sábado, 24 de março de 2012

Cássia dos Coqueiros e Monte Santo de Minas – 18 de março de 2012


A noção de pequenez do homem perante o mundo é-lhe seu caractere mais nobre. Há indivíduos, logicamente, que relutam em prostrar-se à altivez das montanhas, à jactância das chapadas, ao frêmito dos seres que espreitam a errática passagem humana sobre seu habitat natural e ao rugir tonitruante das intempéries num dia em que acreditávamos ser o sol o único senhor dos céus. Estes, contudo, são aqueles que veem o antropocentrístico mundo, aquele concebido com o homem como origem e fim de tudo, relegando a história natural, aquela que independe de nossa existência, a um segundo e, amiúde, completamente olvidado plano. Para os que enxergam no “progresso a qualquer custo” o desvencilhamento total do ser humano de seus selvagens genes, herança herdada de nossos primatas antepassados, há de se dissuadi-los de tal intento. É preciso, ao contrário, nutrir suas mais rústicas facetas, intentando, com isso, fazê-los voltar ao ventre que os conceberam. É preciso abrir a fórceps seus olhos e e apequená-los, para que tenham a consciência de que seu corpo e sua ideologia ocupam apenas uma parte ínfima deste planeta, e que este último não é apenas um pano de fundo para que desenvolvam seus egocêntricos atos.
Pelo Brasil afora, num domingo
Numa data próxima ao término do verão, eis que decidimos viajar. Mais do que a última oportunidade de nos despedirmos da estação mais quente e chuvosa do ano, seria uma forma de revivermos a simplicidade de uma incursão com apenas algumas horas de duração. Pernoitar fora de casa, como no caso das viagens para Ariri e para o Pantanal, por exemplo, requer um planejamento rebuscado, muita bagagem e uma quantia considerável de capital. Para Cássia dos Coqueiros, a apenas 200 quilômetros de Americana, não necessitávamos mais do que a roupa do corpo, míseros trocados para uma mínima alimentação e, o primordial, muita vontade de desbravar recônditos para nós desconhecidos. Munido da puída jaqueta de meu pai e da velha maquina fotográfica a tiracolo, e acompanhado por Luana Romero e Rodrigo Costa Gil, partimos de Americana, às sete da manhã de um domingo em que poderíamos aproveitar para descansar até mais tarde. Na vanguarda do iconoclastismo brasileiro, quebramos o protocolo, utilizando para tal aquela avidez em nos sacrificarmos um pouco para conhecer melhor o país que nos abarcou.
Tanque de combate M-41
Adentramos a Anhanguera, sentido Ribeirão Preto, visando avançar rapidamente por entre os canaviais e indústrias que formam a paisagem às margens da rodovia. Praticamente retilínea e, portanto, monótona, esta importante via de ligação do interior paulista com a capital nos levou ao acesso para Cachoeira de Emas, em Pirassununga. Neste acesso, um EMB-312 Tucano, avião produzido pela Embraer e utilizado pela Esquadrilha da Fumaça e pela Força Aérea Brasileira, é sustentado permanentemente por um pedestal sobre o canteiro central, evocando a importância desta cidade na defesa de nossas terras, já que nela se encontram instalações da FAB. Esse veio é reforçado ao se chegar às margens do rio Mogi, na mencionada Cachoeira de Emas, onde um tanque de combate M-41 e um marco do Exército Brasileiro adornam o gramado de uma praça circular, parelha a uma área destinada a camelôs. Este local me remete a minha infância, mas não pelas ostentações militares. Meus pais frequentemente almoçavam nos famosos restaurantes especializados em peixes de Cachoeira de Emas. Eu, quando os acompanhava, sempre me bestificava com as corredeiras do Mogi e com o museu de animais empalhados ao lado da velha ponte, na qual só se passa um veículo por vez. Fui desde infante condicionado a apreciar este movimentado naco de Pirassununga.

Rio Mogi, em Cachoeira de Emas

Estação de Santa Rosa de Viterbo
Deixamos Cachoeira de Emas e partimos em direção a Santa Cruz das Palmeiras. Pelo caminho, a cana-de-açúcar dividia sua hegemonia com o milho, a soja e a laranja, esta última modificando por ora os odores que esporadicamente entravam pelas frestas de nossos capacetes. Próximo a Tambaú, imensos canaviais voltaram a imperar, mas com uma peculiaridade: tufos de mata no cerne de grandes extensões de cana. Era como se alguns exemplares de vegetação nativa estivessem encarcerados pelos “soldados de açúcar”, formando uma paisagem incomum. Daí para Santa Rosa de Viterbo, as plagas ociosas e seu solo vermelho, mescladas com os ipês rosas e roxos paralelos aos mourões das grandes fazendas, foram nossa distrativa companhia. Nesta última cidade mencionada, após transpassarmos as sistematicamente plantadas bromélias de sua avenida de acesso, topamos com uma antiga estação ferroviária, desativada mas restaurada. Bem preservada, inclusive com parte de seus trilhos originais mantidos, é hoje utilizada pela Escola de Música da cidade. É uma construção centenária, inaugurada em 1910 e que serviu ao seu propósito original até 1967, ano de sua desativação. Nas imediações da estação os pilares de um futuro barracão estão sendo construídos. Questionei o senhor José, um morador local, se tal construção seria um ramal do trem bala que ligará Rio de Janeiro – São Paulo – Campinas. Sorridente ao gracejo, obtemperou que não.
Cajuru
Saindo de Santa Rosa de Viterbo, descemos o vale do rio Pardo, atravessando uma ponte férrea sobre ele, ulteriormente subindo o mesmo vale para chegamos a Cajuru, cidade que nos recepcionou com o que parecia ser uma festa, dada a multidão logo na via de acesso que adentrávamos. Para a minha surpresa, tratava-se de uma aglomeração nas cercanias do Velório Municipal. Em cidade pequena é assim: a morte é a reunião de praticamente um município inteiro, uma vez que todos se conhecem entre si. Com o termômetro nas imediações da rodoviária apontando escaldantes 34ºC, atravessamos a cidade até o trevo de acesso a Cássia dos Coqueiros, aproveitando o ensejo para fotografar o pequeno Cristo Redentor que, de braços abertos, petrificadamente se despedia de duas motocicletas e de três espíritos aventureiros. Sabia ele que, dentre um destes espíritos citados, jazia um firme no seu ceticismo-ateísta e que, por incrível que pareça, fotografaria, no decorrer desta viagem, obras arquitetônicas edificadas com o propósito de cultuá-lo?

Cássia dos Coqueiros

Santa Rita de Cássia
Não, e nem mesmo o próprio cético. Só saberia disso quatorze quilômetros depois de Cajuru, quando os coqueiros, os pinheiros e a altiva imagem de Santa Rita de Cássia surgia diante de seus olhos. Um gramado muito bem cuidado é o jardim desta escultura, de pouco mais de três metros de altura, protegida por uma estrutura de concreto parecida com uma porta convencional de qualquer igreja católica. A santa faz a vez de portal da cidade de Cássia dos Coqueiros, nome originado da união da devoção pela santa com a existência de várias plantações de coqueiro agreste quando da descoberta destas plagas, isso no fim do século XVII. De pé, aos pés da estátua, onde velas são queimadas e flores são ofertadas por fiéis, tem-se uma visão completa de toda a parte urbana da cidade, que conta com aproximadamente três mil habitantes. Gastamos algum tempo por ali, fotografando de todos os ângulos possíveis e observando os pequenos tratores que saiam da zona rural e ora ou outra passavam por nós. Por mais aprazível que o ermo fosse, não viéramos até aqui por um simples portal. Sabíamos muito bem o que procurar.
O vale da Cachoeira do Itambé
Na rua principal da cidade, uma placa carcomida pelo tempo indicava os principais pontos turísticos da cidade. A Cachoeira do Itambé, nosso escopo, era um deles. Há muito tempo me mostravam fotos desta queda, o que aguçava a minha vontade de conhecê-la. Neste dia tínhamos a oportunidade e o tempo necessários para concretizar mais este plano. Deixamos a altitude de 800m do aglomerado urbano de Cássia dos Coqueiros, então, e subimos em direção aos 927m da propriedade rural que abriga a cachoeira e seu magnífico vale de mais de 100m de desnível, para o qual suas águas despencam em queda livre. Na portaria pagamos uma taxa de R$5,00, apartamo-nos de nossas motocicletas e, do mirante em frente a uma pequena lanchonete, tivemos o primeiro vislumbre da queda de 84 metros. Contudo, não nos contentaríamos em apenas observá-la de longe. Necessitávamos descer o profundo vale e nos molharmos com o vapor desta magnífica obra da natureza. Com as pesadas jaquetas em punho, assolados pela umidade elevada e pelo calor causticante, principiamos o caminho ribanceira abaixo por uma trilha bem demarcada, o que por si só não garantiu conforto algum durante a penosa lida.

