sábado, 3 de setembro de 2011

Pedra Azul, Vitória e Vila Velha – de 26 a 30 de agosto de 2011


Em uma das escolas que leciono, noto amiúde o ato de auto isolamento de um dos funcionários responsáveis pela faxina. Ele está sempre presente, dialogando ridentemente conosco durante o almoço. Porém, logo após a refeição, o homem de meia-idade se esvai. Busca refúgio nas imediações da caixa d'água da unidade de ensino, onde vagarosamente saboreia uma fruta, numa rotina que apelidei de “a sobremesa do eremita”. Muitas vezes a curiosidade nos encoraja a desmistificar, a perguntar, a querelar. No que se refere à ritualística deste nobre homem, garanto, minha curiosidade é obstruída pela compreensão dos fatos. Nunca quis realmente saber os motivos que levam este ser humano a “fechar-se em seu casulo” por alguns minutos. Simplesmente procuro entendê-lo passivamente, pois, no imo, considero-me semelhante a ele. A diferença é que busco a soledade em locais diversos, já que a mesma paisagem é capaz de me oferecer alento apenas uma única vez.
Ponte Rio-Niterói
A ideia de viajar para o Espírito Santo, estado que até então não conhecera, eclodiu de desencontros no planejamento de uma incursão para Foz do Iguaçu, no Paraná. De supetão, uma viagem ao sul do Brasil, para dois, metamorfoseou-se em uma viagem ao nordeste da região sudeste, para um. Mais uma vez eu e minha motocicleta, numa teimosa e resistente simbiose, nos embrenhamos por caminhos há muito existentes, mas que até então permaneciam desconhecidos às nossas vistas. Assim disse, um dia, o camarada Levi.
Casimiro de Abreu
Parti de Sumaré, após o já tradicional café pré-viagem com Mariângela, às 12:30h do dia 26 de agosto. Decidido a ganhar terreno para aproximar-me o máximo possível do Espírito Santo, logicamente com vistas a tornar a peleja do sábado menos desgastante, segui pelas rodovias Anhanguera, Dom Pedro e Dutra, alcançando o município de Piraí/RJ às 17:40h. Neste ponto principiava-se a descida da Serra das Araras. Entretanto, a caída da noite somada a minha vociferante prudência me obrigaram a pernoitar às margens da BR-116 em um reduto de toxicômanos, meretrizes e caminhoneiros boêmios. "Olhando de perto, a vida é bem feia". Certo, André Vianco?

Primeira imagem do Espírito Santo, às margens do rio Itabapoana

Cariacica/ES
O sábado, dia 27, amanheceu chuvoso, mórbido. Desci a serra e, para o meu desalento, ao pé da mesma o cinza permaneceria. A chuva, contudo, cessara. Numa boa toada cruzei por Nova Iguaçu e Rio de Janeiro. Na capital fluminense trespassei a ponte Rio-Niterói – e seus pouco mais de 13km – observando a Baía de Guanabara e seus cargueiros. Do outro lado, em Niterói, localizei rapidamente a BR-101, permanecendo na mesma até o município de Cariacica/ES, passando, dentre outras cidades, por Casimiro de Abreu/RJ, Campos dos Goytacazes/RJ e Iconha/ES, e também, logicamente, pela divisa  do Rio de Janeiro com o Espírito Santo, demarcada naturalmente pelo rio Itabapoana. Cariacica foi meu “quartel general” por duas noites. Próxima à Vitória e à Domingos Martins, logística e geograficamente me foi prestimosa.
Rota do Lagarto
No dia 28 rumei para Domingos Martins/ES, pacata cidade da serra capixaba colonizada por alemães, pomeranos e italianos. O aspecto europeu de seu portal rendeu algumas fotos, mas o meu objetivo, na verdade, era conhecer Pedra Azul, distrito que dista cerca de 30km da sede da cidade via BR-262 (sentido Belo Horizonte). Prestamente alcancei o local almejado, adentrando, após deixar a 262, a Rota do Lagarto, estrada de paralelepípedos que direciona o viajante à cancela de entrada do PEPAZ (Parque Estadual da Pedra Azul). A vista de uma das curvas da Rota impressiona. A Pedra Azul (que empresta o nome ao distrito), e também a Pedra do Lagarto “escorada” a ela, dão laivos de sua beleza mesmo a muitos metros de distância. A imponência destas obras da natureza me afetam da mesma forma que os grandes ditadores um dia sonharam em afetar os seus subordinados.

