região no mapa de Minas Gerais, saltou-nos aos olhos uma respeitável mancha azul entre os municípios de Três Marias e Morada Nova de Minas. Pesquisando mais intensamente, tomamos conhecimento de que era uma represa insuflada pelas águas do rio supracitado. Estávamos, portanto, decididos a enfrentar a dura realidade das vicinais mineiras para suprir essas lacunas. Certamente nos maravilharíamos com a beleza dos desenhos de seu complexo relevo, mas pretendíamos ir além disso. Colocaríamo-nos também de frente a um bombardeiro de grosso calibre, que de suas entranhas cospe grandes quantidades de informações históricas. Estas, garanto, muito nos fazem evoluir como alunos. Quem viaja, com interesse e abertura a dados, aprende mais do que em qualquer escola. Isso quem diz é um incansável viajante que, nas horas vagas, tem sido professor por carreira.
Rodovia Anhangüera
Rodrigo e eu partimos da altitude de 623 metros do portal de Americana em uma quente manhã de outono. Com os termômetros acusando pouco mais de 30ºC, enveredamo-nos pela fastidiosa Rodovia Anhangüera, errando através das enormes plantações de cana-de-açúcar em sua primeira centena de quilômetros. Em Leme, um Cristo Redentor ao alto de um aparentemente elevado morro nos saudava com um ar distante. O morro, porém, não era tão grande quanto os imponentes tonéis onde o conhaque e a cachaça repousam, aguardando a retirada para o envase, nas imediações de Pirassununga. O horizonte escasso de nuvens nos exortava a prosseguir, e devo dizer que a ausência dos mares de cana após adentrarmos os domínios de Santa Rita do Passa Quatro não foi muito lamentada. Uma tímida vegetação, deste ponto em diante, parecia hastear a bandeira e demonstrar a força da estação mais amarelo-esverdeada do ano. Toda a volúpia, não obstante, logo se esvaneceu, pois alcançamos uma área extremamente urbanizada e, portanto, visualmente poluída. Tratava-se das imediações do município de Cravinhos. Para elongar ainda mais o visual urbano, atravessamos um bom pedaço de Ribeirão Preto. Deste município para frente tudo começaria a ficar mais interessante.

Rio Sapucaí em processo de assoreamento

Primórdios da Serra da Canastra
Acessamos, ainda em território ribeirão-pretano, a Rodovia Cândido Portinari, e nesta permaneceríamos até a divisa com o Estado de Minas Gerais. Logo em seu princípio descemos o vale do Rio Pardo, subindo-o ulteriormente em direção a Brodowski, cidade onde foi concebido o grande artista plástico brasileiro que emprestou o seu nome à rodovia. Os cafezais passaram a ser a cultura dominante, livrando-nos por ora da mesmice proporcionada pela monocultura canavieira da Região Metropolitana de Campinas. A apenas poucos quilômetros de Franca, o núcleo da indústria calçadista paulista e quiçá do Brasil, aproveitamos para apear de nossas motocicletas às margens do Rio Sapucaí. Por uma leve trilha consegui visualizá-lo mais proximamente e, infelizmente, o cenário não se descortinou muito nobremente. Seu leito se encontra em um avançado processo de assoreamento, o que pude notar na margem oposta a que eu estava. As gloriosas águas barrentas desse importante afluente do Rio Grande, nascido entre Cássia dos Coqueiros e Cajuru e com curso total de 240km, dividem naturalmente os municípios de Batatais e Franca. Fotografá-lo foi um alimento a mais para a minha misantropia. Como as águas deste tortuoso rio, carecíamos de prosseguir, pois procurávamos um caminho rumo ao Rio Grande.
Vale do Rio Grande
As fazendas coloniais à beira da rodovia, bem como o perímetro urbano de Franca, foram ficando para trás. A estrada se embruteceu, adquirindo um ar mais rústico e, portanto, mais condizente com o nosso espírito. Sorrateiramente avançamos em direção à divisa de São Paulo com Minas Gerais, visualizando a nossa direita algumas elevações montanhosas com um desenho interessante. São os primeiros morros da grande Serra da Canastra, mesmo que aqui eles não estejam teoricamente dentro dos limites do Parque Nacional. Quanto mais belo o caminho, mais o tempo voa, e no rastro da umidade do Rio Grande uma bela paisagem se descortinou no alto da serra: a cidade de Rifaina, banhada pela águas de Represa de Jaguara, mostrava-nos o seu cartão de visitas. Era o derradeiro ermo do Estado de São Paulo. Do outro lado, Minas Gerais. A cidadela com cerca de 3000 habitantes e munida de muito garbo, mesmo que artificial, foi alvo de nossa primeira duradoura parada para descanso. Digo artificial porque o curso do Rio Grande, às margens deste município, foi represado e potencializado em 1971, possibilitando que a Hidrelétrica de Jaguara, construída no lado mineiro, passasse a gerar uma maior quantidade de energia.