Macaco nas copas da mata atlântica

Cachoeira do Itambé
Cordas. Muitas cordas. Corrimões não havia. Apenas cordas, e meu caro camarada Rodrigo teve que vencer sua cisma contra elas. Pela situação de algumas, até mesmo eu, que não tenho muito apego à segurança, em alguns momentos preferi utilizar as raízes sobressaltadas da densa mata atlântica do vale a apoiar o peso de meu corpo sobre os filamentos de náilon em frangalhos. Instei Luana a fazer o mesmo, mesmo ela sendo consideravelmente mais leve. Algumas áreas desbarrancadas dificultavam ainda mais a descida, e é nestes instantes que você começa a pensar que, depois de chegar ao fundo, terá que subir tudo de novo, o que não é muito animador. O que nos motivou a prosseguir, além da possibilidade de estarmos mais próximos à queda, foi um bando de macacos que rapidamente cruzou pelas copas das árvores sobre nossas cabeças. Não consegui precisar que espécie de macacos eram, pois pouco se encarapitavam. Um tosco registro foi feito. Prosseguindo, atravessamos um riacho e, agora na parte mais plana do vale, seguimos o curso do pedregoso leito e da água proveniente da cachoeira. De algumas clareiras já era possível avistar a Cachoeira do Itambé e seu paredão, este último airando tons de bege e vermelho. Ao aproximar-nos, acocoramo-nos sobre as pedras que se empilhavam nos entornos do poço, formado ao contato da água com o fundo do vale com o passar dos séculos, e recebemos com doces encômios as partículas de água que bailavam pelo ar.
Rapel paralelo à queda
Esta é uma das cachoeiras em que a beleza não se encontra apenas na queda d'água. Todo o pano de fundo do filete que despenca em queda livre, com no máximo três metros de espessura, contribui para o garbo de Itambé. O vale, denso e colorido pelos ipês-roxos comuns à mata atlântica, o paredão com vários tons de cores claras, a complexidade para se chegar ao ponto mais próximo, onde a água esvoaçante se atrita suavemente com as pedras: todos estes são ingredientes capazes de causar uma estupefação em todos os que se atrevem a alcançá-la. Para os que se aventuram no rapel, num movimento descendente, cadente e moroso, do topo com vegetação rala, já quase cerrado, à base de contato, ladeado por densa vegetação, a emoção deve ser ainda maior. Enquanto analisava a descida destes esportistas, voltava meus olhos, esporadicamente, para Luana, que placidamente admirava a primeira cachoeira de sua vida. Como todo ser humano concebido e criado nos grandes centros urbanos, ela é apenas mais uma alma que vinha sendo privada de nossas belezas naturais, pois até então desconhecia visualmente o relevo e o grande potencial hídrico de nosso país. Rodrigo, perpetuando uma expressão que comumente verbalizamos, frisava: “este é o lugar mais lindo do mundo da última semana”.

Um último olhar ao "lugar mais lindo do mundo da última semana"

São Benedito das Areias
Prosseguir era preciso. Com algum tempo disponível, visto que ainda era princípio de tarde, ascendemos pelo vale, pela mesma calamitosa trilha, e nos unimos incontinenti as nossas motocicletas. Augurávamos, agora, localizar o Mirante e a Toca da Onça. Do primeiro pretendíamos obter uma ampla visão da região; da segunda, a gélida e sombria sensação de adentrar uma gruta. Com o pessoal da cachoeira, infelizmente, não conseguimos coordenada alguma. Retornamos, então, ao aglomerado urbano de Cássia dos Coqueiros, e mediante algumas errôneas informações calhamos na zona rural da cidade, praticamente na divisa com Minas Gerais. Em meio a sítios e fazendas, sempre mais do mesmo: alguns não sabiam até mesmo que tais lugares existiam. Seguindo a deixa de um inebriado senhor, rumamos a São Benedito das Areias. No caminho esperávamos que alguma placa indicativa elucidasse o paradeiro dos procurados atrativos. Para o nosso azar, descemos a serra – que na verdade é o braço extremo noroeste da Serra da Mantiqueira – e alguns minutos depois, vencendo a sinuosidade do traçado da rodovia, chegamos ao supracitado local, agora numa altitude de 635 metros. Descobrimos ser, posteriormente, não um município, e sim um distrito da cidade de Mococa. Plangi aos meu companheiros que não havia registrado em fotos absolutamente nada do alto da serra, pois ansiava por uma melhor visão a partir do Mirante. Como não o encontramos, todo o panorama da Mantiqueira foi perdido.
Milagre
São Benedito das Areias, com suas poucas e singelas construções, recepcionou-nos com o curioso olhar de seus moradores. Como em todos os pequenos vilarejos afastados dos centros urbanos, os arredores da Igreja Católica estavam abarrotados, visto que era um domingo. Nos bares a ébria alegria era geral, e o som alto parecia dar vida ao local que, nos meios de semana, deve ter uma dinâmica assaz letárgica. Sentados à praça bem arborizada, consultamos o mapa, com o intuito de planejar a rota de retorno, e descobrimos estar a poucos metros da divisa de São Paulo com Minas Gerais. O ensejo era perfeito para transformarmos a incursão em interestadual. Sem delongas, então, atravessamos o Córrego das Areias, que além de emprestar ao distrito a última parte de seu nome, faz a separação natural entre os dois Estados. Transpassamos a pequena ponte de concreto e, já em Minas Gerais, pilotamos por dois quilômetros até Milagre, distrito de Monte Santo de Minas. Por lá, a mesma desenvoltura de São Benedito das Areais: grande movimento nos bares nos entornos da Igreja de Nossa Senhora de Milagre. Pensando em alcançar a detentora do distrito, e desviando dos curiosos e simpáticos olhares dos receptivos mineiros, debandamos, numa estrada de reta retilínea de quatorze quilômetros de extensão, para Monte Santo de Minas.

