quarta-feira, 15 de junho de 2011

Pedra Bela e Toledo – de 11 a 13 de junho de 2011


Duas cidades, dois Estados e dois ambientes. Tinha tudo para ser uma só viagem, mas foram duas. Como corriqueiro, esqueceram de nos avisar que até mesmo as sensações sentidas em ambas seriam divergentes. Este é o grande prazer de quem viaja: sentir a mudança ora tênue, ora abissal, proporcionada por apenas alguns quilômetros de distância entre um local e outro. Amiúde quedamos estupefatos com nossas descobertas; e amiúde nos deixamos envolver pelos projéteis da disparidade cultural que crivam o peito aberto do indivíduo que resolve vagar sem compromisso ou preconceito pelo mundo afora.
Que faço aqui?
Eu, “Bebê” e “Poste” saímos de Americana exatamente às 13:30h de um 11 de junho atípico, levando conosco quatro rodas, dois motores, três almas e a ideia de percorrer uma rota nem um pouco ortodoxa. Um curto trecho na Anhanguera e pendemos para Cosmópolis, onde localizamos uma estrada de terra metros antes de uma pequena ponte que se eleva sobre o Rio Jaguari. Essa estrada em questão corta canaviais e termina na “cloaca” da cidade de Holambra, a Holanda brasileira. Um Cristo Redentor de grandes proporções, altivo e solitário, surpreendeu-nos em meio aos pastos secos dois quilômetros antes do término do trecho em terra. Perguntamo-nos o motivo de uma obra tão magnânima em terreno tão inóspito. Sem respostas, atravessamos Holambra, sempre fotografando, e chegamos a Santo Antônio de Posse, dirigindo-nos ulteriormente ao distrito de Arcadas e a Amparo, onde tomamos a primeira dose de cafeína da viagem. Subindo uma bela e sinuosa serra alcançamos Tuiuti, na qual embrenhamo-nos por mais uma estrada de terra que desembocou-nos em Pinhalzinho. Pouco mais de meia-hora foi suficiente para que o simples portal de Pedra Bela fosse avistado.
Pôr-do-sol no Morro da Pedra Grande
Logo ao passar o portal estacionamos as motocicletas. À esquerda já era possível avistar o Santuário do Morro da Pedra Grande, cartão-postal da cidade. O sol se punha rapidamente, visto que eram quase 17:20h. Decidimos incontinenti partir dali e subir o morro para apreciar o pôr-do-sol de uma posição mais elevada, o que deixaria o espetáculo bem mais interessante. Uma rampa íngreme teve que ser vencida pelos motores e, se não bastasse o esforço de nossas “poderosas”, ainda fomos obrigados a subir uma interminável escadaria para chegar ao topo do Morro da Pedra Grande, sobre o qual um pequeno Cristo, uma capela e uma grande cruz estão edificados. Em fadiga e sem fôlego, tudo o que pude balbuciar ao chegar ao topo foi: “se a fé não move montanhas, pelo menos constrói igrejas sobre elas”. Meus batimentos cardíacos foram voltando ao normal enquanto admirava o nosso astro-rei docilmente se despedindo de mais um dia.

Vista do fim de tarde do portal de Pedra Bela

Santuário do Morro da Pedra Grande
A história que envolve a construção do Santuário é cercada de quimeras. Diz-se que um fazendeiro pedrabelense acolheu uma criança órfã abandonada em Bragança Paulista e o criou como um legítimo filho. Antônio da Serra, como ficou conhecido, dizia ao pai adotivo que tinha visões de uma mulher linda, iluminada e perfumada, que volta e meia aparecia em seus sonhos e o incitava a construir um templo sobre a Pedra Grande em sua homenagem. O pai, Antônio da Serra, e mais alguns moradores que também acreditavam nas visões do menino, decidiram, então, levar a cabo essa empreitada, carregando vagarosamente todos os materiais necessários ao topo do morro de 50m de altura para que o santuário fosse construído.
Pedra Bela/SP
Com a noite já nos envolvendo, saímos à procura de um lugar para pernoitar. Pedra Bela é uma cidade com cerca de 6000 habitantes. Já foi distrito de Bragança Paulista, depois vila, e emancipou-se em 1964. Está situada na Serra da Mantiqueira, no nordeste do estado de São Paulo, a uma altitude de 1100 metros. Apesar de gozar de uma localização privilegiada, conta com apenas duas pousadas, e uma estava completamente tomada. A outra, a do “seo” Sebastião, nossa única esperança, disponibilizou um quarto assaz aconchegante, com vistas para a Pedra Grande. Acomodamos a bagagem e as motocicletas e principiamos o rotineiro palmilhar pelas ruas da cidade. Encontramos algo para comer numa festa – com o intuito de arrecadar fundos para um asilo – que havia começado há pouco no ginásio poliesportivo. Fomos acolhidos muito gentilmente por todos os envolvidos na festança, e este é um ponto importante a ressaltar, já que muitas vezes nos esquecemos de que ainda existem pessoas, e não somente lugares, dignos de nota por aí. No caminho de volta para a pousada, assolados pelo frio, decidimos comer uma pizza, como bons paulistas. O sono veio e sequer planejamos o dia seguinte.

