quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Paranapiacaba – 09 de outubro de 2011


Quantos preferem a pusilanimidade à ação? Em muitos grupos guerrilheiros, ou mesmo na antiga máfia siciliana, a falta de motivação e a indiferença de um membro perante um momento decisivo, em que tomadas rápidas de decisão e ações enérgicas se faziam necessárias, eram retaliadas com castigos físicos, mutilações e, em casos julgados mais sérios pelos outros membros, a morte. Não sou, contudo, fatalista. Não acredito que o fenecimento dos desanimados possa mudar o mundo. Sinceramente, apoiando-me no sufismo, gosto de pensar que se todos fossem para o mesmo lado – ou fossem iguais e fizessem as mesmas coisas – o planeta se desequilibraria e tombaria. Odes às idiossincrasias! Eu, contudo, escolhi um dos lados: sou do grupo daqueles que primam pela ação.
Uns correm, outros esperam
Periodicamente me questionam o porquê de tantas viagens. Já me perguntaram se corro DE alguma coisa ou PARA alguma coisa. Minha resposta é sempre ambígua: hoje corro PARA alguma coisa, mas sem negar que já cheguei a correr DE alguma coisa. Deparei-me com decepções viajando; e já viajei para tentar olvidar decepções. O certo é que, apesar de tudo, continuo correndo, independente de minhas motivações. Neste dia, 9 de outubro de 2011, por exemplo, corri ininterruptamente, juntamente com o meu camarada Luiz Paulo, das 7h às 19h, por 420km e sob muita chuva. Nem mesmo a Anhanguera, a Bandeirantes e o Rodoanel, enfadonhos caminhos que nos levaram à Indo Tibririçá e posteriormente a Rio Grande da Serra e a Paranapiacaba, foram capazes de suprimir nossos ímpetos.
Paranapiacaba e a bruma
Amigos de Mauá e Suzano me instigavam a visitar Paranapiacaba – “lugar de onde se vê o mar”, em tupi – há muito tempo. Tardiamente, então, resolvi conhecer o local, incorporado ao município de Santo André desde 2002. É, na verdade, uma vila edificada pelos ingleses que se instalaram neste pedaço da Serra do Mar, em 1860, para construir, gerenciar e operar a estrada de ferro Santos-Jundiaí, que a partir de 1867, com o nome Estação Alto da Serra (foi mudado para Paranapiacaba em 1907), passou a transportar, até o porto de Santos, praticamente toda a produção cafeeira do estado de São Paulo, além, logicamente, de passageiros. Esse café seguia posteriormente, via mar, para os mercados da Europa.

Locomotiva a vapor inglesa Sharp-Stewart, fabricada em 1867

A passarela
Fomos surpreendidos, logo ao chegarmos, com a densa bruma que envolvia a vila. Deixamos as motocicletas na chamada Parte Alta, próximas à Igreja Bom Jesus de Paranapiacaba, e descemos a pé uma limbosa – e portanto escorregadia – ladeira de paralelepípedos rumo à passarela que dá acesso à Parte Baixa. Desta ladeira já é possível visualizar o grande emaranhado de trilhos, o Relógio da Estação (que dizem ser uma réplica do Big Ben, de Londres), uma locomotiva a vapor inglesa Sharp-Stewart (fabricada em 1867 e que hoje transporta esfumaçadamente turistas pelos trilhos), alguns trens em funcionamento e outros carcomidos pelo longo tempo de desuso. Dos corrimões da passarela a visão é ainda mais nítida. Senti-me, observando deste ângulo, um pouco mais a par da dinâmica da vida humana na segunda metade do século XIX e nas primeiras décadas do século XX.
Parte Baixa da Vila
Acessamos a Parte Baixa assolados por uma fina porém constante garoa. O movimento de turistas, nos bares ao pé da passarela, era intenso, mas nada que “poluísse” em demasia as fotografias. Caminhamos, sempre ao som da locomotiva que silvava ao longe, por praticamente todos os quarteirões, admirando o estilo vitoriano das casas de madeira que um dia abrigaram operários e chefes ingleses que trabalhavam na estação. Uma em especial prendeu nossa atenção, visto ser a mais suntuosa e localizada sobre um monte, que ulteriormente descobrimos se tratar do ponto mais elevado da vila.