A Pedra Azul vista a partir de uma das curvas da Rota do Lagarto

A Pedra Azul
Dentro do parque, às 9 da manhã, eu e um “préstito” de Porto Real/RJ partimos pela Trilha do Cedro Sentado acompanhados pelo guia “Manda-Chuva”. O delgado homem, munido de seus conhecimentos sobre a flora e a fauna locais e respaldado por 26 anos de trabalho dedicados ao parque, transformou o caminho ao “pé” da Pedra Azul em momentos de pura Educação Ambiental. Mostrou-nos inclusive fezes de Jacu crivadas de grãos de café, alimento primário da ave. Esses grãos semidigeridos são extraídos do excremento e, a posteriori, vendidos por cerca de R$300,00 o quilograma. Bizarrices à parte, alcançamos a base da Pedra Azul e, para o nosso deleite, o tom verde era mais evidente do que o azul.
Pedra do Lagarto
A Pedra Azul – e aqui parafraseio “Manda-Chuva” – está inserida no PEPAZ, como já mencionado, parque com apenas 5% de seus 1240 hectares abertos à visitação. O ponto culminante se encontra a 1822 metros acima do nível do mar. Seus 600m de altura – e também a Pedra do Lagarto – são oriundos da solidificação do magma expelido de um vulcão há milhões de anos. É possível identificar inúmeras crateras próximas ao topo, algumas se prolongando por cerca de 8 metros pedra adentro, formando verdadeiras cavernas. Sua composição é basicamente granito e gnaisse revestidos por líquens. Em razão disso é bastante suscetível aos raios solares. Estes, no decorrer do dia, incidem em variados ângulos sobre a superfície da pedra, que por sua vez responde refletindo variadas cores. É azul na maior parte do tempo, mas também é comum visualizar tons de verde e, segundo o guia (não pude verificar pessoalmente), tons de amarelo.

Cachoeira do Zeca

Cachoeira da Matilde
Cinco meses de estiagem castigam a região da Pedra Azul. Das 23 nascentes de rios dentro dos domínios do parque, apenas 3 subsistem. Piscinas naturais, que em outros tempos foram uma grande atração, hoje não passam de poças d'água barrenta. Sem mais o que conhecer, então, decidi retornar à 262 e “descer” para Alfredo Chaves, município que abriga a Cachoeira da Matilde e sua volumosa queda livre de 63 metros. No caminho conheci uma cachoeira menor, a do Zeca, de proporções idênticas às encontradas em São Thomé das Letras/MG, e a Estação Ferroviária de Mathilde. No retorno à Cariacica, próximo ao findar do dia, adentrei ainda uma curta estrada de terra, ramificação da cidade de Domingos Martins, que “desemboca” na popular Cascata do Galo.
Vitória vista do convento
No dia 29, após algumas conversas com as recentes amizades de Cariacica, determinei-me a desbravar o litoral capixaba. De Vitória à Marataízes, no extremo sul do estado, passando por Guarapari, Anchieta e Piuma, tive como única companhia a Rodovia do Sol (ES-60), responsável pela unificação rodoviária das cidades praianas do estado. Fotografei a parte moderna da capital a partir da Ilha do Frade, seguindo posteriormente à Vila Velha pela Terceira Ponte. Subindo sofregamente – e a pé – a ladeira da penitência e seus íngremes 457 metros, que dão acesso ao Convento Nossa Senhora da Penha, tive uma visão panorâmica da Grande Vitória, além de presenciar o que a fé religiosa é capaz de aflorar nos devotos. Vale ressaltar que o convento foi edificado em 1558 no topo do Morro do Moreno, hoje importante reserva de mata atlântica.

Convento Nossa Senhora da Penha

Ponta da Fruta
Algumas praias me chamaram a atenção no decorrer da bela Rodovia do Sol. A de Guanabara, em Anchieta, foi uma delas. Essa praia, que conta com uma base do TAMAR, é área de desova de tartarugas da espécie cabeçuda. Nela não há quiosques, vendedores ou quaisquer apetrechos comuns às praias populares. É sobretudo um refúgio animal e vegetal, já que a restinga do local é relativamente bem preservada. Para o meu azar não consegui fotografar animal algum ou mesmo conversar com a equipe do TAMAR, uma vez que as portas da sede por algum motivo se encontravam cerradas. A Ponta da Fruta, ainda em Vila Velha, é outra praia com um apelo visual muito grande. A forma de suas orlas lembram a logomarca de uma famosa rede de restaurantes fast-food de origem estadunidense.
Praia de Guanabara
Ao chegar à Marataízes, cidade próxima do estado do Rio de Janeiro, iniciei o árduo ato do regresso. Cruzei todo o Espírito Santo, de leste a oeste, até o município de Ribeirão das Dores, na divisa com Minas Gerais. As estradas entre o Rio Preto – divisa natural entre Espírito Santo e Minas Gerais – e Cachoeiro do Itapemirim (cidade natal do "rei" Roberto Carlos) foram as mais marcantes de todos os meus anos motociclísticos. Curvas e mais curvas serpenteiam em meio à Serra do Caparaó, palco de guerrilhas na época da ditadura militar, entorpecendo meus olhos com a vista da segunda maior cota de altitudes do território brasileiro com média de 997 metros, perdendo apenas para a Serra do Imeri, na divisa do Brasil com a Venezuela. 