Rifaina e a Represa de Jaguara vistas do alto da serra

Ponte para Minas sobre Jaguara
Descemos a serra para o grande “mar doce” de 30km². Chegando à cidade, logo nos enturmamos com alguns comerciantes e com um séquito de Conselheiro Lafayete, que resolvera aproveitar o feriado neste local. A uma altitude de 580 metros, demos um descanso às nossas motocicletas e caminhamos a pé pela orla da Praia Artificial de Rifaina. A limpidez da água, que ondulava docemente ao soprar do zéfiro, nos chamou a atenção. Coqueiros aparentemente recém-plantados contribuíam ainda mais com o aspecto litorâneo deste recôndito. Do Teatro de Arena, construído nos moldes do Coliseu romano, uma magnífica visão da ponte sobre a Represa de Jaguara, que ulteriormente nos levaria ao querido Estado de Minas Gerais, nos instava a prosseguir. Volvendo ao portal da cidade, em construção, dirigimo-nos à ponte, voando baixo feito os suiriris e os bem-te-vis que gorjeavam no topo das árvores de Rifaina, e logo em seu princípio apeamos novamente para mais uma sessão de fotos. Eram os últimos passos em solo paulista. Fotografando ao lado de pescadores, já me familiarizava com o distinto sotaque do povo mineiro. Do outro lado da ponte, o antigo Sertão da Farinha Podre, hoje Triângulo Mineiro, nos aguardava. Aproximávamo-nos do verdadeiro objetivo de nossa empreitada, que começara a 400km atrás.
Hidrelétrica de Jaguara
Transpassamos a ponte. Os pneus de nossas motocicletas se atritavam agora com o solo de onde os índios Caiapós extraíam o seu sustento, isso muito antes de corajosos paulistas abrirem este caminho a facão para escoar o café de São Paulo para Goiás e Mato Grosso. A rodovia prosseguia paralela as chamadas Serra da Cana Brava e Serra do Palmital, à direita, representantes também excluídas da Serra da Canastra. Adentramos uma estreita via asfaltada, poucos metros após passarmos a represa, e as cancelas do Balneário da Vila de Jaguara foram içadas para a nossa passagem. Intentamos alcançar a barragem da Hidrelétrica de Três Marias, mas um truculento vigilante, do alto de sua guarita, nos dissuadiu de tal empreitada. Fotografamos a partir da cerca mesmo, registrando de relance o escoadouro. Sem permissão para seguir adiante, voltamos um naco de estrada e nos embrenhamos por uma ramificação da mesma, deparando-nos poucos metros depois com um templo católico abandonado. De formato piramidal, a edificação contava com um guardião de olhar desconfiado: um urubu. Aparentou estar debilitado, mas não arredou pé em momento algum. Por detrás do templo, vidraças quebradas nos permitiram uma invasão. Belas luzes de teto, uma cruz, um oratório e um púlpito, conservados apesar do abandono. Descendo uma escadaria localizei uma espécie de almoxarifado recheado de morcegos. Com um rio como o Grande por perto, não havia motivos para permanecer ali. Debandamos prontamente.