O estilo vitoriano da arquitetura de Paranapiacaba

Subida ao Castelinho
Subimos por uma rústica escadaria de pedras o íngreme morro. No cume, a casa de dois andares, de um vermelho escuro muito bem conservado, é, na verdade, um museu denominado Castelinho. Dentro dele estão permanentemente expostas algumas peças da ferrovia e a memória social da vila. Soubemos, por intermédio do monitor, que esta casa foi construída em uma posição estratégica, a partir de uma rosa-dos-ventos no assoalho amadeirado do escritório. Nela moraram os engenheiros-chefe da São Paulo Railway Co. (este era o nome da empresa composta por ingleses responsáveis pela estação até 1946). De cada janela é possível visualizar uma parte distinta de Paranapiacaba, o que dava ao engenheiro um poder de vigília sobre a estação e a vila, além de respeitar o padrão hierárquico inglês da época (os “superiores” deveriam estar posicionados geograficamente acima dos “inferiores”).
Museu do Funicular
Do Museu Castelinho retornamos à passarela. Do meio desta se ramifica uma pequena rampa que nos direcionou à bilheteria do Museu Ferroviário do Funicular. Pagamos uma irrisória quantia e adentramos este local histórico, que conta, por meio de fotos e maquinário antigo, um pouco da história da ferrovia na região. Logo na porta de entrada um convidativo vagão vermelho-amarelado airava com passadismo o que estava por vir na parte interna de uma cadeia de prédios antigos. Inteiravam o cenário o recepcionista, vestido como os comissários de vagão da época, e um quadro de Getúlio Vargas, que em 1946, período em que se encerrou o contrato de concessão aos ingleses, recentemente terminara seu regime ditatorial. Todo o patrimônio da Vila Ferroviária foi, deste ano em diante, incorporado ao Governo Federal, o que explica o sucateamento procedente até 2002, ano em que a foi comprada, como já frisado, por Santo André.

Entrada do Museu do Funicular

Sistema Funicular
O museu não recebe este nome ao acaso. Cabos de aço sobre os trilhos eram atrelados aos vagões, ajudando-os a vencer as encostas íngremes da Serra do Mar. Esses cabos eram puxados por imensas engrenagens presentes na Estação de Paranapiacaba. Todo o conjunto desse aparato auxiliar ficou conhecido como Sistema Funicular, e os motivos que o levaram a ser adotado pelos ingleses é compreensível. Afinal, economicamente era muito mais viável montar este simples sistema do que construir quilômetros de trilhos suspensos sobre a serra. Hoje o funicular da vila é nomeado Primeiro Funicular da Serra, visto ser o pioneiro de tal empreendimento em solo brasileiro.
Estação abandonada
Inegavelmente conhecemos boa parte de Paranapiacaba. Sem mais o que desbravar, optamos por retornar às estradas. Por mera curiosidade, meu último desejo, e também o de meu intrépido camarada, era acessar a vila por uma estrada de terra que culminaria diretamente na Parte Baixa. Voltamos cerca de 5km em direção a Rio Grande da Serra e localizamos a dita estrada, que se iniciava após o cruzamento de diversas linhas de trem, como não poderia deixar de ser. Estáticos por muitos minutos, enquanto aguardávamos a passagem de um quilométrico trem, aproveitamos para fotografar uma estação de passageiros abandonada. Entretanto, um guarda da ferrovia incontinenti nos repreendeu com um silvo de seu apito. Assentimos. O trem, enquanto isso, desobstruira o caminho. Seguimos.

Aguardando a passagem do trem

Acesso por terra
A estrada de terra, esburacada mas transitável, e com algumas pontes de madeira que me recordaram a Transpantaneira, nos levou sem perigo algum pelo meio da mata atlântica até a Parte Baixa de Paranapiacaba. Fomos novamente repreendidos por um outro guarda quando atravessávamos os portões semiabertos da empresa que controla o tráfego na ferrovia. Deixamos a localidade e discernimos um pouco à frente, abandonada às margens da mesma estrada, uma locomotiva semelhante a que transporta turistas próxima à passarela. Suas condições, não obstante, são lastimáveis. Esta foi a última imagem da vila. Partimos.
Lagoa de Taquarussu
Poderíamos ter regressado pelo mesmo caminho. A chuva não cessara e a exaustão incomodava. Porém, a estrada de terra não findava em Paranapiacaba. Prolongava-se Serra do Mar adentro. Prosseguimos por ela. De todos os caminhos que os pneus de minha motocicleta estiveram em contato, este sem dúvidas foi o mais estreito de todos. Pedras, barro, declives e aclives íngremes quase nos obrigaram a abandoná-lo, mas teimosamente continuamos. O que nos acalentou foram as coordenadas dadas por um sonolento vigia, deitado em um casebre às margens da estrada. Supostamente ele deveria abrir e fechar a cancela controlando o movimento nesta área, que é protegida por ser integrante do Parque Natural Nascentes de Paranapiacaba. A cancela, contudo, jazia partida em duas. Aproveitamos as dicas do velho homem e mantivemo-nos na estrada, chegando pouco tempo depois a Taquarussu.