Um último olhar à serra do mar capixaba

O regresso
A primeira cidade de Minas Gerais por esta via, Espera Feliz, foi meu último local de pernoite. Nela pude comer decentemente após quatro dias vivendo de petiscos em postos de combustível. É engraçado, para não dizer estranho, como nos debilitamos fisicamente quando mostramos propensão à busca de novos “elixires da alma”. Parece que ganhamos, por um lado, mas perdemos por outro. Se o gosto da derrota é parecido com o que sinto nestas condições, que eu sempre saia derrotado. Parafraseando um outro camarada, este saudoso, cada cicatriz é uma vitória.
Espera Feliz/MG
O dia 30, véspera de meu aniversário, foi dedicado inteiramente às estradas de Minas Gerais. Parti de Espera Feliz às 7 da manhã. Americana, meu destino, foi alcançada às 19h. Nenhuma foto; apenas o vento e as paisagens serranas. Passei desatenciosamente por Carangola, Fervedouro, Miradouro, Muriaé, Laranjal, Leopoldina, Maripá de Minas, Bicas, Juiz de Fora, Lima Duarte, Caxambu, São Lourenço, Carmo de Minas, Pedralva e Pouso Alegre. A Fernão Dias e a Dom Pedro foram, então, um caminho natural a seguir até minha cidade natal. Foram, ao todo, 2700km rodados pelos quatro estados da região sudeste e boas imagens registradas pela minha câmera. Devo admitir que me surpreendi com a estrutura e com o povo do Espírito Santo. Moraria em qualquer uma das cidades em que estive. Mais do que fotografias amadoras, trouxe comigo, lapidadas em meu âmago, ternas impressões. 
Estar sozinho não é um escape. Em um mundo no qual perder a fé nos seres humanos é cada vez mais natural, isolar-se ocasionalmente pode ser uma forma de manter a sanidade e de angariar novas esperanças de uma convivência mais solidária com nossos semelhantes. Estar sozinho é um ensejo de sentir o amparo de pessoas que veementemente admiramos, que respeitam nossos momentos de isolamento; pessoas que estão conosco, presentes, mesmo que estejamos distantes. Estiveste certa o tempo todo, Caju: a solidão é física. Tive a noção exata do que me disseste, curiosamente, contemplando a paisagem na Ponta da Fruta. Carrego, ademais, essa força interior, esse ímpeto em ora ou outra deixar tudo para trás. Antagonicamente, para o meu bem e para o bem de meus próximos, tenho a obstinação de sempre volver e disseminar as boas novas. Deixe-se inspirar, monami.
 

Mais fotos aqui.  

E abaixo, um blues para o Espírito Santo, em especial para a Pedra Azul e para esta curta jornada.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Represa do Salto Grande – 6 de agosto de 2011