Monte Santo de Minas

Matriz de Monte Santo de Minas
Na aparentemente bem organizada cidade de Monte Santo de Minas realmente não sabíamos pelo que procurar. Cachoeiras com certeza existiam, mas desconhecíamos suas exatas localizações. Após uma vez mais fotografar uma Igreja Católica, onde a badalação de jovens era esperadamente grande, optamos por subir novamente o braço da Serra da Mantiqueira, adentrando a zona rural deste município que conta com pouco mais de vinte mil habitantes. Sem querer, cortando os sítios e laivos de transição entre mata atlântica e cerrado, trilhávamos uma estrada que nos levaria de volta a Cassia dos Coqueiros. Pedimos informações ao senhor Gimenes, que degustava algumas frutas à sombra de um angico. O receptivo homem nos instou a deixar as motocicletas à beira da estrada e seguir o curso de um córrego. Segundo ele, alcançaríamos uma cachoeira com 30 metros de queda. Assim o fizemos, mas optei por ir solitário, deixando Rodrigo e Luana em espera, pois não sabia se o caminho era realmente transponível. Varei a cerca, emparelhei-me ao córrego e venci a mata fechada e os estrumes do gado que porventura buscava sombra por ali. Em alguns minutos me deparei com um barrento precipício. A cachoeira realmente existia, mas descer era impossível. Somente por rapel, como havia frisado Gimenes. Para me dissuadir ainda mais, alguns jovens, que denominaram-me “turista”, faziam o uso de entorpecentes pesados à beira de uma fogueira, próximos à cabeceira da queda. Não achei interessante ficar por ali. Retornei à companhia de meus camaradas e seguimos rumo a Cássia dos Coqueiros.
Vista do alto da "serrinha"
Da estrada de terra principal, que subia a Serra da Mantiqueira (os mineiros a chamam apenas de “serrinha”), a vista, que fora deixada de ser registrada na descida de Cássia dos Coqueiros para São Benedito das Areias, pôde ser vingada. Acessamos uma ramificação que teoricamente levaria a algum sítio local, e calhamos à sombra de um angico, solitário, junto aos mourões que ladeavam a estrada, fazendo-se de único empecilho entre nós e a paisagem que se escancarava, bela, do outro lado. Atônitos, contemplamos por alguns momentos o desenho das montanhas, a cidade de Arceburgo, ao longe, e até mesmo a Serra da Babilônia, ao norte, que na verdade é parte integrante da Serra da Canastra, mesmo não estando incorporada aos seus territórios. Inspirados por essa magnífica imagem, consultamos as possíveis rotas de regresso para Americana, pois o sol, a oeste, ameaçava dizer adeus. Deixamos o ponto onde estávamos, a 1106 metros de altitude, para por um fim a esta cansativa, mas surpreendente incursão. Retornando para a parte urbana de Monte Santo de Minas, tivemos uma última oportunidade de fotografá-la a partir de uma parte alta, comprovando a minha máxima de que toda cidade, se observada de longe e de um ponto elevado, é tão bonita e tão bem organizada que dá a impressão de ser um lugar perfeito, alheio a problemas. No entanto, sabemos muito bem que isso não é verossímil.

Serra da Babilônia

Errante, mas viajante
Prestamente deixamos Monte Santo de Minas. Obviamente muitas cachoeiras e mirantes foram deixados para trás, pois não tivemos tempo hábil para localizá-los. Não obstante, o pouco tempo em que estivemos em Minas Gerais foi suficiente, por si só, para avivar em mim o desejo antigo de ir para a Serra da Canastra, que pude ver, mesmo de longe, do alto da Mantiqueira – ou da “serrinha”, como preguiçosamente balbuciam os meus queridos irmãos mineiros. Passando pelos limites de Arceburgo, atravessamos a divisa entre Minas Gerais e São Paulo, neste ponto demarcada naturalmente pelo rio das Canoas. Este nasce em Franca, não muito longe dali, seguindo seu curso de 46 quilômetros rumo às águas do rio Grande, no município de Pedregulho. Em Mococa, de volta ao Estado de São Paulo, fomos afrontados por uma rápida e forte chuva, o que nos obrigou a procurar guarida em um galpão da zona industrial da cidade, paralelo à rodovia. Passada a aspirante à tormenta, seguimos em direção a Mogi Guaçu e Mogi Mirim, nesta última aportando e apeando uma última vez antes de nos separarmos. Rodrigo seguiu pela mesma rodovia, tomando seu rumo a Campinas. Eu e Luana venceríamos ainda mais 70 quilômetros pelas redondezas de Engenheiro Coelho e Limeira até seguramente atracarmos na Praia Azul, em Americana. O cansaço da viagem, evidente em nossas expressões, será rapidamente retirado de nossos corpos pelo repouso. O que vimos pelo caminho, no entanto, de nossas lembranças nada poderá subtrair.
Errante, mas viajante. Rotulado não gostaria que fosse, mas de tal forma deveriam chamar-me se rótulos fossem compulsórios. Mesmo que muitos acreditem que o mundo acabe ainda neste ano, devo dizer que estão errados. O mundo não acabará, e sim a humanidade. A Terra se perpetuará sem a presença do homem, ao passo que o homem não é capaz de sobreviver sem a Terra. Somos tão mesquinhos que reduzimos o planeta à morada do ser humano, quando na verdade estamos aqui para dividi-lo com todos os outros seres animados e inanimados. De qualquer forma, o mundo, pelo menos por mais alguns anos, não se extinguirá. Num pensamento egoísta, como de todo homem, ele não pode acabar, pois ainda preciso conhecer a caatinga, a amazônia e o delta do Amazonas. Tenho que domar este por enquanto incontrolável monstro devorador de conhecimento que se apossou de mim. Continuarei errante, mas viajante.


Mais fotos aqui.

E abaixo, um blues rearranjado sobre uma canção do Overlost, de 2006, e agora destinado a Cássia dos Coqueiros e Monte Santo de Minas.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Ariri, Ilha do Cardoso e Caminho do Itupava – de 18 a 21 de fevereiro de 2012


Seria a contumácia presságio para o sucesso? Talvez. Eu, sempre sob o jugo do meu pessimismo, acredito que a perseverança em determinadas ações pode ocasionar a ruína irremeável do que já demonstrava sinais de que cederia a qualquer sopro de vento. Vemo-nos ocasionalmente amparados. Somos exortados a prosseguir o tempo todo, é bem verdade, como se a desistência fosse uma desonra marcada a ferro em nossa personalidade. Cremos piamente que um ser humano ao nosso lado, incentivando e pelejando conosco, nos propulsiona e facilita o alcance de nossos abstratos objetivos. Entretanto, não é sempre que contamos com esse tipo de auxílio. Como todos somos guiados por impulsos egoístas, embora alguns ainda acreditem em altruísmo, em um determinado momento corremos o risco de nos quedarmos abandonados à própria sorte, sós em meio ao caos que foi gerado por aquela nossa teimosia em querer continuar aquilo que deveríamos ter abortado no primeiro sinal de dificuldade. Desistir é preciso quando ações, por mais enérgicas que sejam, se mostram infrutíferas. Às vezes é necessário voltar os olhos e a tez para a direção de casa, deixando de encarar o mundo, nem sempre tão belo e receptivo quanto auguramos.
No princípio eram três
Esta viagem, que considero a mais árdua de todos estes anos quixotescos, realmente tomou rumos inesperados enquanto se desenrolava. Luiz Paulo Blanes, Rodrigo Costa Gil e eu partimos, juntamente com nossas motocicletas, para uma aventura pelos picos do Marumbi, elevações montanhosas na serra do mar paranaense. Contudo, nunca chegamos a este destino. Muito menos terminamos a viagem lado a lado. Cada um acabou regressando só, por estradas que o tempo e as oportunidades não permitiram que se entrelaçassem. Os obstáculos, desta vez, nos debilitaram, ao invés de nos motivar a desafiá-los. Nossos meios de locomoção, vencidos pela impetuosidade de estradas que sequer aparecem nos mapas rodoviários comuns, pediram arrego, sufocados pela lama e pela impotência de seguir em frente sem que se tivesse que arcar ulteriormente com sérias consequências. Enfim, esta foi mais uma desventura do que uma aventura propriamente dita. Não obstante, simplesmente não me vejo reclamando por mais do que algumas poucas linhas. Os lugares que, sem querer, viemos a conhecer, muito acresceram ao meu espírito, revitalizando-o para futuras jornadas. Que meus amigos tenham internalizado o mesmo.
Vista de Tapiraí
Luiz Paulo e eu deixamos Americana, após nos encontrarmos na Praia Azul, às cinco e meia da manhã do dia 18, e rumamos até as imediações do Aeroporto de Viracopos, na rodovia Santos Dummont, em Campinas, pelas rodovias Anhanguera e Bandeirantes. Ali encontramos Rodrigo Costa Gil, e o trio, por ora, estava formado, coeso para o início da empreitada. Ainda na Santos Dummont, sorrateiramente seguimos o traçado retilíneo da rodovia, com o astro-rei ensaiando seus primeiros raios ao leste. Pouco tempo depois contornávamos Sorocaba por um anel viário que automaticamente nos desembocou na Raposo Tavares, na qual permanecemos até o viaduto de acesso a Piedade, imediatamente após Votorantim. De Piedade se principia uma das mais belas rodovias em que tive o prazer de pilotar: a SP079, que só recebe este encômio por atravessar a parte norte do Vale do Ribeira e sua exuberante e preservada cota de mata atlântica. Entre Piedade e Tapiraí, os lírios-brancos pareciam disputar a atenção de nossas vistas, sobressaindo-se em meio a pastagens e resquícios de mata. Foi nesta última cidadela que encontramos dois conhecidos nossos, que rumavam, também de moto, para Ilha Comprida, no litoral sul de São Paulo.