Resquícios da ligação de Taquarussu com Paranapiacaba

Taquarussu
Uma lagoa esverdeada, uma igreja, um coreto e seis casas: descrição mais fiel da Vila de Taquarussu é impossível. Hoje pertence a Mogi das Cruzes, mais precisamente ao distrito de Quatinga. Durante a Segunda Guerra Mundial funcionava neste local, cercado por brumosas montanhas e mata atlântica, uma mineradora de origem italiana que provia carvão à Estação de Paranapiacaba, uma vez que a Inglaterra estava diretamente envolvida no confronto, ficando impossibilitada de suprir a demanda. Conhecemos uma família local. Com um sotaque italiano, confidenciaram se tratar de uma vila zelada carinhosamente por todas as seis famílias que ainda subsistem neste recôndito. “Aqui sempre está assim. Sempre pintadinha. Sempre charmosa”. Além disso, deram-nos coordenadas para o restante da estrada de terra.
Última imagem de PNB
Optando pelo viés esquerdo em cada bifurcação, e sem perder de vista um aglomerado de torres de energia no horizonte, encontramos asfalto. Saímos na Subestação de Tijuco Preto, em Mogi das Cruzes, que transmite para a região a energia proveniente da Hidrelétrica de Itaipu. Cruzamos toda a cidade de Mogi e Suzano, onde acessamos a Rodovia Ayrton Senna. Minutos depois estávamos na Marginal Tietê, em São Paulo, buscando a Rodovia dos Bandeirantes. Daí pra frente, o mesmo: Anhanguera, Americana, casa. Quando a viagem se encerra, que as lembranças fervilhem e nutram o ensejo de uma próxima.
PARA algo? DE algo? Como bom iconoclasta, em certos momentos prefiro contrariar ambos e responder que viajo POR algo. Esse bucolismo, essa inquietude, essa centelha que me propulsiona... Viajo POR tudo isso. Não me reconheceria se agisse de outra maneira ou se me prostrasse indiferente a esse sentimento. A todos aqueles que preferem o sedentarismo (no sentido de se fixar num mesmo local) ao nomadismo, minhas sinceras saudações. Todavia, e não me tenham por esnobe quando brado tal sentença, escolho ser assim: antagônico a vossas mercês.


Mais fotos aqui.

E abaixo um blues composto para o passadismo de Paranapiacaba e Taquarussu.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Pedra Grande de Atibaia – 02 de outubro de 2011