O trabalho alienado, subproduto mais intoxicante do capitalismo selvagem (aquele mesmo que cerceia nossas capacidades), extrai do ser “escravizado” a possibilidade de enxergar além do que está ao alcance de suas mãos e do que, prerroga, é necessário ao sucesso profissional. Com os anos virando história, cada vez mais nos tornamos imediatistas, corporativistas, egoístas e cegos. Talvez tenhamos essa necessidade premente – eu, inclusive – de percorrer maçantes distâncias para conhecer lugares longínquos porque desejamos esquecer a microdimensão em que estamos atolados. Queremos ter aquela falsa sensação de que podemos “enxergar o horizonte” a despeito do que a coerção social nos permite. Hoje, porém, agi diferente. Deliberadamente busquei conhecer o que estava “embaixo do meu nariz” o tempo todo. Vi aquilo que ignorei, por muito tempo, simplesmente por achar que estava perto demais e não merecia a minha atenção.
Tucano
Pouco mais de 12km separam o meu domicílio do meu local de trabalho. Eu e minha motocicleta trilhamos inúmeras vezes esse mesmo caminho – Vila Mariana-Anhanguera-Praia Azul e vice-versa – e sempre nos deixamos levar pela morgação provida pelos redundantes cenários. No dia 6, contudo, alguns sinais me indicaram que o clima estava propício para a visualização de aves. Logo ao acordar fui agraciado com a vista de um tucano sobre as árvores desfolhadas em frente a minha casa; e pouco depois um casal de corujas-buraqueiras também deram o ar de suas graças. A avifauna brasileira me encanta. Tendo que que me dirigir ao trabalho para alimentar um cachorro encontrado na rua e que adotara recentemente, optei por carregar comigo minha câmera. Convidei Franciane para me acompanhar e, após apanhá-la em Limeira, adentramos os domínios da Praia Azul, um dos bairros mais antigos e isolados de Americana.
A represa, os aguapés e as boias
Dispostos a andar pelo bairro com Logan, o cachorro, chegamos à Orla da Praia Azul, como é conhecida a margem esquerda da Represa do Salto Grande. Trabalho há 5 anos nas redondezas e nunca havia parado sequer por cinco minutos à beira d'água para observar a paisagem. Historicamente o local tem sido palco para a prostituição, mas é também uma área de lazer e convívio entre os moradores. Os mais abastados manobram seus jet-skies e alguns pescadores se concentram na parte central do lago. Quiosques e bares completam o panorama. Nós três, sentados ao mural, principiamos o processo de idealização. Se a Prefeitura levasse a cabo os projetos de revitalização da orla recentemente trazidos à baila, o que mudaria?
Lazer entre as macrófitas
A Represa de Salto Grande e seus pouco mais de 101km² está estabelecida na bacia hidrográfica do Rio Atibaia, mais precisamente entre os municípios de Americana, Nova Odessa e Paulínia. A inundação da área data do ano de 1949, quando a Usina Hidrelétrica de Salto Grande foi construída para atender as demandas energéticas da região. A orla então nascia e, nas décadas em que exalou sua beleza, foi frequentada por banhistas e outras pessoas que eram atraídas para suas águas por motivos diversos. Acontece que Americana, cidade com maior parte do território da represa, tem passado nos últimos anos por um processo de migração da produção têxtil para a produção agrícola, notadamente com o cultivo da cana-de-açúcar. Deste modo, a margem direita, onde se concentra a maior parte das plantações, acabou se tornando via de entrada de pesticidas, herbicidas e fertilizantes, o que tem contribuído para a poluição da água e para a proliferação de macrófitas, como os aguapés, inviabilizando o turismo na represa.
Coruja-buraqueira
As colônias de aguapés são notáveis na margem esquerda, tanto que boias de contenção foram instaladas como forma de coibir o avanço destas macrófitas para outras áreas. Elas se aproveitam do excesso de matéria orgânica disponível na água e se multiplicam desmedidamente. Logicamente a diminuição do número destes vegetais se faz necessária, pois a ação dos mesmos, juntamente com a de outras algas tóxicas, como as cianobactérias, provoca a diminuição dos níveis de oxigênio na água, causando a mortandade dos peixes e, consequentemente, o desaparecimento de outros animais logo na sequência da cadeia alimentar. As macrófitas podem “limpar” o corpo d'água e ajudar a conter a poluição, mas vale lembrar que, quando mortas e decompostas, devolvem ao meio ambiente tudo o que dele extraíram.
Jaçanã
Apesar dos pesares, a Represa de Salto Grande ainda abriga uma considerável quantidade de espécies. Pude fotografar uma carão (foto que abre a presente postagem) sobre os aguapés, além de um casal de jaçanãs que ciscavam freneticamente à procura de insetos entre a mesma vegetação. Jacarés também habitam estas águas, mas não fui capaz de encontrá-los. As árvores que adornam a orla são locais perfeitos para os joãos-de-barro e os bem-te-vis, também registrados em câmera. Resta-nos esperar que atitudes sejam tomadas para que a agricultura na margem direita da represa seja menos dolosa ao corpo d'água e que possíveis focos de esgoto sejam coibidos, reavivando ainda mais a fauna local.
Não tenho medo de deixar o meu trabalho à revelia. Posso abrir a porta, ocasionalmente, e pendurar essa capa que me cobre, que me pseudocaracteriza, que me faz interpretar esta personagem amorfinizada pela economia de mercado na qual subsisto. Não nasci para ser professor, fotógrafo, mecânico, biólogo, piloto ou engenheiro. Nasci para ser tudo isso e o que mais desejar. Aqui dentro há bilhões de neurônios. Eles estão disponíveis por uma razão. Posso sentir. Posso ser. O que vem depois do SER é de minha escolha.


Mais fotos aqui.

E abaixo, para não perder o costume, um blues para a Praia Azul. Os primeiros acordes são da música Forgiveness, do Don Henley.
Take me down to the waterline
I've got so much love and so little time
Won't you take me down to the waterline?
Won't you take me down?

terça-feira, 26 de julho de 2011

Chapada dos Guimarães e Pantanal Norte – de 12 a 23 de julho de 2011


Por quantos caminhos perambulo? Por incontáveis, e sempre com o mesmo surrado par de botas, presente de meu pai. Descobri-me mais forte do que outrora acreditava ser. Sou testemunha ocular de incomensurável pobreza material e espiritual, e ao mesmo tempo me vejo inserido no que a “inocente” ignorância humana ainda não conseguiu extinguir, por mais que esteja engajada a tal: a garbosidade de nossos ecossistemas e de suas paisagens. Eu poderia ser apenas mais um que olha mas prefere não enxergar. Contudo, trabalho para que meus olhos esmiúcem o que observo, pois tenho a certeza angustiantemente absoluta de que tudo pode não estar em seu devido lugar se um dia eu decidir regressar.
O carcará solitário, em Barretos
Viajei sozinho. Infelizmente uma jornada deste porte é tida como um ato insano por muitos. Se eu não a levasse a cabo ao estilo “Miragaia René Angelino” certamente permaneceria em casa, o que considero deprimente. Gostaria de ter meus companheiros comigo mas não posso esperá-los, uma vez que os mesmos carregam outras aspirações e nem sempre priorizam a aventura, que para mim é o que norteia a fuga da existência mesquinha a que estamos fadados. Tenho a minha “poderosa”, no fim das contas. Sozinho, portanto, realmente não estou.
Rio Grande
No dia 12 de julho, da janela de minha casa, pude observar um dos mais belos nasceres-do-sol dos últimos anos. A primeira foto da viagem foi, então, registrada por minha câmera. Deixei meus familiares e amigos apreensivos ao debandar, às 8 da manhã. Bem sabem que esse é o meu destino, e logicamente uma hora ou outra todos terão que se acostumar com o fato de sempre me verem partir. Segui pelas já conhecidas Anhanguera e Washington Luiz até a cidade de Araraquara, onde optei por "dobrar" à direita na rodovia Brigadeiro Faria Lima. Passei por Barretos e cheguei à Colômbia, já na divisa SP/MG. Uma parada no Rio Grande, como de praxe, inspirou-me a prosseguir, agora no estado de Minas Gerais.