Ipês-roxos do norte do Vale do Ribeira

Rio Açungui
De Tapiraí a Juquiá, uma mescla da exuberância dos ipês amarelos, rosas e roxos com rios caudalosos, como o das Corujas e o Açungui. Este último desemboca no rio Juquiá, de águas marrons, já próximo à cidade homônima. Os pontos negativos ficaram por conta da venda de palmito em conserva às margens da rodovia, extraído ilegalmente do teoricamente protegido Vale do Ribeira, e dos extensos mares de banana em meio à mata nativa, inclusive nos arredores de importantes afluentes dos rios supracitados. Certamente o comércio destes dois itens representa talvez a única fonte de renda de muitas famílias locais. Como sempre pendo para o biocentrismo em detrimento do antropocentrismo, acredito que, de modo geral, a natureza local seja a grande desfavorecida pela falta de renda e estrutura a que estão fadados os moradores da região. Lamentando e ao mesmo tempo inebriando-nos com os encantos presentes na sinuosidade da estreita – e portanto perigosa – rodovia, alcançamos Juquiá, cidade que se atrita com a BR116, neste ponto do Brasil chamada de Régis Bittencourt.
Pariquera-Açu
Na 116, como era de se esperar, arcamos com um pedágio e acessamos a rodovia Tenente Celestino Américo, sentido Cananéia. Por ela, transpassamos uma cidade que se preparava para as festividades do Carnaval: Pariquera-Açu. Demoramo-nos nesta por alguns instantes, fotografando a praça central e seus jardins com vegetação religiosamente aparada. Descobrimos que a pronúncia correta é “Paricuera-Açu”, e não “Parikera-Açu”, como aventávamos. Corrigida a semântica, continuamos pela rodovia, já avistando ao fundo a imponente serra do mar do extremo sul paulista. Passamos pelo acesso a Cananéia e pelo Porto de Cubatão. Deste ponto em diante, uma estrada de terra se ramifica para Ariri, um bairro pertencente a Cananéia, mas bem afastado da mesma. Pretendíamos trilhar apenas 30km desta estrada e encontrar uma bifurcação que nos levaria à Guaraqueçaba, atravessando a divisa São Paulo/Paraná. Mal sabíamos que os infortúnios deste caminho mudariam o sentido de nossa peregrinação.

Serra da Mandira

Ruínas
A estrada, em si, não é perigosa. Muitos riachos translúcidos entrecortam-na, sendo necessário, devido a isso, atravessar várias pontes rústicas de madeira. Todos esses pequenos braços d'água devem desembocar na Baía de Cananéia, já que segundo o mapa a mesma se encontrava a poucos metros à esquerda, paralela à estrada. À direita, a Serra da Mandira, altiva, demonstrava sua imponência, mas não a ponto de encobrir o sol, que nos castigava com sua típica luzência de verão. Ao encontrarmos as ruínas de uma antiga casa, fizemos uma breve pausa para descanso e hidratação. Desbravando o interior da carcomida edificação, além de infestarmos nossos andrajos com os carrapichos que se proliferaram neste recôndito de clima subtropical, tivemos que nos desviar de vespas que zombeteavam sobre nossas cabeças. Tratamos de deixar logo o local. Após as ruínas rodamos por mais 15km, deparando-nos com a bifurcação que supostamente nos levaria a Guaraqueçaba, no Estado do Paraná, da qual acessaríamos, também por estrada de terra, a cidade de Morretes, onde se encontra o Parque Estadual do Pico do Marumbi, nosso motivo de viagem.
Trilha do Telégrafo
Na bifurcação seguimos pela direita, cruzamos alguns sítios e casas rurais e demos de cara com a Escola Estadual Fazenda Santa Maria de Baixo. Dela em diante não há mais estradas, por assim dizer. Há apenas uma trilha de jipeiros e motociclistas da lama chamada Trilha do Telégrafo, por estar situada no curso de antigos postes deste arcaico meio de comunicação. Um jovem sobre uma moto, acompanhado de uma criança pequena, nos assegurou de que passaríamos facilmente pela trilha, já que há dias não chovia. Encorajados pelas palavras do rapaz, transpassamos uma pequena ponte de madeira, que demarca o início da trilha. Dela para frente, infelizmente, o panorama não foi nem um pouco acalentador. Muitos brejos, lama e madeiras roliças soltas fizeram com que atolássemos nossas motocicletas algumas vezes. Cheguei a tombar a minha por duas vezes, o mesmo acontecendo com Rodrigo e Luiz. Este último em um determinado momento atolou a sua tão profundamente que a paupérrima em pé permanecia, mesmo sem o descanso lateral encostado ao chão. Parecia petrificada, como uma estátua tentando emergir das entranhas do barro. Era uma situação calamitosa. Decidimos abandonar a trilha após três horas de intensos esforços para conduzir as motos. Tínhamos avançado apenas 800m. A trilha tinha 14km no total. Seria inútil prosseguir. Não alcançaríamos Guaraqueçaba e Morretes por esta via. Foi neste ponto que nossos planos mudaram. Sucumbimos.

Um dos vários atolamentos

Teiú na estrada para Ariri
De volta à escola, fomos obrigados a invadi-la. A sede nos assolava. Atravessamos a cerca de arames farpados e localizamos um tanque de lavar roupas nos fundos da singela construção. Felizmente havia água. Foi durante a reidratação que optamos por voltar à bifurcação que nos levara até ali, mas desta feita seguiríamos pelo viés esquerdo. Chegaríamos a Ariri, segundo o mapa, bairro este pertencente, mas bem afastado de Cananéia. Se voltássemos pela estrada, para Pariquera-Açu, BR116 e descêssemos sentido Paraná, chegaríamos a Morretes pela madrugada. Seria uma péssima opção. Ariri estava mais próximo, a apenas 30km dali. Poderíamos pernoitar por lá, recompormo-nos e, logo pela manhã, rumar ao Marumbi. Colocamo-nos no caminho, em meio a mata fechada, e vagarosamente trilhamos por mais este perrengue. O que amorfinizou um pouco a minha frustração evidente foi a visualização de diversos grandes lagartos teiús que se aqueciam no sol que incidia sobre a terra da estrada. Morfina fugaz. Rodrigo perdeu o controle de sua motocicleta em uma pequena vala e foi jogado ao chão, machucando joelho e cotovelo direitos. Tratamos de chegar logo a Ariri para remediarmos suas contusões.
Ariri
Por volta das dezessete horas estávamos no pacato vilarejo de Ariri. Incontinenti nos acomodamos em um dormitório singelo, às margens da baía de 100 metros de largura que separa o bairro da Ilha de Superagüi. Até ali a baía é um canal natural, mas um pouco mais à frente foi aberto, em 1953, o Canal de Varadouro, que transformou Superagüi em ilha e uniu a Baía de Cananéia à Baía de Paranaguá, no Paraná, facilitando o tráfego de barcos e consequentemente fomentando o comércio entre os Estados. Superagüi é, portanto, artificial, e de Ariri seu extenso manguezal é tudo o que se vê. Todos os detalhes, fora os que visualizamos caminhando pela orla pavimentada por corações, foram-nos relatados por Ingrid, uma professora de História que leciona na única escola local. Outro dado que nos chamou a atenção foi o número de habitantes de Ariri: trezentos e quarenta e cinco, segundo ela. Grande parte da população sobrevive com a pesca e com o transporte de turistas, via barco, para a Ilha do Cardoso, facilmente alcançada baía acima. Enquanto dialogávamos com a professora em um dos bares locais, foi-nos apresentada uma aguardente à base de cataia, uma planta comum da restinga da região. Foi bebericando essa típica bebida do Vale do Ribeira que nos tornamos íntimos deste magnifico vilarejo que, no princípio do dia, sequer aparecia em nossa rota.