A vida moderna clama por atalhos. O desenvolvimento – leia-se consumismo – depende da presteza logística, viabilizada pela construção de novas rodovias e pela modernização das já existentes. Uma centena de quilômetros, hoje, é facilmente transponível, diferentemente de pouco mais de meio século atrás, tempos em que os meios de locomoção eram tão escassos quanto a quantidade e a qualidade das estradas brasileiras. Porém, toda a comodidade trazida pela sempre crescente malha asfáltica, fruto das políticas desenvolvimentistas desde JK, pode incitar nos mais nostálgicos o anseio de reaver aquele sentimento tão comum aos homens que extraíam da terra e da água estratagemas para garantir a sobrevivência. Em síntese, existem aqueles que almejam sentir esporadicamente a faceta selvagem que o encurtamento de distâncias derrocou.
A beleza das estradas secundárias
Eu, Luiz Paulo e Levi Vieira levaríamos aproximadamente sessenta minutos para chegar ao topo de um dos locais mais visitados do estado de São Paulo: a Pedra Grande, em Atibaia. Entretanto, as bem conhecidas e fastidiosas rodovias que nos direcionariam a ela suscitaram em nossos cernes o desejo de dificultar o trajeto, o que obviamente contraria o senso comum. Agindo desta forma conheceríamos novas estradas, paisagens e distritos isolados do frenesi das vias rápidas e dos centros urbanos adjacentes a elas. Filosoficamente falando, palmilharíamos caminhos desconhecidos ou ignorados pela grande maioria dos que se dizem bípedes conscientes. Estaríamos inseridos deliberadamente em ambientes pouco explorados, e não apenas naqueles em que a linearidade dos projetos das estradas do progresso nos permite estar.
Estrada Velha Valinhos-Itatiba
Partimos de Americana às nove e meia da manhã. Decididos a não gastar o nosso irrisório capital com os onerosos pedágios da rodovia Dom Pedro, embrenhamo-nos por Campinas e Valinhos. Por um instante acreditei estar perdido na segunda maior selva de concreto do estado, mas coletamos informações nas ruas o suficiente para que localizássemos a Velha Estrada Valinhos-Itatiba. O clima nostálgico supracitado foi a tônica deste ponto em diante. Poucas construções, cercas rústicas, aromas provenientes da bem preservada vegetação, rochas, pássaros. Em uma das diversas curvas paramos pela primeira vez para algumas fotos. O silêncio, estarrecedor para alguns e pacificador para outros, foi desafiado apenas por um breve ruído das turbinas de um avião que sobrevoava a área. Passado o artefato alado, imperou soberano novamente.
Itatiba-Jarinú
Em Itatiba pelejamos. Não há placas ou qualquer outro indicativo para estradas secundárias. Temos que nos basear e confiar cegamente nas coordenadas de transeuntes. Eu sabia, mediante pesquisa prévia, que uma estrada municipal, de chão, ligava a cidade a Jarinú. Um proprietário de um estabelecimento comercial nos indicou um possível caminho. Contudo, já nele, uma bifurcação suscitou a dúvida: para que lado seguir? Optamos pela via esquerda e, para a perpetuação da Lei de Murphy, demos de cara com a Rodovia Dom Pedro, a mesma que tentávamos a todo custo evitar. Retornamos alguns quilômetros e adentramos a via direita, supostamente a correta.
Morro Azul
Algumas cercas fechadas, boiadas e areais colocaram em cheque o já duvidoso trajeto. A essa altura não tínhamos certeza alguma de onde chegaríamos. Subitamente, um bairro, conhecido como Morro Azul, ainda no município de Itatiba. Após um breve descanso, fotos e mais coleta de informações, seguimos pela continuação da estrada, alcançando, para a nossa satisfação, a cidade de Jarinú. Nela um outro comerciante, vendedor de morangos, pseudofruto típico da região, nos indicou uma estrada municipal, também de terra, que passaria pela Represa da Usina e culminaria no centro de Atibaia, de onde poderíamos rumar à Pedra Grande. Por que não conhecer, então, mais esse atrativo?
Represa da Usina
A Usina Hidrelétrica Bragantina e a Represa de Atibaia, mais conhecida como Represa da Usina, foram gratas surpresas. Cento e cinquenta quilômetros quadrados de águas represadas no curso do Rio Atibaia não passariam despercebidas por três motociclistas fadigados pelos solavancos das irregulares estradas que haviam enfrentado até então. Às sombras das margens, sentados sobre os barcos ociosos, descansamos e discutimos sobre a sequência da aventura. Foi racionalizando que tivemos a ideia de invadir a usina e fotografar sua aparelhagem e estrutura. A barragem, invisível de onde estávamos, somente poderia ser vista do outro lado da usina, o que “justificou” a invasão.