Pelo cerrado de Minas Gerais

Ema no cerrado
Estava no cerrado. O tempo quente e seco começou a me assolar. As rodovias federais, todas em reforma, tornaram a viagem lenta. Não reclamei pelo fato de estar em um tipo de vegetação que aprecio demasiadamente, apesar de os ventos da mesma “destruírem” o meu pescoço. Ao visualizar um bando de emas caminhando a poucos metros do acostamento, encostei a “poderosa” e tirei algumas fotografias. Dando continuidade, passei por Prata e Ituiutaba. Cheguei à divisa MG/GO e atravessei a ponte sobre o rio Paranaíba, alcançando São Simão, no estado de Goiás. Decidi pernoitar em solo goiano, visto que havia rodado, a esta altura, 700km.
Cataratas de Itaguaçu
São Simão foi uma grata surpresa. O cartão-postal da cidade é a Praia Artificial do Lago Azul, de onde é possível apreciar um fim de tarde com um céu repleto de cores. As nuvens esparsas e ralas criam efeitos interessantes tempos após o sol ter se posto. Do cais pude apreciar esses fenômenos e fotografá-los. Logo ao acordar me dirigi ao distrito de Itaguaçu (muito embora os moradores insistam em pronunciar Itaquaçu) para conhecer as Cataratas do Rio Itaguaçu, uma cadeia de 180 graus de cachoeiras que impressiona pelo volume de água e barulho consequente. Um tímido arco-íris em meio às águas completou o cenário. Apesar da beleza do espetáculo, tive que prosseguir, uma vez que sequer na metade do caminho estava.
Fim de tarde em Goiás
As rodovias federais estão todas em obras, como supracitado. Lentamente passei por Paranaiguara, Cachoeira Alta, Aparecida do Rio Doce, Jataí, Mineiros e Santa Rita do Araguaia, esta última já na divisa GO/MT. O marco divisório de estados é o Rio Araguaia, mais parecido com um córrego do que propriamente com um rio. Para se ter uma base das dimensões do mesmo, toma-se como referência a ponte de menos de 30 metros que o atravessa. Transpassei-a, alcançando então o estado de Mato Grosso, mais precisamente a cidade de Alto do Araguaia. Nela fui parado por um policial rodoviário federal, que gentilmente me passou informações sobre a estrada que estava por vir.

Pôr-do-sol na Praia Artificial do Lago Azul, em São Simão/GO

Serra da Petrovina
Os caminhões e o asfalto do Mato Grosso são percalços aos quais eu não estava habituado. Há muitos grãos de milho espalhados pela pavimentação e em alguns momentos é necessário escolher em quais buracos “cair”, visto que são muitos. Tentei selecionar os menores, mas como todo ser humano fiz algumas más escolhas. Quilômetros depois e eu estava na Serra da Petrovina. Todos deveriam em algum momento da vida descer esta serra, seja de moto, bicicleta ou a pé. Suas grandes montanhas com cumes platôs são serpenteadas por uma estrada admiravelmente perigosa, e a beleza do local pode tirar a atenção do condutor em alguns momentos. Aqui acontecem inúmeros acidentes ao longo do ano, e a maioria é fatal.
Mirante do Centro Geodésico
Cheguei à Rondonópolis, enfrentei a poeira e o tráfego local e me dirigi à Jaciara, onde pernoitei. No outro dia acordei disposto a conhecer a Chapada dos Guimarães, que não estava nos meus planos originais. Adentrei uma estrada que me levou por Dom Aquino e Campo Verde. Logo na entrada da cidade de Chapada dos Guimarães fotografei a Cachoeira da Martinha, duas quedas d'água em forma de degraus. No centro da cidade me estabeleci em um hotel, deixando as tralhas atreladas à moto para rodar livremente pelos atrativos locais. Tentei conhecer a caverna Aroe Jari, mas um “mata-burro” com vãos muito separados impossibilitou a minha chegada. Tive que voltar e procurar outros pontos. Gostei particularmente do Mirante do Centro Geodésico da América do Sul, de onde é possível ver a cidade de Cuiabá, que segundo cálculos de Marechal Rondon e do Exército Brasileiro está realmente edificada no centro da América do Sul. O fim de tarde nele é enigmático, pois ao mesmo tempo se tem uma faixa alaranjada no céu ao sul e tons arroxeados em volta da lua ao norte.