Manguezal da Ilha de Superagüi, no Paraná

Ararapira, a cidade fantasma
O dia 18 se esvanecia. O sol se pôs a oeste por detrás de um dos morros que circundam a vila, aquarelando os céus e as águas da baía com mesclas de azul e amarelo. Repousamos e, logo pela manhã do dia 19, caminhei novamente pela orla, visando fotografar o nascer do sol e também a avifauna da região. Andorinhas, aos bandos, nidificavam sobre altos pinheiros. O canário-da-terra observava a ainda letárgica movimentação de pessoas sobre o telhado de um dos comércios locais. Um chopim ciscava nas redondezas de nosso pouso. Foi nesse caminhar que encontrei um barqueiro e esquematizei uma visita a Ilha do Cardoso, distante cerca de 15 minutos, via água, dali. Nós três, então, partimos para a Ilha, protegida na forma de Parque Estadual. Durante o caminho passamos por Ararapira, uma cidade fantasma pertencente ao Estado do Paraná. Está deserta porque a maré, mais feroz após a abertura do Canal do Varadouro, está em constante duelo com a orla, desbarrancando-a pouco a pouco. Muitas casas já foram engolidas, o que é notado pelos escombros sendo umedecidos pelas águas escuras do braço de mar. Os habitantes debandaram e alguns deles se instalaram em Ariri. A Igreja de São José, construída no fim do século XIX, ainda está altiva, mas não se sabe por quanto tempo. Festas nela são celebradas uma vez por ano. Passada Ararapira, alcançamos a Ilha do Cardoso pela face oeste, virada para a baía. Desembarcamos e fomos guiados diretamente ao centro de visitantes do parque, na sede Marujá.
Cachoeira Grande
Da sede do parque, caminhamos duzentos metros através da restinga da Ilha do Cardoso e avistamos o alto mar. Estávamos na Praia de Marujá, absolutamente bela e desocupada. Sós, refrescamo-nos nas águas geladas do Atlântico, vislumbrando, ao fundo, o infinito, e às nossas costas os desenhos da serra do mar sobre a restinga. Eram ainda nove da manhã, e agendáramos um outro barco que sairia deste ponto da ilha para um outro, mais ao norte, onde palmilharíamos, juntamente com outras pessoas, uma trilha com sentido a Cachoeira Grande, uma queda d'água bastante conhecida desta ilha de 17 mil km². Logo ao desembarcarmos principiamos o caminhar, passando por uma antiga construção na qual operava uma madeireira, desativada quando a ilha foi declarada Parque Estadual em 1962. Por vinte minutos adentramos a mata fechada, chegando à cachoeira em forma de S. Um estupendo lugar, com certeza, mesmo a queda não tendo mais do que 15 metros. O caminho de volta foi, para mim, mais significativo, pois pude vislumbrar os desenhos da serra do mar e o voo das fragatas, bem como os mergulhos certeiros do corvo-marinho. Era chegada a hora de deixar a Ilha do Cardoso, que também não constava em nossa rota. Tínhamos que, definitivamente, colocarmo-nos no caminho correto.

Praia de Marujá, na Ilha do Cardoso

Rio Nhundiaquara
Despedimo-nos de Fábio, o barqueiro. Juntamos nossa bagagem, unimo-nos às nossas motocicletas e retornamos para Pariquera-Açu, vencendo mais uma vez a inexorável estrada de terra de 60km. O desânimo de Luiz Paulo com a alteração dos planos era evidente e, enquanto querelávamos sobre o caminho a seguir, anunciou que não prosseguiria conosco. Optou por ir para casa, alegando falta de capital. Rodrigo, com o joelho debilitado pelo acidente, mesmo depois dos primeiros socorros em Ariri, garantiu que iria até o fim. Então, eu e ele, com o moral abalado, mas ainda contumazes em nossos desafios, retornamos à BR116, sentido sul, vendo Luiz sumindo gradativamente, sentido norte, no canto direito de nossos olhos. No princípio eram três. Agora, apenas dois, que em duas horas cruzaram a divisa São Paulo/Paraná e desceram a exuberante Estrada da Graciosa, que serpenteia Serra da Graciosa abaixo. Pela segunda vez eu pilotava por seus paralelepípedos ladeados de hortênsias e mata fechada. Vencendo um congestionamento em Porto de Cima, bairro de Morretes, adentramos uma estrada de terra paralela ao rio Nhundiaquara. Foi às margens deste que, nesta noite, montamos acampamento. O próximo dia prometia ser, mais uma vez, doloroso.
Conjunto Marumbi
Às oito da manhã do dia 20 de fevereiro, levantamos acampamento e seguimos margeando o Nhundiaquara, à direita, e os picos do Conjunto Marumbi, à esquerda, alcançando em dez minutos um Centro de Visitantes do IAP (Instituto Ambiental do Paraná). Nele fomos informados de que para chegar ao Parque Estadual do Marumbi, razão principal de nossa viagem, precisaríamos subir a serra por uma precária estrada de 8km. Subimos, mas por apenas alguns metros, pois a motocicleta de Rodrigo frequentemente patinava, recusando-se a desafiar o íngreme caminho. A alternativa que encontramos foi deixar nossas companheiras em um estacionamento. Subiríamos a serra a pé, o que levaria muito tempo. Tal fato inviabilizou as trilhas aos cumes do Conjunto Marumbi, que tanto almejávamos palmilhar. Restou-nos, mais uma vez, deixar de lado os planos originais e levar a cabo uma aventura mais próxima do local onde estávamos. Como já ouvira algo a respeito do Caminho do Itupava, decidimos fazê-lo. Seriam 16km a pé, subindo a serra do mar parananense em direção ao planalto da cidade de Curitiba. O caminho, aberto e pavimentado por escravos no Brasil Colônia para facilitar o acesso ao mar, tornou-se nossa honrosa e inesperada derradeira missão. O tempo era curto, pois tínhamos que regressar ao alvorecer do próximo dia.