Portal de entrada para o santuário

Cachoeira Boca-da-Mata
Acordamos às 7h, no domingo, e desjejuamos ao mesmo tempo em que pedíamos informações sobre os atrativos locais. Partimos da pousada em direção novamente ao alto da Pedra Grande, já que agora havia abundância de luz para fotografar. Subimos mais calmamente desta vez, aproveitando a vista sobre cada lance de degraus. Por um tempo estivemos, literalmente, no apogeu de nossas vidas. Com os ventos da realidade uivando, descemos para enfrentar mais uma estrada de terra, que nos levou à pedra Maria Antônia e a seus incríveis 130m de altura. Esta pedra é bem explorada para a prática de escalada. Conversando com um morador de um sítio da região, soubemos da existência de uma cachoeira perto dali, e logo nos dispusemos a localizá-la. A cachoeira Boca-da-Mata, como é chamada por lá, na verdade se trata de uma corredeira. Sob uma ponte de madeira foi possível acessá-la. Descansamos ali por um bom tempo, visto que o frio amainara e o sol luzia forte. Mais uma vez na terra, partimos sem saber onde a estrada terminaria. Para a nossa surpresa, saímos no trevo Munhoz-Pedra Bela-Toledo. Optamos por nos dirigir a Toledo, já no estado de Minas Gerais. Chegamos à pacata cidade por volta do meio-dia.
Pinhal Grande
Toledo conta com aproximadamente 6000 habitantes. Como toda cidade pequena, o que chama a atenção é a igreja matriz. Tudo parece se desenrolar ao redor dela. A Praça São José é o local mais frequentado pelos moradores, e também ajudamos a aumentar tal estatística. Sabendo que uma festa junina aconteceria ali a partir das 16h, procuramos um hotel e decidimos pernoitar nas cercanias da praça. Com algumas horas disponíveis, subimos o morro do cemitério municipal, talvez um dos pontos mais altos da cidade, de onde pudemos observar todo  o território e seus domínios. Descemos a pé até uma pequena cachoeira, que curiosamente fica no lado do estado de São Paulo, e depois seguimos de moto ao bairro Pinhal Grande, onde encontramos uma bela cachoeira no quintal de um sítio. A cidade tem um potencial muito grande para o turismo. Diz-se que 16 cachoeiras pertencem ao território de Toledo, mas não há placa alguma com indicações e mesmo os moradores desconhecem suas exatas localizações.

O céu laranja do fim de tarde em Toledo/MG

Praça São José
De volta à praça, assistimos às apresentações das crianças das escolas locais, comemos comidas típicas de festa junina e admiramos o pôr-do-sol sobre os telhados das casas. Dormimos novamente afrontados pelo frio dos 1100 metros de altitude de Toledo. Logo pela manhã pegamos a estrada, voltando para Pedra Bela, desta feita via asfalto, e passando por Bragança Paulista, Itatiba, Valinhos, Campinas, Sumaré, Nova Odessa e, finalmente, atracando em Americana. Chegamos antes do meio-dia, ainda em tempo de comemorar o aniversário de “Poste”. Meus parabéns ao esquálido parceiro, que tem se mostrado um cúmplice em grandes aventuras por esse Brasil afora. Gostaria eu que essa fosse uma dupla inseparáve, mas infelizmente nossas obrigações trabalhistas muitas vezes nos colocam em caminhos diferentes.
Povo toledense
A simplicidade e o sotaque do povo toledense não deixou de nos cativar. Como dito no primeiro parágrafo da postagem, o ambiente de Toledo diferiu – e muito – do de Pedra Bela. Ambos os locais se mostraram agradáveis e receptivos, mas Toledo pareceu mais tímida, menos senhora de si quanto aos seus recursos humanos e naturais. Falta um pouco de interação do povo com a própria cidade, ao contrário de Pedra Bela, em que todos parecem realmente estar inseridos na dinâmica da cidade. Que fique registrado que eu voltaria para ambos os lugares. É apenas mais um comentário de minha mente analítica.
Passei por estas terras. Fenomenologicamente estas terras também passaram por mim. Tudo estava ali, no quintal de minha casa, também conhecido como mundo, e nunca abri os olhos para que pudesse enxergar. Hoje, mais experiente e bem menos influenciável pelas artimanhas da sociedade, começo a ter noção do tempo que perdi na tentativa de melhorar a mim mesmo intrinsecamente, quando todas as ferramentas que carecia, na verdade, estavam extrínsecas a mim. Não cometo duas vezes o mesmo erro. No quintal de minha casa ou no quintal de outras casas aportar-me-ei. Não desistirei de conhecer tudo o que está ao meu alcance. E, enquanto isso, tentarei encontrar meios de conhecer tudo o que não está.


Mais fotos aqui.

E abaixo um blues em “dois ambientes” para esta viagem. Desculpem-me novamente pela má qualidade. Escutem com o fone de ouvido e no volume máximo.