Barragem da Usina Bragantina
Sorrateiramente vencemos os arames farpados. Alguns passos depois já era possível visualizar o tom esverdeado envelhecido de alguns tornos mecânicos, esquecidos ao relento, contrastando com estruturas vermelhas que, acionadas por manivelas e engrenagens, abrem as duas comportas, permitindo a entrada da água da represa. Uma das comportas estava fechada. A vazão na outra era torrencial. Descemos uma escada e chegamos à barragem. Dela em diante a água não é mais represada. O Rio Atibaia, então, naturalmente segue seu curso por entre as pedras. Andando por uma trilha é possível ver o fundo da usina, local por onde é escoada a água que "alimenta" as turbinas para a produção de energia elétrica.
Parte posterior da usina
A usina, construída em 1928, está desativada desde 1970. Por isso utilizei as aspas em "alimentava" no parágrafo anterior. Felizmente seus arredores foram transformados em Área de Preservação Ambiental. A degradação das águas que a abasteceram e que geraram energia para Atibaia, Jarinú e Bragança Paulista, por outro lado, é evidente, principalmente na água estática sobre a comporta que se encontra fechada. Subprodutos da vida moderna em meio a vegetais em decomposição extraem todo o potencial estético do local. Lamentamos, meneamos horizontalmente os queixos e deixamos a usina.
Sorrindo, apesar do tombo
O centro de Atibaia, pouco após a represa, nos direcionou ao princípio da estrada de terra que culmina na Pedra Grande. Perdemo-nos, como de praxe, mas rapidamente nos colocamos no caminho correto. Ascendemos vagarosamente pela serra, fotografando a paisagem sobre uma animalesca pedra encostada a uma cerca. As placas indicativas foram suficientes para que chegássemos ao cume sem nenhum percalço, a não ser, logicamente, a condição precária da estrada no trecho próximo ao seu término. Foram nestes 50 traiçoeiros metros que, no regresso, Luiz Paulo e Levi tombaram suas motocicletas enquanto eu, atônito, tentava desatolar a minha da vegetação que se decompunha sob às altas árvores que emparedam o caminho. Afortunadamente ninguém se feriu. Nem mesmo nossas “poderosas” se avariaram.
Do alto da Pedra Grande
A recepção instrutiva na Pedra Grande foi, ao meu ver, o apogeu dessa pequena incursão de domingo. Duas mulheres aparentando pouca idade, provavelmente biólogas, nos indicaram os locais em que poderíamos estacionar as motocicletas sem causar dano às estruturas naturais da pedra; apontaram a necessidade de recolher o lixo que eventualmente produziríamos; e clamaram a necessidade de se preservar a vegetação esparsa que sobrevive na superfície rochosa. Com tais itens devidamente internalizados, preocupamo-nos, deste ponto em diante, somente em contemplar a vista.
Potencial esportivo
Apesar da coloração cinza emprestada aos céus pelas nuvens carregadas, discernimos no horizonte, de uma altitude de 1450m, as cidades de Atibaia e Jarinú. Augurávamos ver muito mais, mas a recompensa, sempre esperada pelos aventureiros, não se materializou completamente. Certamente a possibilidade de enxergar quilômetros à frente impressionou, mas devo admitir que o que me deixou boquiaberto, na verdade, foram as formações rochosas que parecem brigar por cada centímetro nos 200 mil m² de superfície da Pedra Grande. Essas rochas, formadas há 600 milhões de anos, são compostas principalmente por quartzo e microclínio. Muitos esportistas fazem delas rampas para voo livre e pontos de descida de rapel.
Recompensa
A chuva começava a cair. Cogitávamos viajar um pouco mais, até Joanópolis, mas a água advinda do firmamento, potencializada pelo vento lateral que golpeava ferozmente todas as estruturas presentes no topo da pedra, encharcou nossos intentos. Abatidos e cansados, principiamos o regresso. Agindo antagonicamente ao espírito em que se baseou esta jornada, acabamos retornando pela Rodovia Dom Pedro e arcando com abusivos pedágios. Enfim, foi como guerrear contra um inimigo mortal e, ao alcançar a vitória, pedir perdão em prostração. Os 270km rodados, ao meu ver, foram meritórios. Pelo menos boa parte deles.
Que a humanidade se multiplique e consuma! Que cresçamos 50 anos em 5! E que em cidadãos não tão comuns, como eu, o apego ao progresso aumente concomitantemente ao desejo de reaver o que é imprescindível, mas que um dia foi deixado para trás. Vivo no presente, beliscando nacos do passado e lamentando o que o futuro nos reserva. Panegíricos a nós, os saudosistas! Isso se não nos rotularem como loucos.