Templo católico abandonado às margens da Represa de Jaguara

Represa de Jaguara no lado mineiro
Localizei, saindo do perímetro do templo, uma trilha em meio à vegetação. Desci por ela, através do cerrado e de belas flores arroxeadas, e deparei-me novamente com as águas da Represa de Jaguara. Contudo, agora eu estava do lado mineiro. Rodrigo criou coragem e poucos minutos depois se juntou à contemplação do local. Olhando por sobre as pedras conseguimos enxergar a barragem da Usina de Jaguara. Foi um alento para quem tentara o mesmo momentos antes. Aliás, aproveitando o ensejo, é realmente uma pena que grande parte das usinas hidrelétricas não tenha uma estrutura para recepcionar visitantes. Quando são construídas, modificam a vida de vários municípios e dos ecossistemas adjacentes. O mínimo que poderiam fazer é propiciar o conhecimento ao povo, para que o mesmo sofra com as modificações impostas pela demanda cada vez maior de energia, mas que saiba porque sofre. É preciso entender que o progresso acarreta mudanças que nem sempre serão benquistas. Lamúrias à parte, unimo-nos às nossas motocicletas e, à sombra de um abacateiro, ao som dos assovios de uma choca-da-mata, repousamos por alguns minutos e repensamos a rota que faríamos a partir dali. O Sertão da Farinha Podre nos mostrava sua falta de indulgência descarregando 35ºC sobre nossos desgastados corpos.
Estação de Cipó
Deixamos a Represa de Jaguara, retornando à rodovia principal que, pensávamos, nos levaria a Sacramento, onde resolvêramos pernoitar. No entanto, eu ainda pretendia conhecer a Estação de Cipó, construída em 1889. Segundo meu mapa, ela poderia ser acessada por uma estrada de terra paralela ao Rio Grande. Localizamos esta poeirenta via e, sob o olhar do gado mineiro e protegidos pela Serra da Rifânia, meia hora depois nos deparávamos com esta antiga ramificação da Mogiana. Alguns cachorros de uma propriedade vizinha à estação nos deram uma certa dor de cabeça, mas os esparvalhados canídeos se mostraram dóceis ao atracarmos em frente aos escombros de Cipó. Vencemos uma cerca de arames farpados e presenciamos a depredação imposta a este local histórico. Simplesmente não consigo entender o porquê de se fazer tão pouco caso com a história de nosso povo. Telhados em ruínas, pichações por sulcos, o matagal invadindo: eis alguns dos agravantes da situação. Das janelas o Rio Grande era visto em todo o seu esplendor, bem como um casal de corujas que atentamente nos observava. Toda aquela degradação me abateu, tal como o Rio Sapucaí o fizera na manhã do mesmo dia. Precisava deixar aquele ambiente. Subindo a Serra da Rifânia, seguimos por terra rumo a Sacramento.