sábado, 4 de junho de 2011

São João del Rei, Tiradentes e São Thomé das Letras – de 27 a 30 de maio de 2011


O título desta postagem não poderia ser menos abrangente. As três cidades mencionadas merecem sem dúvidas maior atenção de nossa parte, mas durante todo o trajeto conhecemos algumas que, se não são assim tão famosas, pelo menos tornaram-se conhecidas por nossos espíritos desbravadores e angariam certo valor. Podemos citar, correndo o risco de olvidarmos uma ou outra, Jacutinga, Borda da Mata, Ouro Fino (cidade imortalizada pela música O Menino da Porteira, composta por Teddy Vieira e Luizinho e entoada por Sérgio Reis), Lambari, Cruzília, Caxambu, São Vicente de Minas, Madre de Deus de Minas, Três Corações (cidade natal de Pelé), Lavras, Pouso Alegre, Bragança Paulista, Itatiba e Louveira.
Ouro Fino
Rodrigo Costa Gil e eu partimos com nossas motocicletas carregadas na manhã gelada de 27 de maio. Paramos em Jacutinga, já no querido estado de Minas Gerais, para um desjejum à base de café preto e biscoito “mineiro” (aqui obviamente chamado apenas de biscoito). Seguimos pela rodovia que cruza todo o Circuito das Malhas, passando por Ouro Fino (aqui realmente há um grande menino e uma grande porteira aguardando o viajante no portal da cidade), Borda da Mata e Pouso Alegre. Um breve trecho na Fernão Dias foi necessário para que chegássemos à entrada do Circuito das Águas, mais precisamente à cidade de Lambari. Novamente uma parada para alimentação. A nostalgia das estradas mineiras secundárias começou a me envolver a partir deste ponto e foi a tônica durante toda a viagem. Montes verdes, céu azul e ar fresco correndo pelas entradas de ar do capacete: prazeres incomensuráveis somente sentidos neste estado maravilhoso. Caxambu foi a próxima parada, seguida por Cruzília, Minduri, São Vicente de Minas e Madre de Deus de Minas. Alcançamos São João del Rei, primeiro destino, às 16h. Acomodamo-nos no Albergue da Juventude e dispusemo-nos a caminhar pela histórica cidade.
Ponte da Cadeia
A primeira impressão ao palmilhar as ruas de paralelepípedo de São João del Rei é a de que o novo se mistura com o antigo. A cidade conta com uma universidade federal – a UFSJ – e as repúblicas estudantis fazem rebuliço em prédios construídos no Brasil colônia. Um canal estreito com várias pontes – uma delas é a famosa Ponte da Cadeia – ao longo de seu curso divide a cidade ao meio. O comércio fervilha, como em qualquer cidade turística. Tropeçar aqui é cair dentro de alguma igreja católica. São muitas, de variados tamanhos e estilos. O Theatro Municipal é interessante, assim como a Estação Ferroviária, da qual uma maria-fumaça transporta o turista a Tiradentes se o mesmo não quiser enfrentar o asfalto. Jantamos no restaurante Pantanal, isolados do agito de começo de noite de sexta-feira. Fomos gentilmente atendidos e logo fizemos amizade com o pessoal do estabelecimento, que nos deixou à vontade para que adentrássemos a cozinha e nos servíssemos como bem entendíamos, sem formalidades, como se estivéssemos na casa de alguma pessoa há muito conhecida. Aconselhei a cozinheira a adquirir uma moto, já que a flagrei num severo ato de maldição da própria vida. Ela disse que pensaria no assunto. Satisfeitos, voltamos ao albergue e dormimos o merecido sono dos cavaleiros sobre duas rodas.

Uma das diversas igrejas de São João del Rei

São João del Rei
São João del Rei é habitada por aproximadamente 85 mil pessoas. Suas origens remontam à ocupação do local em 1701 – por Tomé-Portes del-Rei – e à descoberta de ouro na região, hoje conhecida como Região das Vertentes. Com essa descoberta surgem vários Arraiais e a disputa pelo ouro começa a conflitar os interesses de paulistas e portugueses, culminando na Guerra dos Emboabas, entre 1707 e 1709. Os portugueses vencem a disputa e, em 1713, com o desenvolvimento conduzido pela exploração aurífera, a Vila de São João del Rei é criada, sendo o nome uma homenagem a D. João V, rei de Portugal. O título de cidade foi oficializado em 1838. Em 1943 todo o seu conjunto arquitetônico foi tombado pelo Serviço do Patrimônio Histórico e Cultural. Alguns cidadãos ilustres da história brasileira nasceram aqui, como Tiradentes e o ex-presidente Tancredo Neves.
Serra do Lenheiro
Na manhã de 28 de maio subimos a Serra do Lenheiro, que envolve a parte oeste da cidade. Os paredões gigantescos deste local são utilizados pelo Exército Brasileiro para exercícios de escalada. O clima contribuiu para que o trajeto, todo em terra, rendesse belas fotos e visuais marcantes. Exigimos bastante de nossas “poderosas” e elas não nos deixaram na mão. Uma amiga – que deve estar tomando um tererê com limão a essas horas – havia me exortado a visitar esta serra dias antes de eu comentar que viajaria para estes confins, afirmando que os desenhos da mesma resplandecem mistérios. Não me arrependi de incluí-la no roteiro. Misteriosa ou não, a paz de espírito proporcionada por ela foi proporcional à imponência de suas elevações rochosas. Para um ateu e fanático por tudo o que é esculpido pela natureza, e que até então apenas fotografara templos religiosos, a Serra do Lenheiro veio bem a calhar.

Serra do Lenheiro vista da estrada

Tiradentes
Um pouco antes do meio-dia deixamos São João del Rei e pendemos para Tiradentes, a pouco mais de 20 minutos dali. Já sabendo que mais igrejas saltariam à vista, acabei deixando o preconceito inocular o seu veneno e me desanimar um pouco. Utilizando-me de uma abordagem diferente, optei por fotografar as ruas antigas e os becos íngremes da pequena cidade. O comércio aqui também é forte, e a movimentação nas ruas parecia ser maior quando comparada à de São João del Rei. A Serra de São José, ao fundo, não pôde ser alcançada via duas rodas, e tivemos que nos contentar em contemplá-la de longe.
Serra de São Francisco
A história de Tiradentes é paralela à de São João del Rei, dada a proximidade de seus territórios. O local onde hoje se encontra a cidade também surgiu a partir de um arraial de garimpeiros de ouro que deu origem à Vila de São José del-Rei, em 1718. Passa a ser chamada Tiradentes em 1864, em homenagem ao mártir da Inconfidência Mineira Joaquim José da Silva Xavier, vulgo Tiradentes. Seu patrimônio arquitetônico foi tombado em 1938. Devo admitir que passamos pouco tempo nesta cidade, e portanto não adquiri maiores informações sobre ela. Todas as cidades históricas de Minas Gerais merecem relatos pormenorizados, mas a falta de tempo e a vontade de mudar o foco da viagem para algo mais natural nos instaram a deixar este belo pedaço mineiro e partir para outro.