Mais fotos aqui.

E abaixo um blues em homenagem à Pedra Grande de Atibaia e às estradas secundárias que ousamos desbravar.
Come on up for the risin'.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Analândia – 24 de setembro de 2011


Friedrich Hayek, o pai do neoliberalismo, frisava em 1944 que “os acontecimentos contemporâneos diferem dos históricos porque desconhecemos os resultados que irão produzir”. Em português claro, agimos sem saber a força que nossas ações presentes exercerão – em nossas próprias vidas e em vidas alheias – em um futuro próximo ou longínquo. Muitos pequenos atos, que poderiam ser simplesmente olvidados sob as pilhas da indiferença, são capazes de angariar um poder incomensurável com o passar do tempo e ocasionar mudanças drásticas em uma sociedade. Logicamente não temos controle sobre a História. Podemos, agindo apequenadamente, fenecer no fracasso, na obscuridade do anonimato. Corremos o risco de deixar um legado perfunctório.
Pica-pau-do-campo
A obrigação de ter que voltar a uma mesma localidade em várias oportunidades pode nos privar de conhecer outras. Não obstante, é sabido que diversos caminhos levam a um mesmo destino. Trilhar todos eles oportuniza um maior volume de pequenas ações. Cada estrada, cada alameda, cada cidade exige um grau de atenção, de velocidade de mobilidade, de gestual corporal, de motivação. O destino em si é secundário; os meios para se chegar a ele, primários. Desta forma maximizamos nossas chances de fazer História, pois criamos um pano-de-fundo para a vivência de variadas situações. Quanto mais conhecemos, mais sabemos e, se não deixarmos a pusilanimidade nos eivar, mais faremos. Sejamos desbravadores! Sejamos polivalentes! Deixemos um legado substancial! Viajemos!
A estrada velha de Limeira
O discurso de início desta postagem é, ao meu entender, necessário, pois detalharei uma viagem a uma cidade em que estive incontáveis vezes. Porém, em todas elas, garanto, alcancei-a por vias alternativas. Nunca um caminho foi semelhante a outro. Portanto, quando recebi o convite de meu intrépido camarada Luiz Paulo para ir novamente a Analândia, não deixei que o fato de eu conhecer cada detalhe deste local exterminasse minha vontade de viajar. Pelo contrário, entusiasmei-me pela possibilidade de encontrar mais uma alternativa de chegar à cidadela. Devo assegurar que não me arrependi de ter traçado o trajeto que se segue.
Rio Piracicaba
Luiz Paulo e eu partimos de Americana por volta do meio-dia. Nosso plano desde o princípio consistia em pilotar a maior parte do tempo por estradas de terra. Ainda em Americana nos embrenhamos pela primeira, após transpassar uma ponte sobre o rio Piracicaba, principal afluente do Tietê. Este rio nasce, a dois quilômetros dali, da fusão de dois outros importantes rios: o Jaguari e o Atibaia. Lentamente alcançamos o distrito de Tatu e seguimos, ainda via terra, até Limeira, onde naturalmente fomos “desembocados” na Anhanguera.
O anu-branco e a cigarra
De Americana a Limeira aproveitamos os pormenores somente encontrados na Antiga Estrada de Limeira. O aroma das laranjeiras e a flor da cana-de-açúcar cindiram grande parte do caminho, bem como a avifauna sempre vistosa do campo. Pude fotografar um anu-branco degustando uma cigarra e as cores vibrantes de um pica-pau-do-campo assustado sobre os galhos de uma pequena árvore. Surpresas ruins também saltaram aos olhos, como um carro em chamas. Ladrões devem tê-lo abandonado, após a extração de algumas peças, ateando fogo ao mesmo logo em seguida.
Córrego em Corumbataí
Da Anhanguera a Washington Luiz, outra antiga conhecida. Passamos por Santa Gertrudes, Rio Claro e pela primeira entrada, por asfalto, de Corumbataí. Adentramos a segunda, esta por terra. Atravessamos alguns sítios, boiadas e areais. Um casal de seriemas cruzou a estrada, motivando uma parada para fotografias dos bichanos e consequentemente da serra ao fundo. Dez quilômetros depois estávamos na praça central de Corumbataí, cidade com aproximadamente 4000 habitantes, procurando uma outra estrada de terra que nos levaria ao portal de Analândia. Rapidamente a localizamos e, sem muitas emoções, a não ser uma breve parada à beira de um manso córrego, vencemos os poucos quilômetros que nos apartavam do nosso derradeiro destino.
Analândia
Analândia conta com uma população de quase 4000 habitantes, comparável neste item à vizinha Corumbataí. Desde 1966 se enquadra na categoria política de Estância Climática, o que garantes maiores subsídios econômicos por parte do Governo do Estado de São Paulo. Tal título se deve principalmente à qualidade de suas águas. Até meados de 1944 detinha o nome de Anápolis, mas devido a uma cidade goiana homônima seu nome original foi modificado. É conhecida pelo artesanato à base de lã de carneiro, mas peremptoriamente por seus recursos naturais (cachoeiras e morros) e potencial em esportes de aventura, como mountain bike, tirolesa, escalada e rapel.
Cuscuzeiro
Da parte central de Analândia se bifurcam duas estradas de chão e areia repletas de atrativos naturais. Seguimos pela mais conhecida, que leva aos morros do Cuscuzeiro e do Camelo. O primeiro, do alto de seus 220 metros, tem sua base coberta por mata nativa bem preservada. Do meio dessa vegetação se eleva um paredão de arenito com 52m de altura. Seu cume pode ser alcançado somente via escalada. Um quilômetro adiante fotografamos o morro do Camelo, também bastante explorado por escaladores iniciantes. Ambos os morros foram agraciados com esses nomes pela semelhança que apresentam com o cuscuz, comida típica da América Latina, e com um camelo deitado.
A "goteira" da Bocaina
Com pouco tempo disponível, infelizmente nos vimos na premência de partir. Sabíamos que a estrada de terra terminaria na rodovia Washington Luiz, segundo informações de um morador local. Aproveitamos, então, para visitar a Cachoeira da Bocaina. Contrariando o dono do sítio na qual está inserida, descemos a abissal trilha apenas para atestar o que o velho homem havia advertido: a queda de 45m, na verdade, não era mais que um “chuveiro natural”. A estiagem que vem castigando a região nos últimos meses diminuiu consideravelmente o volume de água dos rios e, consequentemente, das quedas d'água. Já estive em uma outra ocasião neste mesmo local e posso garantir que o poder das águas, em condições propícias, é assustadoramente maior.
O cansaço
Washington Luiz, Rio Claro, Iracemápolis, Santa Bárbara d'Oeste e Americana: este foi o trajeto de retorno, inteiramente por asfalto. Os pouco mais de 250km rodados em menos de 7 horas exauriram nossas forças, visto que em grande parte destes pilotamos por estradas de terra, pedra e areia. Soma-se a isso a trilha para a cachoeira, a qual nossos andrajos de motociclistas não foram nem um mínimo adequados. A resistência, a cumplicidade e a paciência do meu camarada Luiz Paulo devem ser louvadas. Ter que parar a cada 100 metros para eu poder fotografar algo realmente não era esperado por ele.
Por cá ou por lá, a caravana segue seu curso. Quando a preocupação de ter que chegar rapidamente deixa de existir, a exploração de caminhos alternativos adquire plenos poderes. Nossa existência, em decorrência disso, passa a ser vista por diferentes ângulos que, por sua vez, podem divergir entre si. A propósito, somos o que nossos desequilíbrios nos permitem ser. Buscando vencê-los nos atiramos à procura de soluções para reavermos a paz. Que ela nunca venha. Que eu a encontre somente quando as paisagens de todos os caminhos estiverem lapidadas em meu âmago.


Mais fotos aqui.