Chapada dos Guimarães

Cachoeira dos Namorados
Posso utilizar este espaço também para criticar, muito embora não me sinta à vontade para tal. O Parque Nacional da Chapada dos Guimarães, infelizmente, estava fechado. Segundo os guardas da portaria, não há monitores para guiar os visitantes no interior do parque. Por um lado há um aspecto positivo: os recursos naturais são preservados, uma vez que a interferência humana direta inexiste. Todavia, para quem havia viajado 1600km até então, não poder ser agraciado com a natureza do parque muito me desagradou. Que nossos governantes olhem com mais carinho a situação de nossos espaços naturais preservados. E principalmente que “olhem” para os que ainda não são preservados e desesperadamente necessitam passar a ser.
Descendo para Cuiabá
Sem mais o que fazer, comecei a descer a chapada em direção a Cuiabá. No caminho visitei outras cachoeiras, algumas delas em propriedades particulares. O mirante Ninho da Águia, que também chamou a minha atenção, estava fechado para “melhor se adequar ao turismo”. Pelo menos é o que dizia uma faixa na portaria do local, que se situa ao lado de uma base militar com torres do CINDACTA. Para maximizar a minha falta de sorte, minha motocicleta começou a apresentar problemas a 8km de distância de Cuiabá. A gasolina cara e ruim do Mato Grosso fez mais uma vítima. Ancorei em uma pamonharia à beira da estrada e prestativamente contactaram uma oficina no centro da capital matogrossense. Pouco tempo depois eu e minha moto seguíamos de camionete ao núcleo de Cuiabá para remediar os danos causados pelo líquido cuja matéria-prima provoca desde grandes guerras até pequenos problemas em carburadores.

A última cachoeira da Chapada dos Guimarães com sentido a Cuiabá

Clodoaldo, sua equipe e eu na oficina
Graças a esse empecilho pude conhecer Cuiabá. Estive por algumas horas na cidade escaldante e comi uma feijoada às margens do Rio Cuiabá com o termômetro marcando 37 graus. Clodoaldo, um mecânico experiente de Itapetininga/SP, consertou minha motocicleta rapidamente e pude continuar rumo ao Pantanal. Passei ainda por Várzea Grande e segui por duas rodovias que me levaram à Poconé, portal de entrada e capital do Pantanal Norte. Como já era tarde, decidi adiar para o próximo dia a travessia da Transpantaneira.
Transpantaneira e charcos
No sábado realizei um antigo sonho: enfrentar, sozinho, a MT-060, mais conhecida como Transpantaneira. Com seus 145km de terra e 125 pontes de madeira (é a rodovia com o maior número de pontes do mundo), tem seu início na cidade de Poconé e se estende até Porto Jofre, às margens do Rio Cuiabá, praticamente em linha reta. Essa rodovia foi idealizada no começo de 1970 e tinha em seu projeto a ambição de ligar o Mato Grosso ao Mato Grosso do Sul, unificando assim os dois estados pantaneiros. Começou a ser construída em 1972, e quatro anos depois seu debuxo foi abandonado. Não foi edificada uma ponte sobre o Rio Cuiabá e estradas não foram “abertas” no Pantanal Sul. Basicamente o viajante deve trespassar sua extensão e voltar, pois ela não leva a lugar algum. Como aventureiro e ávido por conhecer a fauna pantaneira, foi o que me dispus a fazer. O término da estrada pode dar de cara com o nada. Todavia, o importante é o que se mostra durante o caminho. Neste caso, para mim, os meios justificaram o fim.

A avifauna pantaneira

Tuiuiús
Nunca vi tantos animais dividindo o mesmo espaço. Tuiuiús (ave símbolo do Pantanal), cabeças-secas, jacarés, capivaras, gaviões-belos, martins-pescadores e garças cohabitam os charcos formados pela chuva nas laterais das rústicas pontes de madeira. Um carcará e um urubu-de-cabeça-vermelha “dialogavam” no meio da estrada e pareciam não se incomodar com a minha presença. Um filhote de veado, que parecia perdido, foi fotografado antes de se embrenhar em meio à vegetação mais densa. Há relatos e fotografias de pessoas que viram onças, sucuris e outros animais raros. Não tive essa felicidade. No pôr-do-sol, enquanto voltava para Poconé, consegui fotografar um casal de tucanos sobre uma árvore seca e alguns gaviões-belos.
Cabeça-seca
No domingo, dia 17, me dirigi ao Porto Cercado. A Estrada Parque que leva a ele é asfaltada, tem 40km de extensão e também encontra seu fim no Rio Cuiabá. Como é época de seca, poucos charcos são vistos nos seus arredores, e mesmo assim muitos animais os povoam. Por falar em seca, é importante lembrar que o Pantanal é um bioma caracterizado por áreas alagáveis, que em estações chuvosas é praticamente todo tomado pela água, voltando a mostrar sua vegetação típica de savana estépica nas estações secas, que vão de maio a setembro. Muitas pessoas acreditam que o Pantanal é um grande pântano, pela semelhança dos nomes, mas a verdade é que há poucas áreas pantanosas dentro dele.