Rio Grande visto através das ruínas do antigo Sertão da Farinha Podre

Vista do alto da Serra da Rifânia
Do alto da Rifânia o panorama era outro. De uma clareira em meio à mata fechada visualizamos uma boa parte do vale do Rio Grande. Mais à frente, na mesma estrada, um riacho apressado descia serra abaixo sobre uma ponte de madeira. Os tucanos e as gralhas cancans que sobrevoavam nossas cabeças pareciam nos indicar o caminho. Em menos de dez minutos estávamos em frente à portaria da Gruta dos Palhares, a maior gruta de arenito das Américas. Contudo, os relógios marcavam dezessete horas e cinco minutos. O local fora fechado às dezessete. Sem ter o que fazer, deixamos as cerradas grades da gruta e partimos, agora via asfalto, rumo ao centro de Sacramento, cidade com pouco mais de 20 mil habitantes construída a 870 metros de altitude. Pernoitamos neste município hemiiespírita, hemicatólico. O primeiro colégio kardecista do Brasil, o Alan Kardec, foi edificado aqui em 1905, e até hoje subsiste. Para os aficionados por turismo religioso, o que não é o meu caso, Sacramento é um prato cheio. Fomos dissuadidos pelos moradores da ideia de visitar a Gruta dos Palhares no dia seguinte, visto que seria feriado religioso e, segundo consta, o povo da cidade não trabalha em tais datas.
Sacramento
Como era de se esperar, contrariamos todas as prerrogativas e, logo pela manhã de sexta, dia 06, debandamos do centro de Sacramento e regressamos a Gruta dos Palhares. Para a nossa sorte, alguns jardineiros cuidavam dos bem floridos jardins nos entornos do atrativo, o que nos possibilitou a entrada. Um chafariz no centro de um lago circular, com uma espécie de confessionário ao fundo, nos indicou o caminho para a única parte acessível desta que é a maior gruta de arenito das Américas, como já frisado. Pela “porta de entrada” de 22 metros de altura, seu interior, pano de fundo perfeito para a nidificação de aves, como as andorinhas, pôde ser acessado. Diz-se que sua primeira parte, a que estávamos, é capaz de abrigar 5 mil pessoas. Existem outras ramificações não abertas à visitação, que juntas se introduzem por aproximadamente meio quilômetro rocha adentro. O que nos deixou boquiabertos foram as tonalidades do interior da gruta, variando de vermelho para verde, e os maracanãs que, de cabeça para baixo, descansavam agarrados aos ramos da vegetação que se excedia sobre as bordas do imenso “batente” natural. É realmente um ermo marcante, e o trabalho meticuloso dos jardineiros o embeleza ainda mais. A umidade do interior de Palhares veio bem a calhar numa quente manhã mineira. Do teto goteja, ininterruptamente, a água que, nesta viagem e durante toda a história natural do mundo, tem possibilitado a vida.

Gruta dos Palhares

Rio Quebra Anzol
Já era o segundo dia de viagem e nos encontrávamos ainda na metade do caminho para Três Marias. Incontinenti, então, partimos de Sacramento, contornando a Serra da Canastra pelo flanco oeste e trespassando o Rio Araguari. Errando serra acima e serra abaixo, calhamos na bela estrada de acesso a Araxá, repleta de acácias que contrastavam com as curvilíneas nuvens brancas de um firmamento azul. Em direção a uma região conhecido como Alto do Paranaíba, atracamos às margens do Rio Quebra Anzol, importante afluente do Araguari. A música Cabocla Tereza, na voz de Sérgio Reis, ribombava de algum lugar, mas não conseguimos precisar a sua origem. Prosseguindo, alcançamos a pequena Catiara e a alta Serra de Salitre, onde meus instrumentos marcaram 1220 metros de altitude. Procurando por combustível, descemos para Brejo Bonito, onde felizmente o conseguimos. Enveredamo-nos por uma estrada de chão e cruzamos Aparecida de Fortaleza, na qual acessamos uma vicinal que nos desembocou em Guimarânia. Setenta quilômetros depois passávamos sobre o Rio Paranaíba e contornávamos Patos de Minas, local em que uma região que apelidamos de “vale da lua” se principiava. Isso porque a BR365, deste ponto em diante, era basicamente buracos e areia. Com a chuva e com o tráfego intenso de caminhões serpenteando para desviar das ravinas, levamos mais de duas horas para vencer um trecho de pouco mais de 50km. Cheguei a tombar a minha moto em uma parada no acostamento, precisando da ajuda de Rodrigo para realinhá-la.
Lago de Três Marias
A chuva cessara. A BR040 já era uma realidade. Esta seria a pavimentada estrada que nos apresentaria ao “Velho Chico”. Por 50km permanecemos nesta importante rodovia brasileira, passando sobre o Rio Abaeté e pela cidade de São Gonçalo do Abaeté. Ao término desse curto percurso, uma ponte de aproximadamente 300 metros de comprimento nos serviu como mirante. Ainda sobre nossas motos, contemplamos vagarosamente as águas marrons do Rio São Francisco, o mais brasileiro de todos os rios. Com seus quase 2900km de extensão, nasce na Serra da Canastra e atravessa cinco diferentes Estados brasileiros: Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, Sergipe e Alagoas. Deságua no Oceano Atlântico, após fazer a divisa natural entre os dois últimos Estados. Já foi – e ainda é – alvo de inúmeras polêmicas no que diz respeito à transposição de suas águas nas partes mais secas do Nordeste. É muito procurado por pescadores de todo o Brasil, que em seus barrancos ou sobre barcos permanecem por horas a fio com iscas diversas mergulhadas em sua imensidão. Como não havia local propício para apearmos às margens do “Velho Chico”, como é carinhosamente chamado por muitos, entramos no município de Três Marias e seguimos as indicações para a Usina Hidrelétrica de Três Marias, visando, desta forma, topar com a Lago de Três Marias, que é uma área em que o curso do São Francisco foi potencializado e transformado em reservatório para gerar energia.