Caminho do Itupava

Pavimentação colonial preservada
A pé, com mantimentos e câmera fotográfica no coldre, nos colocamos no caminho. Seguindo a planilha, subimos ininterruptamente pela mesma estrada em que a motocicleta de Rodrigo preferiu evitar. Em meia hora passamos pela Usina Hidrelétrica Marumbi, fechada, e localizamos a escada de acesso para o Caminho do Itupava. Escorregadio devido a pavimentação de pedras arredondadas e à umidade da mata atlântica, logo nos primeiros momentos sentimos nosso equilíbrio nos abandonar. Sucessivas idas ao chão muito nos desanimaram, mas ao mesmo tempo nos alegrávamos em contemplar as bromélias, orquídeas, animais e rios do percurso. Não há como descrever a vertiginosidade das subidas. Assaz íngremes, foram nossas maiores inimigas. A maioria dos caminhantes do Itupava prefere começar o trajeto pelos arredores de Curitiba e terminá-lo por onde o começamos, enfrentando-o serra abaixo ao invés de serra acima. De qualquer forma, o resultado final é meritório.
Santuário do Cadeado
Subindo e ocasionalmente escorregando, atravessamos, sobre pontes de madeira, o rio Taquaral e o São João. Em todas as oportunidades que avistávamos água, abastecíamos nossos cantis, já que a umidade da mata e a ferocidade do terreno nos exauria. Em duas horas alcançamos o Santuário Nossa Senhora do Cadeado, de onde se tem uma vista do Conjunto Marumbi, picos que eram nosso escopo no começo da viagem e que agora eram vistos apenas de longe, e também os trilhos da ferrovia que desce de Curitiba a Morretes. É o primeiro bom lugar para se descansar e, com sorte, pode-se observar o trem passando. Cruzamos a ferrovia para seguir subindo pelo caminho, angariando informações com alguns jovens que desciam. Com base nelas, decidimos não fazer o trajeto todo, haja vista a falta de tempo. Chegaríamos apenas a uma cachoeira, distante duas horas dali, e retornaríamos. Não era o que ambos queríamos, mas as circunstâncias nos relegaram a tal. Apoiando-nos nos corrimões desta nova fase da subida, prosseguimos.

Cobra-cipó-marrom

Cachoeira no Caminho do Itupava
Nesta segunda parte do caminho, sempre mais do mesmo. Mata cerrada, umidade e escorregões. A novidade ficou por conta de duas cobras: uma cipó-marrom de 90cm de comprimento e uma outra, acinzentada, que não fui hábil o bastante para fotografar. Belos espécimes, com certeza. Passamos praticamente sobre a cabeceira de uma cachoeira, mas não encontrei trilha alguma que nos levasse ao pé da mesma. Acelerando o passo, finalmente nos deparamos com um rio pedregoso, de onde era possível ouvir uma grande queda d'água. Vencendo as pedras rio acima, deparei-me com ela. Pouco volumosa, metade iluminada pelo sol e metade sombreada, ofereceu-me alento para o regresso pelo Caminho do Itupava. Poderíamos tê-lo completado no mesmo dia, mas a preocupação com a volta e nossas escassas energias não nos permitiriam. Mais uma vez lamentamos, mas sucumbimos. Regressamos ao ponto de partida, e agora o peregrinar era menos desgastante, já que descíamos. Tivemos, desta feita, o ensejo de ver o trem passando pelo Santuário Nossa Senhora do Cadeado.
Portal da Estrada da Graciosa
De volta às margens do Nhundiaquara, reavemos nossas motocicletas no estacionamento e, com o sol ainda caracterizando o dia, optamos por deixar a serra e subir para Curitiba, onde teoricamente encontraríamos um local tranquilo para passarmos a noite. Onde estávamos o movimento de turistas era intenso, e teorizamos que na capital estaria menos ululante. Subindo a Serra da Graciosa, apeamos no portal da Estrada da Graciosa para uma última foto do Estado do Paraná. O mesmo faríamos, em seguida, em um posto de combustível à beira da BR116, sentido Curitiba, visto que a moto de Rodrigo aspirava os últimos litros de gasolina. Contudo, uma chuva medonha nos assolou, e acabamos nos apartando quando ultrapassávamos alguns caminhões. Adentrei o posto e, para o meu azar, Rodrigo não. Acelerou para longe, sumindo em meio a forte chuva entre os caminhões. Na esperança de contatá-lo, liguei diversas vezes, mas não houve resposta. No posto em que me encontrava havia alguns quartos para pouso, e tratei de me acomodar por ali. Apesar de meus esforços em encontrá-lo, via telefone, não obtive sucesso durante toda a noite. Às vinte e três e quinze, quando me preparava para dormir, recebi uma mensagem. Rodrigo, quando se viu só, decidira regressar naquela mesma noite. Eu estava, agora, só. No princípio eram três, se bem me recordo.

O regresso, solitário como o trem que desce a serra

Vale do Ribeira na BR476
Na terça-feira, dia 21, às oito da manhã, eu e minha parceira, essa inseparável, enfrentamos o caminho de volta para casa. Para manter o meu paradigma de que o caminho que te leva não deve ser o mesmo que te devolve, abandonei a BR116 e adentrei a BR476, em Curitiba, mais conhecida como O Rastro da Serpente. Já postei uma viagem por esta rodovia em uma outra oportunidade, neste mesmo blog. É a segunda rodovia mais complexa do mundo quando o assunto são curvas, perdendo apenas para a The Tail of the Dragon (a cauda do dragão), nos Estados Unidos. Não ligo para esses dados. A minha intenção, voltando por ela, na verdade era contemplar o extremo sul do Vale do Ribeira, completando, então, minha saga por ele. Do alto das grandes montanhas pelas quais a estrada serpenteia, o desenho sempre inspirador da serra, encimado por nuvens nos pontos culminantes, me inspirava a parar, a contemplar boquiaberto o cenário imponente ao lado dos capins-dos-pampas que, aos montes, adornavam os acostamentos. No fim, ao chegar em casa na iminência de um temporal, seis horas depois de ter deixado o Paraná, não lamentei o fato de ter perdido meus companheiros no decorrer da viagem. Atravessei o Vale do Ribeira, um dos lugares mais lindos do Brasil, quiçá do mundo, e conheci locais e pessoas inesperados, mas valorosos. Que meus próximos planos sejam realizados, ou não. De qualquer forma, e em qualquer lugar, e acompanhando ou não, estarei em plenitude de espírito.
Por mar, por ar e por terra a vida se perpetua. Não a nossa vida, finita e errante, mas a do mundo, infinita e carregada de sentidos. Trilhando novos caminhos auguramos nos assemelhar a este mundo, tornando-nos tão históricos quanto o planeta que habitamos. Mera utopia, mas ainda um viés digno a se seguir. Quem não faz história, refém se faz das circunstâncias, e no limiar da vida acaba se culpando por não ter pelo menos tentando entender os rumos tomados por este nosso imenso globo que, um dia, nos aceitou como inquilinos, mesmo tendo plena consciência de todos os nossos problemas em viver em paz.


Mais fotos aqui.

E abaixo, um blues composto para todo Vale do Ribeira, mas especialmente para Ariri.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Zona Rural de Limeira – 05 de fevereiro de 2012