Matriz de Santo Antônio

Rio Grande
Deixamos Tiradentes e partimos, pela BR-265, para São Thomé das Letras. No caminho passamos por vários pontos de ônibus com a inscrição LIBERTAS (liberdade) e pelo Rio Grande. É a segunda vez que passo sobre este rio (a primeira foi em junho de 2010, quando o atravessei na divisa SP/MG, da Anhanguera para a BR-050, indo para Brasília. Vale ressaltar que este rio nasce na Serra da Mantiqueira, em Bocaina de Minas, e deságua no rio Paranaíba, em Carneirnho/MG, percorrendo um total de 1360km. Passamos também por Lavras, dentre outras cidades menores. Descemos a Fernão Dias até a entrada de Três Corações e cruzamos boa parte desta cidade, alcançando então uma bela estrada que nos levaria diretamente a São Thomé. Ao longe, sobre um monte de quartzito, já era possível avistar a “mística” cidade. Mística, na verdade, é a subida que fomos obrigados a enfrentar para chegarmos aos 1440m de altitude do local.
São Thomé das Letras
Aqui tudo é de pedra: a pavimentação das ruas, o “reboco” das casas e os enfeites vendidos nas pequenas e estreitas lojas de artesanato. Instalamo-nos na Pousada do ET e logo indagamos o proprietário acerca de OVNIS que supostamente aterrissam nas montanhas (também de pedra) de São Thomé das Letras. Ele relatou nunca haver visto nada, mas que alguns moradores afirmam ser uma informação verossímil. Hippies vendem seus “trampos” por todos os cantos, enquanto jovens e anciães, por outro lado, consomem “deturpadores de sentidos”. Gostaria de dizer que isso acontece somente aqui, mas sabemos que seria uma frivolidade de minha parte.

Pedra da Bruxa

Pirâmide
Visitamos o Parque Municipal Antônio Rosa, com seu mirante, cruzeiro e pirâmide. As formações rochosas abstratas lembram alguma coisa e depois já não lembram mais nada. O visual do alto das montanhas de pedra é indescritível. Com o tempo limpo é possível visualizar centenas de quilômetros ao norte com uma nitidez considerável. Ao sul o sol se põe magistralmente, sendo aplaudido por todos os que acompanham o espetáculo no topo da pirâmide. A hospitalidade dos comerciantes e donos de pousadas é de se admirar. Não poderia ser diferente, já que o turismo é a segunda maior fonte de renda da cidade, perdendo apenas para a extração de pedras. O frio é outro ponto a se considerar. Na primeira noite o termômetro marcou 6 graus Celsius; no segundo 3.
Véu da Noiva
No dia 29 acordamos cedo, como bons senhores que dormem antes das 22h, e “rasgamos” a densa neblina na estrada velha, de terra, que liga São Thomé ao Circuito das Águas. Nela conhecemos três cachoeiras: Véu da Noiva, Cachoeira do Flávio e Eubiose. Água cristalina, pequenas quedas e um alento para quem vive numa selva de concreto. Voltamos para a entrada “asfáltica” e subimos à Gruta do Carimbado e Ladeira do Amendoim. Reza a lenda que essa gruta, se desbravada em toda a sua extensão, é um atalho para Macchu Picchu, no Peru; a Ladeira do Amendoim é uma pequena rampa de terra que te leva para cima ao invés de te levar para baixo. Pessoalmente achei o local plano; não vi ladeira alguma. Também não senti nada quando estacionei a moto e a desengatei. Mas que fique registrado que passei por ali. Na volta para a pousada não deixamos de visitar a Cachoeira de São Thomé, situada num campo mais aberto e acessível dois quilômetros antes do portal da cidade.

Gruta do Carimbado

Matriz de São Thomé
O território de São Thomé das Letras era habitado por índios cataguases, sendo estes expulsos dali pelos bandeirantes paulistas em 1770. O nome da cidade, segundo uma lenda, é originário de um causo curioso: um escravo fugiu e se escondeu em uma gruta após seu senhorio descobrir que o infeliz tinha um caso com sua filha. Nessa gruta surgiu um homem que lhe entregou um bilhete e pediu para que voltasse e o entregasse ao amo. O escravo assim o fez e o senhorio, com um bilhete perfeitamente escrito em papel nobre (que não poderia ser obra de um escravo), perdoou-lhe após visitar a gruta e encontrar uma imagem de São Thomé entalhada em madeira. O senhorio levou a imagem para casa repetidas vezes, mas a mesma insistia em voltar para a gruta. A solução encontrada foi, então, construir uma capela ao lado da gruta, que em 1785 foi substituída pela Igreja Matriz. Nesta gruta há algumas marcas, que muitos dizem ser letras; outros alegam ser apenas líquens. Daí o nome São Thomé das Letras.
O regresso
No dia 30 acordamos cedo novamente, montamos as tralhas e enfrentamos o nevoeiro para principiar o regresso. Voltamos por Três Corações, cruzando-a para alcançar novamente a Fernão Dias. Nela descemos “toda vida”, tomando a direita na primeira entrada de Bragança Paulista. Cruzamos até a rodovia que a liga a Itatiba, e de Itatiba seguimos até Louveira. Fizemos esse caminho de modo a evitar os abusivos pedágios da Rodovia D. Pedro. Em Louveira acessamos a Anhanguera e rapidamente me vi em casa. Foram, ao todo, 1270km percorridos sobre duas rodas. E muitos outros sobre dois pés, logicamente.
Fazia algum tempo que eu não viajava sozinho em minha própria moto. Mesmo com o parceiro a alguns metros de distância, também sozinho em outra moto, o sentimento de solidão se apossa dos devaneios em alguns momentos, o que não é necessariamente ruim. Repensei muitos acontecimentos de minha vida e guarneci o meu caráter. Dizem que um homem só conhece a si mesmo quando resolve morar sozinho. Acredito que talvez isso possa ser verdade, mas também há uma boa chance de nos conhecermos quando fechamos a viseira e nos concentramos na estrada. Nesta situação os pensamentos naturalmente se afloram, e o vento gelado da serra oxigena com mais eficácia o nosso “centro pensante”. O que eu era já não sou mais. Vejo o passado, pelo retrovisor, ficando para trás. Bom, talvez seja por isso que nunca faço a mesma rota na ida e na volta. Algumas coisas é preciso deixar nas curvas da serra; e para esse lugares às vezes é preferível nem voltar.