E abaixo um blues, antigo mas readaptado, para a minha velha conhecida Analândia.
The same old sky above me
The same old moon just fillin' the night
Recalling me that I must go
I must go where noone else can go

terça-feira, 20 de setembro de 2011

O Rastro da Serpente, Curitiba e Parque Estadual de Campinhos – 17 e 18 de setembro de 2011


As românticas e revolucionárias décadas de 1950 e 1960 ficaram na história. As potenciais Sierras Maestras e Serras do Caparaó se elevam sobre as mesmas cordilheiras, mas o ideário popular já não é tão atuante ou criativo a ponto de torná-las base para uma mudança significativa da sociedade. Não há mais Bolivares, Marighellas ou Guevaras. Não há líderes. Os pilares das relações interpessoais, como nossos ascendentes os edificaram, permanecem intactos, mas apenas como totens para saudosa admiração e não para real usufruto. As “vidas virtuais”, estas sim, são hipercaloricamente nutridas e zeladamente gerenciadas.
Gavião-Carijó
O conhecimento não é mais produzido e compartilhado em rodas de conversa na praça do vilarejo. É, infelizmente, mantido em “cativeiro” nos círculos acadêmicos. Como resultado desta centralização, cria-se uma ruptura de grandes proporções no seio da sociedade. Instaura-se o axioma de que “quem pode, manda, e quem é esperto, obedece”. Criticamente, portanto, enfraquecemos. Política e filosoficamente nos atrofiamos. Não lemos, a não ser que seja primordial ao crescimento profissional, mesmo sabendo que fontes gratuitas de literatura estão ao alcance. Especializamo-nos em uma área e nos tornamos mercenários, o que vai na direção oposta ao pensamento da Grécia Antiga ou do Renascentismo, no qual um mesmo indivíduo buscava dominar a arte, a matemática, a filosofia e a anatomia.
A filosofia das duas rodas
Este relativamente longo e incomum antelóquio não é um desabafo de um angustiado sujeito de esquerda. Por mais que meus estudos marxianistas tenham me embrutecido, ainda posso pensar como Comte ou um neoliberalista, muito embora não concorde com a visão de sociedade destes indivíduos. Se os organismos vivos evoluem, como prerrogou Darwin, o organismo social consequentemente também evolui. Não sou tolo a ponto de querer retroceder a humanidade à “era das cavernas”. O que almejo, na verdade, é aventar um modo de pensar – uma filosofia, se preferirem – que restaure o antigo lado crítico de cada ser humano valendo-me de recursos possibilitados pela modernidade. Pretendo indicar caminhos que nos façam reaver a polivalência humana.
Os pormenores da estrada
Carecemos de pequenas revoluções. Sobre uma motocicleta posso desencadear uma. Meu “motim” não é significativo para muitos e por este motivo o proclamo “pequeno”. Parto do princípio – similar ao de Guevara – de que um povo acrítico é um povo facilmente dominável. Quero mudar este quadro. Quando me proponho a viajar, previamente pesquiso a história, o relevo, o clima, a fauna, a flora e a economia dos locais que visitarei. Sei que uma cidade não se edifica ao acaso, e sim por uma sucessão de fatos históricos. Nas poucas vezes em que estou acompanhado exijo o mesmo de meus companheiros. Um professor, desta forma, de repente se transforma em professor, motociclista, geógrafo, biólogo e historiador. Múltiplos conhecimentos: este é o caminho para minimizar nossa “ignorância”. Que todos vejam através da negra cortina que seus diplomas acadêmicos e técnicos dispuseram diante de seus olhos! Posso sofrer críticas dos mais conservadores ou me passar por pedante pelos acadêmicos. Não há lacuna para temores. Os grandes mártires e líderes revolucionários nunca foram totalmente compreendidos. Por que eu, um simples professor com uma incipiente micro-revolução no coldre, seria?

Múltiplos conhecimentos são adquiridos no simples ato de viajar

Acidentes no Rastro
Atenhamo-nos agora à viagem.
Rodrigo e eu, com apenas dois dias disponíveis, decidimos, após algumas enfadonhas trocas de argumentações, viajar até Curitiba por um caminho nem um pouco ortodoxo: o Rastro da Serpente. O atrativo principal da viagem não seria a capital do Paraná e seus bem estruturados parques em si, mas sim a própria estrada e suas traiçoeiras curvas. Poderíamos, ademais, encontrar alguma garbosa atração no decorrer das mesmas.
Alusão ao Rastro em Apiaí
Partimos de Americana às 7 da manhã, momentos após eu ter fotografado um Gavião-Carijó agarrado à antena de TV de uma casa vizinha. Seguimos pelas já conhecidas SP-304, Rodovia do Açúcar, SP-127 e Raposo Tavares. Passamos, dentre outras cidades, por Santa Bárbara d'Oeste, Tupi (distrito de Piracicaba), Tietê, Cerquilho, Tatuí e Itapetininga. Desta última nos dirigimos à Capão Bonito. Nesta localidade se principiava a rodovia que tanto desejávamos conhecer: a SP-125/BR-476, também conhecida como O Rastro da Serpente.