Do alvorecer deste meu desejo insano de mapear o Brasil para cá muita coisa mudou. Angariei novos companheiros de peleja e incubei amores neonatos, além logicamente de solidificar – e em alguns casos fragilizar – as relações com pessoas que já faziam parte de meu cotidiano. Não é fácil obter o respeito de quem não entende sua luta, e muitas vezes me passo por incompreendido. Questionam-me insistentemente, chegando a afirmar que minhas viagens são uma fuga de algo, como se algum ser dismórfico e desenfreado estivesse em meu encalço. Na verdade, tudo o que aprendi com a Filosofia não teria sentido se eu não testasse suas prerrogativas in loco, o que os marxistas mais ortodoxos rotulam como práxis, ou, utilizando o senso comum, um elo entre teoria e prática. Idealizar o ser humano sem conhecê-lo, sem compreender suas produções culturais, sem investigar o ambiente em que subsiste é mera especulação. Immanuel Kant nasceu, viveu e feneceu em uma mesma cidade, nunca deixando os domínios da mesma. Por mais que tenha deixado um legado meritório, acredito que suas teorias tenham pecado por não entender o ser humano globalmente. Ele o entendeu “königsbergamente”, ou regionalmente, se preferirem. Não intento incorrer no mesmo erro de Kant.
Moto & mato: diversão barata
Já há mais de um mês eu não viajava. Infelizmente nem sempre um professor tem recursos financeiros disponíveis para longas viagens. Em minha última grande empreitada, para Foz do Iguaçu, fiz a asfixiante descoberta de que viajar de moto, principalmente pelas rodovias de tráfego rápido, pode ser uma diversão onerosa, diferentemente de tempos mais remotos, quando pedágios eram gratuitos para duas rodas e a gasolina tinha um preço bem mais acessível, permitindo ao aventureiro chegar mais longe mesmo com baixo orçamento. Contudo, alternativas baratas são facilmente encontradas, bastando ao aventureiro apenas mudar o foco de suas andanças. Tenho uma teoria singela, mas eficaz: todas as cidades possuem uma zona rural, e essas zonas vão se tornando maiores à medida que vamos nos distanciando das grandes capitais. Eu poderia – reitero que o dinheiro é escasso – simplesmente me entregar à estática, ao ócio, mas optei mais uma vez pela ação: percorreria a terra vermelha da zona rural de Limeira, município vizinho de Americana. Mais precisamente, buscaria desbravar as cercanias do Bairro de Jaguari, onde uma importante malha aquífera entrecorta resquícios de mata e plantações de laranja e cana-de-açúcar.
Sol e terra vermelha
O domingo, e seus tórridos 32° Celsius, eram convidativos a um roteiro menos desgastante, mas o exagerado esplendor do astro-rei em nenhum momento me dissuadiu de meu intento. Após alguns contatos com antigos companheiros de aventuras e desventuras, vi-me só com minha motocicleta. Ninguém se arriscaria no campo, não com aquele sol causticante sobre os capacetes de resina, conhecidos como “fornos em potencial”. Luana Romero havia dito na noite anterior que me acompanharia, o que me deixou bastante surpreso. Desde que a conheci, viajava sem a sua companhia, por relutância própria e de seus pais. Agora seria diferente. Era o ensejo perfeito para que eu a mostrasse minha forma de ver o mundo. Logicamente eu incorreria no risco de assustá-la, mas ao mesmo tempo poderia incandescer em seu cerne o veio paterno de sua família, pescador e mateiro. Com todos esse pensamentos em meu encéfalo, partimos da Praia Azul, em Americana, visando acessar a Rodovia Anhanguera, sentido interior paulista. Dez quilômetros depois transpassávamos uma ponte sobre o Rio Piracicaba, concebido na confluência dos rios Jaguari e Atibaia a um quilômetro dali. Este grande monstro de água demarca naturalmente a divisa Americana/Limeira.

Luana, a moto e a zona rural de Limeira

O "castelo" de José Rico
Após a ponte, o perrengue se principia. Sem um séquito a acompanhar-nos, vagarosamente adentramos a Estrada da Ajinomoto, que nos direciona a uma empresa de condimentos alimentícios homônima incrustada, juntamente com outras empresas, na zona rural de Limeira. Logo nos primeiros metros desta estrada se nota uma grande edificação, parecida a um castelo, que só não demonstra maior imponência por estar inacabada. É, na verdade, a casa de José Rico, integrante da dupla Milionário & José Rico, sertanejos que fizeram muito sucesso nas décadas de 1980 e 1990. Eu poderia simplesmente ocultar este fato, mas é impossível não passar por este cenário e relembrar a famosa canção “Estrada da Vida”. “Vou correndo e não posso parar” ecoou tonitroantemente em minha cabeça deste ponto em diante, somando-se à companhia de minha motocicleta e de Luana. Passada a paisagem, entramos em uma estrada de terra à direita, abandonando momentaneamente a Estrada da Ajinomoto. Um quilômetro depois de cortar laranjais, chegamos a uma cerca branca e ao fim do percurso em terra. Dali não era possível continuar com a moto. Segundo minhas coordenadas, o Córrego da Cachoeira, importante afluente do Piracicaba, se encontrava ali. A pé, eu e Luana, seguindo por um alameda de eucaliptos e árvores frutíferas, o encontramos.
A ponte e o córrego
Uma ponte de concreto e tijolos à vista, que tardamos a discernir por conta dos galhos e folhagem sobre a mesma, se elevava sobre o córrego supracitado, dando passagem às suas águas carregadas de sedimentos, rasas e pouco velozes. Conheço bem os córregos que subsistem nos aglomerados urbanos. Sei o quanto sofrem com a poluição industrial. Para mim, ver este córrego, marrom mas incrivelmente translúcido e inodoro, apesar da proximidade com duas grandes cidades, passa uma falsa sensação de que há alguma esperança para as águas do Ribeirão Quilombo, por exemplo. Foi devaneando que escorreguei controladamente por uma pequena ravina, entre bambus e teias de aranha, visando acessar a margem esquerda do córrego. Com alguma dificuldade, e tendo as mãos e antebraços cortados em algumas ocasiões, cheguei à arenosa orla deste não muito portentoso afluente do poderoso Piracicaba. Escorregadio, o local me ofereceu bons ângulos para fotografar a ponte camuflada. Os cortes começavam a arder, mas a paz das águas juntamente com o canto dos pássaros, notadamente anus-pretos, agiram como amenizadores da dor. Com certeza este é um lugar digno de uma posterior visitação. Imaginei-me seguindo o curso do córrego, palmilhando seu fundo com água pelos joelhos, chegando posteriormente ao Piracicaba. No entanto, Luana me aguardava sobre a ponte. Retornei a ela e à motocicleta para prosseguirmos viagem.

Córrego da Cachoeira

O Rio Piracicaba
Subimos na moto e, voltando para a Estrada da Ajinomoto, passamos por um laranjal aberto e que aparentemente se estendia da estrada para bem próximo das margens do rio Piracicaba. Entrecortamos o laranjal até um ponto em que não era mais possível seguir sobre duas rodas. Deixei-as numa clareira, e em seguida nos embrenhamos em capim alto, chegando posteriormente a uma mata mais cerrada, a mata ciliar do rio. Por um canal de escoamento de água aparentemente desativado, desci uma outra ravina – novamente deixando Luana para trás – e, vencendo uma parte desbarrancada, alcancei a margem do Piracicaba. Muito volume d'água marrom e, ao contrário do córrego afluente, cheiro pouco agradável, mas não ao ponto de ser nauseante. Do lado em que eu estava, território limeirense. Do outro lado, território americanense e uma estrutura para captação da água do rio, que talvez esteja inutilizada. Infortunadamente me quedei ilhado, não podendo avançar rio acima ou rio abaixo. A mata fechada e a profundidade das águas me deixaram hirto. Tive que me contentar em fotografar de ângulos pouco apreciativos e em visualizar um bando de macacos que cruzou rapidamente pela copa das árvores próximas. Estes não fui capaz de registrar. Vencendo novamente o desbarrancado, subi em direção à clareira e a Luana. Incontinenti debandamos.
Usina Hidrelétrica de Tatu
A Estrada da Ajinomoto, “espinha dorsal asfaltada” da qual se ramificam as “costelas de terra”, foi novamente acessada para que nos aprofundássemos ainda mais no desbravamento desta parte da zona rural de Limeira. Passamos por um comércio local e nos informamos a respeito de uma usina hidrelétrica próxima ao Bairro de Jaguari. Com direção às empresas, mas sem alcançá-las, deixamos o asfalto e adentramos uma estrada de terra em meio a um canavial. Trespassamos uma torre de alta tensão, sob a qual o gado branco pastava – imagino a temperatura das gramíneas – heroicamente sob a intensa luz do sol. Cortamos as poucas casas e a capela do Bairro de Jaguari. O movimento de pessoas era intenso apenas nos arredores de um campo de futebol. Ligeiramente deixamos o vilarejo e pendemos à direita, seguindo as placas com indicações a uma comunidade cristã. Não tardamos a encontrá-la, deixando-a para trás e localizando a Usina Hidrelétrica de Tatu poucos metros ladeira abaixo. Os portões da usina, cerrados, não puderam ser transpostos. Não encontrei nenhum trabalhador ou zelador próximo aos portões, para talvez tentar uma visita interna. Tudo o que pudemos fazer foi fotografar, através da cerca, a casa de máquinas e uma cachoeira de pedras, com talvez 15 metros de queda, no curso do vertedouro da barragem.