Mais fotos aqui.

Aproveitando para elongar ainda mais a presente postagem, gostaria de finalizar os relatos desta viagem com um blues que compus em homenagem ao estado de Minas. A qualidade da gravação é ruim e a perua que conserta panelas fez um barulho tremendo enquanto eu gravava. Infelizmente moro numa cidade ruidosa e nunca desfrutarei de silêncio absoluto. Mesmo assim, confiram este blues rusticamente, assim como deve ser.


segunda-feira, 23 de maio de 2011

Represa de Itupararanga e Pedreira de Salto de Pirapora – 21 de maio de 2011


Eu estive aqui, mas já não estou mais. Estou à beira de uma represa, de uma mata ou de uma estrada, nesta última admirando o clarão vermelho que toma um pedaço do céu emprestado por um breve momento no findar da tarde. Esta é a minha forma de pôr à prova a teoria materialista-dialética de Karl Marx de que o meio ambiente determina a consciência humana. Não quero e não procuro ensejos para mudar o mundo. Quero que o mundo me transforme.
Eu, Luiz Paulo e Thiago
Uma manhã de sábado, em meio à multidão, num centro de compras em que o consumismo realmente “consome” os seres: cenário perfeito para a concepção de uma ideia libertária. Eu e Luiz Paulo Blanes, sem perspectivas para o restante do dia, resolvemos convidar alguns amigos para uma incursão de moto enquanto éramos assolados pela claustrofóbica inquietude do centro comercial de Americana. Algumas ligações, breves argumentações e tudo estava resolvido. Não é preciso muito esforço para tirar do ócio cidadãos que apenas conhecem o mundo pelas projeções de um televisor. Eu, Luiz Paulo Blanes, Anna Carolina Oliveira, Kayk e Thiago Lucas Santos partiríamos dali. O destino seria Salto de Pirapora, uma cidade que já conhecia de outras datas. Nos arredores da cidade, contudo, havia uma pedreira desativada recentemente transformada em lagoa. Ela eu não conhecia.
A monocultura da cana
Deixando a Praia Azul, nosso ponto de encontro em Americana, rapidamente adentramos a SP-304. Nesta permanecemos até o acesso ao bairro de Santo Antônio do Sapezeiro, em Santa Bárbara d'Oeste. A Rodovia Comendador Américo Emílio Romi, ramificada deste acesso, seria o nosso atalho para a Rodovia do Açúcar e a Santos Dummont, conhecidas estradas que nos transportariam ao local que possivelmente testemunharia nossa libertação. Por todas estas estradas a monocultura da cana-de-açúcar mostrava a sua força. Era como se a paisagem não se modificasse, mesmo estando em três rodovias diferentes. Na Raposo Tavares o panorama se modificou um pouco, pois agora as grandes edificações de Sorocaba preenchiam nossas vistas. Foi analisando todo esse concreto que adentramos a cidade de Votorantim, pretendendo atravessá-la pra alcançar uma rotatória que nos levaria à já citada pedreira em Salto de Pirapora.

Rodovia do Açúcar

Estrada para Ituparanga
Planos só trazem decepções. Não quero ir para cá ou para lá apenas porque em algum momento eu disse que o faria. Gosto de ter liberdade de escolha e de mudar roteiros tão logo eu sinta vontade para tal. Então, mais uma vez, aproveitei-me desta minha característica para modificar o trajeto da viagem. Avistei placas, ainda na entrada da cidade de Votorantim, apontando para a Represa de Itupararanga. Poderíamos ir até ela, retornarmos e, caso tivéssemos algum tempo sobrando, levaríamos a cabo o plano original. No fim das contas, conhecer a Represa de Itupararanga se tornou nosso escopo. Logo eivei meus parceiros com a ideia e nos dirigimos para lá. O principal ponto positivo desta nova abordagem foi que, por incrível que pareça, não necessitaríamos atravessar o centro comercial de Votorantim e toda a sua eloquência. Havíamos escapado do de Americana. Não intentávamos cair em outro.
Represa de Itupararanga
A estrada que leva à represa é cheia de curvas, bosques e belas paisagens. Surpreendemo-nos com a existência deste lugar dentro do território de Votorantim, cidade praticamente toda urbanizada e dependente das empresas de Antônio Ermírio de Moraes. Ao chegar a Itupararanga, a visão ficou ainda mais agradecida pela beleza do local. Águas límpidas, pequenas “praias” e uma barragem que lembra o coliseu. Infelizmente a segurança no local é reforçada e sequer pudemos molhar as mãos na represa. Tiramos fotografias de todos os ângulos possíveis e seguimos pela garbosa estrada, que atravessa a barragem. Informaram-nos que a mesma culminaria em Piedade, e foi o que aconteceu.