Rio São Francisco

Cai a noite sobre o "Velho Chico"
Localizamos a Usina. Como previsto, não pudemos adentrá-la. Isso não nos fez abaixar a cabeça pois, de qualquer forma, estávamos próximos a um dos mais importantes rios do mundo. Vimos o lago, a Represa de Três Marias, dançar ao som dos ventos que ameaçavam trazer uma tormenta de grandes proporções, e um pedaço da barragem. Erramos por alguns bairros da cidade e nos deparamos com a represa novamente, em outro ponto. As águas, límpidas como a de Jaguara, mas um naco mais escuras, de um azul mais intenso, nos convidavam a uma contemplação mais próxima. Contudo, a iminência da tempestade e a caída da noite nos exortaram a procurar um local para dormir. Pilotamos pelo centro da cidade de Três Marias, e os trinta mil habitantes da cidade, de repente, pareceram se multiplicar, pois não encontramos sequer uma vaga de albergue. Restou-nos deixar a cidade, regressar à ponte sobre o São Francisco, atravessá-la e procurar guarida nas imediações do próprio rio, mas em território do município de São Gonçalo do Abaeté. No fim das contas, não nos arrependemos de não ter ficado mais próximo a Represa de Três Marias. Por mais que visualmente ela seja mais bela e imponente do que o próprio rio, com mais de 1000km² de superfície, não goza da mesma história do “Velho Chico”. Não tem o seu poder. Escorregando pelos barrancos do grande rio, à noite, tive a sensação de dever cumprido. Não perguntei se Rodrigo sentia o mesmo. Os aventureiros se compreendem calados.
Arara-canindé
O dia 07 rapidamente alvoreceu. Rodrigo ainda repousava quando me uni à imensa multidão de pescadores, nos barrancos às margens do rio, para fotografar o “Velho Chico” com abundância de luz. Já havia notado no dia anterior, mas reforcei a minha impressão de que as águas se tornam mais barrentas após passarem pela barragem de Três Marias. Na represa, menos de meio quilômetro rio acima, as águas eram azul escuras. Questionei alguns barqueiros, mas ninguém soube me responder o porquê disso. Algumas dúvidas permanecem em nossos encéfalos por anos a fio e, de repente, num lampejo, são destrinchadas. Talvez essa seja uma destas. O bom é estar em dúvidas admirando o rasante milimétrico das garças, as araras-canindés nas copas das árvores adjacentes ao leito e o sanhaçu-do-coqueiro saltitando entre os frutos de um mamoeiro, apesar de seu nome o relegar a outra árvore. Quando Rodrigo reapareceu, debatemos sobre o que faríamos em seguida. Era óbvio que havia muito mais a se conhecer na região. Tudo o que viria depois seria uma espécie de bônus, uma recompensa para a lida. Um comerciante local nos informou que no distrito Andrequiçé, de Três Marias, poderíamos encontrar algumas cachoeiras. Incontinenti nos despedimos, por ora, do São Francisco, partindo para o supracitado local. Do acostamento da estrada, em um ponto elevado, tivemos um último panorama, toscamente registrado por minha câmera, da Represa de Três Marias.