Cachoeira da Usina de Tatu

Ribeirão do Pinhal
Não tenho informações pormenorizadas sobre a Hidrelétrica de Tatu. Tudo que sei é que seu reservatório, a Represa de Tatu, foi preenchido por águas canalizadas do Ribeirão do Pinhal, um importante afluente do Rio Jaguari. A balneabilidade da represa é boa, mas o acesso a mesma é complicado, o que a torna pouco conhecida dos moradores de Limeira, Americana e Cosmópolis, cidades que dividem praticamente a mesma zona rural. Atravessamos uma ponte rústica de madeira, ao melhor estilo Transpantaneira, para registrar a translúcida – apesar de marrom – água do Ribeirão Pinhal, comprovando a limpidez da água. Sobre a elevação visualizamos redemoinhos em alguns pontos, o que demonstra uma grande profundidade, inviabilizando aqui um banho para quem não domina bem a técnica da flutuação, o que é o meu caso. Entrar neste ponto do curso da água, portanto, pode ser perigoso. Decidido a não banhar-me, tive por objetivo apenas fotografar a minha paixão da era pós-Pantanal: as pontes de madeira. Luana se divertia ao me ver vencendo as pedras e barrancos para alcançar a base desta simples obra de engenharia de pouco mais de 20 metros de comprimento.
Estação Elevatória do Jaguari
Passada a ponte, seguimos pela estrada de terra e entramos à direita numa bifurcação, chegando à Estação Elevatória do Jaguari. Por ser de acesso restrito, não pudemos adentrar o local para entender o seu funcionamento. Demos meia volta, maldizendo as circunstâncias, e regressamos à bifurcação mencionada, seguindo agora pelo outro viés. Nele permanecemos por alguns metros, deparando-nos com uma maciça cerca branca que impedia nosso avanço. Deste ponto em diante, até Cosmópolis, tudo pertence a Usina Ester. Não somos autorizados a pilotar em suas estradas e canaviais. Encontrei uma trilha que atravessa a cerca. Poderia facilmente tê-la transposto, mas preferi não cometer tal delito. Elenquei como objetivo principal, depois de topar com essa barreira física, pelo menos molhar minhas mãos na Represa de Tatu. Já havia visto a usina. Agora carecia de ver seu reservatório. Para tal, regressamos à ponte e entramos à direita pouco antes de alcançá-la. Uma nova ponte de madeira surgia poucos metros depois. Sob ela, a água que escoa da barragem da usina. Alguns homens se banhavam. Com eles coletamos algumas informações para localizar a represa.

Abra as porteiras, Usina Ester!

Represa de Tatu
Como bom iconoclasta, resolvi contrariar as coordenadas dos banhistas. Eu detinha uma planilha que me instava a chegar à margem da represa pelo flanco sul. Tentamos acessá-la por esta via, cortando canaviais e laranjais, mas uma cerca obstruiu-nos em uma bifurcação da estrada. Teríamos que invadir propriedades privadas. Aquela sensatez que me assola às vezes foi, desta feita, ponderada. Volvemos à ponte dos banhistas e subimos a serra rumo ao norte da represa. Quando a vegetação densa raleou e visualizamos a represa do lado esquerdo, do alto, entramos numa estrada em queda livre até praticamente a beira da água. Sem meios de prosseguirmos com a moto, terminamos o trajeto a pé, por uma picada em mata fechada. Desta vez tivemos sorte. Pudemos fotografar e molhar nossos rostos nas águas mansas da bela Represa de Tatu, e de quebra conhecer um casal de pescadores que, com vocabulário tão simples, não foram capazes de nos dar informações mais detalhadas sobre outros atrativos da região. Permanecemos por um tempo ali, já que Luana se apetece por locais tranquilos como este, talvez por “culpa” de um gene de seu pai pescador.
Americana
O subir e o apear constantes na motocicleta já se aproximavam de seu momento derradeiro. Atingido o escopo de conhecer a Represa de Tatu, principiamos o regresso para Americana. Subindo pela íngreme estrada de terra, que culminaria no ponto mais alto da pequena incursão, deparamo-nos com uma vista magnífica da cidade de Americana. Os grandes prédios do centro da cidade, as torres da antiga Usina São José, a Represa de Salto Grande: tudo era possível visualizar do ponto em que nos situávamos. Até mesmo um bom pedaço de Paulínia nos saltava aos olhos. Devo admitir que não sou um grande admirador de cidades e grandes edificações, mas um bom mirante em meio ao nada, o que é o caso de locais como este, dão-me uma dimensão diferente, instando-me a tentar enxergar o garbo que meu preconceito renega. Inebriados pela paisagem, descemos a pequena serra pela judiada estrada, daquelas que massageiam todos os órgãos internos do corpo humano, segundo Luana, e retornamos à Hidrelétrica de Tatu, de onde seguiríamos para casa. Para a nossa surpresa, ao chegar ao escoadouro da barragem, os poucos banhistas haviam debandado. Aproveitamos, então, para descer uma leve ravina ao lado da ponte de madeira com o intuito de tatear a cristalina e gélida água do manso regato, proveniente da barragem e da cachoeira citada anteriormente. É um ótimo local para um banho, mas há de se tomar cuidado com a areia barrenta de suas margens. Em alguns momentos afundei meus pés. Torcê-los é esperado. Um certo cuidado é uma douta abordagem.

A água cristalina do vertedouro da Usina de Tatu

Capela do Bairro de Jaguari
Subindo de volta à moto, discernimos, por entre galhos, a cachoeira e a barragem da usina. É realmente uma pena não podermos conhecê-las, fotografá-las. Maldizendo essa impossibilidade, regressamos ao Bairro de Jaguari para uma última parada antes da Estrada da Ajinomoto. Apeamos defronte a Capela de Nossa Senhora de Aparecida, que segundo consta foi fundada em 29 de abril de 1945. Deve atender os poucos moradores de suas cercanias, visto ser de modestas dimensões e pouco suntuosa. Enquanto fotografávamos o templo cristão, um sabiá-barranco saltitava pelos galhos de uma árvore à direita do portão de entrada. Foi a última imagem de um domingo sufocante pelo calor, mas confortante pelo esplendor. Em apenas 60km rodados, mais do que fotografias e belos visuais, fizemos um levantamento da malha aquífera deste esquecido recôndito de Limeira. Que os cidadãos americanenses e limeirenses tenham uma maior gana de conhecimento, buscando compreender o seu solo, seus córregos, represas e rios, tornando-se então realmente um ser que se possa dizer conhecedor de suas raízes. Foi o que internalizei, enquanto concluíamos o curto trajeto de volta para casa. A paz, que em meio ao mato e aos mansos regatos gozei, esvanecia-se à medida em que os pneus de minha moto se atritavam freneticamente com a Anhanguera. Lentamente volvíamos à realidade urbana que tanto combato. Sofregamente eu inspirava, mas os ares já eram outros. Eu voltava a me alienar.
Diga-me para onde vais, e direi quem tu és. Ficais parado, e definhes, pois a beleza da estática é efêmera. O movimento, incessante e desafiador, não. O sol nasce para todos, mas a maneira como incide em cada campo, cidade ou rio é peculiar. Oponho-me aos preguiçosos porque deles não se extrai experiência válida alguma. Apoio-me nos rebeldes, esses que modificam o curso da história porque agem no presente. Sou um rebelde a minha maneira, e peço desculpas se tento influenciar aqueles que convivem comigo. Não o faço por mal. Faço porque a vida é curta, e desistir da mesma por mesquinharias, como o álcool e a pusilanimidade, é uma falta de respeito à nossa própria anatomia, engendrada unicamente para o deslocamento. Perdoem-me os cautos, mas que componham panegíricos a nós, e somente a nós, os incautos.



Mais fotos aqui.

E abaixo um blues – como poderia ser diferente? – para a zona rural de Limeira, composto à sombra para um dia ao sol e à terra vermelha.