Maçaricos-reais

Rio Paraná
Hora de principiar o retorno. Na segunda-feira deixei Poconé e o Pantanal Norte. Consegui chegar à Aparecida do Rio Doce, em Goiás, no começo da noite, e por lá resolvi pernoitar. Decidido a visitar uma velha amiga, na terça-feira segui por Caçu e cheguei à Lagoa Santa, na divisa GO/MS. A ponte sobre o Rio Aporé, divisa natural dos estados, desmoronou devido a temporais no fim de janeiro de 2010. Por sorte uma pequena balsa, que suporta apenas uma moto ou 3 pessoas por vez, me transportou para o outro lado. Três horas depois eu estava em Três Lagoas/MS, cidade que conheci em uma outra oportunidade. Fiquei na casa de Priscila por dois dias, aproveitando o tempo para fotografar a ponte ferroviária sobre o Rio Paraná e a Lagoa Maior. Tive o prazer também de saborear o tererê paraguaio vendido no camelódromo da cidade.
Solitário feito um gavião-belo
Na quinta-feira eu estava de volta ao estado de São Paulo, após transpassar a Usina de Jupiá na divisa MS/SP. Antes do meio-dia me encontrava em São José do Rio Preto, cidade na qual residem tios e primos. Dormi por lá e completei o retorno na sexta-feira, não sem antes passar pela perigosa e linda serra entre Torrinha e Santa Maria da Serra. Foram, ao todo, 4250km rodados, 5 estados desbravados e 11 dias de aventuras para guardar na memória. Cheguei magro, fisicamente debilitado e maltrapilho. Minha motocicleta pesava o dobro de tanta terra encrustada. Contudo, todos os sacrifícios foram recompensados. Ninguém pode usurpar o que vemos e vivemos. Sempre que retorno um profundo sentimento de dó se apossa de mim. Sinto pena daqueles que não podem ver o que vejo, seja por falta de oportunidade seja por pusilanimidade. Em um mundo consumido pelo trabalho alienado, estresse, bebidas e entorpecentes, viajar é uma alternativa sensata. Viajar é o meu ópio. É o meu escape.
Para onde vou agora? Não sei, mas sei que vou. Enquanto meu corpo cansado gozar de um mínimo de resistência para algum lugar irei. Ainda há o que conhecer antes que tudo acabe; ainda há também pessoas, como eu, dispostas a conhecer tudo o que um dia vai acabar. Aos leitores que se apegam às palavras de minhas postagens, hei de dissuadi-los de nefasto intento. Se realmente quiserem sentir o zéfiro, os sons da fauna e a beleza da flora, esqueçam as impressões escritas por mim sobre eles. Conheçam-lhes, por si sós, e construam as suas. E, ulteriormente, peço encarecidamente que troquem experiências comigo.


Mais fotos aqui.

E abaixo um blues inspirado pela fauna pantaneira. Dedico-o também a Mariângela “Monami”, aos meus pais e a Franciane pelo suporte logístico e psicológico durante os dias em que estive, sozinho, na estrada. É bom poder contar com a ajuda de pessoas queridas mesmo que não estejam por perto.