A barragem da Usina Hidrelétrica de Itupararanga

Reservatório de 936km²
Uma breve nota: a represa de Itupararanga, construída em 1911, foi idealizada no cânion do Rio Sorocaba, na Serra de São Francisco, com o intuito de atender as demandas de energia elétrica das empresas do Grupo Votorantim e das cidades de Ibiúna, São Roque, Sorocaba e Votorantim. A usina foi inaugurada em 1914. Segundo a Wikipédia, “possui um lago com canal principal de 26km de extensão e 192km de margens, em uma área de 936km²”. Está inserida dentro de uma Área de Proteção Ambiental e é fiscalizada pela S.O.S Itupararanga. Tomara que todos os esforços sejam em prol de garantir, além da beleza, a aparente limpeza da represa. Não se pode reproduzir os mesmos erros cometidos em represas como a Billings e a Guarapiranga, ambas em São Paulo, e torná-la um imenso reservatório de água poluída.
Pedreira de Salto de Pirapora
Ao chegarmos a Piedade, abastecemos as motocicletas e retornamos para Salto de Pirapora. Com a noite e o frio por vir, rapidamente passamos pela Cimento Votoram e entramos em uma curta estrada de terra para alcançarmos uma área de extração de calcário. Nela, uma pedreira desativada abriga um lago de águas verdes. A Pedreira de Salto de Pirapora, como ficou conhecida, é fruto de uma perfuração profunda que acabou atingindo o lençol freático, inundando o local e, por incrível que pareça, transformando uma cratera de pedras em um cartão-postal interessante. Escolas de mergulho utilizam estas águas, que em alguns locais chega a ter 80 metros de profundidade. Escalei uma encosta pedregosa para obter um ângulo melhor para as fotografias e, ao tentar descer, desgarrei-me e por pouco não fui jogado para as águas da pedreira. Seria uma queda de mais de 10 metros que, somada a minha ineficaz técnica de natação, poderia acarretar uma calamidade. Por sorte consegui me amparar nas raízes de algumas plantas que brotam em meio às pedras. Já foram registradas algumas mortes por aqui e, aliviado, não me incluí nas estatísticas.

O regresso, ao cair da noite

Perto das dezoito horas partimos de lá. Ficou evidente para mim, depois de 330km rodados, que a ação humana pode conceber, indiretamente (caso da pedreira) ou com fins lucrativos (caso de Itupararanga), algo digno de ser conhecido. Temos manipulado a natureza desde o alvorecer da humanidade, e o impacto dessa manipulação cresce exponencialmente com o passar dos séculos. É preciso repensar nossa conduta, e é papel de todos, inclusive o meu, delatar ou aplaudir tudo o que tem sido feito com o nosso rico meio ambiente. Para isso, é preciso viajar e conhecer a realidade. Então, viaje. Conheça. Veja, mas não passivamente. Deixe o mundo te transformar e, então, impeça que ele seja transformado desmedidamente.


Mais fotos aqui.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Estrada dos Romeiros/Estrada Parque Itu-Cabreúva – 14 de maio de 2011


Tenho o costume de procurar atrativos longe do meu lar. Não somente eu, mas grande parte dos seres humanos, não se atenta ao fato de que alguns “pequenos paraísos” podem se encontrar muito próximos ao nosso campo de visão ou, se não tão próximos assim, pelo menos se mostram facilmente acessíveis, não exigindo um grande esforço para nos dirigirmos a eles.
Portal da Estrada Parque
Setenta quilômetros separam Americana de Itu. Estes, vencidos em pouco tempo através da entusiasmante estrada Sumaré-Monte-Mor – um dos poucos atrativos de Sumaré, diga-se de passagem – e de um trecho da Santos Dummont (como venta nesta rodovia!), levaram-nos diretamente ao marco inicial da Estrada Parque Itu-Cabreúva, um portal feito de madeira às margens do Rio Tietê. O nome “Estrada Parque” é um indicativo de que a mesma está inserida em uma Área de Proteção Ambiental (APA), nesse caso específico nas APAs Itu-Rio Tietê e Jundiaí-Cabreúva, uns dos últimos redutos de Mata Atlântica no interior do estado de São Paulo.
Mirante Gruta da Glória
Uma estrada de mão única, sem acostamentos e com muitas árvores emparedando todo o caminho: estas são suas características até o município de Cabreúva. O rio Tietê acompanha todo o trajeto e, do asfalto, pode-se ver toda a degradação que o assola. Em vários pontos, como em uma antiga usina hidrelétrica desativada, é impossível sequer ver a água escura do rio, já que uma crosta de espuma branca o encobre totalmente. Essa espuma chega a alçar voo e a atingir quem fica às margens lamentando o “espetáculo”. Na Gruta da Glória, uma formação de pedras que serve de mirante, tem-se a sensação de que tudo seria muito mais acalentador se o cenário fosse menos desmatado, as águas mais limpas e o céu mais azulado. Poderia ser um daqueles lugares em que você gostaria de passar o resto da sua vida. Entretanto, neste século que apenas se principiou, devaneios como este somente são permitidos a quem ainda guarda alguma esperança quanto ao zelo da humanidade com relação ao meio ambiente, o que obviamente não é o meu caso.
Curvas fechadas, serras e um frio suportável nos acompanharam até o fim da Estrada Parque, em Cabreúva. Dali em diante as curvas continuariam, mas a vegetação fechada cederia lugar aos pastos e à aparição do sol e a mesma se denominaria Estrada dos Romeiros – na verdade toda a estrada, desde Itu até Barueri, partilhava deste nome, mas em 1996 o trecho Itu-Cabreúva recebeu oficialmente o título de Estrada Parque. O nome é deveras merecido, já que muitas pessoas utilizam esta via para chegar a Pirapora do Bom Jesus, um santuário católico, montados em bicicletas, cavalos ou charretes. Alguns vão a pé como forma de demonstrar que a fé se fortalece por sacrifícios do próprio corpo.