Panorâmica da Represa de Três Marias

Perdidos em Andrequicé
Em Andrequicé, distrito onde viveu Manuelzão, personagem marcante de Guimarães Rosa, apenas algumas casas e uma velha igreja, e nada mais. Há inclusive um museu com o seu nome, idealizado na própria casa onde viveu. O povo, logo nas primeiras horas da manhã, se aglomerava no único bar local com certo rebuliço. Foi em meio a este “tropé” que consegui um mapa de papel, feito à mão por um indivíduo semi-inebriado, para a Cachoeira do Riachão, a mais bonita de toda a região, segundo o próprio. Deixamos o asfalto e, cerrado adentro, erramos pela zona rural de Andrequicé. Passamos por alguns perigosos mata-burros e o terreno foi se complicando. Quando alcançamos uma alameda entre eucaliptos, então, tivemos que cessar a peleja sobre as motos. Tomamos tal decisão ao ver um caminhão praticamente mergulhar numa barrenta poça d'água. Seria impossível sairmos ilesos deste “charco” caso resolvêssemos atravessá-lo com nossas motocicletas. Estudamos um caminho por entre os eucaliptos, mas não obtivemos uma rota satisfatória. Decididos a não desistir, camuflamos as motos em meio às galhadas e prosseguimos pela estrada a pé, acreditando que a tal cachoeira não se encontrasse tão distante. Aos silvos de aviso de um filhote de carrapateiro e pisando sobre grandes pegadas de antas, perambulamos por 4 horas, andando 6km sob um intenso sol e, no fim das contas, não encontramos água alguma, a não ser aquela empoçada nas valas da estrada de chão. Batemos em retirada, reavendo nossas motos e nossa bagagem e voltando a Andrequicé para uma profunda reidratação.
Balsa para Morada Nova de Minas
A hora de regressar, agora para casa, se aproximava. Afinal, já era quase fim de tarde e uma distância de 900km nos separava de nossos lares. Pretendíamos ganhar o máximo de terreno possível até o término do dia, com vistas a tornar a lida do domingo menos esmagadora. Debandamos de Andrequicé, retornamos à BR040 e, ao invés de seguirmos sentido Três Marias, pendemos para a direção de Belo Horizonte. Uma forte chuva desabou sobre nós, atrasando um pouco o ritmo que adotáramos. Com o intuito de pegarmos um atalho, embrenhamo-nos por uma estrada de terra que, depois de 20km, nos deixou às margens do extremo leste da Represa de Três Marias. O local, chamado Porto Novo, dispõe de uma balsa de porte médio para o transporte de pessoas e veículos para o lado sul da represa, onde está situado o município de Morada Nova de Minas. Estacionamos nossas motos sobre a balsa e pudemos contemplar, pela última vez nesta incursão, o lago azulado contrastando com as tímidas elevações da serra adjacente. O sol, ameaçando abandonar-nos a oeste, escondia-se sobre um emaranhado de nuvens dismórficas, airando interessantemente o horizonte. Nossa contumácia aventureira resistiu, como o bambuzal sufocado pelas águas represadas do “Velho Chico” próximo ao ponto de embarque da balsa, às dificuldades, à fome e à impetuosidade dos ermos brasileiros.

Um último olhar às águas de Três Marias

Biquinhas
Nada estava acabado. Muito pelo contrário. A barulhenta balsa nos deixou à própria sorte em um local que acreditávamos ser Morada Nova de Minas. Porém, a descoberta de que ainda precisaríamos vencer mais uma estrada de terra exigiu energia extra de nossa parte. Como sempre, resistimos à poeira e à imperfeição do terreno e adentramos Morada Nova de Minas, apenas para novamente nos decepcionarmos. Não havia como dormir por lá. A noite e um frio suportável, então, nos acompanharam até o próximo município. Biquinhas, com seus 3000 habitantes, foi o nosso último local de pouso. A bela lua de Minas Gerais era vista pela última vez. No dia 08, logo pela manhã, fotografei uma típica casa mineira, de barro, nas proximidades da Igreja Matriz. De Biquinhas para frente, por todas as estradas em que erramos, a palmeira-buriti, soberana do cerrado, foi nossa sempre agradável companhia. O capim-favorito dos acostamentos também. Cruzando rapidamente por Abaeté, Quartel Geral, Dores do Indaiá, Luz e Córrego Danta, alcançamos Cambuí, onde nos enveredamos por uma estrada de terra que se ramificava das imediações do CEFET. Descendo sentido Piumhi, contemplávamos agora o flanco leste da Serra da Canastra rumo ao vale do São Francisco, que não demoramos muito a palmilhar. Pela segunda vez na mesma viagem, e a 300km de distância do primeiro ponto, passávamos sobre o “Velho Chico”, agora bem mais próximos de sua nascente. Apresentava-se com águas ainda barrentas, mas com um leito mais pedregoso. De uma margem à outra uma distância de talvez 50 metros, bem menor que os 300 de Três Marias. Parecia mais tranquilo, mais imune à presença quase predatória dos pescadores de Três Marias. Foi nosso último contato com o mais brasileiro de todos os rios.