terça-feira, 5 de julho de 2011

Pico do Jaraguá – 02 de julho de 2011


Quando eu era menino, a baixa estatura limitava o meu campo de visão. Embora eu dispusesse de estruturas oculares que me permitiam enxergar perfeitamente, a falta de discernimento, o pouco ou inexistente conhecimento e o egoísmo peculiar de uma criança não eram favoráveis ao entendimento da complexidade das informações visuais que se mostravam à minha retina. Na adolescência, a rebeldia ostracista comum a um indivíduo de esquerda eivava meus olhos com um cinza desfocado, mórbido, e eu preferia me fechar a ver cores, além de olhar tudo do plano, não escalando uma árvore ou descendo uma ravina para sentir as diferentes perspectivas propiciadas pela simples mudança de inclinação da cabeça. Hoje, mais vivido e menos enclausurado, procuro olhar uma mesma paisagem de variados ângulos e alturas. Seja do nível do solo seja do alto de uma montanha, que eu me encarregue de ser antagônico à cegueira à qual minha juventude esteve confinada.
O "rebanho"
Em um sábado predominantemente nublado, eu, Levi, “Poste”, Camilla e Adriele partimos de Americana com a intenção de visitar um local desconhecido pela grande maioria dos paulistas e paulistanos: o Pico do Jaraguá. De todos os envolvidos nesse passeio, somente “Poste” viajara comigo em uma outra oportunidade. Os outros, mesmo que demonstrassem vontade, nunca tiveram a oportunidade de desfrutar do prazer de um passeio de moto. O fato de eu ter conseguido arrebanhá-los para esta pequena aventura foi, em si, uma grande conquista.
Estrada Turística do Jaraguá
Enfrentamos a temida Anhanguera, sentido São Paulo, ignorando aquela voz renitente que praticamente nos “joga” para a Bandeirantes quando viajamos para a capital. Devo dizer que a Anhanguera é bela, principalmente depois de Jordanésia, e mesmo que a velocidade máxima permitida nela seja menor, compensa conhecê-la. Sair do lugar comum é desejável. Perdemos a conversão para a Vila Jaraguá e adentramos a metrópole, mas retornamos rapidamente e localizamos a entrada correta. Seguindo as placas marrons em meio a um movimentado bairro alcançamos o portal da Estrada Turística do Jaraguá. Precisávamos ainda subir, e as nuvens carregadas insistiam em querer desanimar-nos.
Primeiro mirante
Subimos. A Estrada Turística do Jaraguá, com pouco mais de 5km de extensão, é uma via asfaltada que “corta” a mata atlântica em direção ao Pico. É ladeada por densa vegetação e diversas clareiras que fazem a vez de mirantes. Destes é possível ver mesclas de luz e sombras sobre a cidade, nuvens que flutuam sobre pontos isolados, o Rodoanel Mário Covas e algumas montanhas que compõem a Serra da Cantareira, cordilheira na qual está inserido o Pico do Jaraguá. A subida não é íngreme a ponto de desafiar o motor das motocicletas. Aproveitamos a vista de um dos referidos mirantes para fotografar a paisagem e, para a nossa surpresa, as nuvens começavam a ceder lugar ao azul do céu e aos primeiros raios solares do dia.
Torre de TV
Terminada a subida, estacionamos as motocicletas e chegamos ao ponto mais alto da cidade de São Paulo caminhando. Do alto de 1135 metros, ao pé de uma torre de televisão, uma sensação estranha se apossou de mim: toda a feiura do centro capitalista do Brasil repentinamente se transformou em uma vista ímpar. Estarrecido, sem saber direito como apreciar aquele mar de prédios e casas, tudo o que pude fazer foi fotografar loucamente enquanto dava ao meu cérebro tempo suficiente para processar as informações visuais que me entorpeceram num primeiro relance.
Tico-ticos e São Paulo
Vi a parte oeste da Grande São Paulo. Tico-ticos pairavam nos fios que se ramificavam das antenas e ofereciam um ótimo primeiro-plano às fotografias. Por falar em antenas, aqui existem várias delas. A maior, de televisão, conta com um bondinho para o transporte do pessoal e de equipamentos de manutenção, paralelo a uma escadaria para turistas que dá acesso ao ponto culminante do Pico. Mas não é somente por instalações humanas que é conhecido o local. A mata atlântica que o rodeia é relativamente bem preservada. O governo de São Paulo o transformou em Parque Estadual no ano de 1961, depois de a prefeitura tê-lo classificado como ponto turístico 15 anos antes. Em 1994 a UNESCO o tombou como patrimônio da humanidade, Zona Núcleo do Cinturão Verde da Cidade de São Paulo e Reserva da Biosfera, como pode ser lido em diversas placas espalhadas pelo terraço no topo, que conta com restaurante, brinquedos para crianças e até mesmo um pequeno teatro de arena.
Tico-tico
Por mais que o passeio seja prazeroso, a hora de voltar é sempre inevitável (um dia eu juro que não volto). Adotando o meu velho dogma de que a estrada que me leva não é a estrada que me conduz de volta, optei por utilizar o “assassino de bichos”, mais conhecido como Rodoanel Mário Covas. Meus bravos companheiros aspiraram o último vapor de paciência para comigo enquanto eu fotografava o Pico do Jaraguá do pedágio da Bandeirantes. Chegamos em Americana perto das 19h, após 260km rodados, com a consciência de que não poderíamos ter tirado melhor proveito de um sábado propenso a precipitações chuvosas. Conformar-se é um caminho a seguir. Contudo, o outro, a contumácia da ação, pode ser mais proveitoso.
Mais torres
Quando dei início à minha coleta de dados para a confecção desta postagem, deparei-me com informações de que uma tribo indígena, denominada Jaraguá-Itu, habita os territórios em volta do Pico. Segundo essas fontes, a situação dessa aldeia é de extrema miséria. Não pude ver de perto a maneira como vivem, nem tampouco tenho maiores detalhes históricos sobre o começo da ocupação destas terras, mas é sabido que a região foi explorada vorazmente pelo bandeirante português Afonso Sardinha desde 1580, ano em que descobriu ouro no local. Para explorar este solo ele teve que, primeiro, exterminar alguns nativos. Enfim, mais um episódio lamentável da nossa nefasta história.
A fase infantil é a melhor da vida? Alguns diriam que sim. Eu, na atual conjuntura, gosto de acreditar que não. Como citado no alvorecer desta postagem, a juvenilidade limita a visão. Certamente as decepções, os problemas e as intemperanças da fase adulta exercem uma pressão que não é favorável à manutenção da sanidade. Não obstante, quando aprendemos a ser indiferentes em relação a esses pormenores, concomitantemente ampliamos nossa visão periférica e sensibilizamos nossas percepções. O mundo está lá fora. Basta ser homem – não no sentido sexista, mas humano – para vê-lo.


Mais fotos aqui.

E abaixo um blues “violão velho e desafinado” inspirado pela vista do Pico do Jaraguá. “When the change came, I saw myself as you knew me. (…) Now I won't be back 'til later on, if I do come back at all”.