Pirapora do Bom Jesus/SP
A cidade de Pirapora do Bom Jesus fez-me recordar de Morretes, no Paraná. Nela a água do Tietê é negra, ao contrário da cidade paranaense, que é cortada por um rio límpido, o Nhundiaquara. A imponente igreja se destaca na paisagem. O comércio de artigos religiosos é ululante, o que deve gerar um bom capital para uma cidade com 15000 habitantes. Almoçamos muito bem por um bom preço e prosseguimos viagem, passando por Santana do Parnaíba e Barueri, cidades mais urbanizadas e, por este motivo, bem menos interessantes.
Deixamos a Estrada dos Romeiros, após noventa quilômetros desviando de cavalos, ciclistas e espumas esvoaçantes do Tietê, e caímos na Castello Branco. Pilotamos de volta para casa após um passeio que mesclou a beleza de nossas paisagens e todo o mal que podemos causar a elas. Em meus pensamentos ficou mais nítido o papel de "carrasco do planeta" que o ser humano vem desempenhando desde a Revolução Industrial, em meados do século XIV. O ponto positivo é que pude desfrutar da companhia de Gustavo “Jogadinho” Carcará, Rose “Jiraya” Carcará e, como sempre, do meu querido irmão mais velho Fernando Carcará. Às vezes, quando o horizonte é cinza e não há realmente beleza à frente, é bom olhar para o lado e ter a certeza de que os companheiros contribuirão para que a jornada se torne agradável e proveitosa.


Mais fotos aqui. Keep on runnin'.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Curitiba, Estrada da Graciosa e Litoral Paranaense – de 27 de dezembro de 2010 a 1 de janeiro de 2011


Após o Natal, nem um pouco celebrado por mim, eu, Ana e Fernando nos embrenhamos pelo sul do país na gana de conhecer Curitiba, a capital do Paraná, e a Serra da Graciosa, pela qual uma estrada histórica, adornada por paralelepípedos, desemboca o viajante direto no litoral paranaense.
Os 500km que nos levaram à Curitiba não poderiam ser mais suaves. Paradas esporádicas, sol e calor. Adentramos o estado do Paraná pela 116, passamos sobre a bela Represa de Capivari e alcançamos a capital por volta das 17 horas. A guerra para encontrar um hotel então se principiou. Como poderia ser diferente? Não se pode reservar hotéis quando se está um dia em cada lugar. Somos nômades das estradas, procurando abrigo com a velha filosofia de que “acomodações próximas à rodoviária são mais baratas”. Mas, uma ressalva: dependendo da cidade, podem ser também as mais perigosas. Felizmente não é o caso de Curitiba, apesar de alguns sujeitos nem um pouco amigáveis tentarem te vender objetos de cânhamo à força em alguns dos cruzamentos.
Curitiba/PR
Dormimos bem por 50 cruzeiros. Logo pela manhã visitamos o Jardim Botânico e a Ópera de Arame, ambos muito bem arquitetados. O que uma cidade grande pode oferecer além de arquitetura? Aprecio particularmente as igrejas católicas, seus desenhos góticos e a imponência que emanam. Pode-se dizer que sou um ateu à caça de templos, por mais contraditório e profano que possa parecer. Após algumas fotos e um almoço reforçado, partimos com destino à Graciosa.
A entrada da Estrada da Graciosa (PR-410), por si só, já é uma imagem a ser guardada com carinho. Um portal histórico - a estrada era utilizada por tropeiros no século XVIII - para uma estrada histórica e muito bem conservada pelo governo paranaense, diga-se de passagem.  Hortênsias, paralelepípedos e cachoeiras marcam a passagem por estes certames. A velocidade máxima é de 40km/h, mas aconselho o passeio a 20km/h. Eu sempre digo que nossas estradas não tem história, mas essa é uma das exceções. Ela nos leva diretamente a Morretes, cidade pequena e aprazível, na qual se consome o Barreado, prato típico de carne seca feito em panelas de barro. Conhecemos também Antonina, com um certo charme por se encontrar parada no tempo e também por ser banhada pela Baía de Paranaguá. Terminada a Graciosa, embrenhamo-nos pela Curitiba-Paranaguá e chegamos à Paranaguá, também banhada pela baía. A cidade é histórica, mas talvez passasse despercebida se não fosse ponto de partida de barcos para o fenômeno turístico que é a Ilha do Mel.
Ilha do Mel/PR
Um barco nos levou logo pela manhã do dia seguinte à ilha. Também histórica, ela serviu de defesa litorânea nas épocas de dominação portuguesa. Vários canhões, prisões, labirintos e um farol. A gruta, que eu gostaria de conhecer, infelizmente deixamos de visitar por falta de tempo. Algo me diz que essa ilha desaparecerá do mapa muito em breve. Seu tamanho reduzido e o aumento do nível das águas do mar propiciarão esse fenômeno, o que pode ser notado com mais ênfase na Praia do Istmo, bem no centro da ilha.
Morretes/PR
De volta à Paranaguá, dormimos e acordamos no dia seguinte para o regresso. No caminho para casa muita chuva, frio e cansaço. Chegamos bem, e as memórias desta viagem renderam boas gargalhadas por semanas a fio. Rodamos, ao todo, 1400km. Esta viagem não seria tão interessante se eu não estivesse em companhia de pessoas maravilhosas como Ana e Fernando. Em dias como os nossos, encontrar parceiros para aventuras deste porte é praticamente impossível, e por isso sou eternamente grato a todos os que já viajaram comigo. Quem possui uma motocicleta muitas vezes não se vê viajando por longas distâncias; quem quer viajar longas distâncias muitas vezes não tem dinheiro para tal; quem tem vontade e dinheiro muitas vezes não tem oportunidade e/ou coragem. É isso que tento inculcar em todos os que convivem comigo: coragem, pois um homem precisa viajar. De nossos pés não brotam raízes, que se enfincam no solo e nos deixam estáticos. Temos articulações, músculos e glicose para o movimento. E, o mais importante, temos um mundo inteiro querendo se revelar.