"Velho Chico" em Piumhi

Hidrelétrica de Furnas
Numa lenta toada, Piumhi, em meio à serra, surgia diante de nossos cansados olhos. Não tivemos o prazer de colocar os pés em seu solo, deixando apenas os pneus de nossas motocicletas sentirem tal gosto. Na MG050, os contornos do Lago de Furnas, o mar de Minas, já eram uma grata companhia. Passamos pelo trevo de Capitólio e, para encerrar a viagem com a visão de pelo menos uma hidrelétrica, acessamos Furnas, onde um mirante possibilita uma panorâmica perfeita da usina e das corredeiras do Rio Grande. Como que nos saudando pela magnífica incursão, um belo carcará, a poucos metros de onde estávamos, se deixou fotografar inúmeras vezes. A ave símbolo de minhas jornadas, e somente ela, foi a minha motivadora para vencer os 400km restantes, pilotando por Alpinópolis, Carmo do Rio Claro, Alterosa e Areado. Deixando a região de Furnas, contornamos Monte Belo, o trevo de Muzambinho e o perímetro da bela e fria região de Poços de Caldas, descendo posteriormente a escorregadia Serra de Andradas. Num estirão final, cruzamos a divisa Minas Gerais/São Paulo, alcançando pouco tempo depois os entornos da cidade de Mogi Guaçu. Daí para Americana, pouco mais de 100km. Rodrigo e eu seguimos caminhos diferentes a partir de Mogi Mirim. Ele permaneceu na mesma rodovia até Campinas, onde reside. Eu, solitário, rumando sentido Limeira e Americana, lembrei-me de que, antigamente, viajava só, e hoje disponho de parceiros para boa parte de grandes aventuras como esta. Recordei-me também de pessoas que, ao invés de tentarem me dissuadir de meus devaneios, realçando o perigo em vez da alegria de viajar sobre duas rodas por esse Brasil afora, me incitam a continuar nesta cruzada sem fim rumo ao meu grande objetivo final: escancarar o meu país, seu povo, suas origens, suas belezas naturais e seus incontáveis problemas. Meu rio segue o seu curso.
Quando o começo e o fim de tudo pouco importam, o meio demonstra sua beleza. Treinar o olho não somente a ver, mas a enxergar em minúcias, é a mais alta forma de adaptação dos sentidos ao ambiente que nos cerca. Vivendo desta maneira, passamos não somente a ansiar pelo fim e a abandonar nossas origens, mas a alcançar um objetivo especial não deixando de lado toda a distância que separa um do outro. Uma reta certamente é o mais curto caminho entre dois pontos, mas palmilhar uma linha sem curvas nos priva de todas as visões proporcionadas pela sinuosidade de uma rota alternativa entre estes mesmos dois pontos. Complicar ocasionalmente é mais prazeroso do que simplificar. Problematizar é não entregar-se ao acaso. Que sejamos, portanto, comparáveis ao “Velho Chico”: tortuosos em nossos caminhos. E que também tentemos abraçar grande parte do mundo com nossos caudalosos sentidos.


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E abaixo, um blues composto especialmente para o mais brasileiro de todos os rios: o São Francisco.