Portal de Apiaí

Ribeira
Muitos motociclistas admiram esta estrada pela complexidade do seu desenho. As curvas acentuadas, que chegam a incríveis seis por quilômetro, exigem muita perícia e cuidado do condutor, principalmente no trecho entre Capão Bonito e Ribeira, passando por Guapiara e Apiaí, todas cidades do estado de São Paulo. O asfalto aqui se encontra criticamente avariado. A combinação de pedras soltas, crateras, areia e neblina pode causar sérios acidentes. Devido a um deles – uma carreta tombada – fomos obrigados a aguardar por cerca de trinta minutos para prosseguir viagem.
O Vale do Ribeira
Meus motivos para trilhar esta rodovia são outros. O principal deles é por estar situada no Vale do Ribeira, região que abrange 22 municípios do estado de São Paulo e 9 do Paraná. Sessenta por cento de toda a mata atlântica brasileira subsiste nestes certames. Foi em meio a esta densa vegetação que Carlos Lamarca, capitão dissidente do Exército Brasileiro, se propôs a treinar 16 aspirantes a guerrilheiros em 1970. Visavam, com este treinamento, desbancar a ditadura militar e instaurar o socialismo no Brasil através da luta armada. Devido ao cerco imposto pelo Exército e pela Aeronáutica foram obrigados a debandar e a modificar o plano original. Lamarca seria morto no sertão da Bahia dois anos depois.

Paisagem da zona rural de Adrianópolis

Rio Ribeira de Iguape
O rio Ribeira de Iguape naturalmente delimita a fronteira São Paulo/Paraná. Cruzamos a ponte sobre ele e adentramos o estado paranaense, mais precisamente o município de Adrianópolis. Nossa intenção era chegar à Tunas, cidade na qual está inserido o Parque Estadual de Campinhos. Alcançamos o destino às 15 horas. Contudo, para o nosso infortúnio, todos os hotéis e pousadas estavam abarrotados. Encontramos guarida em Bocaiúva do Sul, alguns quilômetros à frente, após um cansativo, mas meritório percurso. A serra, vista por esporádicas paradas nas curvas do “rastro”, contrabalançou o desgaste físico ocasionado pelos movimentos bruscos necessários à pilotagem por estes recônditos.
Ópera de Arame e Cachoeira
O dia 18 amanheceu congelante. Rodrigo, que ainda não conhecia Curitiba, me instou a visitá-la. Devido ao curto tempo de que dispúnhamos, rapidamente vencemos os 27km entre Bocaiúva do Sul e a capital, passando por Colombo, apenas para visitar a Ópera de Arame, espaço cultural construído em estrutura tubular sobre um local onde antigamente funcionava uma pedreira. Uma cachoeira de dez metros e um lago repleto de carpas embelezam este que é, juntamente com o Jardim Botânico, um dos cartões-postais mais conhecidos da bem planejada cidade de Curitiba. A avifauna e a vegetação nos arredores da ópera chamam igualmente a atenção. Pude visualizar e fotografar, inclusive, uma saracura-três-potes, ave que havia visto anteriormente somente no Pantanal Norte.

Bocaiúva do Sul

Gruta dos Jesuítas
De Curitiba principiamos o regresso. Retornamos pelo Rastro mesmo, ignorando o caminho corriqueiro pela BR-116. Localizamos a estrada de terra – estrada de chão, como dizem os paranaenses – que conduz à entrada do Parque Estadual de Campinhos a 8km do perímetro urbano de Tunas. Dentro do parque exploramos e fotografamos a Gruta dos Jesuítas, caverna com aproximadamente 1400m de comprimento. É considerada a quinta maior caverna do estado. A ausência de luz aumenta à proporção de cada passo em direção ao interior desta magnífica obra que vem sendo lentamente esculpida pela natureza. É importante salientar que Campinhos – e seus 337 hectares de área – é o primeiro parque estadual concebido com o intuito de preservar a riqueza espeleológica do Paraná.
A "serpente" entre a serra
Deixamos Campinhos e enfrentamos novamente o Rastro da Serpente. Voltamos para os nossos lares praticamente pelo mesmo caminho de ida. A única alteração se deu na parte final do trajeto, na qual adentramos a SP-101, passando por Rafard e Capivari. Chegando à Rodovia do Açúcar nos separamos: Rodrigo seguiu pela 101 para Campinas; eu pela Comendador Américo Emílio Romi em direção à Santa Bárbara e posteriormente à Americana via Luiz de Queiroz. Foram, no total, 1100km percorridos em dois dias, por dois estados e por uma rodovia histórica que merece o respeito e a parcimônia de todos os condutores de veículos motorizados que ousam transpassá-la.
Entender a totalidade do mundo é uma tarefa complicada, uma ambição. Os fenômenos são interligados e a compreensão de todos é deveras complexa. Falhar neste intento é esperado. Entretanto, ater-nos apenas a conhecimentos de determinadas áreas nos garante o rótulo de experts, mas nos priva de outras sensações propiciadas pela polivalência humana, aquela mesma que inutilizamos em algum momento da nossa nefasta História. Passei por onde Lamarca e inúmeros outros brasileiros e estrangeiros estiveram. Melhor dizendo, passei por locais históricos e tomei conhecimento de todos os seus “segredos”. Consequentemente, deste momento em diante, arraigo-me também nesta história. Sou, agora, parte dela.


Mais fotos aqui.

E abaixo um blues em homenagem ao Vale do Ribeira e a todos os brasileiros perseguidos pela ditadura militar entre os anos de 1964 e 1985.