Mais fotos aqui.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Campo Grande – de 03 a 06 de setembro de 2010


Só. Eu estava realmente só. Esta foi a minha primeira viagem sozinho. O Mato Grosso do Sul é a solitária (daquelas que Henry Charrieré descreve em Papilon). Saí de Sumaré/SP às 9:40h e cheguei em Três Lagoas/MS com a minha motocicleta às 17h. Pelos 640km, lábios partidos e garganta seca. A estiagem castigava, e o céu se encontrava em algum lugar por detrás da névoa de poeira marrom que pairava no ar. Senti laivos de umidade apenas por um breve instante, momento em que atravessava a Usina de Jupiá, que se eleva sobre o Rio Paraná. Isso aconteceu um pouco depois de flertar com uma bela moça de olhos azuis no pedágio – o sétimo da Marechal Rondon, diga-se de passagem – de Castilho. Achei o olhar da moçoila vazio, mas retribui mesmo assim o sorriso. Naquele dia, eu queria estar só. Eu com os meus demônios.
A frase “boa sorte na vida” ainda repercutia. Esta foi a minha escolha, e sei que não foi tomada precipitadamente. Quando se sai de algo que te corrói, viajar é o melhor remédio. Eu precisava de paz. Era utopia, sabia eu disso. Contudo, estava de volta à estrada. De volta à procura de um lugar a que eu pertença.
Lagoa Maior, em Três Lagoas/MS
No dia 04 o cansaço me venceu antes que eu pudesse tomar nota de alguma coisa. Saí de Três Lagoas às 10:15h – aqui o relógio é atrasado em uma hora com relação ao horário de Brasília – e cheguei à Campo Grande às 13:30h. Foram 320km bem causticantes. Em meus últimos instantes em Três Lagoas conheci a Lagoa Maior, aparentemente bem cuidada, e a segunda lagoa, bem esquecida. Não fui capaz de localizar a terceira, mas fontes fidedignas me disseram que a situação é parecida com a da segunda. Dei uma bela volta pela cidade, passando pela estação de trem, Cristo, centro e Balneário Municipal. A caminho deste último fui testemunha ocular do atropelamento de um carcará. Ao ver o bichano agonizando, as lágrimas me vieram aos olhos pela primeira vez em quatro anos. Perto da estação, em meio à balbúrdia da campanha política, vi três araras azuis sobrevoando a praça. Isso me animou um pouco e pude prosseguir viagem.
Com meus alforges montados, parti para Campo Grande. A estrada até Águas Claras é regular, senão ruim. Passei por sobre o Rio Verde e o Rio Pardo, este último que dá nome à cidadela São Ribas do Rio Pardo. Ao avistar um número crescente de torres de energia, sabia que a capital sul matogrossense estava logo à frente.
Campo Grande/MS
Uma grande cidade. Melhor dizendo, uma cidade grande. A Cidade Morena é apenas mais um antro do capitalismo. Grandes arranhacéus, multinacionais e lojas de departamento. Estando aqui, tem-se a sensação de que se está em qualquer outra cidade com um comércio mais ou menos desenvolvido. É a perda de identidade acarretada pela globalização. Visitei o camelódromo municipal. Lá, morenas lindas, com traços indígenas, caminhavam apertadamente em todos as direções. No hotel, questionei a recepcionista a respeito de locais dignos de visitação. Ela me respondeu: o shopping. Dei risadas e sai à caça de algo mais verde. Acabei me deparando com o aeroporto, nem tão interessante assim, com o Parque das Nações Indígenas e com o Parque dos Poderes. Neste primeiro presenciei o pôr-do-sol e o caminhar das capivaras.
Aqui vi nuvens. Fazia algum tempo que não as via. Estava mais frio e menos seco do que em São Paulo. Parti incontinenti, com dores nas costas e no pescoço. Entretanto, a dor maior foi ter que voltar à mesmice de minha vida em Americana. Aqui vi placas apontando para a Bolívia e Cuiabá, o que me despertou uma vontade insana de continuar nesta toada viciante. Entretanto, o pouco de razão que me restava me obrigou a regressar. Adeus MS. Boa sorte na vida.
Aparecida do Taboado/MS
Saí de MS, pendi para Ilha Solteira e voltei para MS. Repousei em Aparecida do Taboado. Disseram-me se tratar de uma cidadezinha pacata, mas não foi o que notei, talvez por ser um fim de semana prolongado. Tudo o que sonoramente imperava tinha uma natureza ruidosa. Acho que, no fundo, não há cidade pacata, pois não há cidadãos pacatos. Por isso se travam guerras: não há cidadãos em paz.
Comi minha primeira porção de proteínas em quatro dias. No restaurante, o típico som “sertanejo” de todas as cidades do interior. Nas ruas, camionetes gigantescas lutavam pelas “beldades dando sopa” nas ruas. Sai de lá logo pela manhã. Afinal, foram 1500km desbravados em menos de 72 horas. No dia 6 percorri mais 500km. Adeus novamente, MS. Boa sorte na vida. Talvez um dia eu retorne.

Ilha Solteira/SP

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